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segunda-feira, 22 de dezembro de 2014 Críticas, Filmes | 06:00

“O abutre” fustiga e examina odores da sociopatia pós-moderna

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Existem filmes que nascem de outros filmes e filmes que nascem da necessidade de expandir a reflexão ensejada por outros filmes. “O abutre”, primeiro filme dirigido por Dan Gilroy, cujos créditos como roteirista compreendem “O legado Bourne” e “Gigantes de aço”, é um desses casos.

A primeira vez que pousamos os olhos sobre Louis Bloom (Jake Gyllenhaal) ele está por roubar uma grande quantidade de fio de cobre. Entre essa cena e a cena seguinte, em que ele tenta vender o material coletado, acontece algo que sugere que o personagem está disposto a cruzar limites moralmente estabelecidos na busca pela sobrevivência. Sem emprego e com tempo ocioso, Bloom acaba se interessando pela atividade de nightcrawler, que na falta de uma definição correspondente no Brasil, seria um cinegrafista freelancer que fica ouvindo a frequência da polícia à cata de ocorrências que possam interessar aos primeiros jornais da manhã. Bloom se diz alguém que aprende rápido e ao vê-lo em ação, o espectador não discorda. É um personagem com ecos do Travis Bickle de Robert De Niro em “Taxi Driver” e “O abutre” é um filme que ecoa outras grandes produções que se predispunham a discutir os limites do jornalismo como “O quarto poder” e “Rede de intrigas”. A fusão dessas suas forças cinematográficas resulta em um filme assustador no que radiografa de nossa sociedade.

Os fins justificam os meios ou os meios levam a um diferente fim? Louis Bloom é a dor de dente da sociedade em "O abutre"

Os fins justificam os meios ou os meios adotados levam a um diferente fim? Louis Bloom é a dor de dente da sociedade em “O abutre”

Bloom vai se destacando no ofício e conseguindo material cada vez mais “sangrento” como define a produtora de um jornal matutino (Rene Russo) com quem Bloom desenvolve uma estranha e complexa conexão. Os jornais locais, expõe Bloom após pesquisar a respeito, constroem sua audiência em cima do noticiário urbano, majoritariamente dedicado às ocorrências policiais. Se você pensou em “Cidade alerta” e congêneres acertou o nervo que Bloom fica obsessivo em pressionar.

Com o tempo, a moral passa a ser uma nuvem carregada sobre a cabeça de Bloom que parece não hesitar em interferir em cenas de acidentes ou manipular situações para conseguir ângulos melhores para vender. “Se você está me vendo, é porque está tendo o pior dia da sua vida”, diz em certo momento em um misto de autopromoção profissional e escárnio.

Girloy, que assina o surpreendente roteiro, não faz de Bloom um vilão. Mas um produto do seu meio. No entanto, o cineasta provoca uma inflexão. A obstinação de Bloom, seu faro para a amoralidade, para o grotesco, não indicam o contrário? O sucesso galopante do novato não indica ser ele capaz de fazer do meio um produto seu? Em dado momento, acuado por seu funcionário Rick (Riz Ahmed) Bloom faz uma admissão tenebrosa: “ e se não for o caso de eu não entender as relações humanas, mas simplesmente não gostar das pessoas?”.

Empatia, asco e necessidade de sobrevivência são os três pilares que sustentam a relação dos personagens de Russo e Gyllenhaal  (Fotos: divulgação)

Empatia, asco e necessidade de sobrevivência são os três pilares que sustentam a relação dos personagens de Russo e Gyllenhaal
(Fotos: divulgação)

Pincelado nas sombras e na marginalidade da sociedade, Bloom é a personificação da sociopatia pós-moderna. O patrocinador dessa anestesia emocional mitigada por uma sociedade que sensacionaliza e se deixa sensacionalizar. Gyllenhaal, por sua vez, é o fiador desse retrato perturbador. O ator perdeu onze quilos para o papel e deixou os ossos da face bem sobressaltados. Os olhos verdes frequentemente arregalados contribuem para a aparência incômoda do personagem, que realmente nas pequenas atitudes do dia a dia lembra um abutre, na acepção carniceira do termo. Além da fisicalidade da atuação, Gyllenhaal aposta em nuanças que tornam Bloom um enigma desestabilizador para a plateia. Uma performance que conjuga coragem e expertise em uma escala que aumenta a potência de “O abutre” enquanto cinema.

“O abutre” está menos interessado em discutir os padrões e limites da mídia, embora a discussão esteja ali, implícita na relação entre a produtora e o editor-chefe do jornal que parece não ter voz ativa, e mais na perversão do sonho americano (e o final do filme traz uma fala que agrega sentido estupendo a essa percepção) e na relação doentia que travamos com o próximo.

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1 comentário | Comentar

  1. 51 Amanda Aouad 23/12/2014 0:45

    De fato, é mais sobre o sonho americano, o “chegar lá” do que a mídia. É um homem fazendo de tudo para se dar bem, sem escrúpulos, sem pudor, sem ética, mas de uma maneira muito natural para ele. Um filme que impacta.

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