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quinta-feira, 24 de abril de 2014 Análises | 19:20

Reflexão sobre o uso da nudez no cinema

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Kate Winslet posa para Leonardo DiCaprio em cena de "Titanic" (Foto: divulgação)

Kate Winslet posa para Leonardo DiCaprio em cena de “Titanic” (Foto: divulgação)

No filme “Era uma vez eu, Verônica”, de Marcelo Gomes, há a investigação de uma personagem em crise existencial. Hermilia Guedes se entrega à personagem que experimenta sexualmente como forma de se validar social e emocionalmente. Expor-se pela arte não é exatamente uma novidade para a atriz, nem para o cinema pernambucano que com produções tão díspares como “Tatuagem” (2013), “Baixio das bestas” (2007), entre outros, cristaliza a nudez como ferramenta narrativa valiosa.

Essa apropriação do corpo do ator pode ser vista em filmes recentes como “Azul é a cor mais quente” (2013), “Shame” (2011) e “Ninfomaníaca” (2013). Em todas as produções, a nudez total se justifica pela escrutinação da rotina, pela exposição absoluta do íntimo dos personagens (radicalizada pela exibição física), e pelo fato de que os conflitos intrínsecos à narrativa se alimentam dessa exposição e oxigenam a percepção do espectador.

Abdellatif Kechiche filma a nudez de suas protagonistas em “Azul é a cor mais quente”, filme que causou comoção por exibir sexo homossexual sem concessões, com o vigor com que filma suas protagonistas comendo, brigando, amando. A passionalidade do registro é justamente o maior encantamento do filme.

Já em “Shame”, a exposição é artesanal. Steve McQueen, que este ano disputou o Oscar com “12 anos de escravidão”, tem formação nas artes plásticas e utiliza o corpo como elemento primário de seu discurso. Nesse contexto, a verdade em “Shame” só se anuncia pela exposição. É uma opção estética corajosa, principalmente, se considerarmos que há mais tolerância à nudez feminina do que à masculina. Prova disso é que Michael Fassbender recebeu muitos prêmios por sua excelente atuação como um homem viciado em sexo, como a Copa Volpi de melhor ator no festival de Veneza de 2011, mas ficou de fora do Oscar. Já Kate Winslet, atriz que assume sua nudez com desenvoltura em filmes diversos como “Titanic” (1997), “Fogo sagrado (1999) e “O leitor” (2008), foi laureada por este último com o prêmio da Academia.

Michael Fassbender em "Shame": atuação corajosa (Foto: divulgação)

Michael Fassbender em “Shame”: atuação corajosa (Foto: divulgação)

Em “Ninfomaníaca”, o sempre provocador Lars Von Trier, mecaniza o sexo e a nudez, nesse sentido, os corpos nus obedecem a essa visão deserotizada pretendida pelo cineasta.

Justificando a nudez

Em “Titanic” (1997), por exemplo, a nudez de Kate Winslet era necessária? Existe uma sedução em curso quando sua Rose posa para o Jack de Leonardo DiCaprio. Exibir seu corpo é partilhar com o expectador o erotismo que visita os personagens. James Cameron conduz a situação com muita elegância e apresenta uma cena de sexo à altura do engajamento romântico pretendido; e pudica na medida em que o tamanho do filme permite.

O pôster original de "Sob a pele", ficção científica em que Scarlett Johansson aparece totalmente nua. O último trailer do filme causou comoção nas redes sociais

O pôster original de “Sob a pele”, ficção científica em que Scarlett Johansson aparece totalmente nua. O último trailer do filme causou comoção nas redes sociais

Em filmes de terror a nudez é um paliativo para os hormônios exaltados.  Faz parte da rotina do gênero, um dos primeiros a romper os embargos formais e informais do cinema americano quanto ao tema. Na verdade, o gênero é moralista e os desavergonhados costumam ser punidos.

Esse moralismo, que vem primeiro do público, confina a nudez, pelo menos em sua plenitude, ao cinema dito de arte. O que não implica dizer que a nudez não seja escravizada por interesses comerciais. O próprio marketing de certos filmes explora isso. O ator Pedro Cardoso, mais conhecido por seu trabalho como Agostinho em “A grande família”, provocou grande comoção na mídia especializada em 2008 ao ler o “manifesto contra a nudez”, em que criticava o fato de diretores de cinema banalizarem o uso da nudez e exigirem que atrizes se despissem em cenas que, na avaliação dele, dispensariam tal ato. Toda a classe artística reverberou o episódio, mas não houve grandes desdobramentos práticos.

Tanto no Brasil como no mundo, o cinema continua palco para a nudez publicitária, aquela que não tem outro fundamento que não o embotamento do produto. A nudez como chamariz de público, no entanto, está longe de ser o único subterfúgio manipulado por estúdios e diretores de cinema, mas a consternação que provoca é reveladora da moral dúbia com que nos relacionamos com o tema.

O uso ou não da nudez em um filme é uma decisão do diretor e a nudez deve estar justificada no contexto da fita. Um bastidor de “Closer- perto demais” (2004), grande filme sobre o fluxo e complexidade das relações amorosas, atesta essa perspectiva. Há uma cena em que a personagem de Natalie Portman faz um strip-tease para o personagem de Clive Owen em uma boate. Mike Nichols, o diretor, filmou a nudez de Natalie Portman com direito a um demorado close no sexo da atriz. Na pós- produção, conversando com ela, decidiu que o close não era necessário na cena; que esta cumpria seu propósito sem essa exposição por parte da atriz. A própria Natalie Portman viria a se expor nua mais adiante em filmes como “Cisne negro” (2011) e no curta-metragem “Hotel Chevalier” (2007).

Para favorecer o contraponto, há no filme “Em transe” (2013), de Danny Boyle, o nu frontal da atriz Rosario Dawson. No filme, que versa sobre hipnose e crime no mundo das artes, a justificativa para a exposição do sexo da atriz reside no fato desta ser elemento chave para o acionamento da memória de um dos personagens. Há, portanto, uma valiosa função narrativa nessa nudez. Reforçada, é claro, por uma convicção estética que então é compartilhada com o público.

Natalie Portman e Clive Owen em uma das cenas mais matadoras de "Closer": a nudez da atriz desviaria a atenção dos diálogos recheados de dor e ironia (Foto: divulgação)

Natalie Portman e Clive Owen em uma das cenas mais matadoras de “Closer”: a nudez da atriz desviaria a atenção dos diálogos recheados de dor e ironia (Foto: divulgação)

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11 comentários | Comentar

  1. 61 Kamila 25/04/2014 21:29

    Em primeiro lugar, parabéns pelo novo blog, Reinaldo! Sucesso na nova casa!!!!

    Comentando seu ótimo texto: eu acho que tudo depende. Existem filmes que exploram a nudez de forma gratuita. Se a nudez é utilizada de uma forma natural, que está no contexto do longa, aí, sim, acho que é a melhor maneira de explorar esse tipo de situação.

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  2. 60 Marco 25/04/2014 15:50

    Mais do mesmo. Assunto batido, debatido. Mais uma página igual a tantas outras que já existem na internet. Titanic e sua simples cena de um retrato nu. Closer não quis desviar a atenção para a bunda de ninguém e , o novo filme da Johansson, uma bizarrice total. Tanto pudor, para acabar tirando a roupa em um troço desse. Falta de inovação e criatividade do portal.

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  3. 59 Aline Viana 25/04/2014 13:54

    Vida longa a esse espaço!

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  4. 58 candido 24/04/2014 22:30

    não só em filmes mas a nudez já faz parte da nossa rotina os comerciais de tv esporam a nudez para todos já se tornou um atrativo da mídia já faz parte do cardápio

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  5. 57 Chris Eldridge 24/04/2014 22:30

    Acho pura bobeira toda essa falação em cima da nudez, perfeitamente normal, não há o que esconder, até porque em certos contextos é mais que necessárias que a nudez seja usada, claro que existem limites, isso cabe ao diretor … enfim …

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  6. 56 Arnaldo da Costa Lima 24/04/2014 22:22

    O cinema pelo menos tem idade estipulada para assistir o filme, e as emissoras de tv, que apelam em todas as formas, sem respeitar a quem assiste.

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  7. 55 Marco Mamede 24/04/2014 22:05

    Não sei por que muitas coisas chamam a atenção como este assunto, vivemos em um País onde tudo e banal, a TV esta maquina poderosa, brinca conosco como deseja e ninguém toma uma atitude. Mais nu, mais sem vergonha do que as noticias dos telejornais, que só falam o que interessa aos poderosos.

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  8. 54 Franklin Cerqueira 24/04/2014 21:59

    Nudez no cinema é arte. Quem vê está pagando para assistir o filme. Agora o que acontece nas novelas que são apresentadas em horário nobre no Brasil é uma pouca vergonha. Tenho dois filhos e eles assistem tudo: brigas infernais sem fins, vinganças por vinganças simplesmente, mentiradas contadas em quase todos capítulos, casais homossexuais, prostituição, dramalhões mexicanos sem fim irritantes, personagens totalmente desequilibrados, drogas proibidas, chantagens emocionais com o telespectador, abordagens de temas para lá de polêmicos, cárcere privado, brigas violentas sem ao menos os personagens pararem numa delegacia, personagens que tem tempo para tudo de maldade na novela menos trabalhar ( vocês vem algum personagem trabalhar duro nas novelas ????)etc… tudo isto em horário nobre, para todos verem, principalmente os nossos filhos, que deveriam ter uma educação esmerada, e no final das contas, eles, nossos filhos em formação de caráter e personalidade, são expostos a tudo de ruim que o mundo das novelas podem oferecer. Coisas boas, estas novelas quase não mostram, pois seus autores são pessoas tão denegridas quanto as emissoras, e explicam que são abordagens sociais sobre o tema(????). Claro que existem exceções. Franklin Cerqueira

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  9. 53 guilherme 24/04/2014 21:51

    deveriam sim apelar menos para a nudez e valorizar a interpretação e o talento, tanto no cinema como nas novelas da globo e etc…, quanto aos casais gays a nossa sociedade ainda não está preparada para aceita-los, ( mas q é nojento É ).

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  10. 52 LINDENBERG BARBOSA 24/04/2014 20:59

    BOA NOITE,

    TUDO ISSO É CAFÉ PEQUENO, COM AS ATITUDE QUE AS EMISSORAS DE TV, MOSTRAM, CASAIS DO MESMO SEXO SE BEIJANDO!!! BANALIZAM E AS CRIANÇAS COMO FICA EM FORMAÇÃO DE CARÁTER, ACHAMOS NORMAL….
    ABS.

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    • Tatiane Marina 24/04/2014 22:01

      Não sou contra cenas de sexo ou beijos seja homossexual ou heterossexual, desde que estas estejam num contexto e ajudem a contar a história e não seja apenas uma tentativa ridícula de levantar bandeiras. E chamo de ridícula, pois só conseguem aumentar o preconceito e causar siscussões sem profundidade que nunca vão muito longe ou geram mudança social. Mas quando às crianças e sua “formação de caráter”, digo o mesmo que falo a amigos que questionam o que vão explicar aos filhos diantes dessas cenas na tv: quem decide o que criança assiste é pai e mãe. Além disso tv não é escola, nem babá. A criança molda o caráter a partir do exemplo que ela recebe em casa dos pais e familiares. Quando os pais não educam, o mundo deseduca.

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    • Preguicinha 24/04/2014 21:29

      Anormal são os ditos “normais” “rodando a baiana” por causa de qualquer demonstração homoafetiva… pra quem é tão macho assim, um beijinho não deveria deixá-lo louca, louca, louca =)

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  11. 51 paulo 24/04/2014 20:46

    Natalie Portman me deixou “liouco” no filme Close!!!

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