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terça-feira, 9 de setembro de 2014 Críticas, Filmes | 20:11

“Amores inversos” achaca com doçura nossa letargia social

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Existem pessoas que irritam pela passividade e existem pessoas que escondem incrível força mobilizadora por trás de uma aparente passividade. É, em parte, dessa diferença que trata “Amores inversos” (2013), doce e eficiente adaptação de um conto de Alice Munro, canadense vencedora do Prêmio Nobel.

No filme de Liza Johsson, Kristen Wiig é Johanna Parry. Nosso primeiro contato com a personagem é um tanto insólito. No último dia de seu emprego como cuidadora de uma velhinha. A flagramos no momento da morte da senhora; é no metodismo com que prepara o corpo da idosa falecida e arruma a casa para sua partida, que a personagem deixa revelar um aspecto curioso de sua personalidade. A princípio parece uma noção distorcida de subserviência, mas mais a frente essa percepção se transmutará por completo.

Orientada por um pastor, Johanna segue para outra cidade e outro ofício. Será a babá de Sabitha (Hailee Steinfield), jovem que perdeu a mãe em um acidente provocado por seu pai, que passou um tempo na prisão e agora regressa a sua vida. Sabitha mora com o avô, papel do sempre eficiente Nick Nolte. Ele se ressente da presença do pai da menina, Ken (Guy Pierce), e é nesse ambiente turvo e estremecido que Johanna precisará se esgueirar. E ela o faz de forma monossilábica, mas sempre generosa. Johanna, aos poucos, vai se tornando familiar, ainda que não da família.

Johanna se prepara para viver uma improvável história de Cinderela.... (Foto: divlugação)

Johanna se prepara para viver uma improvável história de Cinderela….
(Foto: divulgação)

Sabitha e sua amiga Edith (Sami Gayle) resolvem pregar uma peça em Johanna e simulam, primeiro por meio de cartas e depois de e-mails, um interesse de Ken pela moça. Essa promessa de história de amor faz com que Johanna decida largar tudo e se entregar por completo a Ken, somente para descobrir que tudo não passava de uma farsa forjada por adolescentes entediadas.

O que acontece a partir daí, algo que precisa ser experimentado pelo expectador, reforça não só o termostato de uma personagem peculiar e apaixonante, como atesta “Amores inversos”, título nacional pouco feliz em sintetizar o minimalismo presente no título original “Hateship, loveship” (algo como “ódio, amor”), como um filme estudioso das relações humanas naquilo que elas têm de mais complexo, contraditório e imprevisível.

Em paralelo a essa incursão por alguns meses da vida de Johanna Parry, o filme oferta em cenas aparentemente desconexas da trama central, um olhar fervoroso sobre a maneira como travamos nossas relações sociais. As tensões, os preconceitos, as mágoas, os interesses e o amor estão lá; sim, o amor ao próximo ainda faz maravilhas, sugere o filme que começa com uma personagem que nos incomoda por parecer excessivamente passiva e que quando a deixamos nos incomodamos por parecermos nós mesmos passivos demais.

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