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terça-feira, 16 de janeiro de 2018 Críticas, Filmes | 16:18

Gary Oldman é trunfo do burocrático “O Destino de uma Nação”

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Já em cartaz nos cinemas brasileiros, produção deve valer ao ator Gary Oldman a segunda indicação ao Oscar de sua carreira

Gary Oldman está exemplar como Winston Churchill em O Destino de uma Nação

Gary Oldman está exemplar como Winston Churchill em O Destino de uma Nação

“O Destino de uma Nação” tem dois trunfos inegáveis. A pompa de ser um daqueles dramas britânicos que arrebanham tantos fãs – e prêmios – e Gary Oldman. O britânico de 59 anos surge irreconhecível na pele de Winston Churchill. O filme de Joe Wright (“Desejo e Reparação” e “Anna Karenina”) se ocupa das circunstâncias que poderiam ter decidido a 2ª Guerra Mundial em favor dos nazistas, mas que ajudaram a eternizar Churchill como um exemplo de estadista.

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O filme se desdobra sobre toda a articulação política da qual Churchill tanto era agente, como catalisador para tentar evitar o avanço alemão no xadrez bélico que a Europa se tornou sob a égide de Hitler. Mas se pode contar com um Gary Oldman inspirado, “O Destino de uma Nação” tem pouco a ostentar além disso. Apesar de ser um filme de câmera em que Wright tente a todo momento flagrar a espiral claustrofóbica de seu protagonista, pressionado pela derrota iminente e por correligionários partidários da rendição, os enquadramentos são burocráticos e as opções narrativas, desabonadoras.

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Para tornar tudo mais exasperante, o decisivo episódio de Dunquerque, cujos bastidores atestaram o engenho e perseverança de Churchill no propósito de esgotar toda e qualquer alternativa antes de sentar à mesa com os alemães, fora tratado pelo cinema em 2017 com muito mais criatividade e energia em “Dunkirk”, de Christopher Nolan.

A fala é o principal elemento de ação do filme

A fala é o principal elemento de ação do filme

Ainda que mire em “Lincoln”, com sua estratégia narrativa de focar na fala como elemento de ação, Wright se aproxima mais de “O Discurso do Rei” – e tem em seu rei George, vivido pelo sempre ótimo Ben Mendelsohn, um coadjuvante e tanto.

A fotografia que se vale de paletas escuras e a direção de arte detalhada acabam por ressaltar a impressão de um filme inglês convencional. Um desalento para uma produção tão ambiciosa. Wright finge desconstruir um mito e o público finge que acredita. Exemplo máximo dessa condição é uma cena, mais piegas do que projetada para ser, ambientada no metrô londrino em que Churchill ouve a opinião de cidadãos a respeito de como deveria proceder contra os alemães. O célebre 1º ministro é mesmo uma figura magnética e o mérito de Oldman, não necessariamente do filme, é dimensionar isso com uma rara combinação de delicadeza e firmeza. O ator vence a pesada maquiagem da caracterização e apresenta um personagem condoído, estafado e que cresce à medida que a conturbada sucessão de fatos exige. Um estadista que o futuro parece nos sonegar e que Wright e público compactuam em se enamorar na tela do cinema.

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Atrizes, Curiosidades | 11:03

Margot Robbie pode se tornar 1ª mulher indicada ao Oscar como atriz e produtora pelo mesmo filme

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No próximo dia 23 de janeiro, quando serão anunciados os indicados à 90ª edição dos prêmios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, Margot Robbie pode fazer história. Ela pode se tornar a primeira mulher na história indicada a melhor a atriz e produtora no mesmo ano pelo mesmo filme; no caso “Eu, Tonya”.

Margot Robbie em cena de "Eu, Tonya"

Margot Robbie em cena de “Eu, Tonya”

Não é uma estatística desprezível. É dificílimo obter mais de uma indicação pelo mesmo filme, mas é relativamente frequente que isso aconteça com diretores que também são produtores, como Steven Spielberg, ou que também sejam roteiristas, como Woody Allen. Mulheres, como Sofia Coppola e Kathryn Bigelow já conquistaram a façanha da dupla nomeação. Mas receber uma indicação como intérprete e produtor pelo mesmo filme é dificílimo. O último a ter conseguido isso foi Leonardo DiCaprio por “O Lobo de Wall Street” (2013), justamente o filme que revelou Margot Robbie.

Em um ano que filmes protagonizados e produzidos por mulheres devem roubar o holofote na temporada, “Eu, Tonya” parece ser uma escolha natural e foi um projeto que Margot Robbie tomou para junto de seu coração e investiu pesadamente. De corpo e alma. O filme se costura com uma estrutura narrativa muito parecida com a de “O Lobo de Wall Street” e faz justiça aos muitos pontos de vista de uma história tão dramática quanto trágica. Um triunfo para Robbie tanto como atriz, como produtora. A distinção do Oscar, que deve vir, é mera consequência.

 

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sexta-feira, 29 de dezembro de 2017 Filmes, Listas | 12:22

Os 20 melhores filmes de 2017

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A última postagem do ano tradicionalmente dá conta dos melhores filmes e em 2017 não seria diferente. O Cineclube apresenta as melhores produções lançadas neste ano no País. Nos vemos em 2018!

"La La Land", Logan", "Blade Runner 2049", "Moonlight", "Dunkirk", De "Canção em Canção", "Frantz", Columbus" e "Jim & Andy" são alguns dos melhores filmes do ano

“La La Land”, Logan”, “Blade Runner 2049”, “Moonlight”, “Dunkirk”, De “Canção em Canção”, “Frantz”, Columbus” e “Jim & Andy” são alguns dos melhores filmes do ano

20 – “Um Contratempo” (ESP 2016)

Este thriller espanhol é daquele tipo de filme em que nada é o que parece ser. Um milionário empresário tenta convencer uma detetive que integra a sua defesa que ele não é o responsável pelo assassinato da amante. Os diálogos constituem um vigoroso elemento de suspense e as bem justificadas reviravoltas na trama agregam ainda mais valor aos personagens.

 

19 – “Jim & Andy: The Great Beyond” (EUA 2017)

Neste documentário que acompanha os bastidores de “O Mundo de Andy” e o inusitado processo criativo de Jim Carrey para encontrar Andy Kaufman, é possível vislumbrar a dor de um ator que se desencontrou de si mesmo para viver um personagem e que depois jamais voltou a ser o mesmo de antes. Nesse sentido, “Jim & Andy” é um filme brilhante e revelador. Mas é também um olhar aguçado para os encantos e desencantos de Hollywood.

 

Cena do filme "Eu, Olga Hepnarová"

Cena do filme “Eu, Olga Hepnarová”

18 – “Eu, Olga Hepnarová” (Rep. Theca/POL/FRA 2016)

Esta coprodução europeia filmada em preto e branco é um soco no estômago. O longa recria de forma seca e desapaixonada a triste trajetória de Olga Hepnarova, jovem homossexual  rejeitada pela família que faz algumas escolhas trágicas em sua vida. Um filme que recusa a catarse e resplandece o poder de uma boa narrativa no cinema.

 

17 – “O Estranho que Nós Amamos” (EUA 2017)

Sofia Coppola propõe um diálogo singular com uma das obras mais interessantes da filmografia de Don Siegel. Antes de ser feminista de uma maneira bastante particular, o filme de Coppola é um estudo demorado das tensões sexuais em circunstâncias específicas – como a da presença de um homem, potencialmente um inimigo, em uma casa de mulheres em meio à guerra civil americana. Com atuações inspiradas, um filme que se resolve tanto como drama histórico como fábula de horror.

 

16 – “Columbus” (EUA 2017)

A estreia do vídeo ensaísta Kogonada na direção de longa-metragens é uma dessas relíquias que precisamos escavar em um ano de muitos bons lançamentos. O filme que espelha a arquitetura como um elemento emocional a pautar e intervir na vida dos personagens coloca o protagonista vivido por John Cho em um daqueles momentos decisivos que os filmes são feitos a respeito. Mas Kogonada opta pelo minimalismo. Os diálogos são sensíveis e permeados de introspecção e luminosidade. Um filme para assistir com o coração.

Cenas de "Moonlight", "Professor Marston e as Mulheres-Maravilhas", "Thelma", "Um Contratempo", "Manchester à Beira-Mar" e "Dunkirk"

Cenas de “Moonlight”, “Professor Marston e as Mulheres-Maravilhas”, “Thelma”, “Um Contratempo”, “Manchester à Beira-Mar” e “Dunkirk”

15 – “Patti Cake$” (EUA 2017)

Filmes sobre música e pessoas tentando vencer na música congregam muitas potencialidades e “Patti Cake$” não é diferente. Estreia na direção de longas de Geremy Jasper, o filme é cheio de energia, coração e apresenta uma honestidade nauseante. A música é um elemento tão primal na produção que por vezes nos pegamos em dúvida se estamos diante de uma ficção. Impossível resistir ao charme de “Patti Cake$”.

 

14 – “Thelma” (NOR 2017)

O filme de Joachim Trier é tudo menos ordinário. É um drama sobre o alvorecer da sexualidade de uma adolescente criada sob rígida orientação religiosa, um filme gay e também um thriller cheio de suspense que parece habitar o universo dos X-Men. A maneira como Trier desvela sua trama é não só original, como bastante criativa. É sua direção que sofistica uma narrativa já pensada para ser climática e inusitada.

13 – Dunkirk (EUA 2017)

Christopher Nolan vê o cinema como um espetáculo e “Dunkirk” é, neste contexto, uma obra-prima. O filme que recria um dos episódios mais marcantes da Segunda Guerra Mundial, enquanto ela ainda estava sendo vencida pelos alemães, é um esfuziante espetáculo de som e imagem como há muito não se via no cinema. Tudo embalado em um filme que sabe ser emocional sem ser piegas. Uma obra pulsante, vigorosa e que devolve a Nolan seu brio autoral perdido após o pretensioso e problemático ‘Interestelar” (2014).

12 – “Ninguém está olhando” (ARG/BRA 2017)

O filme argentino mostra a rotina de um ator de sucesso na Argentina que vai para Nova York com o sonho de fazer um filme independente e vingar como ator de prestígio na disputada indústria cinematográfica norte-americana. Mas as coisas não são tão simples assim nesse delicado estudo sobre solidão e amadurecimento.

11 –  “mãe!” (EUA 2017)

Darren Aronofsky é um polarizador por natureza. “mãe!” é um atestado tanto de seu talento como de sua ambição. Há uma metalinguagem sedutora no filme que busca referências em um público que se engaja sem freios nessa experiência estética ousada do cineasta americano. Jennifer Lawrence nunca esteve tão vulnerável e nenhum em filme em 2017 foi tão intenso e provocador.

Cenas de "Logan", La La Land", Professor Marston e as Mulheres-Maravilhas" e "mãe!"

Cenas de “Logan”, La La Land”, Professor Marston e as Mulheres-Maravilhas” e “mãe!”

10 – “Moonlight – Sob a Luz do Luar” (EUA 2016)

O vencedor do Oscar de melhor filme é um drama cheio de sutilezas que acompanha a trajetória de um menino pobre, negro e gay pela vida. Um filme de muitas belezas, do ponto de vista técnico, mas também narrativo e que toca a audiência de uma maneira particular e vigorosa.

 

9 – “Terra Selvagem” (EUA 2017)

Taylor Sheridan já dava pistas nos roteiros de “Sicario” e “A Qualquer Custo” de compreender intensamente a alma da América profunda e em “Terra Selvagem”, que também dirige, ele mostra que tem tudo para ser um dos grandes autores do cinema americano moderno. Nesta parábola poderosa sobre violência, colonizadores e colonizados ecoam uma tragédia ainda sem data para expirar. Um filme certeiro no ritmo, nas atuações, na cadência narrativa e nos efeitos que produz.

 

8 – “Professor Marston e as Mulheres-Maravilhas” (EUA 2017)

O filme estreou desapercebidamente no Brasil, mas gerou algum burburinho quando da exibição no Festival de Toronto. Os canadenses estavam certos. Trata-se de um filme sensível a respeito das relações humanas e se ocupa de visitar as circunstâncias da criação da Mulher-Maravilha, uma das grandes personagens de 2017. O filme mostra como uma relação amorosa fora das convenções norteou a criação desse ícone feminista. Único filme dirigido por uma mulher presente neste top 10.

Cena de "A Criada"

Cena de “A Criada”

7 –  “Blade Runner 2049” (EUA 2017)

Se tem filme de Denis Villeneuve no ano, pode apostar que ele vai terminar nessa lista. O cineasta canadense é hoje um dos autores mais completos, originais e instigantes do cinema. Sua visão para “Blade Runner” não só complementa as inflexões ensejadas pelo clássico de Ridley Scott, como as estende. A tardia sequência é tão boa quanto o filme original e deve crescer com o tempo. Uma reflexão profunda e reverberante sobre nossa humanidade.

 

6 –  “A Criada” (Coreia do Sul 2016)

O longa de Park Chan-Wook é uma masterclass de cinema. O filme acompanha a saga de uma criada contratada para ajudar os planos nada benevolentes de um larápio a seduzir uma jovem e rica japonesa que leva uma vida isolada na Coreia do Sul sob ocupação nipônica. Um triunfo de narrativa com reviravoltas bem fundamentadas e o melhor uso do erotismo pelo cinema no ano.

Cenas de "jim & Andy", "La La Land" e "De Canção em Canção"

Cenas de “jim & Andy”, “La La Land” e “De Canção em Canção”

5 –  “Logan” (EUA 2017)

O melhor filme com super-heróis desde “O Cavaleiro das Trevas”. O uso da preposição “com” ao invés de “de” não é acidental. “Logan” não é um filme convencional de super-heróis como não o era o filme estrelado por Heath Ledger e Christian Bale. Trata-se de um western pós-apocalíptico cheio de fúria e que não faz concessões. Um grande personagem como Wolverine merecia um grande filme. Foi feita justiça.

 

4 – “La La Land – Cantando Estações” (EUA 2016)

Um musical. Um romance. Uma história sobre sonhadores. Um filme sobre Los Angeles. “La La Land” se fragmenta em muitos e molda-se a partir da experiência particular da audiência. É um filme que celebra o cinema e que ganha força e representatividade por fazê-lo de maneira tão graciosa e inteligente.

 

3 –  “Manchester à Beira-Mar” (EUA 2016)

Uma análise fervorosa do luto e suas reminiscências com a potência de um roteiro brilhante e atuações magistrais. Tudo conduzido com esmero pela direção segura de Kenneth Lonergan. “Manchester à Beira-Mar” é um filme que incomoda um bocado e apresenta uma trama frequentemente sufocante. É o cinema como agente transformador em um foro essencialmente íntimo.

 

2 –   “De Canção em Canção” (EUA 2017)

É o equivalente a “Closer –Perto Demais” da década de 2010. O filme de Terrence Malick fala das relações de afeto nessa era de super-estímulos e de como o amor é antes uma válvula de amadurecimento, uma afirmação ou um gesto de vaidade. Uma reflexão aberta e mutante sobre acertos, erros, arrependimentos e angústias. Um filme delicado sobre os outros e sobre nós mesmos.

 

1 –  “Frantz” (FRA/ALE 2016)

"Frantz" é o melhor filme de 2017 na avaliação do Cineclube

“Frantz” é o melhor filme de 2017 na avaliação do Cineclube

A exemplo de 2016, o melhor filme do ano vem da França. François Ozon vai à Alemanha do pós-primeira guerra mundial para mostrar uma história poderosa de paixão, desorientação, egoísmo e perdão. Um filme cheio de camadas que vão se revelando com cuidado e paciência e que é um elogio da arte como instrumento de redenção e compreensão.

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quinta-feira, 28 de dezembro de 2017 Análises, Críticas, Filmes | 11:13

George Clooney vai ao passado para explicar América da Era Trump em “Suburbicon”

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Novo filme de George Clooney como diretor tem roteiro afiado dos irmãos Coen e é uma sátira nervosa de costumes sociais que perduram e justificam ascensão conservadora

Matt Damon em cena de "Suburbicon: Bem-Vindos ao Paraíso"

Matt Damon em cena de “Suburbicon: Bem-Vindos ao Paraíso”

Alguns dos melhores momentos de George Clooney como ator foi sob a batuta dos irmãos Coen. O humor cheio sarcasmo e finas ironias dos irmãos era a principal bússola de “E aí, Meu Irmão Cadê Você?” (2000), “O Amor Custa Caro” (2003) e “Queime Depois de Ler” (2008) e é a força motriz de “Suburbicon: Bem-Vindos ao Paraíso”. Os Coen tinham esse roteiro engavetado desde os anos 70 e cederam a Clooney que estava ávido por dirigir um material dessas referências do cinema americano. A parceria deu muito certo.

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“Suburbicon” é essencialmente um filme dos Coen, o que é muito bom. Mas traz também a preocupação político social inerente ao cinema mais robusto de Clooney como cineasta (“Tudo pelo Poder”, “Boa Noite e Boa Sorte”). O timing joga a favor do filme. Com a era Trump em pleno vapor, voltar aos EUA dos anos 50 para observar os motores da intolerância em paralelo à manufatura da hipocrisia à americana é um desses felizes achados cinematográficos.

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O filme se passa em um bairro planejado, um daqueles subúrbios acima de qualquer suspeita. A vizinhança se inquieta com a chegada de uma família negra. O alvoroço denota o racismo institucionalizado e serve como paisagem para os conflitos que movem a trama. Estamos aqui em um terreno tipicamente Coeniano:  personagens menos inteligentes do que acham que são, da ganância desenfreada e da imponderabilidade do acaso.

Cena do filme Suburbicon

Cena do filme Suburbicon

Gardner (Matt Damon) vive um casamento cheio de ruídos e ressentimentos com Rose (Julianne Moore), presa a uma cadeira de rodas após um acidente de carro dirigido pelo marido. Ele vive um caso com a irmã de Rose, Margaret, também vivida por Moore, e é possível que esteja por trás da arquitetura de um plano para matar a mulher.

O filme começa cheio de sutilezas e sugestões e vai ganhando gravidade e agudeza aos poucos até se configurar em uma ópera de erros e desgraças. A direção de Clooney segue no mesmo compasso. Começa embevecida dos olhos tristes de Nicky (Noah Jupe), o filho dos Gardners, e vai ficando histérica – ao ponto que a própria música se torna onipresente e delirante.

“Suburbicon: Bem-Vindos ao Paraíso” é uma sátira potente, no todo, mas fundamentalmente nos detalhes. A relação do menino branco com o vizinho negro, a perversidade de Gardner que vai escalando conforme ele vai se sentindo sufocado e mesmo as cenas que exibem o racismo descampado de uma sociedade febril e destemperada são pequenos comentários cheios de lucidez e espanto de um realizador senhor de suas convicções e dos efeitos que quer alcançar.

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sábado, 23 de dezembro de 2017 Críticas, Filmes | 14:52

“De Canção em Canção” é epílogo conceitual das relações amorosas contemporâneas

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Novo filme de Terrence Malick mostra as idas e vindas de personagens às voltas com suas escolhas e seus relacionamentos amorosos. É o equivalente dessa década ao que foi “Closer – Perto Demais” em 2004

O triangulo amoroso que move a história

O triangulo amoroso que move a história

O cinema de Terrence Malick é o mais polarizador da atualidade e há uma razão muito clara para isso. O cineasta escreve um filme, roda outro e monta um terceiro, frequentemente descolado das propostas que orientaram os dois primeiros. Não à toa, seu processo criativo é incontornável e, quiçá, irreproduzível. A pessoalidade do cinema de Malick é, ao mesmo tempo, sua maior força e sua inegável fragilidade.

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Especialmente depois de “A Arvore da Vida”, vencedor da Palma de Ouro e indicado aos Oscars de filme e direção em 2012, o americano se lançou em uma jornada de profunda introspecção e reverberação e levou seu cinema junto. Não à toa, esta é sua década mais prolífera e em que seus filmes mais se assemelham em termos de estrutura narrativa e temática.

“De Canção em Canção” é erguido sobre fragmentos, como o eram fundamentalmente seus antecessores (“Amor Pleno” e “Cavaleiro de Copas”). São memórias, devaneios, angústias e desejos materializadas em imagens que se organizam como poesia visual, mas também verbetes emocionais com os quais o cineasta pretende construir o sentido dos personagens, não necessariamente do filme. Para esse outro objetivo, o público terá que ser partícipe; coautor. Para que “De Canção em Canção” produza efeitos efetivamente no espectador, ele terá que se engajar. Abraçar aqueles personagens e seus conflitos – que não são apresentados cronologicamente – com o mesmo carinho e curiosidade com que Malick os propulsa.

Ryan Gosling e Rooney Mara em "De Canção em Canção"

Ryan Gosling e Rooney Mara em “De Canção em Canção”

O ponto de vista central aqui é de Faye (Rooney Mara), um dos vértices de um triangulo amoroso entre um aspirante a cantor (Ryan Gosling) e um produtor arrogante (Michael Fassbender). Há, claro, reminiscências de ambos ao longo das pouco mais de duas horas de metragem da fita, mas são as angústias de Faye que pautam o longa. “Tinha uma fase em minha vida que eu precisava que o sexo fosse violento”, ela diz logo de início. Estamos diante, portanto, de uma pessoa remoendo suas dores. Lá pelo final ela desenvolve: “Compaixão sempre foi uma palavra que eu não imaginava que fosse precisar”. O que Malick oferta por meio desses fragmentos é uma reflexão sobre como os relacionamentos amorosos nos transformam, nos moldam e é Faye a principal condutora dessa jornada. Não obstante, a maneira como o cineasta filma Mara é desconcertante. Sempre buscando ângulos inusitados, momentos banais e uma intimidade desarmada.

A maneira como Malick trabalha seus atores e com seus atores também atinge um novo patamar em “De Canção em Canção”. A fisicalidade das atuações é utilizada para explicar convulsões emocionais em uma construção audiovisual incomum para narrativas cinematográficas e que pode se perder para aqueles pouco treinados ou inspirados pelo cinema de vocação sensorial.

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Natalie Portman, mais linda e triste do que nunca, e Cate Blanchett, sempre uma presença atordoante, surgem como mulheres nas vidas dos protagonistas masculinos. Elas são apêndices para homens complicados. É o personagem de Fassbender quem mais fascina. Uma espécie de predador sexual que mergulha desimpedidamente em seus demônios. “Eles tem uma beleza em sua vida que me faz feio”, reflete sobre a relação entre Faye e BV (Gosling), a qual se introjeta com nenhuma outra finalidade que não desestabiliza-la.

Patti Smith e Rooney Mara em cena do filme

Patti Smith e Rooney Mara em cena do filme

Este é um filme sobre os percalços das relações amorosas, como elas nos definem e como nos deixamos nos definir por elas e o fato de usar a cena musical de Austin, no Texas, como contexto torna tudo ainda mais universal, tântrico, artístico. Há diversas boas pontas, ou cameos, no filme. Do Red Hot Chili Peppers a Iggy Pop, passando por Val Kilmer e tantos mais. Mas é Patti Smith quem responde por um dos momentos mais brilhantes e quando o filme se deixa flagrar em sua verdade mais condoída. Em uma conversa com Faye, em que a exorta a brigar por seu amor, ela diz que ainda mantém a aliança do marido que morreu. Sob uma outra “que eles dão para aqueles corredores que não vencem a maratona, mas terminam a prova”.

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domingo, 17 de dezembro de 2017 Análises, Filmes | 17:52

SAG testa seu poder de influência sobre Oscar mais globalizado em 2018

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Cinéfilos e analistas da indústria cinematográfica observaram a semana que se passou com muita atenção. Ela sinalizou o começo efetivo da temporada de premiações do cinema, ou temporada do Oscar, como preferem os que evitam eufemismos. As indicações ao Globo de Ouro e ao SAG, anunciadas na segunda-feira (11) e quarta-feira (13) respectivamente, agregam valor e perspectiva às indicações do Critic´s Choice Awards, divulgadas na semana anterior, e moldam a corrida pelo Oscar.

É claro que produções, performances e artistas que falharam em adentrar nessas listas continuam com chances de chegar ao Oscar, mas elas ficam indubitavelmente menores.

Armie Hammer em cena de "Me Chame pelo Seu Nome"

Armie Hammer em cena de “Me Chame pelo Seu Nome”

“Me Chame pelo Seu Nome” talvez seja o grande perdedor da semana. A produção até amealhou uma indicação a melhor filme dramático no Globo de Ouro, mas não emplacou indicações em roteiro e direção e seu elenco não foi contemplado com uma indicação na principal categoria do SAG. Vale lembrar que o Oscar mantém uma escrita implacável. Desde que o sindicato dos atores criou seu prêmio há 23 anos, apenas “Coração Valente” venceu o Oscar de melhor filme sem ter recebido uma indicação a melhor elenco. Apenas o protagonista Thimothéé Chalamet foi nomeado ao SAG.

Já produções como “Lady Bird” e “Três Anúncios para um Crime” ganharam musculatura nesta semana. Já é possível lista-las como certeza entre os indicados ao Oscar de melhor filme e o momentum a favor dessas candidaturas – e de outras relacionadas aos filmes – só crescerá nas próximas semanas.

Influência em jogo

Se o Globo de Ouro tenta influenciar a corrida com a promoção de produções como “Todo o Dinheiro do Mundo” e performances como a de Hong Chau (“Pequena Grande Vida”), o SAG tem uma questão mais premente a tratar em matéria de influência no Oscar. Desde que a Academia espremeu o calendário de premiações com vistas a reduzir as influências dos prêmios satélites sobre o Oscar, o SAG foi o sindicato que viu seu poder de influência mais reduzido. Nos últimos cinco anos, apenas dois filmes que ganharam o prêmio de elenco ganharam o Oscar de melhor filme. Nos cinco anos anteriores a estatística era de quatro em cinco.

Cena de "Lady Bird", filme com cada vez mais hype na temporada

Cena de “Lady Bird”, filme com cada vez mais hype na temporada

Este ano há algumas curiosidades nas escolhas do SAG. Um filme distribuído diretamente na Netflix nos EUA (“Mudbound – Lágrimas Sobre o Mississipi”), um favorito da crítica (“Doentes de Amor”), um sucesso comercial de gênero (“Corra!”), além dos já citados “Lady Bird” e “Três Anúncios para um Crime”. Os três primeiros não necessariamente fazem o perfil de filmes nomeados pelo Oscar.

Se “Mudbound” trabalha com o mesmo material de “Histórias Cruzadas” e “Estrelas Além do tempo”, que venceram o SAG e emplacaram indicações a melhor filme no Oscar, tem contra si o fato de ter estreado direto em streaming. O apoio do SAG pode ser providencial para que a Academia supere esse preconceito. Por outro lado, a Academia que hoje já ostenta mais de oito mil membros está cada vez mais global e menos suscetível à influência dos sindicalizados nos EUA.

Outra frente em que o SAG testará sua influência será com “Doentes de Amor”. O filme festejado pela crítica é uma comédia romântica bem feitinha, com diálogos espertos  e um conjunto de atores em boa forma. O apoio do SAG fará com que o filme lançado em junho nos EUA chegue ao Oscar?  E “Corra!”, sátira racial, filme de gênero que decolou em Sundance e fez grande sucesso comercial? O SAG ajudará a academia a abraçar um dos filmes mais elogiados da temporada, mas que não faz o perfil da premiação?

Essas são questões encampadas pelo SAG, mas são questões que podem ser eclipsadas em um ano em que o dito cinemão

Cena de "Doentes de Amor": O SAG acolhe um favorito da crítica para ratificar sua influência no Oscar

Cena de “Doentes de Amor”: O SAG acolhe um favorito da crítica para ratificar sua influência no Oscar

voltou com força. Spielberg e seu “The Post” podem ser uma espécie de trator na temporada. Um filme sobre o valor do jornalismo, da independência editorial e da liberdade de expressão em tempos de Donald Trump pode soar irresistível demais. E com Tom Hanks e Meryl Streep no elenco vira até covardia. Christopher Nolan e seu “Dunkirk” parecem vir com força. Há ainda a fantasia reclamando redenção com “A Forma da Água”, que já vem com o selo de aprovação de Veneza, onde ganhou o Leão de Ouro.

As muitas influências emparelhadas nessa atribulada semana que representou o ponto de partida oficial da temporada do Oscar agora convergem em protagonismo de ocasião. A votação para o Oscar começa só em 5 de janeiro. Até lá muito pode mudar e novas tendências surgirem na primeira temporada de premiações pós-Harvey Weinstein (ainda tem essa “ausência” de influência em jogo).

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domingo, 26 de novembro de 2017 Análises, Filmes | 13:19

As chances de “Corra!” na temporada de prêmios e a polêmica no Globo de Ouro

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Lançado no começo do ano, em fevereiro nos EUA e em maio no Brasil, o thriller “Corra!” promete chegar com força na temporada de premiações e como um bom termômetro disso já se encontra no epicentro de uma das polêmicas da temporada. Além de como o tema assédio sexual pautará a Oscar season, a classificação do filme de Jordan Peele para concorrer entre as comédias no Globo de Ouro gerou polêmica e grande repercussão negativa.

Cena de "Corra!", protagonista de uma das primeiras polêmicas da temporada de premiações em 2018

Cena de “Corra!”, protagonista de uma das primeiras polêmicas da temporada de premiações em 2018

Para começo de conversa, “Corra!” não é uma comédia, mas é uma sátira social aguda que trabalha de maneira inteligente com o humor. Peele, que é comediante, protestou. “O que o filme trata não é engraçado”. O filme mostra um fim de semana de um casal inter-racial na casa dos pais da namorada (branca) e como o racismo pode ser submerso e subversivo. A primeira vez que a produção chamou a atenção foi no festival de Sundance em janeiro e desde então foi uma saraivada de elogios.

Leia também: Sátira das tensões raciais, “Corra!” une comédia ao terror com excelência 

A Universal Pictures, que comprou os direitos da fita e a distribuiu globalmente, inscreveu o filme para concorrer entre as comédias. Simplesmente porque as chances de nomeação – e vitória – são maiores nesse eixo, já que o Globo de Ouro divide as principais categorias entre dramas e comédias. “Eu acho que foi apenas inscrito”, comentou Peele tentando minimizar o papel do estúdio que apoiou seu filme na “lambança”. De fato, a palavra final é da Associação dos Correspondentes Estrangeiros de Hollywood (HFPA, na sigla em inglês), mas a organização é conhecida por seu alto grau de flexibilidade, ou por abrir as pernas no português mais chulo, em nome das boas relações com os poderosos de Hollywood.

A submissão de “Corra!” às comédias não é nem mesmo a maior bobagem que a HFPA já fez nesse sentido. Alguém lembra de “O Turista”? Pois é… A inclusão de “Corra!” entre as comédias talvez incomode mais porque o filme discute com incrível sagacidade um tema importante e sempre incendiário que é o racismo, mas o raciocínio mercadológico da Universal não está errado. A indicação ao Globo de Ouro, ainda que em uma categoria contestável,  pode vitaminar as chances do filme que precisa estar no radar dos votantes do Oscar – algo que mais do que qualquer outra premiação, apenas a HFPA pode fazer.

Fotos: divulgação

Fotos: divulgação

Chances reais

Apesar de “Corra!” não ser um grande filme, sua inteligência e originalidade o precedem. Isso, aliado ao fator de não ser essencialmente um “filme de Oscar”, ter sido um hit nas bilheterias (mais de US$ 250 milhões arrecadados mundialmente) e o debate importante que encampa devem lhe colocar na rota de uma indicação a melhor filme. Na verdade, apenas o roteiro merecia lembrança. No Spirit Awards, bom termômetro para o Oscar, figurou em mais categorias do que o esperado. Além de filme e roteiro, foi lembrado em montagem, direção e ator.  A aparente patetada no Globo de ouro pode ser a chave para consolidar um dos contenders mais inusitados dos últimos anos no Oscar.

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sábado, 25 de novembro de 2017 Filmes, Notícias | 11:30

Boa safra de indies vai com força para o Oscar 2018

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Foram divulgados nesta semana os indicados ao Independent Spirit Awards, premiação do cinema independente americano que ganhou bastante projeção nos últimos anos por antecipar os principais concorrentes e vencedores do Oscar. Na safra de 2018 se destacaram “Me Chame pelo seu Nome”, “Corra!” e “Lady Bird”.

Com seis indicações, "Me Chame pelo seu Nome" lidera corrida pelo Independent Spirit Awards

Com seis indicações, “Me Chame pelo seu Nome” lidera corrida pelo Independent Spirit Awards

Não houve grandes surpresas na lista divulgada pelo Spirit, a despeito de alguma esquizofrenia. “Lady Bird”, por exemplo, que marca a estreia de Greta Gerwig na direção emplacou indicações nas principais categorias, mas Gerwig não foi lembrada entre os diretores. O elogiado “Três Anúncios para um Crime” recebeu nomeações para os intérpretes e roteiro, mas ficou de fora da categoria principal. Há outros casos, mas esses dois talvez sejam os mais emblemáticos dessa curiosa circunstância.

Curioso também é o fato de que filmes indies financiados por gente enrolada nos casos de assédio em Hollywood ficaram totalmente de fora, caso de “Terra Selvagem”. O distanciamento de Hollywood provocou a exclusão absoluta de “A Forma da Água”, de Guillermo del Toro.

“Projeto Flórida”,  “Bom Comportamento”, o chileno ‘Uma Mulher Fantástica”, “Artista do Desastre” e “I, Tonya” são outros filmes que brigam por vagas no Oscar.

Não é de hoje que o cinema independente americano vive grande fase e a safra de 2017 é especialmente entusiasmante como atestam os indicados a melhor primeiro filme, com destaque para o ótimo “Columbus”.

Nas próximas semanas conheceremos os indicados ao Critics´Choice Awards (6/12) e Globo de Ouro (11/12).

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sexta-feira, 24 de novembro de 2017 Críticas, Filmes | 17:13

Documentário sobre Fernando Gabeira mostra falência do sistema político-partidário do Brasil

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“Mais do que um político, ele é um homem do presente. Está sempre atuando, interferindo e reagindo”, observa o poeta Ferreira Gullar (1930 – 2016) sobre Fernando Gabeira, matéria-prima de “Gabeira”, documentário de Moacyr Goés a respeito de uma das figuras mais complexas, ricas e polarizantes da história recente do Brasil.

Gabeira 1

Como cinema, “Gabeira” é pouco propositivo. O próprio Fernando pauta a narrativa. É mais um gesto de reverência, um desagravo às memórias de um inconformista do que um longa investigativo ou problematizante. Ainda assim, o filme é interessantíssimo. Até porque o personagem sempre agiu como ombudsman de si e do meio – para evocar a formação e vocação jornalística do mineiro de alma carioca.

Leia também: Documentário relembra a trajetória do político Fernando Gabeira

Além de Gabeira, que ocupa a tela a maior parte do tempo, e Gullar, figuras célebres como Nelson Motta, Armínio Fraga, Cora Ronai, Caetano Veloso, além de familiares, surgem pincelando esse painel sobre uma figura tão contraditória que antecipou a crise de representatividade político-partidária que o Brasil vive hoje. Plural e fluído, Gabeira não se acomodou em nenhuma legenda brasileira. Arredio ao sistema político-partidário do País, esse homem de esquerda viu nossa esquerda ruir. No fim do filme, tece comentários sobre a Lava Jato, a crise surda da esquerda brasileira, a condenação de Lula e faz uma análise potente e reverberante da ascensão eleitoral de Jair Bolsonaro.

Fotos: divulgação

Fotos: divulgação

O ativismo político de Gabeira começou lá na adolescência quando ele foi expulso de todos os colégios que participou, advoga o amigo e poeta Afonso Romano Sant`Anna em dado momento.

Leia também: A carreira de Michael Fassbender sobrevive depois de seu péssimo 2017? 

O grande mérito do documentário é tentar abarcar a evolução do pensamento de Gabeira, um homem sem freios e sem receios em lançar-se a suas verdades, de defendê-las. Ver Gabeira falando é sempre um ato de inteligência, de reflexão e quando ele fala da importância de viver o “ridículo” da campanha de 1989, aquilo ecoa forte na audiência. “Eu gosto de ver as reportagens dele na GloboNews e de lê-lo no Globo”, pontua Caetano Veloso, “mas hoje me vejo mais à esquerda do que ele”.

“Gabeira” pode ser percebido como um manifesto. Um homem velho (76 anos) refletindo sobre os erros, acertos e convicções do passado. Do ponto de vista cultural, um programa imperdível.

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quinta-feira, 23 de novembro de 2017 Análises, Atores | 11:27

A carreira de Michael Fassbender sobrevive depois de seu péssimo 2017?

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Michael Fassbender em cena da estreia "Boneco de Neve"

Michael Fassbender em cena da estreia “Boneco de Neve”

Em maio de 2014, Michael Fassbender foi alvo de um texto mega elogioso no blog intitulado “Michael Fassbender: o ator do momento, já há algum tempo”. Três anos e um punhado de filmes malsucedidos depois, a constatação de outrora parece não proceder mais. Pior: o ator alemão de ascendência irlandesa parece ter sua carreira em uma crise potente de viabilidade.

Com o lançamento de “Boneco de Neve” nos cinemas brasileiros, um dos filmes mais mal avaliados de 2017, Michael Fassbender atinge um indesejado grau de saturação. Há de se ponderar se sua carreira continuará depois de tantos fracassos comerciais, filmes mal recebidos pela crítica e outros tantos esquecíveis.

Leia também: Sem Ambição, “Liga da Justiça” entrega bons personagens e diversão ligeira

Se no início da década, o ator esbanjava talento, faro e bom gosto em produções como “Shame”, “Um Método Perigoso”, “Frank” e “12 Anos de Escravidão”, que lhe valeu sua primeira indicação ao Oscar, agora agoniza com os fracassos de “Assassin´s Creed”, “Alien Covenant” e má aceitação de produções como “Song to Song” e o referido “Boneco de Neve”.

Michael Fassbender e Marion Cotillard em cena de "MacBeth", um dos primeiros filmes ruins do ator

Michael Fassbender e Marion Cotillard em cena de “MacBeth”, um dos primeiros filmes ruins do ator

Não se pode dizer que Fassbender agiu equivocadamente. Buscou parcerias com cineastas renomados e estimados pela crítica (Terrence Malick, Ridley Scott e Derek Ciafrance), estabeleceu vínculo comercial com um estúdio, a FOX (Alien, X-Men e Assassin´s Creed), produziu filmes com potencial de franquia (Assassin´s Creed e “Boneco de Neve”), investiu em material com pedigree e apostou na visão de Matthew Vaughn para seu Magneto. Visão esta, é bem verdade, que se deteriorou nas sequências.

Ocorre que em um espaço de dois anos – desde a indicação ao Oscar de melhor ator por “Steve Jobs” (2015), que já não era um grande filme – Fassbender só lançou filmes percebidos como ruins ou desnecessários (e foram oito lançamentos).

A combinação de baixa qualidade e ranço com o volume de produções lançadas pode ser fatal. Não à toa, tirando a participação no próximo filme da franquia mutante, Fassbender não está envolvido em nenhuma produção. Há quem diga que o ator vai dar um tempo no cinema. Claro, foi um ritmo intenso. Mas foi um ritmo intenso que não deu bons frutos. Há de se esmerar melhores projetos no futuro e, claro, assumi-los com maior parcimônia.

Cena de "Song to Song" Fotos: divulgação

Cena de “Song to Song”
Fotos: divulgação

Ficou patente para Michael Fassbender que a solução não está no volume de lançamentos. No início da década, por exemplo, ele figurou apenas em uma franquia e fez produções bem alternativas, colaborando com cineastas originais e senhores de sua liberdade. Não foi exatamente o que aconteceu aqui. Mais: agora ele já tem um lastro como astro e a perspectiva de toda e qualquer produção em que se envolver será diferente. A carreira pode sobreviver, mas para não virar um novo Nicolas Cage é preciso um pouco mais de planejamento e compreensão de seus objetivos.

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