Publicidade

sexta-feira, 21 de novembro de 2014 Análises | 18:19

Brasil tem circuito exibidor de cinema desequilibrado, mas regular é a solução?

Compartilhe: Twitter

A Agência Nacional do Cinema (Ancine) estuda medidas para controlar o que seu presidente, Manoel Rangel, classificou como “lançamentos predatórios” no circuito comercial de cinema brasileiro. Em entrevista à Folha de São Paulo, Rangel observou que filmes como “Jogos vorazes: a esperança – parte 1”, lançado em mais de 1.300 salas em todo o país, expulsam outras fitas das salas e homogeneízam a oferta.

Rangel diz ser importante construir um entendimento que possa demover essa prática que, na avaliação dele, mina o hábito de se frequentar cinema – uma vez que a diversidade de filmes estaria sendo frontalmente reduzida. A Ancine, no entanto, não descarta a aplicação de medidas efetivas para regular essa “ocupação predatória”.

O novo "Jogos vorazes" resgata a polêmica: como agir para equilibrar o circuito exibidor no Brasil?  (Foto: divulgação)

O novo “Jogos vorazes” resgata a polêmica: como agir para equilibrar o circuito exibidor no Brasil?
(Foto: divulgação)

Não é nova a queixa de distribuidores independentes e produtores nacionais sobre a prolixidade dos lançamentos dos blockbusters hollywoodianos. Tampouco é inédito o aceno da Ancine de implementar algum tipo de regulação de mercado. Há pouco tempo foi imposta, sob muitos protestos e um êxito que começa a ganhar forma, a lei da TV paga que estabelece cotas para o audiovisual brasileiro. À Folha, Rangel disse que a preocupação da Ancine, no tocante ao mercado exibidor de cinema, será garantir a pluralidade e a diversidade. Mas é tênue a linha entre regulação de mercado e cota para a produção nacional. O mercado exibidor já se manifestara contrariamente a qualquer tipo de intervenção por parte da Ancine para regular o setor. A China, o país que gera mais bilheterias para as produções hollywoodianas depois dos EUA, recentemente estabeleceu uma cota para o lançamento de produções hollywoodianas no país. E mesmo filmes com lançamento internacional, como “Interestelar” estreiam tardiamente no País. É lógico que não se deve esperar por algo tão radical no Brasil. Tampouco desprezar a preocupação exposta por Rangel. Mas é preciso entender que o mercado exibidor não pode ser coagido a abdicar de buscar o lucro. Investir em cultura é contribuir para a construção desse entendimento aventado por Rangel. Nesse sentido, iniciativas como o resgate do Cine Belas Artes em São Paulo precisam ser louvadas e destacadas.

É preciso distinguir o cinema de complexo de shopping, mais afeito ao entretenimento fast-food, do cinema de rua, artigo cada vez mais raro, que carrega o ônus (pois carece de incentivos) de ser o oásis do cinema de arte, dos filmes mais autorais. Justamente por isso, muitos filmes ditos alternativos só têm lançamentos em São Paulo e Rio de Janeiro, cidades que ainda mantêm esses espaços. Criar leis intervencionistas e regulatórias é mais fácil do que arregaçar as mangas, estipular metas e investimentos e buscar o colaboracionismo.

Não custa lembrar que o tema cultura foi solenemente ignorado nas últimas eleições presidenciais. Já passou da hora de mudarmos mais do que o discurso, o jeito de fazer as coisas no Brasil.

Autor: Tags: , , ,

5 comentários | Comentar

  1. 55 Clóvis Marques Guimarães Júnior 08/12/2014 22:32

    Infelizmente, a Ancine me decepcionou, e muito. Combinei com ela uma entrevista via e-mail, sobre esse assunto, mas ela não cumpriu o prometido. Para saber mais, acesse: http://audiovintagebrasil.blogspot.com.br/2014/12/ancine-nao-responde-perguntas-de.html

    Responder
  2. 54 Crikamartins 24/11/2014 16:26

    Infelizmente isso se aplica a filmes em seu idioma original, esta cada vez mais difícil assistir sem ser dublado que eu odeio, perde toda a originalidade da interpretação do ator.
    Nao e so filmes com estreia em massa de titulos de sucesso,que infelizmente faz com que sejamos seletivos na escolha do cinema,mas Brasil nunca teve bom senso em se tratando de cultura.

    Responder
  3. 53 Kamila Azevedo 23/11/2014 19:06

    Excelente reflexão, Reinaldo. É fato que a distribuição de filmes no Brasil é péssima e precisa de ajustes. Se regular for resolver algo, sou favorável, ainda mais em se tratando de uma situação como a vista nessa semana, em que “Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1” ficou em cartaz em 1400 salas de cinema no nosso país. Isso é monopólio! Não pode acontecer. É preciso se abrir o máximo de espaço possível para a exibição dos mais diversos filmes e isso só será possível com uma política de distribuição de filmes bem definida.

    Responder
  4. 52 Daniel colman 22/11/2014 11:32

    Essa agência sequer deveria existir…chega de intervenção estatal…isso só serve pra gerar burocracia, aumentar custos e acabar por colaborar com a criação de um estado gigante, pesado, corrupto e ineficiente…abaixo essa censura …deixem o livre mercado agir…Regulação estatal NÃO eh solução…regulação estatal eh a PERDIÇÃO !!!!!!!!!!!

    Responder
  5. 51 Amanda Aouad 21/11/2014 23:18

    Concordo, criar leis de cotas ou algo parecido não é a solução. Investir em novos cinemas de arte, em divulgação dos filmes nacionais, em formação de plateia, em cineclubes, seria mais sensato. Como dizia o saudoso crítico baiano André Setaro, as pessoas vão ao cinema hoje para “shoppear”, e aquele blockbuster que vem sendo martelado na mídia a tanto tempo, será sempre a melhor opção para eles.

    Responder
  1. ver todos os comentários
 

Antes de escrever seu comentário, lembre-se: o iG não publica comentários ofensivos, obscenos, que vão contra a lei, que não tenham o remetente identificado ou que não tenham relação com o conteúdo comentado. Dê sua opinião com responsabilidade!

* Campos obrigatórios


 

Responder comentário


* Campos obrigatórios