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sexta-feira, 17 de outubro de 2014 Críticas, Filmes | 21:03

“Trash – a esperança vem do lixo” é versão ‘trasheira’ de “Quem quer ser um milionário?”

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Voltemos a 2009. Stephen Daldry perdeu o Oscar de melhor filme com o complexo e belíssimo “O leitor” para o contestável “Quem quer ser um milionário?”, de Danny Boyle.

Ele acusou o golpe. Conhecido por ser um cineasta adepto das sutilezas e cultivador da sensibilidade como espelho de narrativas desobstruídas de clichês e convenções aborrecidas, Daldry se desencontrou em “Tão forte e tão perto” (2011), um dramalhão banhado em clichês que não lograva o vigor e mesmerização de filmes como “Billy Elliot” (2000), “As horas” (2002) e “O leitor” (2008). “Tão forte e tão perto”, no entanto, manteve a tradição assombrosa de levar Daldry ao Oscar. O inglês obteve nomeações por todos os filmes que dirigiu. “Trash” deve quebrar a escrita.

Cena de "Trash - a esperança vem do lixo": previsível e manipulador  (Fotos: divulgação)

Cena de “Trash – a esperança vem do lixo”: previsível e manipulador
(Fotos: divulgação)

Manipulador e previsível, o filme se apresenta como uma versão mais realista, nem por isso menos fabular, de “Quem quer ser um milionário?”. Se Daldry perseguia a experiência de dirigir em outra língua e em outro país, pode-se dizer que a experiência foi válida no campo pessoal, mas “Trash” não agrega em nada à filmografia enxuta e insuspeita do cineasta britânico. Pelo contrário, a banaliza.

Adaptado da obra de Andy Mulligan e roteirizado por Richard Curtis, responsável pelo texto de filmes como “O diário de Bridget Jones” (2001) e “Cavalo de guerra” (2011), “Trash – a esperança vem do lixo”, com esse subtítulo nacional pavoroso, apresenta a história de três meninos que ao acharem uma carteira no lixão se enveredam por uma aventura para desvendar um enigma lançado pelo proprietário da tal carteira. O enigma eventualmente desvendado resultará na exposição de um caso de corrupção na cena política carioca.

Se o trio que faz as crianças protagonistas do filme, Rickson Tevez, Gabriel Weinstein e Eduardo Luis, brilha e cativa, o mesmo não se pode dizer do restante do elenco. Confinado a um papel pequeno e burocrático, Wagner Moura vive um dos momentos mais constrangedores de sua carreira em um papel que parece existir apenas para aferir prestígio ao filme no âmbito nacional. Selton Mello, como um policial corrupto e inescrupuloso, não convence com uma frieza mal trabalhada e falas que em português – e na realidade das ruas brasileiras – não soam verdadeiras. Os atores americanos, Rooney Mara e Martin Sheen, fazem personagens que se resolvem como muletas narrativas para justificar o financiamento inglês nessa coprodução entre Brasil e Inglaterra.

Finalmente, “Trash” peca por parecer aquele tipo de filme que o Brasil fazia muito na virada da década de 90 para 00 e que, de certa forma, “Cidade de Deus” representou o sepultamento. É um filme que se pretende sobre esperança, mas parece apenas um olhar envergonhado e desajeitado da classe média para comunidades carentes.

Stephen Daldry dirige os atores no set

Stephen Daldry dirige os atores no set

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4 comentários | Comentar

  1. 54 Kamila Azevedo 19/10/2014 21:57

    Não assisti ainda a esse filme, apesar de gostar muito do Stephen Daldry e por achar o máximo ele ter vindo filmar em nosso país usando atores nossos. Gostei do viés do seu texto e acho a comparação bem pertinente.

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  2. 53 Paulo Roberto 18/10/2014 7:29

    Não achei isso.. discordo do crítico..
    Assisti o filme e achei bem legal.

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  3. 52 Rodrigo 18/10/2014 2:02

    Com todo respeito ao ponto de vista do escritor do texto acima, acho que todo esforço realizado para prestigiar o Cinema Nacional , é bastante válido, tendo em vista a carência, da nossa arte. Atores que fizeram tanto pelo nosso cinema, não devem ser tratado com tal desprezo como vimos nosso querido Reinaldo tratar. Vejo inclusive, um certo despeito de vossa parte ao tratar dos nossos atores….Faço-lhe apenas uma simples pergunta….Por qual motivo o Sr. não escreveu um roteiro melhor do que esse? Será que o Sr. é apenas mais uma daquelas pessoas que só sabem sentar o rabo em uma cadeira pra falar mal dos outros….?

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  4. 51 Atairton 17/10/2014 23:21

    Eu assisti ao filme e não vi o que você fala, gostei da história e gostei do filme.
    A crítica tem uma mania de não valorizar o que é feito aqui no Brasil. Acho que a crítica pela crítica apenas é inutil.

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