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Arquivo de dezembro, 2014

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014 Análises, Filmes, Listas | 11:43

Retrospectiva 2014 – Os vinte melhores filmes do ano

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Para encerrar 2014 aqui no Cineclube, nada mais justo do que relembrar e honrar as melhores produções do ano. Não foi um grande ano para o cinema. O que não quer dizer que não tenhamos tido ótimos filmes lançados no país. Eram elegíveis para essa lista todas as produções lançadas comercialmente no Brasil entre 1º de janeiro e 25 de dezembro. Além, é claro, de filmes lançados diretamente em DVD´s ou na televisão, outrora vista como mídia menos interessante.

Há, natural e compreensivelmente, uma presença preponderante de produções norte-americanas na lista. Mas há espaço para Brasil, Polônia, Argentina, Grécia, Romênia e outras cinematografias que deram o que falar em 2014. Muita coisa boa ficou de fora. A subjetividade de toda lista surge aqui combinada com a objetividade que todo crítico de cinema deve perseguir. O que não extingue o caráter pessoal  da análise, dada a natureza da atividade crítica em si.

Inside Llewyn Davis - versão

Direção: Joel e Ethan Coen

Lançamento original: 2013

País: EUA

Os Coen revisitam território familiar ao retratar a jornada (majoritariamente enfadonha) de Llewyn Davis, um aspirante a cantor na cena nova-iorquina que via emergir o folk (gênero musical que consagrou Bob Dylan)com toda a sua força. Davis é um dos muitos expelidos do sonho americano que frequentam a filmografia dos Coen, mas o filme é um tour de force por se esmerar em um fiapo de história e ofertar grandes insights sobre a existência.

Clube de Compras Dallas 11

Direção: Jean-Marc Vallée

Lançamento original: 2013

País: EUA

Esqueça, se for possível, as fantásticas e oscarizadas atuações de Matthew McConaughey e Jared Leto. Esse misto de filme-denúncia com história de sobrevivência tem um coração do tamanho de um elefante. Com um roteiro acima da média e atores em estado de graça, Vallée fez um doloroso e importante filme sobre o surgimento atroz da Aids na América e a maneira desumana com que a indústria farmacêutica abordou a questão.

O passado - versão final 11

Direção: Asghar Farhadi

Lançamento original: 2013

Países: França/Irã

Não era fácil superar “A separação”, poderoso filme vencedor de vários prêmios que colocou Asghar Farhadi no mapa da cinefilia. Se não o faz, Farhadi falha com louvor. “O passado” expande o olhar investigativo do diretor sobre as reminiscências de nossas relações amorosas. Existe ética no amor? O sobressalto do amor é capaz de sobrepujar diferenças culturais? O debate ensejado por essa riquíssima obra não se esgota ao fim da sessão.

O homem duplicado  - versão final 1

Direção:  Denis Villeneuve

Lançamento original: 2013

País: Canadá

Essa adaptação certeira de José Saramago versa sobre a singularidade do indivíduo à sombra da sociedade. A formulação e reconhecimento da identidade, portanto, forma a matéria prima do filme de Villeneuve. Um professor à beira da depressão descobre um sósia e resolve segui-lo para saber mais sobre a curiosa situação. O despojamento estético da obra, a gravidade da inflexão proposta e o rigor da mise-em-scène tornam “O homem duplicado” um dos filmes mais inteligentes e desafiadores do ano.

Ida - versão final 1

Direção: Pawel Pawlikowski

Lançamento original: 2014

País: Polônia

Filmado em um preto e branco hipnotizante, essa história singela de uma freira que descobre ser filha de judeus perseguidos e mortos durante o regime nazista, estabelece um painel histórico sobre a Polônia que agonizou durante boa parte do século XX. “Ida” é daqueles filmes obrigatórios não só para quem gosta de cinema, mas para que percebe na sétima arte uma válvula contínua de reflexão e história.

 Instinto materno - versão final

Direção: Calin Peter Netzer

Lançamento original: 2013

País: Romênia

Equacionar um conflito geracional e familiar a um conflito de classes em uma Europa em decadência exige um diretor de pulsos fortes. Netzer alinhava essa trama na qual uma mãe se ressente do afastamento nada sutil de seu filho, mas que não hesita em mover mundos e fundos quando ele enfrenta a possibilidade de ir para a cadeia por homicídio culposo. A fita romena é um poderoso estudo as contradições humanas e um retrato desolador do poder desestabilizador do dinheiro.

Ninfomaníaca - versão final 11

Direção:  Lars Von Trier

Lançamento original: 2013/2014

Países: Dinamarca/Alemanha/França/Inglaterra

São dois volumes, mas trata-se, na verdade, de apenas um filme e assim “Ninfomaníaca” surge em nossa lista. O filme de sexo explícito de Lars Von Trier é, em sua essência, um estudo libertino e imaginativo sobre nossas angústias existências, refletidas como bem lembraria Freud, no sexo. O cineasta dinamarquês perpassa diferentes fetiches e obsessões, começa trabalhando com arquétipos e por fim dá voz a sua heroína, Joe, parra arrematar o mais deserotizado filme a abordar o sexo que o cinema já viu. Von Trier, a despeito de muitos desapontamentos, não queria distrair a audiência tão interessada em suas digressões.

 Sob a pele - versão final

Direção: Jonathan Glazer

Lançamento original: 2013

País: Inglaterra

O filme é hermético? Sim. É uma experiência estética intrigante? Também. É bom? Demais! “Sob a pele” é o que se convém classificar como filme difícil. Mas a obra de Jonathan Glazer é das mais brilhantes de 2014 no que propõe sobre o homem – como espécie –  e o meio. Scarlett Johansson faz uma alienígena que atrai homens com sua aparência para matá-los, mas aos poucos vai se afeiçoando pelo que nos caracteriza humanos. Filme de muitas camadas, permite interpretações a contento. É para ser descoberto, apreciado e redescoberto.

 Praia do futuro (versão)

Direção: Karim Aïnouz

Lançamento original: 2014

Países: Brasil/Alemanha

Um filme sobre impulsividade. Sobre assumir os próprios desejos. Sobre renúncia. Sobre tesão. Sobre ser homem. E sobre amar outro homem. “Praia do futuro”, novíssima obra-prima em só menor de Karim Aïnouz, opõe a cosmopolita Berlim à ensolarada Fortaleza como versões conflitantes do protagonista Nonato, defendido com a habitual entrega por Wagner Moura. Um filme que dá orgulho de dizer que é brasileiro.

 Nebraska -  versão final

Direção: Alexander Payne

Lançamento original: 2013

País: EUA

Um road movie banal no recorte que faz do extraordinário. Ou seria o contrário? Alexander Payne borra a noção de extraordinário e banal ao contar a história de um homem que já dá os primeiros sinais de senilidade em uma viagem para resgatar um prêmio que não existe. No meio do caminho, as pazes com o passado e com seu filho. Um filme belíssimo que resiste ao tempo e cresce de tamanho à medida que nos afastamos dele. Uma das grandes joias do ano nos cinemas brasileiros.

 Era uma vez em NY - versão final 11

Direção: James Gray

Lançamento original: 2014

País: EUA

Vamos começar falando pelo plano que fecha o filme. É a coisa mais fascinante e narrativamente eloquente feita por um diretor em muitos anos. O fecho de “Era uma vez em Nova York” potencializa essa história de tragédia e amor em uma Nova York mais parasita do que receptiva aos estrangeiros que buscam o sonho americano. Polonesa chega aos EUA e se vê obrigada a se prostituir para conseguir liberar sua irmã tuberculosa que ficou detida ao desembarcar nos EUA. Os arremedos do destino podem ser cruelmente poéticos é o que sugere esse poderoso filme de James Gray.

 Relatos selvagens - versão final 11

Direção: Damián Szifron

Lançamento original: 2014

País: Argentina

Nenhum filme combinou as tarefas de entreter e ensejar reflexão com tamanha astúcia e eficácia como este exemplar argentino, a maior bilheteria da história do cinema hermano.

Em seis inspirados episódios, Szifron tece comentários fortes e espirituosos sobre nossa sociedade – tudo a partir do pouco civilizado desejo de vingança. Humor, violência, tensão e drama se fundem a um todo que faz todo o sentido.

 Mesmo se nada der certo - versão final 11

Direção: John Carney

Lançamento original: 2014

País: EUA

Pense no filme mais saboroso do ano. Se você não pensou em “Mesmo se nada der certo” quer dizer que você não viu o filme mais saboroso do ano. John Carney reedita, com mais inspiração e uma bela dose de Keira Knightley, Mark Ruffalo e Adam Levine, a fórmula que já havia aplicado em “Apenas uma vez”, faz uma crítica bem sacada dos rumos da indústria musical e conta uma história agridoce sobre corações partidos, amor à música e Nova Iorque. Não tem como não amar!

 Miss violence - versão final2

Direção: Alexandro Avranas

Lançamento original: 2013

País: Grécia

Aborto, incesto e outros tipos de abuso familiar compõem o painel desse poderoso e chocante drama grego. Multipremiada, a fita de Avranas faz um retrato triste e pálido de uma Grécia caída em desgraça. As ruínas da civilização se refletem em uma família que tenta manter a aparência altiva, mas a câmera insiste em insinuar que há algo de muito errado submerso naquela rotina familiar que abraçou com estranha tranquilidade o suicídio de uma menina em seu aniversário de 11 anos. Nada nos prepara para as verdades que emergirão desse olhar intrusivo que dispensamos a essa família.

 Trapaça - versão final

Direção:  David O. Russell

Lançamento original: 2013

País: EUA

Não há personagens como nos filmes de David O. Russell. Em “Trapaça”, ambientando nos anos 70, eles buscam a reinvenção como combustível para uma vida plena. Cafona, exagerado, colorido, musicado e cheio de diálogos espertos,“Trapaça” é irresistível. É um filme verdadeiro com seus personagens e correto com a plateia. O entretenimento desta, ou qualquer mensagem, não se sobrepõem à jornada dos personagens. É bom cruzar com um filme destes de vez em quando. E que personagens!

Boyhood - versão final 11

Direção: Richard Linklater

Lançamento original: 2014

País: EUA

2014 talvez seja lembrado como o ano de “Boyhood” e, se vingar, será um bom rótulo cinéfilo para o ano. A produção de Richard Linklater é corajosa, esteticamente inovadora, narrativamente cativante, mas acima de tudo, é cinema bruto. De raiz. Acompanhamos a vida de um menino por doze anos. Simples assim. Mas são doze anos mesmo… Realidade e ficção se embaralham nesse misto de vanguarda e nostalgia que Linklater forjou. Ensimesmados, agradecemos!

 K

Direção: Dan Gilroy

Lançamento original: 2014

País: EUA

Qual a relação entre a deturpação do sonho americano e o sensacionalismo midiático? Talvez não haja nenhuma, mas talvez haja. “O abutre” certamente flerta com a possibilidade ao mostrar a súbita ascensão de um homem sem grandes ambições como cinegrafista de tragédias nas noites de Los Angeles. Um aterrorizante Jake Gyllenhaal dá o tom de um dos filmes mais subversivos e pungentes da temporada.

Ela - versão final

Direção: Spike Jonze

Lançamento original: 2013

País: EUA

Pode o grande romance do ano ser entre um homem e um sistema operacional? Pode sim! Mas “Ela” é muito mais do que isso. É um olhar tenro para nossa necessidade de conexão. Um vaticínio sobre esses tempos de solidão e uma deliciosa crônica sobre amar, não necessariamente sobre o amor – ainda que a relação seja intrínseca. “Ela” é cult, pop, inteligente, anacrônico, hi-tech , ficção científica e romance. Esse hibridismo bem adornado por Spike Jonze amarga e adoça como tudo que é realmente bom na vida.

 Garota exemplar - versão final

Direção: David Fincher

Lançamento original: 2014

País: EUA

Uma tenaz análise do casamento e de seus e efeitos sobre o individuo e sobre o casal ao longo dos anos no mesmo compasso que é uma crítica virulenta à sociedade do espetáculo. Tudo em ritmo de thriller. David Fincher, com sua elegância habitual, entrega outro filme maiúsculo com turns e subplots sempre impactantes e cativantes. Ben Affleck nunca esteve melhor e Rosamund Pike, mais assustadora. “Garota exemplar” é um filme salutar em todos os seus arranjos e dividendos.

 O lobo de Wall Sreet - versão final

Direção:  Martin Scorsese

Lançamento original: 2013

País: EUA

Uma obra-prima moderna. É um neoclássico. Adjetivos à parte, essa crônica da ganância insolvente alinhada por Martin Scorsese a partir de um caso real saído da Wall Street dos anos 90 é puro cinema de imersão. Da fotografia convidativa à alucinada atuação de Leonardo DiCaprio, “O lobo de Wall Street” transborda na tela com sua incorreção política, seus inúmeros “fuck” e o olhar potente de um cineasta no auge de sua forma.

Fotos: montagem sobre imagens de divulgação

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domingo, 28 de dezembro de 2014 Análises, Filmes | 16:12

Retrospectiva 2014 – Quais foram os principais temas do cinema no ano?

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Falou-se de amor, claro, em 2014. Mas o cinema recepcionou e abraçou outros temas tão complexos e multifacetados como o amor e outros que se fundem ou se distanciam dele.  Philippe Garrel, a quem coube o espólio da Nouvelle Vague, analisa o amor sob o prisma do ciúme, cuja escala e intensidade dividem opiniões no mesmo compasso em que o dito cujo se manifesta em “O ciúme”. Produções como o chileno “Gloria” abordam o amor sob uma perspectiva incomum. A do amor próprio. Cinquentona, a personagem título do filme, que estreou no Brasil em fevereiro, busca se amar mais, se respeitar mais e se ouvir mais do que se entregar aos homens com quem flerta de quando em quando.

Os brasileiros “Boa sorte” e “Latitudes”, este último um projeto estético tão interessante que merece menção posterior, abordam amores transversais. No primeiro, o encontro do jovem incompreendido que sente que não vive, com a moça cheia de arrependimentos próxima da morte, mas que sente tesão por viver. No segundo, o tempo e o espaço valsam com os sentimentos enquanto os protagonistas vivem uma história de amor não assumida em viagens por diversas cidades do mundo.

Finalmente, “Será que?”, estrelado pelo Harry Potter que cada vez mais vira Daniel Radcliffe, o dilema que assola muitos homens e mulheres. Será que eu e ela ficamos só na amizade mesmo?

O preto e branco frio de "O ciúme": o amor vai ao divã no cinema em 2014

O preto e branco frio de “O ciúme”: o amor vai ao divã no cinema em 2014

Dilema este que parece superado em ‘Os amigos”, outra perola nacional de 2014, que faz um elogio da amizade. Os personagens de Marco Rica e Dira Paes parecem ter superado este dilema. Parecem. Em “Mesmo se nada der certo”, os protagonistas (Keira Knightley e Mark Ruffalo) também parecem interessados um no outro, mas na verdade têm o incrível interesse pela música (e o coração partido) em comum. Dessa afinidade surge um filme que enfatiza a necessidade de se apreciar a vida.

O amor ainda rimou com tecnologia em 2014, com o lançamento de “Ela”, fábula romântica moderna de Spike Jonze. Nossa necessidade de conexão é tão profunda que nos apaixonarmos por um sistema operacional não é uma realidade distante. Assim como não é o debate acerca de drones aventado por José Padilha no remake que fez de “Robocop”. A fusão de homem e máquina e o alvorecer da inteligência artificial também são o cerne de “Transcendence – a revolução”. O filme é ruim, mas a discussão é boa.

Houston, nós temos um problema

Por falar em filme ruim, este foi o ano de “Interestelar”. A produção de Christopher Nolan pode ser ruim, mas não deixa de ser interessante. Além do mais, levou para o cinema a física e colocou teoria da relatividade, buraco de minhoca e outras “doideiras” em discussões de quem nem sequer gosta de ouvir que dois corpos não ocupam o mesmo lugar. A grande sacada de “Interestelar”, talvez, seja a solução desenhada por Nolan subliminarmente. A felicidade deve ser perseguida, mas é uma impossibilidade vivê-la. Woody Allen, de uma maneira completamente diferente, aperta o mesmo nervo em “Magia ao luar”. Allen questiona se vale a pena renunciar ao ceticismo de toda uma vida e abraçar a fé no oculto como forma de conquistar certa paz espiritual. Terry Gilliam também rabisca a física para produzir o mesmo comentário em “O teorema zero”, em que Christoph Waltz enlouquece à espera de um telefonema que lhe revelaria a razão da existência. Já em “Nebraska”, um homem comum, que levou uma vida pacata com mais erros do que acertos, resolve fazer uma longa viagem para resgatar um prêmio que não existe. Essa opção pela ilusão é um comentário certeiro do cineasta Alexander Payne sobre a impossibilidade de se ser feliz e dos mecanismos que desenvolvemos para nos ludibriar. “Trapaça” complementa o ensejado por “Nebraska” ao mostrar personagens que tentam se reinventar enquanto querem mais. Mais vida. Mais amor. Mais sucesso. Mais dinheiro. Mais tudo.

A solidão da hiperconectividade é destaque em "Ela"

A solidão da hiperconectividade é destaque em “Ela”

Já “Refém da paixão”, mostra uma mulher depressiva que começa a se interessar pelo homem que a faz refém em sua casa. Melodrama romântico, o filme de Jason Reitman mostra como o amor ainda é a senha para que muitas pessoas se considerem felizes.

O mesmo Jason Reitman, em “Homens, mulheres e filhos” observou como a internet recodificou algumas angústias humanas. No filme, que de certa forma se comunica com “Ela”, a tecnologia é uma fuga, uma janela para a alma. Mas internamente ainda corroemos.

Relações corroídas entre pais, filhos e irmãos, aliás, também deram o que falar nos dramas mostrados em diferentes intensidades no canadense “Mommy”, no americano “O juiz” e no belo japonês “Pais e filhos”.

 

A intimidade devassada

“Garota exemplar”, seguramente um dos highlights do ano, é um filme com muitas camadas. É o mais brilhante e perturbador retrato sobre o casamento que o cinema viu em muito tempo. É, também, uma crítica espirituosa das traquinagens da mídia e da sociedade do espetáculo. Nesse departamento, outros ótimos filmes lançados em 2014 compõem um panorama ainda mais avassalador. São eles “O abutre”, “Tudo por um furo” e “O mercado de notícias”.

Mas quem aprecia “Garota exemplar” pelo ótimo insight que proporciona sobre o matrimônio merece assistir “O passado”, incursão pelo cinema francês do iraniano Asghar Farhadi.

Ben Affleck em "Garota exemplar": um casamento devassado

Ben Affleck em “Garota exemplar”: um casamento devassado

Os dois filmes investigam os efeitos da passagem do tempo sobre a intimidade conjugal e a passagem do tempo é o parâmetro absoluto de duas obras esteticamente inovadoras que ensolararam 2014. “Boyhood – da infância à juventude” e “Amantes eternos”. O primeiro, filmado ao longo de 12 anos, embaralha realidade e ficção em uma narrativa que transborda sentimento e familiaridade. Já o segundo, mostra o desencanto de dois milenares vampiros com os rumos da humanidade.

Desencanto parece ser a palavra de ordem que une três das produções mais fortes e marcantes do ano. Lá de janeiro, “O lobo de Wall Street”, com sua incorreção política e descaramento em nos falar verdades incômodas, encontra referência em “O abutre” e “Era uma vez em Nova York” no sentido dos três alinharem uma deturpação do sonho americano.

Um tema que se fez notar com desenvoltura rara em 2014 nos cinemas foi a masculinidade. À parte os brucutus de “Os mercenários 3”, o que é ser homem foi a matéria prima de filmes tão diversos como “A recompensa”, com o melhor monólogo sobre um pênis já feito no cinema, e “Tudo por justiça”, em que os códigos masculinos são revistos com interesse antropológico. Já no argentino “O que os homens falam”, a ideia é sublinhar essa tendência masculina de se mostrar mais vulnerável. Esse intento também se verifica em “Praia do futuro”, que erroneamente é percebido apenas como “um filme gay”. Não há uma personagem feminina no filme e o objetivo primário é debater a maneira como o homem, homossexual ou heterossexual, lida com o afeto.

O mundo essencialmente masculino de "O lobo de Wall Street", novo petardo de Martin Scorsese sobre o desvirtuamento do sonho americano

O mundo essencialmente masculino de “O lobo de Wall Street”, novo petardo de Martin Scorsese sobre o desvirtuamento do sonho americano

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sábado, 27 de dezembro de 2014 Filmes, Listas | 10:28

Retrospectiva 2014 – Os dez grandes personagens do ano no cinema

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10 – Lucy (Scarlett Johansson) no filme “Lucy”

personagens - Lucy

Uma jovem alienada que se transforma em mula (para transporte de drogas) e que vira uma heroína superpoderosa. Essa é Lucy, que vê a capacidade de uso do seu cérebro aumentar vertiginosamente após ingerir uma determinada substância no descolado e original filme de Luc Besson. Lucy é a principal porta-voz, nas bilheterias principalmente, de um movimento feminista que o cinema viu em 2014 com o sucesso de produções como “Malévola”, “Divergente” e “A culpa é das estrelas”.

9 – Woody Grant (Bruce Dern)  em “Nebraska”

personagens - woody

Você já se sentiu injustiçado pelo rumo que a sua vida tomou? É mais ou menos assim que Woody se sente, mas o personagem defendido com bravura por Bruce Dern rejeita assumir sua cota de responsabilidade na vida que agora se encontra no derradeiro ato. Passa por aí o desejo irrefreável de sacar um prêmio que não existe. Intragável de um jeito doce, Woody representa o fracasso que tentamos esconder embaixo do tapete.

8 –  Cornelia (Luminita Gheorghiu) em “Instinto materno”

personagens - Cornelia

Que mãe não faria tudo por seu filho? Nesse poderoso exemplar do cinema romeno, Cornelia personifica o paraíso e o inferno dessa constatação. Depois que seu filho se vê envolvido no atropelamento e morte de um menino pobre, Cornelia se engaja de corpo e alma para evitar que seu filho vá para a prisão. O desprendimento dessa mãe, que por vezes ultrapassa certos limites éticos, confere sentido à pergunta que todos veem como clichê.

7 – Gretta (Keira Knightley) em “Mesmo se nada der certo”

Personagens - Gretta

Depois de abandonada pelo namorado, enamorado com a fama conquistada como cantor, Gretta se vê só e triste pelas ruas de Nova York. Instigada por um produtor musical decadente que vê nela uma estrela adormecida, Gretta decide cantar as composições agridoces de um repertório muito pessoal. Iluminada pelo jeito dengoso de Keira Knightley, a personagem é a mais solar e vibrante da lista e, possivelmente, do cinema em 2014.

6 – Johanna Parry (Kristen Wiig) em “Amores inversos”

personagens - johanna

A apatia pode ser apenas aparente? Essa personagem melancólica e, ainda assim, extremamente cativante sugere que sim. Por trás de uma timidez e de uma ingenuidade acintosas, Johanna esconde uma fé no ser humano e um amor ao próximo que chocam por parecerem totalmente inadequados aos tempos em que vivemos. Aos poucos, ela vai mudando a vida daqueles com quem passa a conviver, especialmente o ex-presidiário traumatizado interpretado por Guy Pearce.

5 – Romina (Erica Rivas) em “Relatos selvagens”

personagens - Romina

Imagine descobrir no dia do seu casamento que aquele que agora é seu marido já estava te traindo e que ainda convidou o affair para a cerimônia? Esse horror se abate sobre Romina que reage como o turbilhão que se espera do sangue latino. Romina grita, dança, transa com o cozinheiro e faz muito, mas muito mais para exorcizar os fantasmas passados. Ah, se soltássemos mais vezes a Romina que existe em todos nós…

4 – Mason (Ellar Coltrane) em “Boyhood – da infância à juventude”

personagens  - Mason

Ver um personagem crescer no mesmo compasso que o ator que o interpreta foi uma experiência nova que 2014 proporcionou aos cinéfilos. Mason é um garoto como outro qualquer e podemos observar sua formação pelos olhos sempre carinhosos do cineasta Richard Linklater. Mas um garoto qualquer, como todos nós sabemos, vive momentos extraordinários.  Por mais comuns que eles sejam.

3 – Nick Dunne (Ben Affleck) em “Garota exemplar”

personagens  - Nick Dunne

A escolha óbvia seria listar Amy, a mulher de Nick que some no quinto aniversário de casamento deles. Mas se Amy vai se revelando fascinante com o tempo, Nick exala normalidade tremulante conforme o filme avança. No entanto seu aspecto banal é posto à prova à medida que a suspeita de que matou sua esposa vai se consolidando. Das escolhas que faz à representação de sua melhor versão, Nick é um enigma à altura de Amy. Ou vice-versa.

2 – Jordan Belfort (Leonardo DiCaprio) em “O lobo de Wall Street”

personagens  - jordan

Como um implacável lobo das finanças, Belfort é o único personagem da lista que tem ascendência na realidade. Carismático, profano, competitivo e extremamente perspicaz, Belfort faz o crime parecer algo menor do que de fato é. Essa malemolência o distingue como um tipo singular em nossa sociedade, que nos desperta misto de desprezo e admiração, e o torna necessário a Wall Street como o oxigênio é para nossa sobrevivência.

1 – Lou Bloom (Jake Gyllenhaal) em “O abutre”

Fotos: divulgação

Fotos: divulgação

Com um visual perturbador e uma atitude que, aos poucos, vai se revelando sociopata , Bloom é o personagem do ano pela urgência que nos aflige a investigá-lo dentro de nós mesmos e pelo horror que nos enseja quando finalmente o fazemos. Diferente de Belfort, que é real, Bloom é uma alegoria de nossa vergonha; e como tal é acachapante.

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quarta-feira, 24 de dezembro de 2014 Atrizes, Fotografia, Listas | 06:16

Dez atrizes em dez fotos sensuais de 2014

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Jessica Paré em foto para a Esquire Dicas de filme: "Assunto de meninas" (2001) e "Paixão À flor da pele"

Jessica Paré em foto para a Esquire
Dicas de filme: “Assunto de meninas” (2001) e “Paixão À flor da pele”

Rashida Jones em foto para a GQ Dicas de filmes: "Celeste e Jesse para sempre" (2011) e "A rede social" (2010)

Rashida Jones em foto para a GQ
Dicas de filmes: “Celeste e Jesse para sempre” (2011) e “A rede social” (2010)

Lake Bell para a Esquire  Dicas de filmes: "Uma boa e velha orgia" (2011) e "Terror na ilha" (2012)

Lake Bell para a Esquire
Dicas de filmes: “Uma boa e velha orgia” (2011) e “Terror na ilha” (2012)

Margot Robbie para a W Dica de filme: "O lobo de Wall Street" (2013)

Margot Robbie para a W
Dica de filme: “O lobo de Wall Street” (2013)

Cameron Diaz para a Esquire Dicas de filmes: "O conselheiro do crime" (2013) e "A caixa" (2009)

Cameron Diaz para a Esquire
Dicas de filmes: “O conselheiro do crime” (2013) e “A caixa” (2009)

Kren Junqueira para a revista Status Dica de filme: "A pelada" (2013)

Karen Junqueira para a revista Status
Dica de filme: “A pelada” (2013)

Evangeline Lilly para a Esquire  Dicas de filmes: "Depois de partir" (2007) e "Gigantes de aço" (2011)

Evangeline Lilly para a Esquire
Dicas de filmes: “Depois de partir” (2007) e “Gigantes de aço” (2011)

Lizzy Caplan para a GQ Dica de filme: "Quatro amigas e um casamento"

Lizzy Caplan para a GQ
Dica de filme: “Quatro amigas e um casamento”

Sarah Gadon para a W Dica de filme: "Cosmópolis" (2012)

Sarah Gadon para a W
Dica de filme: “Cosmópolis” (2012)

Scarlett Johansson para a Esquire  Dicas de filmes: "Lucy" (2014) e "Ela" (2013)

Scarlett Johansson para a Esquire
Dicas de filmes: “Lucy” (2014) e “Ela” (2013)

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Atores, Curiosidades, Listas | 05:26

Retrospectiva 2014 – As melhores atuações masculinas do ano

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Jonah Hill (“O lobo de Wall Street”)

Atores - Jonah

Os olhos esbugalhados, a ansiedade extrapolada como quem está à beira de um infarto e o humor perverso de Donnie Azoff, o braço direito do lobo de Wall Street, são alguns dos cacoetes geniais bancados por Jonah Hill, ator que quando quer mata a cobra e mostra o pau (literalmente, no caso aqui). Hill recebeu sua segunda indicação ao Oscar em três anos pelo papel. Coisa que muito ator mais valorizado não tem para botar no currículo. Não é pouca coisa.

Michael Fassbender (“12 anos de escravidão”)

Atores  - Michael

Esse alemão de ascendência irlandesa é um ponto fora da curva. Astro tardio, combina carisma e talento em escalas sempre surpreendentes. Como a encarnação do mal no filme de Steve McQueen, ele tergiversa a humanidade do senhor de escravos que interpreta ao sublinhar o desespero de um homem apaixonado por sua escrava e sem saber o que fazer com o sentimento que nutre por um “objeto”.

Leonardo DiCaprio (“O lobo de Wall Sreet”)

Atores - leo

Voraz, dínamo sexual, zombeteiro, esperto, chocante e, acima de tudo isso, nauseante. Este é Leonardo Dicaprio, à imagem e semelhança do biografado nesta obra-prima moderna de Martin Scorsese que é “O lobo de Wall Street” (alguma dúvida de que o filme figurará na lista de melhores do ano da coluna?). DiCaprio atinge as notas mais altas de uma carreira cheia de grandes arranjos ao compor um homem alucinado e banhado na cobiça exacerbada de um conceito de vida que tem seus ciclos. E ele quer estar no topo de todos eles.

Joaquin Phoenix (“Ela”/ “Era uma vez em Nova York”)

Joaquin 3

Phoenix é daqueles atores que nos faz levantar os braços para os céus e agradecer a Deus, orixás ou qualquer energia e presença que deva ser agradecida por tamanho talento. Praticamente todo filme que estrela entra na lista de melhores do ano e suas atuações, bem, suas atuações são sempre revigoradas, cheias de vida, detalhes e profundamente conectadas com a verdade buscada pelo roteiro. É assim em “Ela”, misto de romance e ficção científica imaginado por Spike Jonze, e em “Era uma vez em Nova York”, saga desromantizada do sonho americano alçada por James Gray – com quem Phoenix habitualmente colabora. Trabalhos em diferentes tons e compassos, mas dotados da mesma obstinação e fervura.

Jake Gyllenhaal (“O abutre”/”O homem duplicado”)

Jake 3

Jake Gyllenhaal rejeitou a alcunha de astro para viver o cinema. Essa experiência tem sido recompensadora para ele e para o público. Em 2014, o ator estrelou dois dos filmes mais instigantes, desafiadores e reflexivos da temporada. Gyllenhaal vai se revelando ator de muitos recursos e gana. Se perdeu peso e mergulhou na sociopatia de seu personagem em “O abutre”, em “O homem duplicado” foi fundo no jogo de espelhos proposto pela obra de Saramago. Um ator sem medo de tatear o desconhecido.

Jesuíta Barbosa (“Praia do futuro”)

Atores - Jesuíta

Jesuíta Barbosa é um poço de talento e um ímã tão poderoso que o gigante Wagner Moura parece um acessório de cena em “Praia do futuro”. Esse dom natural é temperado com uma expressividade corporal e sentimental que poucos atores, brasileiros ou estrangeiros, dispõem. Barbosa tem pouco tempo em cena no filme, mas a lembrança de sua passagem é das mais perenes.

Matthew McConaughey (“Clube de Compras Dallas”/ “O lobo de Wall Street”)

Fotos: divulgação

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É até chato falar da reinvenção de Mathhew McConaughey e blá, blá, blá. Mas o signo de McConaughey paira sobre 2014. Na TV, o assombro que foi sua participação em “True Detective”. O Oscar, justíssimo, por “Clube de Compras Dallas” dispensa defesas sobre sua figuração nesta lista. Mas se você quer medir um grande ator o desafie a superar a participação de cinco minutos de Matthew McConaughey em “O lobo de Wall Street”. É de dar desarranjo em muito ator discípulo do método de Lee Strasberg.

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Notícias | 04:21

Jena Malone e Riley Keough farão casal lésbico em “Lovesong”

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Foto: divulgação

A atriz Jena Malone segue fazendo escolhas interessantes
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O novo filme da diretora sul-coreana So-Yon King, cuja curta filmografia privilegia os encontros e desencontros da vida afetiva, será “Lovensong”. A trama vai acompanhar duas grandes amigas que improvisam uma viagem a pedido da jovem filha de uma delas e, durante essa jornada, se descobrem apaixonadas uma pela outra. Uma delas, porém, está passa se casar com quem considera ser o homem de sua vida.

Riley Keough  (Foto: Wikipedia)

Riley Keough
(Foto: Wikipedia)

As protagonistas serão vividas por Jena Malone, que pôde ser vista recentemente em “Jogos vorazes: a esperança – parte 1”, mas que costuma frequentar filmes mais alternativos como “Na natureza selvagem” (2007), e Riley Keough, que esteve nos hits indies “The Runaways – garotas do rock” (2010) e “Magic Mike” (2012).

No primeiro filme de King, “In between days” (2006), ainda sem distribuição no Brasil, uma imigrante sul-coreana no Canadá experimenta os dramas e desafios de viver em um novo país no mesmo compasso em que se descobre apaixonada pela primeira amiga que faz no Canadá.

Essa abordagem francamente original, oxigenada e sempre surpreendente é uma das marcas do cinema de So-Yon King e tudo indica que “Lovesong” deve reforçar essa realidade. O filme começa a ser rodado em março de 2015 e a ideia é lança-lo no festival de Sundance de 2016.

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terça-feira, 23 de dezembro de 2014 Atrizes, Listas | 05:40

Retrospectiva 2014 – As melhores atuações femininas do ano

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Jennifer Lawrence (“Trapaça”)

Atrizes - J. Law

Aos 24 anos, Jennifer Lawrence é essa explosão de talento a qual não se consegue desviar os olhos. Em “Trapaça” ela entrega a melhor atuação de uma carreira que vai se desenhando com ótimos desempenhos. Na pele de uma mulher bipolar, ela exagera, transborda, caricatura e captura a verdade de uma personagem que é uma montanha russa emocional, ou como o vigarista vivido por Christian Bale tão bem classifica: “o Picasso do karatê passivo-agressivo”.

Amy Adams (“Trapaça”)

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Se Lawrence é a combustão do filme de David O. Russell, Amy Adams é o coração da obra. Vulnerável, mas poderosa, a atriz responde pelos momentos mais tenros e genuínos do filme. Adams entende a busca de sua personagem e a coloca como prioridade absoluta de uma composição cheia de detalhes, gestos e uma sensualidade triste como pouco se viu no cinema.

Scarlett Jonhansson (“Sob a pele”)

Atrizes - scarlett

Como representar um alienígena em uma ficção científica que visa desconstruir nossa humanidade? Não é uma resposta fácil, mas o desempenho de Scarlett Johansson – que teve um 2014 para marcar na memória – é o mais próximo de uma resposta que poderemos tatear. Johansson alterna naturalismo e nonsense para construir uma não-personagem. Das coisas mais fascinantes que um intérprete (homem ou mulher) apresentou neste ano.

 

Marion Cotillard (“Era uma vez em Nova York”)

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Cotillard é daquelas atrizes que se impõe em qualquer lista. Aprendeu polonês para o filme de James Gray, mas parece que já nasceu falando, tamanha a emoção expressa no idioma. O inglês, que domina com tranquilidade, sai cheio de hesitação e dor para dar viço à imigrante polonesa que passa maus bocados quando chega a Nova York fugindo da segunda guerra. Um trabalho notável em todos os aspectos possíveis e imagináveis.

Deborah Secco (“Boa sorte”)

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Deborah Secco, há quem diga, ainda tem que comer muito arroz e feijão para que uma comparação com Fernanda Montenegro possa ser aventada. Mas fica o registro. Deborah caminha a passos largos para ir além, como comprovam suas incursões no cinema. Em ‘Boa sorte”, a aparência franzina é o que menos impressiona. Os vestígios de uma mulher enamorada da morte, mas cheia de vida são o cartão postal de uma grande atriz em construção.

Kim Dieckens (“Garota exemplar”)

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Não é comum vermos detetives duronas no cinema atual. David Fincher e Gillian Flynn, as mentes por trás de “Garota exemplar” deram a oportunidade para que Kim Dieckens nos fizesse lamentar essa realidade. Dieckens, atriz pouco conhecida, não desperdiçou a chance. Ela entrega uma composição saborosa de uma policial honesta, focada e com o senso de humor exato para lidar com a investigação escabrosa que cruza o seu caminho.

Rosamund Pike (“Garota exemplar”)

Fotos: divulgação

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O papel de Amy Dunne exigia uma atriz capaz de comedimento e hipérbole. Não são todas as atrizes que conseguem conjugar isso em um mesmo registro cênico. Palmas para Pike que deve crescer e aparecer em Hollywood depois de brilhar (e muito) em “Garota exemplar”.

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segunda-feira, 22 de dezembro de 2014 Críticas, Filmes | 06:00

“O abutre” fustiga e examina odores da sociopatia pós-moderna

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Existem filmes que nascem de outros filmes e filmes que nascem da necessidade de expandir a reflexão ensejada por outros filmes. “O abutre”, primeiro filme dirigido por Dan Gilroy, cujos créditos como roteirista compreendem “O legado Bourne” e “Gigantes de aço”, é um desses casos.

A primeira vez que pousamos os olhos sobre Louis Bloom (Jake Gyllenhaal) ele está por roubar uma grande quantidade de fio de cobre. Entre essa cena e a cena seguinte, em que ele tenta vender o material coletado, acontece algo que sugere que o personagem está disposto a cruzar limites moralmente estabelecidos na busca pela sobrevivência. Sem emprego e com tempo ocioso, Bloom acaba se interessando pela atividade de nightcrawler, que na falta de uma definição correspondente no Brasil, seria um cinegrafista freelancer que fica ouvindo a frequência da polícia à cata de ocorrências que possam interessar aos primeiros jornais da manhã. Bloom se diz alguém que aprende rápido e ao vê-lo em ação, o espectador não discorda. É um personagem com ecos do Travis Bickle de Robert De Niro em “Taxi Driver” e “O abutre” é um filme que ecoa outras grandes produções que se predispunham a discutir os limites do jornalismo como “O quarto poder” e “Rede de intrigas”. A fusão dessas suas forças cinematográficas resulta em um filme assustador no que radiografa de nossa sociedade.

Os fins justificam os meios ou os meios levam a um diferente fim? Louis Bloom é a dor de dente da sociedade em "O abutre"

Os fins justificam os meios ou os meios adotados levam a um diferente fim? Louis Bloom é a dor de dente da sociedade em “O abutre”

Bloom vai se destacando no ofício e conseguindo material cada vez mais “sangrento” como define a produtora de um jornal matutino (Rene Russo) com quem Bloom desenvolve uma estranha e complexa conexão. Os jornais locais, expõe Bloom após pesquisar a respeito, constroem sua audiência em cima do noticiário urbano, majoritariamente dedicado às ocorrências policiais. Se você pensou em “Cidade alerta” e congêneres acertou o nervo que Bloom fica obsessivo em pressionar.

Com o tempo, a moral passa a ser uma nuvem carregada sobre a cabeça de Bloom que parece não hesitar em interferir em cenas de acidentes ou manipular situações para conseguir ângulos melhores para vender. “Se você está me vendo, é porque está tendo o pior dia da sua vida”, diz em certo momento em um misto de autopromoção profissional e escárnio.

Girloy, que assina o surpreendente roteiro, não faz de Bloom um vilão. Mas um produto do seu meio. No entanto, o cineasta provoca uma inflexão. A obstinação de Bloom, seu faro para a amoralidade, para o grotesco, não indicam o contrário? O sucesso galopante do novato não indica ser ele capaz de fazer do meio um produto seu? Em dado momento, acuado por seu funcionário Rick (Riz Ahmed) Bloom faz uma admissão tenebrosa: “ e se não for o caso de eu não entender as relações humanas, mas simplesmente não gostar das pessoas?”.

Empatia, asco e necessidade de sobrevivência são os três pilares que sustentam a relação dos personagens de Russo e Gyllenhaal  (Fotos: divulgação)

Empatia, asco e necessidade de sobrevivência são os três pilares que sustentam a relação dos personagens de Russo e Gyllenhaal
(Fotos: divulgação)

Pincelado nas sombras e na marginalidade da sociedade, Bloom é a personificação da sociopatia pós-moderna. O patrocinador dessa anestesia emocional mitigada por uma sociedade que sensacionaliza e se deixa sensacionalizar. Gyllenhaal, por sua vez, é o fiador desse retrato perturbador. O ator perdeu onze quilos para o papel e deixou os ossos da face bem sobressaltados. Os olhos verdes frequentemente arregalados contribuem para a aparência incômoda do personagem, que realmente nas pequenas atitudes do dia a dia lembra um abutre, na acepção carniceira do termo. Além da fisicalidade da atuação, Gyllenhaal aposta em nuanças que tornam Bloom um enigma desestabilizador para a plateia. Uma performance que conjuga coragem e expertise em uma escala que aumenta a potência de “O abutre” enquanto cinema.

“O abutre” está menos interessado em discutir os padrões e limites da mídia, embora a discussão esteja ali, implícita na relação entre a produtora e o editor-chefe do jornal que parece não ter voz ativa, e mais na perversão do sonho americano (e o final do filme traz uma fala que agrega sentido estupendo a essa percepção) e na relação doentia que travamos com o próximo.

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domingo, 21 de dezembro de 2014 Curiosidades, Listas | 06:08

Retrospectiva 2014 – As dez personalidades do ano no mundo do cinema

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O ano de 2014 foi movimentado para muitos astros, estrelas e personalidades do cinema. Prêmios, casamentos, escândalos e filmes. Teve de tudo em 2014! O Cineclube passou o pente fino e apresenta as dez personalidades que mais se destacaram no ano que se despede.

 

10 – Amy Pascal

Amy Pascal em foto tirada antes de falar mal de Angelina Jolie Foto: Getty

Amy Pascal em foto tirada antes de falar mal de Angelina Jolie
Foto: Getty

Não é todo dia que uma chefe de estúdio, no caso a única mulher a presidir um estúdio de cinema, figura em uma lista como essa. Mas Amy Pascal, conhecida por ser uma prospectora de talentos tão sagaz quanto executiva impiedosa, se viu no epicentro do escândalo já chamado de sonygate. Nos documentos e e-mails vazados por hackers norte-coreanos como retaliação à Sony por produzir o filme “A entrevista”, Pascal fala mal de Leonardo DiCaprio, Denzel Washington, Angelina Jolie, entre outros. Além de fazer piadas de teor racista envolvendo o presidente Obama.

9 – George Clooney

Um 2014 sem filmes para Clooney e mesmo assim histórico Foto: divulgação/Nespresso

Um 2014 sem filmes para Clooney e mesmo assim histórico
Foto: divulgação/Nespresso

Ele não estrelou nenhum filme em 2014. Mas o casamento de George Clooney, até então incensado como o solteiro mais cobiçado do planeta, foi um evento ímpar. O cerimonial durou cinco dias, contou com a presença de diversas personalidades e mobilizou a imprensa mundial. Um novo comercial do Nespresso e intervenções frequentes pela paz no Sudão do Sul também estiveram entre os destaques de Clooney que encerrou as gravações de “Tomorroland” este ano e anunciou que fará um filme sobre o escândalo das escutas bancadas pelo finado tabloide News of the World.  Mas quem se importa? Afinal de contas, 2014 marcou o fim da solteirice de seu maior ícone.

 

8 – Christopher Nolan

Nolan observa o horizonte: tempos difíceis para o cineasta de mais liberdade em Hollywood se aproximam Foto: Getty

Nolan observa o horizonte: tempos difíceis para o cineasta de mais liberdade em Hollywood se aproximam
Foto: Getty

Ele talvez seja o diretor que mais provoca polarização e no ano em que lançou um de seus mais ambiciosos projetos, a ficção científica “Interestelar”, essa divisão ficou bem clara. Nolan não repetiu o sucesso de crítica ou mesmo a bilheteria que se habituou a produzir, mas continuou sendo um dos mais significativos ases do mundo do entretenimento, como bem definiu a revista Time em reportagem de capa que fez com o cineasta britânico.

 

7 – Matthew McConaughey

Um ano alright alright alright para o ator que parece não saber mais fazer filme ruim. Ops! Alguém pensou em "Interestelar"?  Foto: Getty

Um ano alright alright alright para o ator que parece não saber mais fazer filme ruim. Ops! Alguém pensou em “Interestelar”?
Foto: Getty

Ele ganhou o Oscar e todos os outros prêmios possíveis e imagináveis por sua atuação em “Clube de compras Dallas”. Bastaria para McConaughey se credenciar a esta lista, mas o ator ainda esteve em outros dois filmes muito comentados no ano. “O lobo de Wall Street” e “Interestelar”. Não era possível ignorar.

 

6 – Scarlett Johansson

Johanson elevou o girl power a outro patamar em 2014 e isso não tem nada a ver com o fato de devorar homens em "Sob a pele" Foto: reprodução/SodaStream

Johanson elevou o girl power a outro patamar em 2014 e isso não tem nada a ver com o fato de devorar homens em “Sob a pele”
Foto: reprodução/SodaStream

Nenhuma atriz foi tão onipresente em 2014 como Scarlett Johansson. Depois de ser ver envolvida em uma inusitada intriga envolvendo Israel e uma marca de refrigerantes, a atriz apareceu em um blockbuster hollywoodiano (“Capitão América – o soldado invernal”), em uma ficção científica casca grossa (“Sob a pele”) e assumiu sua vocação de heroína em “Lucy”, o filme totalmente original mais rentável de 2014. Virou mamãe também. E se casou. Ufa! Ah, e pela primeira vez na carreira, Scarlett Johansson fez um nu frontal no cinema. Mas não foi por isso que ela entrou na lista, ok?

 

5- Richard Linklater

Richard Linklater pensando o cinema fora de sua caixinha habitual Foto: reprodução/L.A Times

Richard Linklater pensando o cinema fora de sua caixinha habitual
Foto: reprodução/L.A Times

Vanguardista por vocação, o cineasta foi além do que os entusiastas de seu cinema criam possível em 2014. Bem, na verdade, em 2014 ele apenas lançou um dos projetos mais ambiciosos da história do cinema. “Boyhood – da infância à juventude” não é apenas um dos filmes mais belos e significativos do ano, é um novo paradigma cinematográfico.

 

4- Angelina Jolie 

Angelina Jolie brilhando em todas as frentes possíveis em 2014 Foto: reprodução/The Hollywood Reporter

Angelina Jolie brilhando em todas as frentes possíveis em 2014
Foto: reprodução/The Hollywood Reporter

Angelina Jolie recebeu quase U$ 30 milhões para estrelar “Malévola”. Mas seu carisma incomparável garantiu à produção da Disney uma bilheteria de mais de U$ 800 milhões internacionalmente. Mais do que qualquer super-herói arrecadou no ano. Não obstante, Angelina ainda lança seu segundo filme como diretora no apagar das luzes de 2014. O nome do filme? “Invencível”. Mas sem trocadilhos espertos, por favor!

 

3 – Shailene Woodley

Shailene já provoca apreensão nos fãs de Jennifer Lawrence. Por que será?  Foto: reprodução/ Gloss

Shailene já provoca apreensão nos fãs de Jennifer Lawrence. Por que será?
Foto: reprodução/ Gloss

No futuro, talvez, 2014 seja lembrado como o ano em que Shailene Woodley se apoderou da cultura pop. A atriz esteve à frente do elenco de dois hits do ano. As adaptações de best-sellers infanto-juvenis “A culpa é das estrelas” e “Divergente”. Não obstante, ainda estrelou a produção independente “Pássaro branco na nevasca” e tem gente que já fala em indicação ao Oscar. Te cuida J. Law!

 

2 – Michael Keaton

Keaton com seu look "Oscar vem ni mim": ressurgido das cinzas hollywoodianas Foto: divulgação

Keaton com seu look “Oscar vem ni mim”: ressurgido das cinzas hollywoodianas
Foto: divulgação

Esse certamente estará no Oscar de 2015. Se marcará presença na nossa lista do ano que vem, porém, é uma incógnita. Mas se julgarmos pelo 2014 de Keaton, as chances estão em seu favor. O ator retirou-se do ostracismo e colhe elogios pelo filme “Birdman”, mas já sinalizava essa ressureição com a sátira de Steve Jobs que tirou da cartola no “Robocop” assinado por José Padilha. Em “Need for Speed – o filme” salvou a fita do marasmo e mostrou que ainda tem muita lenha para queimar em Hollywood.

1 – Lars Von Trier

Foto: Divulgação

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Não se falava em outra coisa no início do ano que não a bendita ninfomaníaca de Lars Von Trier. Dividido em dois tomos, o corte do diretor foi exibido no Brasil em outubro na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. “Ninfomaníaca” é tudo o que se pode esperar de Von Trier. Provocador, contraditório, hermético e anticlimático. O dinamarquês, que havia prometido jamais conceder outra entrevista após o fatídico episódio envolvendo Hitler em Cannes, disse a uma jornal dinamarquês que receia não mais fazer filmes no futuro. Von Trier está preocupado com o impacto que a sobriedade pode ter sobre sua verve criativa. O cineasta que revelou ser viciado em drogas lícitas e ilícitas filosofou: “Nenhuma expressão criativa com valor artístico foi criada por ex-adictos”. O paradoxo de Von Trier o eleva ao primeiro posto desta lista.

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Críticas, Filmes | 01:32

Keanu Reeves adota a filosofia do menos é mais em “De volta ao jogo”

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Vamos tirar o elefante da sala. Keanu Reeves não é um bom ator. Se bem dirigido, como em filmes como “Advogado do Diabo” pode render bem. Do contrário, salva-se a bela estampa e o carisma de um astro que não só soube se promover, como perseguir rumos distintos em uma carreira com alguns altos, outros baixos e muita personalidade. “De volta ao jogo” se encaixa neste contexto como uma reinvenção, mas também um atestado de maturidade de Reeves como intérprete. Adjetivos incomuns de serem empregados para uma fita de ação old school dirigida por dois sujeitos desconhecidos (David Leitch e Chad Stahelski) que até outro dia eram coordenadores de dublês.

Foto: divulgação

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Em “De volta ao jogo”, Reeves é John Wick. Um sujeito com um passado ligado ao crime organizado que se reinventou como marido dedicado. Após a morte da esposa e uma combinação tão improvável quanto infeliz de circunstâncias, ele acaba partindo em busca de reparação contra antigos colegas de serviço. “De volta ao jogo” se difere da média do cinema de ação habitual por não estilizar suas cenas de ação. O que não quer dizer que elas não sejam impactantes em sua brutalidade seca e cortante. Tampouco investe em um protagonista verborrágico e aí entra Keanu Reeves. Como esse anti-herói amargurado, movido por uma dor emocional que se alimenta dos ferimentos físicos que vão surgindo, Reeves tem seu melhor momento como ator. Com uma linguagem corporal pulsante, olhar surpreendentemente expressivo e apostando em um minimalismo ímpar no gênero, o ator se fia como o principal atrativo de um filme muito bem resolvido, com um humor tão peculiar quanto certeiro e que guarda bem-vindas semelhanças com outra boa fita de ação do ano, “O protetor” – estrelado por Denzel Washington.

Leia também: Denzel Washington vive sua versão de super-herói em “O protetor”

Apostando na economia narrativa, filme e ator saem ganhando. O público, claro, é quem lucra mais nessa história toda.

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