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quarta-feira, 19 de novembro de 2014 Críticas, Filmes | 16:13

Tempo é parâmetro absoluto para epifanias de “Boyhood”

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Richard Linklater é o cineasta do experimental e “Boyhood – da infância à juventude” (EUA, 2014) sob muitos aspectos é seu principal cartão postal.  Primeiro porque é esteticamente inovador e expande as fronteiras de como o cinema deve ser pensado enquanto unidade narrativa e depurador da passagem do tempo. Segundo porque a captura do tempo, seja ele subjetivo ou objetivo, é fator preponderante em “Boyhood”.  Filmado ao longo de 12 anos, o filme mostra o crescimento emocional e físico de Mason (o excelente Ellar Coltrane)  e o desenvolvimento de suas relações afetivas, escolares e familiares. A simplicidade do mote não subjuga o encantamento alinhavado por Linklater com seu filme.

Se a fluidez da narrativa é notável, algo que precisa ser creditado à montadora Sandra Adair, impressiona ainda mais a forma como o diretor captura a passagem emocional do tempo por meio da fisicalidade dos personagens. É uma sutileza que os avanços temporais na trama favorecem, mas é o olhar curioso e carinhoso de Linklater que grafa o registro.

Foto: divulgação

Foto: divulgação

Fazer com que “Boyhood” seja um filme e não uma colagem exigiu do diretor alguns cuidados, como a forte disposição de manter toda a narrativa subscrita à perspectiva de Mason. São por seus olhos que testemunhamos a por vezes competitiva relação com a irmã Samantha (vivida pela filha do diretor Lorelei Linklater), o empenho da mãe (Patricia Arquette) em se reerguer profissionalmente depois da separação do pai (Ethan Hawke) e os obstáculos ensejados por dois casamentos mal sucedidos. Aos poucos esse olhar de Mason vai se transformando na formação de uma visão de mundo. É quando “Boyhood” desacelera ainda mais e convida a audiência a sentir o filme de outra maneira, mais intuitiva e menos contemplativa. Da relação tateada com o pai, ao primeiro amor, passando pelo gosto pela fotografia, testemunhamos a formação da personalidade de Mason – que sempre fora um garoto introvertido.  Ao estabelecer o tempo como parâmetro para a feitura de seu filme, para a evolução dos personagens e para a exposição de seus conflitos, por mais triviais que eles sejam, durante as 2h45min de filme, Linklater aposta em um cinema imersivo, de entrega e paixão. A ação do tempo já estava presente na trilogia “Antes do amanhecer”, mas aqui ganha mais relevância dramática por sublinhar toda uma ascensão geracional.

Essa ficção de rigor documental enobrece o cinema enquanto arte pensativa e inovadora e, justamente por isso, “Boyhood” se subscreve como um dos filmes mais significativos não só do ano, como da década.

O convite à nostalgia feito pelo filme não se empalidece em face da reflexão por ele ensejada. Toda a vida, por mais banal que seja, por mais aferrada ao cotidiano que esteja, tem sua apoteose, seu encanto, seu arrebatamento.  Mason sacramenta em um dado momento do filme, “é como sempre agora, entende”? Linklater fez um belíssimo filme para tentar capturar, e transcender, esta epifania existencial.

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1 comentário | Comentar

  1. 51 Kamila Azevedo 19/11/2014 22:02

    Uma pena que a distribuição de “Boyhood” no Brasil foi péssima! Quero tanto assistir a este filme. Parece ser interessantíssimo! Incrível como Richard Linklater é capaz de fazer esse cinema que capta as transformações internas de seus personagens.

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