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sábado, 20 de dezembro de 2014 Análises, Bastidores, Curiosidades | 05:27

Coreia do Norte e Hollywood: um caso de desamor

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O King Jong-Un, vivvido pelo ator Randall Park, de "A entrevista": filme que enseja o clímax de uma relação de desdém que já se intensificava

O King Jong-Un, vivido pelo ator Randall Park, de “A entrevista”: filme que enseja o clímax de uma relação de desdém que já se intensificava

Reza a lenda que King Jong-Un, o líder supremo e excêntrico da Coreia do Norte tão em voga atualmente, herdou de seu pai, King Jong-il, o gosto pelo cinema. Além da amizade com o ex-astro do basquete Dennis Rodman, ele seria fã de Keanu Reeves e um tremendo Bondmaníaco. Seu pai ainda ocupava o poder quando o 007 de Pierce Brosnan enfrentou um lunático norte-coreano que desejava dominar o mundo em “007 – Um novo dia para morrer” (2002), aquele em que Madonna canta a música tema e dá aulas de esgrima.

O filho pode não ter o senso de humor do pai ou mesmo a tolerância à sátira, mas já era o supremo mandatário do País quando Hollywood acertou outro petardo contra o status quo norte-coreano. O diretor Antoine Fuqua (“Dia de treinamento” e “O protetor”) lançou em abril de 2013, em plena tensão na península coreana que movimentou a geopolítica da região e pôs o mundo em alerta com as ameaças de King Jong-Un em lançar mísseis contra Japão, Coreia do Sul e EUA, o filme “Invasão a Casa Branca”, que ficou inexplicavelmente sem a crase. Na trama, Gerard Butler faz um agente do serviço secreto que move mundos e fundos para resgatar o presidente dos EUA (Aaron Eckhart) feito refém de terroristas norte-coreanos que invadiram em questão de minutos, de maneira cinematográfica, o maior símbolo do poder ocidental.

Como curiosidade, um dos terroristas do filme é vivido pelo mesmo Rick Yune que faz um dos vilões de “Um novo dia para morrer”. Talvez King Jong-Um não tenha se incomodado tanto com “Invasão a Casa Branca”, porque embora os coreanos sejam derrotados, em nenhum outro filme hollywoodiano terroristas tinham ido tão longe na destruição do símbolo máximo do poder ianque. “Independence Day” (1996), por razões óbvias, não conta.

Especulações à parte, a Coreia do Norte vinha superando a Rússia – desde a eclosão da Guerra Fria a tradicional nação vilã nos filmes hollywoodianos – no antagonismo geopolítico do cinemão.

Leia mais: “É loucura deixar a Coreia do Norte ditar o conteúdo”, diz Clooney

O primeiro indício dessa tendência estava em “Salt”, (2010), fita de ação estrelada por Angelina Jolie, em que ela faz uma agente da CIA acusada de ser uma espiã russa. O detalhe? O filme começa com Jolie sendo torturada em uma prisão norte-coreana.

Rick Yune, o maior terrorista norte-coreano de Hollywood, encara Aaron Eckhart em "Invasão a Casa Branca"

Rick Yune, o maior terrorista norte-coreano de Hollywood, encara Aaron Eckhart em “Invasão a Casa Branca”

Halle Berry se une ao James Bond de Pierce Brosnan para impedir seguir o rastro de Rick Yune no filme de 2002

Halle Berry se une ao James Bond de Pierce Brosnan para seguir o rastro de Rick Yune no filme de 2002

A mira na Coreia à espera da recíproca

Um filme obscuro de 1984 com Charlie Sheen e Patrick Swayze sobre um grupo de estudantes que é a última resistência à invasão soviética em solo americano ganhou uma refilmagem em 2011. A ideia era trocar os russos pelos chineses. Com o filme pronto, o estúdio MGM percebeu que a Coreia do Norte, pelo exotismo e pelo mistério, daria um antagonista melhor e deu mais U$ 1 milhão para o diretor Dan Bradley redublar os vilões, mudar uns símbolos aqui e ali e fazer com que chineses virassem norte-coreanos. O filme estreou em 2013, um ano após “Os vingadores” e se beneficiou de Chris Hemsworth, que quando rodou o filme era um ilustre desconhecido, ser um astro famoso por viver o herói Thor.

Outro blockbuster hollywoodiano elegeu a Coreia do Norte como alvo. Em “G.I Joe: Retaliação”, um farsante que se passa pelo presidente dos EUA diz que bombardeará a Coreia do Norte “15 vezes seguidas só para ter certeza”. Trata-se de uma piada, de gosto duvidoso, mas uma piada. Piada esta que o filme “A entrevista” eleva à décima potência. O filme, cujo roteiro foi escrito a partir de uma ideia de Seth Rogen e Evan Goldberg (eles escreveram perolas da cultura pop como “Superbad – é hoje” e “Segurando as pontas”), mostra dois jornalistas despirocados que recebem da CIA a missão de assassinar King Jong-Un.

A Coreia do Norte já havia condenado o filme, mas negado com veemência qualquer participação nos cyber ataques contra o estúdio Sony. O FBI confirmou nesta sexta-feira (19) que o governo da Coreia do Norte teve papel central nas ofensivas contra a Sony.

Leia mais: Obama diz que Sony “cometeu um erro” ao cancelar estreia de “A entrevista”

Veja também: FBI diz que Coreia do Norte está por trás de ataque de hackers contra a Sony

Ainda é incerto o desfecho deste imbróglio que rapidamente se transformou em um vexatório episódio de cerceamento à liberdade de expressão e caminha para se assumir como o incidente diplomático que desde os primeiros ataques hackers estava destinado a ser. A Sony, naturalmente, estuda estratégias de capitalizar com toda a repercussão que “A entrevista” vem recebendo. O lançamento em plataforma digital, como foi aventado aqui neste Cineclube minutos depois da confirmação de que “A entrevista” não seria lançado nos cinemas americanos, ganha força como alternativa para o estúdio e para a restituição de algumas bases da liberdade de expressão. Após a fala de Obama, do posicionamento do FBI e de toda a agitação diplomática que deve se suceder, mesmo um lançamento em cinema não pode ser descartado.

Seth Rogen, que também dirige o filme, orienta James Franco e sua versão de King Jong-Um

Seth Rogen, que também dirige o filme, orienta James Franco e sua versão de King Jong-Un

O pai de King Jong-Um era o grande vilão da sátira "Team America": ele não achou ruim... (Fotos: divulgação)

O pai de King Jong-Un era o grande vilão da sátira “Team America”: ele não achou ruim…
(Fotos: divulgação)

A reação de Hollywood como um todo tem sido de espanto, incredulidade e receio pelo que a decisão da Sony pode representar nas esferas artística, comercial e democrática. O Sonygate, como já vem sendo carinhosamente chamado todo esse imbróglio, certamente já é mais interessante do que qualquer filme hollywoodiano da temporada.

De qualquer forma, vale o registro de que em 2004 os criadores de “South Park”, Trey Parker e Matt Stone, lançaram “Team America: detonando o mundo”, filme em que uma equipe tática formada por policiais americanos tenta salvar o mundo de uma violenta conspiração terrorista liderada por King Jong-il. George Clooney, Matt Damon e Ethan Hawke foram algumas das estrelas entre o time de dubladores das marionetes.

Eram outros tempos. Talvez King Jong-Un seja mais ambicioso que seu pai. Rejeitou qualquer traço de humor, superou os russos do lado de cá das telas e resolveu medir forças de verdade com Hollywood. Por enquanto, para infortúnio de quem se atém a valores democráticos e gosta de cinema, ele está ganhando.

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4 comentários | Comentar

  1. 54 O.Coimbra 20/12/2014 8:56

    O comentário é tendenciosos e anfibológico. Tenta eufemisticamente atingir o governo coreano, mas acovardado disfarça e por isso se torna ineficaz no seu prepósito. A Coreia do Norte sempre foi e será uma espinha de garganta àqueles que veneram os EUA sem ponderar entre o bem e o mal que a política americana provoca no mundo.

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  2. 53 Geraldo Maia 20/12/2014 8:34

    Qual seria a reação dos americanos caso algum cineasta estrangeiro resolvesse retratar nas telas a atuação deles no mundo, não com a visão heroica que Hollywood mostra, mas mostrando todo o terrorismo americano para manter o mundo sob o seu domínio. Será que um filme assim seria bem acolhido pelos americanos? Entraria na lista anual do Oscar?

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  3. 52 Antonio Carlos de Souza 20/12/2014 8:02

    – O triste nisto tudo, é que sempre Holytrashwood, serve de ponta de lança, para manipular informações e utilizar a tela, para enganar a sociedade como um todo. Lastimável…

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  4. 51 Luizdematoguerra 20/12/2014 7:36

    Só faltou a turma do luladrão e seus acflalos corruptos ladrões da Petrobras.

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