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domingo, 28 de dezembro de 2014 Análises, Filmes | 16:12

Retrospectiva 2014 – Quais foram os principais temas do cinema no ano?

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Falou-se de amor, claro, em 2014. Mas o cinema recepcionou e abraçou outros temas tão complexos e multifacetados como o amor e outros que se fundem ou se distanciam dele.  Philippe Garrel, a quem coube o espólio da Nouvelle Vague, analisa o amor sob o prisma do ciúme, cuja escala e intensidade dividem opiniões no mesmo compasso em que o dito cujo se manifesta em “O ciúme”. Produções como o chileno “Gloria” abordam o amor sob uma perspectiva incomum. A do amor próprio. Cinquentona, a personagem título do filme, que estreou no Brasil em fevereiro, busca se amar mais, se respeitar mais e se ouvir mais do que se entregar aos homens com quem flerta de quando em quando.

Os brasileiros “Boa sorte” e “Latitudes”, este último um projeto estético tão interessante que merece menção posterior, abordam amores transversais. No primeiro, o encontro do jovem incompreendido que sente que não vive, com a moça cheia de arrependimentos próxima da morte, mas que sente tesão por viver. No segundo, o tempo e o espaço valsam com os sentimentos enquanto os protagonistas vivem uma história de amor não assumida em viagens por diversas cidades do mundo.

Finalmente, “Será que?”, estrelado pelo Harry Potter que cada vez mais vira Daniel Radcliffe, o dilema que assola muitos homens e mulheres. Será que eu e ela ficamos só na amizade mesmo?

O preto e branco frio de "O ciúme": o amor vai ao divã no cinema em 2014

O preto e branco frio de “O ciúme”: o amor vai ao divã no cinema em 2014

Dilema este que parece superado em ‘Os amigos”, outra perola nacional de 2014, que faz um elogio da amizade. Os personagens de Marco Rica e Dira Paes parecem ter superado este dilema. Parecem. Em “Mesmo se nada der certo”, os protagonistas (Keira Knightley e Mark Ruffalo) também parecem interessados um no outro, mas na verdade têm o incrível interesse pela música (e o coração partido) em comum. Dessa afinidade surge um filme que enfatiza a necessidade de se apreciar a vida.

O amor ainda rimou com tecnologia em 2014, com o lançamento de “Ela”, fábula romântica moderna de Spike Jonze. Nossa necessidade de conexão é tão profunda que nos apaixonarmos por um sistema operacional não é uma realidade distante. Assim como não é o debate acerca de drones aventado por José Padilha no remake que fez de “Robocop”. A fusão de homem e máquina e o alvorecer da inteligência artificial também são o cerne de “Transcendence – a revolução”. O filme é ruim, mas a discussão é boa.

Houston, nós temos um problema

Por falar em filme ruim, este foi o ano de “Interestelar”. A produção de Christopher Nolan pode ser ruim, mas não deixa de ser interessante. Além do mais, levou para o cinema a física e colocou teoria da relatividade, buraco de minhoca e outras “doideiras” em discussões de quem nem sequer gosta de ouvir que dois corpos não ocupam o mesmo lugar. A grande sacada de “Interestelar”, talvez, seja a solução desenhada por Nolan subliminarmente. A felicidade deve ser perseguida, mas é uma impossibilidade vivê-la. Woody Allen, de uma maneira completamente diferente, aperta o mesmo nervo em “Magia ao luar”. Allen questiona se vale a pena renunciar ao ceticismo de toda uma vida e abraçar a fé no oculto como forma de conquistar certa paz espiritual. Terry Gilliam também rabisca a física para produzir o mesmo comentário em “O teorema zero”, em que Christoph Waltz enlouquece à espera de um telefonema que lhe revelaria a razão da existência. Já em “Nebraska”, um homem comum, que levou uma vida pacata com mais erros do que acertos, resolve fazer uma longa viagem para resgatar um prêmio que não existe. Essa opção pela ilusão é um comentário certeiro do cineasta Alexander Payne sobre a impossibilidade de se ser feliz e dos mecanismos que desenvolvemos para nos ludibriar. “Trapaça” complementa o ensejado por “Nebraska” ao mostrar personagens que tentam se reinventar enquanto querem mais. Mais vida. Mais amor. Mais sucesso. Mais dinheiro. Mais tudo.

A solidão da hiperconectividade é destaque em "Ela"

A solidão da hiperconectividade é destaque em “Ela”

Já “Refém da paixão”, mostra uma mulher depressiva que começa a se interessar pelo homem que a faz refém em sua casa. Melodrama romântico, o filme de Jason Reitman mostra como o amor ainda é a senha para que muitas pessoas se considerem felizes.

O mesmo Jason Reitman, em “Homens, mulheres e filhos” observou como a internet recodificou algumas angústias humanas. No filme, que de certa forma se comunica com “Ela”, a tecnologia é uma fuga, uma janela para a alma. Mas internamente ainda corroemos.

Relações corroídas entre pais, filhos e irmãos, aliás, também deram o que falar nos dramas mostrados em diferentes intensidades no canadense “Mommy”, no americano “O juiz” e no belo japonês “Pais e filhos”.

 

A intimidade devassada

“Garota exemplar”, seguramente um dos highlights do ano, é um filme com muitas camadas. É o mais brilhante e perturbador retrato sobre o casamento que o cinema viu em muito tempo. É, também, uma crítica espirituosa das traquinagens da mídia e da sociedade do espetáculo. Nesse departamento, outros ótimos filmes lançados em 2014 compõem um panorama ainda mais avassalador. São eles “O abutre”, “Tudo por um furo” e “O mercado de notícias”.

Mas quem aprecia “Garota exemplar” pelo ótimo insight que proporciona sobre o matrimônio merece assistir “O passado”, incursão pelo cinema francês do iraniano Asghar Farhadi.

Ben Affleck em "Garota exemplar": um casamento devassado

Ben Affleck em “Garota exemplar”: um casamento devassado

Os dois filmes investigam os efeitos da passagem do tempo sobre a intimidade conjugal e a passagem do tempo é o parâmetro absoluto de duas obras esteticamente inovadoras que ensolararam 2014. “Boyhood – da infância à juventude” e “Amantes eternos”. O primeiro, filmado ao longo de 12 anos, embaralha realidade e ficção em uma narrativa que transborda sentimento e familiaridade. Já o segundo, mostra o desencanto de dois milenares vampiros com os rumos da humanidade.

Desencanto parece ser a palavra de ordem que une três das produções mais fortes e marcantes do ano. Lá de janeiro, “O lobo de Wall Street”, com sua incorreção política e descaramento em nos falar verdades incômodas, encontra referência em “O abutre” e “Era uma vez em Nova York” no sentido dos três alinharem uma deturpação do sonho americano.

Um tema que se fez notar com desenvoltura rara em 2014 nos cinemas foi a masculinidade. À parte os brucutus de “Os mercenários 3”, o que é ser homem foi a matéria prima de filmes tão diversos como “A recompensa”, com o melhor monólogo sobre um pênis já feito no cinema, e “Tudo por justiça”, em que os códigos masculinos são revistos com interesse antropológico. Já no argentino “O que os homens falam”, a ideia é sublinhar essa tendência masculina de se mostrar mais vulnerável. Esse intento também se verifica em “Praia do futuro”, que erroneamente é percebido apenas como “um filme gay”. Não há uma personagem feminina no filme e o objetivo primário é debater a maneira como o homem, homossexual ou heterossexual, lida com o afeto.

O mundo essencialmente masculino de "O lobo de Wall Street", novo petardo de Martin Scorsese sobre o desvirtuamento do sonho americano

O mundo essencialmente masculino de “O lobo de Wall Street”, novo petardo de Martin Scorsese sobre o desvirtuamento do sonho americano

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2 comentários | Comentar

  1. 52 Robsontr 28/12/2014 21:11

    Não entendí essa de filme ruim para o Interestelar. a nota no IMDB 8,9 não vale? É um filme espetacular, que vai virar cult.

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  2. 51 Kamila Azevedo 28/12/2014 20:20

    Excelente análise, Reinaldo. Cada vez que leio sobre “Garota Exemplar” o arrependimento me vem de não ter assistido a esse filme no cinema!!!!

    Responder
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