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Arquivo de janeiro, 2015

sábado, 31 de janeiro de 2015 Análises, Filmes | 20:00

Briga pelo Oscar toma forma e restam poucas dúvidas

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À medida que a corrida pelo Oscar vai afunilando, as dúvidas vão se dirimindo nas principais categorias. Se nas disputas de atuação elas já eram poucas, no momento se restringem à indagação de quem leva o Oscar de melhor ator: Michael Keaton, por “Birdman”, ou Eddie Redmayne, por “A teoria de tudo”? O primeiro, coleciona mais prêmios na temporada, e conta com o forte hype de ser “o retorno do ano”, algo que sempre pesa junto à Academia de Artes e Ciências de Hollywood. Keaton vive um ator em busca de redenção e isso pode apelar ao voto sentimental de muitos acadêmicos. Por outro lado, Redmayne faz bem algo que é de grande estima dos votantes: interpreta um personagem real, polêmico e brilhante, com problemas físicos e de saúde. A receita do Oscar, brada o lugar comum. Pelo desempenho como Stephen Hawking, Redmayne ganhou, além do Globo de Ouro de melhor ator dramático, o SAG, maior termômetro para as categorias de atuação no Oscar. Keaton, que venceu o Globo de Ouro de ator cômico, também ganhou o Critic´s Choice de melhor ator. Ambos concorrem ao Bafta, em que Redmayne tem ligeira vantagem por ser britânico e interpretar um britânico. Os ingleses tendem a ser mais “bairristas” do que os americanos no que tange prêmios de cinema.

Michael Keaton em cena de "Birdman": momento mágico e de redenção que costuma vingar no Oscar

Michael Keaton em cena de “Birdman”: momento mágico e de redenção que costuma vingar no Oscar

Eddie Redmayne, a despeito da qualidade de sua atuação, defende uma performance que que costuma resultar em prêmios

Eddie Redmayne, a despeito da qualidade de sua atuação, defende uma performance que costuma resultar em prêmios

A balança pode, porém, se desequilibrar em favor de Keaton pela escalada rumo ao favoritismo absoluto usufruído por “Birdman” na categoria principal nas últimas semanas. O filme amealhou vitórias importantes no sindicato dos produtores e no sindicato dos atores. Somadas, as vitórias embalam uma candidatura que pode se beneficiar de falar da própria indústria do cinema em detrimento do “muito geek” “O grande hotel Budapeste”, do “vanguardista, mas banal” “Boyhood – da infância à juventude” e do “acadêmico” “O jogo da imitação”. Esses rótulos carregados de má vontade falham em alcançar “Birdman”, tragicomédia filmada com considerável inteligência , imaginação e senso de estética.

Leia também: Michael Keaton exorciza Michael Keaton com “Birdman”

Leia também: Academia de Hollywood vive guerra fria entre alas conservadora e modernizante 

Levantamento feito pelo site Rotten Tomatoes mostra que “Boyhood” ainda ocupa a dianteira na temporada de prêmios. Foram 43 contra 39 outorgados a “Birdman”. O filme de Alejandro González Iñarritu se distingue, no entanto, por ter triunfado em premiações mais significativas e ressonantes.

Há, porém, um elemento que pesa contra toda essa força de “Birdman”. O filme inexplicavelmente se viu fora da disputa pelo Oscar de melhor montagem. No últimos anos, a categoria tem tido mais importância na construção de um vencedor do Oscar de melhor filme do que, por exemplo, a categoria de direção. Em 2013, “Argo” levou os troféus de roteiro adaptado e montagem, além do prêmio principal de melhor filme. Ben Affleck não foi sequer indicado como diretor. Mais: o último filme a vencer o Oscar de melhor filme sem ter indicação para montagem foi  “Gente como a gente”, de Robert Redford, em 1981. Desde que a categoria foi estabelecida, em 1934, apenas nove filmes venceram o Oscar principal sem terem sido nomeados à melhor edição.

"Birdman" é o favorito, mas   retrospecto histórico alerta que a disputa ainda não está definida

“Birdman” é o favorito, mas retrospecto histórico alerta que a disputa ainda não está definida

Mesmo com esse curioso contraponto histórico, “Birdman” tem pompa e pose de candidato campeão. A esta altura do campeonato é o candidato a ser batido. O marketing de “O jogo da imitação” que havia hesitado em levantar a bandeira gay já começa a sublinhar o fato, na expectativa de conseguir fazer o que “O segredo de Brokeback Mountain” não conseguiu.  Mas o biografia de Alan Turing não é um filme sobre um romance homossexual, como o era o filme dirigido por Ang Lee, e, nesse sentido, se aproxima mais de “Capote”, outro recorte biográfico sobre uma personalidade homossexual.  A mudança na campanha do filme é um atestado de que o padrão britânico, suficiente para fixar favoritos em outros anos, não valeu ao filme rivalidade com “Birdman”.

Sutilezas superam academicismo em “O jogo da imitação”

Entre os diretores, a briga parece se concentrar entre Richard Linklater e Alejandro González Inãrritu. Com vantagem para o primeiro. A tendência é que um ganhe em roteiro original e outro em direção. Julianne Moore (“Para sempre Alice”) é certeza mais que absoluta entre as atrizes, assim como apenas um desastre tira o Oscar de J.K Simmons pelo papel do professor tirano de “Whiplash”. Patricia Arquette pode ser o prêmio afetuoso a “Boyhood”, um filme que a temporada sugere ser mais querido pela crítica do que pela indústria.

Nos últimos anos, a academia tem optado pela pulverização de seus prêmios. O último filme a faturar uma penca de Oscars foi “Quem quer ser um milionário?” em 2009. Foram oito troféus. De lá para cá, o número de Oscars do filme vencedor foi diminuindo. “Guerra ao terror” ganhou seis em 2010; “O discurso do rei” faturou quatro em 2011; “O artista” ganhou cinco em 2012; “Argo” ganhou três em 2013; e “12 anos de escravidão” ficou com três em 2014, apesar de “Gravidade” ter ficado com sete Oscars na edição, o grande vencedor é costumeiramente o filme que leva o prêmio principal.

"Boyhood": A importância do filme de Linklater é inegável, mas a Academia não costuma perceber movimentos vanguardistas quando se depara com eles (Fotos: divulgação)

“Boyhood”: A importância do filme de Linklater é inegável, mas a Academia não costuma perceber movimentos vanguardistas quando se depara com eles
(Fotos: divulgação)

Como não houve um filme que apresente o avanço e esmero técnico observado em “Gravidade”, a tendência é de que haja a pulverização dos prêmios. Portanto, mesmo derrotados na disputa principal têm chances de sair esbanjando Oscars por aí.

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Críticas, Filmes | 16:37

Terceiro “Busca implacável” incensa Liam Neeson ao posto de mito do gênero de ação

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Liam Neeson talvez seja o principal nome do cinema de ação contemporâneo. “Busca implacável 3”, mais recente filme de uma franquia tão improvável quanto o fato desse sessentão irlandês ser o principal expoente do gênero, se resolve como a graduação de Liam Neeson em Chuck Norris, o ícone mor da macheza no cinema. A comparação disfarçada de brincadeira diz muito sobre a fase do ator, que a cada ano avoluma sua presença em fitas de ação, e sobre este terceiro capítulo da série.

Foto: divulgação

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“Busca implacável 3”, de certa forma, não precisaria ser um desdobramento da franquia. A história guarda poucas semelhanças com as duas fitas anteriores quando um membro da família de Bryan Mills era sequestrado. Se há algo sequestrado neste terceiro capítulo é a verdade. Mills ensaia uma aproximação com a ex-mulher, papel de Famke Janssen, que está vivendo um momento turbulento no casamento com Stuart (Dougray Scott). As coisas realmente se complicam quando ela é assassinada no apartamento de Mills e ele precisa fugir da polícia e correr contra o tempo para provar que não é o responsável pelo crime e encontrar o criminoso.

Nada que tire a calma do veterano agente de operações especiais. Se a trama mostra que a série já está em seu último fôlego – Neeson declarou recentemente que este é o último exemplar – o filme não tem o mesmo problema. Olivier Megaton dirige com a precisão que essas fitas B classudas exigem. Neeson, cada vez mais à vontade como homem de ação, dribla a morte de maneira injustificável em pelo menos dois momentos do filme. Não à toa, o policial vivido pelo ator Forest Whitaker desencoraja a todo o tempo sua equipe de tentar entender as estripulias de Mills. É como se Luc Besson, o genial cineasta francês que bolou a coisa toda e aqui é creditado como produtor e roteirista, piscasse para a plateia: vocês não estão realmente preocupados com isso, não é mesmo?

“Busca implacável 3” é o mais fraco da série. Talvez o mote funcionasse melhor fora da franquia. Quem continua inabalável e ganhando cada vez mais ar de mito no gênero é mesmo Liam Neeson. Chuck Norris que se cuide!

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sexta-feira, 30 de janeiro de 2015 Filmes, Notícias | 20:13

Veja o primeiro teaser de “knock Knock”, terror de Eli Roth sobre infidelidade

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Knock 3

Uma das principais sensações do Festival de Sundance deste ano, “Knock Knock”, traz Keanu Reeves como um arquiteto que, enquanto sua esposa e seus filhos viajam para a praia, acaba recebendo a inesperada visita de duas jovens em busca de socorro de uma forte tempestade. A situação rapidamente evolui para o flerte, descamba para o sexo e… um filme de terror com reminiscências tecnológicas e um humor típico do cineasta de “Cabana do inferno” e “O albergue”. O filme ainda não tem previsão de estreia de lançamento no Brasil.

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Críticas, Filmes | 18:16

Sutilezas superam academicismo em “O jogo da imitação”

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A obsessão dos aliados para decifrar os códigos nazistas emanados da engenhosa Enigma, sistema computacional conceitualmente avançado para a época, já foi tema de muitos filmes. O mais recente e notório era “Enigma”, de Michael Apted e com Kate Winslet como protagonista. “O jogo da imitação”, credenciado como o vencedor do prêmio da audiência no Festival de Toronto 2014 e indicado ao Oscar 2015 em oito categorias (incluindo melhor filme), chega para assumir a referência sobre uma das passagens mais instigantes da segunda guerra mundial. Mas o filme assinado por Morten Tyldum, do surpreendente “Headhunters” (2011), vai além e se configura como um ótimo thriller de espionagem, do tipo mais classudo que se pode imaginar, uma biografia digna de uma figura importante, mas pouco conhecida e, finalmente, um libelo contra a intolerância sexual.

Benedict Cumberbtach vive com uma combinação muito feliz de destreza, sutileza e carisma Alan Turing, um matemático prodigioso que aos poucos se transforma em uma peça vital na engrenagem dos países aliados, essencialmente da Inglaterra, para derrotar a Alemanha nazista.

Foto: divulgação

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Turing, como costuma acontecer com os gênios, não tinha qualquer ranço de habilidade social e padecia de uma arrogância que tornava sua presença insuportável. Cumberbatch é hábil ao sublinhar isso, mas não reduzir seu personagem a esse punhado de rótulos. Pela sua capacidade de abraçar a tridimensionalidade de um personagem que é um pouco uma construção do olhar dos outros e um pouco uma idealização de si mesmo, o ator afere à obra um subtexto necessário. Trata-se de um homem em litígio consigo mesmo e que enxerga em sua colaboração com a coroa inglesa uma espécie de redenção; que nunca virá como em certo momento lhe alerta Joan Clarke (Keira Knightley), uma de suas poucas e leais amigas.

Um dos grandes acertos do filme é sobrepor a paixão de Turing por criptografia a sua homossexualidade. O fato do filme optar por revelar esta em camadas não deve de maneira alguma ser percebida como falha. Afinal, esse traço da personalidade de Turing está disponível a quem se interessar por ela e o noticiário sobre o filme repercute a sexualidade do matemático fartamente. Trata-se de uma opção da realização de respeitar o tempo do personagem e incrementar o comentário sobre a bifurcação entre intolerância e injustiça.

“O jogo da imitação” naturalmente se ajusta à má afamada fórmula do cinema acadêmico britânico. Uma direção firme e precisa guiada por um roteiro muito bem aparado, aliada a preciosismos técnicos de toda sorte. Além, é claro, de um elenco afinadíssimo.  No entanto, Tyldum não se contenta em apostar no certo e incute em seu filme um olhar sobre a humanidade que somente os grandes filmes são capazes de ostentar. “O jogo da imitação” é, portanto, uma elaboração vistosa sobre um episódio cativante da história da humanidade e um olhar febril sobre um personagem fascinante. Tudo embalado em um drama robusto e vigoroso como bem sabem fazer os ingleses.

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quinta-feira, 29 de janeiro de 2015 Notícias | 19:24

Revelado o primeiro trailer de “Ted 2” e… tirem as crianças da sala!

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Foto: divulgação

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Último grande filme essencialmente original a ser um retumbante sucesso de bilheteria, “Ted” (2012) ganha uma sequência em 2015. O filme será lançado nos cinemas brasileiros em 27 de agosto.  O primeiro trailer da produção foi divulgado nesta quinta-feira (29).  Em “Ted 2”, o ursinho de pelúcia mais desbocado da cultura pop vai subir ao altar e quer ter um filho com uma loiraça padrão coelhinha da Playboy. Mas o processo de adoção é rigoroso e resistente à ideia de conceder esse direito a um ursinho falante. Somente Seth MacFarlane para lançar mão de um mote tão insano e politicamente incorreto como este. As piadas, no trailer, são sensacionais e mostram que a produção deve manter o pique do primeiro filme.

Mark Wahlberg está de volta ao elenco que tem os acréscimos de Morgan Freeman, Amanda Seyfried e Liam Neeson.

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Críticas, Filmes | 17:15

“Livre” desperdiça boa história com tentativa de provocar experiência sensorial

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“Livre”, novo filme de Jean-Marc Vallée, padece de um mal-estar comum a filmes que tentam ser mais do que estavam vocacionados a ser. “Livre”, baseado no livro “Livre – a jornada de uma mulher em busca do recomeço”, de Cheryl Strayed (vivida no filme por Reese Witherspoon), reúne artistas da mais fina estirpe com um objetivo nobre: expandir o alcance do elogiadíssimo livro de Strayed que percorreu uma trilha de mais de 1.100 milhas pela Costa do Oceano Pacífico para curar suas feridas emocionais e se reinventar como mulher.

Foto: divulgação

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Vallée vinha do sucesso crítico e comercial de “Clube de compras Dallas”, outra obra de ficção emprestada da realidade, Witherspoon dava continuidade a sanha de desenvolver projetos com perfil de prêmios e Nick Hornby, um dos mais referenciáveis novelistas que há, já havia assinado roteiros antes. Não obstante, “Livre” ainda conta com certa dose de boa vontade por ser um raro filme com protagonista feminina e sobre dilemas essencialmente femininos em uma época em que eles escasseiam no cinema.

O filme, porém, não capitaliza com todo esse hype. “Livre” oscila no ritmo e é irregular na forma. A sensorialidade pretendida pela narração jamais é alcançada e o público não se conecta com Cheryl. A montagem, problemática, não torna os fragmentos de lembranças suficientemente discerníveis das memórias e das sensações experimentadas por Cheryl em sua jornada de redenção emocional por meio do desafio físico e psicológico autoimposto.

Cheryl desabou após a morte da mãe (Laura Dern), vítima de um câncer fulminante. Traiu repetida e indiscriminadamente o marido, viciou-se em heroína e trouxe avante sua pior faceta. Foi quando se descobriu grávida que decidiu mudar radicalmente seu estilo de vida e enxergou na difícil trilha, a qual poucas mulheres se aventuram, a oportunidade de extirpar seus demônios.

Está no choque entre memórias, sensações, abstrações e realidade o núcleo dramático de “Livre”. Não fosse essa pretensão, o roteiro flertaria com a banalidade. Talvez fosse melhor. Afinal, não há nada de banal no desafio proposto para si por Cheryl e uma estrutura simplória, se bem articulada, não prejudicaria a força de sua história. Do jeito que ficou, buscando amparo em uma estética “malickiana”, “Livre” resulta em uma experiência frequentemente entediante Não ajuda o fato de Reese Witherspoon não conseguir tangenciar o conflito vivido pela personagem. A atriz falha em expressar a desorientação de Cheryl e, se convence como andarilha no deserto, é somente porque aí há pouca exigência dramatúrgica de sua performance. Laura Dern, por seu turno, nas poucas cenas em que aparece expõe vulnerabilidade e singeleza, dando conta de dimensionar a falta que sua personagem fará a de Witherspoon corrigindo uma lacuna no desempenho desta.

O maior prejuízo de “Livre”, no entanto, excede sua narrativa. A despeito das duas indicações ao Oscar que recebeu para suas atrizes, o filme compromete a difícil jornada das protagonistas femininas no cinema americano. Um filme tão contestável e relativamente frustrante acaba por ser mais um desserviço do que uma referência para o pathos do cinema do feminino em Hollywood.

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quarta-feira, 28 de janeiro de 2015 Críticas, Diretores | 16:39

Livro enfoca caráter transgressivo e sexual da obra de Pedro Almodóvar

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Livro - AlmodóvarPedro Almodóvar pertence àquele seleto grupo de cineastas que viraram adjetivos. Um filme ‘almodovariano’ é um filme banhado em paixão, transgressivo, colorido e que funde peculiaridade e potência em uma narrativa reconhecível e referendada. Para quem gosta do diretor, e não se furta a refletir sobre seu cinema, e para quem busca uma boa maneira de estabelecer um contato mais formal e analítico sobre sua filmografia, uma boa opção é o livro recém-lançado “Sexualidade e transgressão no cinema de Pedro Almodóvar”, de Antonio Carlos Egypto, publicado pela SG-Amarante.

O livro foi originalmente concebido como monografia de conclusão do curso de pós-graduação em Crítica Cinematográfica. Nele, Egypto discorre sobre toda a obra almodovariana e a examina sob a perspectiva de elaboração contra a intolerância sexual. O autor identifica o cinema de Almodóvar, especialmente em seu momento de emergência, como um reflexo exacerbado e contundente aos anos do franquismo na Espanha. Este período ditatorial perdurou entre os anos 1939 e 1976 e foi caracterizado pelo total cerceamento das liberdades de expressão, sexual, religiosa, política, entre outras.

Egypto observa a coerência e integridade da obra de Almodóvar ao longo dos 19 filmes que compõem sua filmografia. O diretor, vale lembrar, já anunciou que “Silêncio” será seu 20º longa-metragem. Os códigos do cinema do cineasta espanhol que, na avaliação de Egypto, foi o mais feliz e agudo diretor do país a revirar o passado franquista no cinema, são pormenorizados em um livro que faz da reflexão um convite irrecusável.

Além de tratar individualmente de cada filme, o autor divide a filmografia do espanhol por décadas, de modo a tornar mais fácil e digerível a evolução estética de seu cinema e deixar mais clara as referências que Almodóvar busca em sua própria obra. Egypto não se furta a sobrepor filmes em que Almodóvar revisita temas articulando-os de maneira distinta; casos de “Fale com ela” (2002) e “Matador” (1986). Em que sexo e morte estão sob o mesmo jugo do desejo, mas toda a formulação que se dá sobre essas circunstâncias é radicalmente diferente.

Transexualidade, travestismo, incesto, doenças sexualmente transmissíveis, estupro, sexo casual, homossexualidade… está tudo lá. O cinema transgressivo de Almodóvar, como resposta aos anos castradores de Franco, é examinado com a retidão de quem pôs-se a conhecer e a admirar um cineasta original, criativo e indulgente.

O cineasta Pedro Almodóvar (Foto: Getty)

O cineasta Pedro Almodóvar
(Foto: Getty)

Egypto expõe com clareza as transformações pelas quais o cinema de Almodóvar passou. Os arquétipos dos primeiros filmes, vocacionados mais à transgressão do que a produzir efeitos dramáticos mais autocentrados, deram vez a personagens mais bem construídos em filmes pensados além do choque, mas que nem por isso abdicavam da natureza transgressiva dos primeiros anos. Essa coerência, para Egypto, é reafirmada quando Almodóvar se experimenta, como no misto de ficção científica e terror, “A pele que habito” (2011), maior testamento de maturidade do cineasta.

O autor atenta, ainda, para o fato da cinefilia de Almodóvar estar plenamente inserida em seu cinema e dele revelar para seu público muitas de suas intenções com o filme em questão apenas pelas referências ao cinema nele contidas. Trata-se, afinal, de uma sofisticação diegética notável que distingue Almodóvar da média dos cineastas atuais.

O livro se torna ainda mais interessante por prover um contexto tão rico e fluído de Almodóvar que até um filme ruim, como o é “Os amantes passageiros”, o único ruim do diretor, se torna indispensável a uma filmografia extremamente passional e inventiva como a do espanhol.

A contemporaneidade de Almodóvar, a postura militante contra a intolerância de toda sorte, especialmente a de procedência sexual, o sobejo na técnica, o apreço pela metalinguagem e a coragem com que filma e com que se reinventa – isso sem abdicar das matizes originais de seu cinema – tornam o cineasta um objeto a se analisar com entusiasmo e empenho. Algo que Egypto alcança com a mesma desenvoltura com que Almodóvar faz de uma cena de estupro, uma declaração de amor.

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terça-feira, 27 de janeiro de 2015 Críticas, Filmes | 19:00

Sangue, suor e música dão o tom do arrebatador “Whiplash – em busca da perfeição”

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O diretor e roteirista de “Whiplash”, Demien Chazelle, disse em entrevista que o filme é fruto de experiências pessoais vividas na adolescência, mas poderia ser de uma ótima história envolvendo Charlie Parker, um dos maiores expoentes do Jazz em todos os tempos, e uma apresentação musical da que ele saiu sob risos e escárnio.

Há uma cena em “Whiplash”, que no Brasil ganhou o autoexplicativo subtítulo “Em busca da perfeição” que funde a experiência vivida por Parker, uma sombra constante na trajetória do protagonista vivido com garra e entrega por Miles Teller, ao personagem central do filme. Nesta cena, ambientada em um bar de jazz, “Whiplash” escancara toda a sua potência dramática. Antes, porém, o filme já havia se notabilizado por subverter a lógica do filme de mestre e pupilo; e, por que não, da relação entre o músico e seu dom.

O filme de Chazelle não ignora o talento na construção de um grande músico, apenas advoga que este talento isolado de disciplina, perseverança e afinco não é capaz de atingir toda a sua potência. Algo que Chazelle deixa claro na cena abordada no parágrafo anterior.

Andrew (Teller) quer ser o melhor baterista de sua geração e ele sabe que para isso não basta estar em uma das melhores escolas de música do país, é preciso ser guiado pelo melhor professor da instituição. Ele começa a se exibir, da maneira que um aspirante a músico pode fazê-lo, para Terence Fletcher (J.K Simmons), um professor de métodos abusivos e inortodoxos de ensino.

Som e fúria: a sala de aula vira palco de um embate feroz entre aluno e professor  (Foto: divulgação)

Som e fúria: a sala de aula vira palco de um embate feroz entre aluno e professor
(Foto: divulgação)

Aos poucos, à medida que Fletcher percebe talento e um possível futuro para Andrew, ao invés de protegê-lo e instrui-lo cuidadosamente, ele o expõe mais ao ridículo e a circunstâncias estressantes. O raciocínio de Fletcher é de que quanto mais desafiado, mais encorajado o pupilo realmente talentoso e com gana de triunfar ficará. A rivalidade e o duelo entre Fletcher e Andrew elevam a temperatura dramática de “Whiplash” ao ponto do filme ganhar contornos de obra de terror, mérito de Chazelle que acerta no ritmo e na condução da trama.

Ao reinventar o filme de professor, tirando da equação o elemento da edificação, tão cara a esse popular subgênero cinematográfico, “Whiplash” oferta ao público e ao cinema um dos grandes personagens dos últimos tempos. Em busca do “seu Charlie Parker”, Fletcher é um professor como nenhum outro. Militar no trato, coerente na proposta e cativante na rudeza com que enxerga algo tão sensível como a música e os talentos que a adornam. J.K Simmons, intérprete maiúsculo, recebe aqui a chance de brilhar intensamente e assim o faz.

Por todos esses predicados, “Whiplash”, indicado a cinco Oscars (incluindo melhor filme), é uma apoteose. No subtexto feroz que articula sobre a obsessão e por devolver à música aquele sentido estupendo que poucas vezes o cinema tangenciou como na derradeira cena desta pequena obra-prima contemporânea.

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segunda-feira, 26 de janeiro de 2015 Análises, Bastidores | 18:15

Qual o impacto da guerra nada fria entre Amazon e Netflix para a produção de cinema?

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Desde o Globo de Ouro concedido à série “Transparent” produzida pela Amazon, a batalha razoavelmente amistosa travada entre esta e a Netflix ganhou contornos de beligerância ostensiva. A Amazon deu os primeiros tiros. Anunciou que Woody Allen escreveria e dirigiria uma série, com 12 episódios de meia hora, para a gigante da web. Mal assimilou o golpe desferido e a Netflix teve que digerir outro soco no estômago quando a empresa presidida por Jeff Bezos anunciou a produção de 12 filmes para serem lançados em 2015 nos cinemas e, após uma janela de 4 semanas, serem disponibilizados para streaming na Amazon.

A Netflix, que já estava envolvida na produção de longas-metragens, se viu na incumbência de reagir. Depois de já ter anunciado um acordo para produzir e lançar quatro filmes estrelados por Adam Sandler e distribuir a sequência de “O tigre e o dragão”, a empresa divulgou que fechou um contrato com os irmãos Jay e Mark Duplass para lançar quatro filmes por sua plataforma de streaming. Os irmãos são diretores, roteiristas e atores de prestígio na cena do cinema independente americano e acabam de lançar uma série na HBO, “Togetherness”.vs

A tacada da Netflix é genial porque acena tanto para o mercado quanto para o público a intenção de investir em uma produção diferenciada e adulta – principalmente depois de decepcionar a crítica com a série “Marco Polo”. Além de se oferecer como uma opção para produtores e distribuidores independentes à espera de alternativas para que seus filmes alcancem um público maior, mais amplo e mais diversificado. A Netflix, vale lembrar, já está presente em mais de 50 países. A Amazon, por seu turno, além dos EUA, só marca presença na Alemanha e na Inglaterra.

Na prática, enquanto os primeiros filmes não forem lançados, pouca coisa muda no cenário da produção cinematográfica. Seria precipitado prever que Netflix e Amazon sejam capazes de desarranjar o cinema como o fizeram com a televisão, mas na teoria, é um xeque-rainha, para forçar uma analogia de xadrezista. Netflix e Amazon vão financiar os filmes que os estúdios estão evitando e, se forem bem sucedidos, vão mudar as regras do jogo.

Leia também: Internet ganha força como plataforma de lançamento de filmes

Leia também: Marasmo na produção de estúdios redimensiona produção do cinema independente nos EUA e inflaciona salários de astros e estrelas 

A Sony teve um prejuízo estimado em U$ 30 milhões com a “A entrevista”, lançado em cinemas selecionados e disponibilizado para streaming. Isso com todo o interesse suscitado pelo filme com as ameaças provenientes dos hackers norte-coreanos que coagiram o estúdio a abdicar, em um primeiro momento, de comercializar a fita. Pode-se argumentar que o filme não foi pensado, e definitivamente não foi orçado, com vistas a um lançamento online, mas “A entrevista” é a referência que o mercado e a indústria do cinema dispõem para distribuição de filmes inéditos via streaming. O recorde registrado pelo filme na comercialização de streamings se empalidece mediante esse raciocínio, mas não deixa de ser um elemento positivo para um mercado que começa a olhar para a distribuição de conteúdo audiovisual na internet de uma maneira completamente diferente; com mais receptividade e curiosidade.

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sexta-feira, 23 de janeiro de 2015 Curiosidades, Listas | 19:11

21 inutilidades sobre Hollywood, seus filmes e estrelas que você não precisaria saber, mas não vai resistir à curiosidade

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1 – Os dementadores dos livros e filmes de “Harry Potter” são símbolos da depressão da autora J.K. Rowling

2 – “Toy Story” se chamaria “Toyz in the hood”

3 – George Lucas e Steven Spielberg são responsáveis por sete das dez maiores bilheterias da década de 80

4 – Brad Pitt se hospedou em um hospício durante um fim de semana para se preparar para seu papel em “12 macacos” (1995). Foi indicado ao Oscar pela atuação.

5 – Tobey Maguire quase ficou de fora de “Homem-aranha 3”. A Sony já tinha um pré-contrato com Jake Gyllenhaal para assumir o papel de Peter Parker. A remota semelhança entre os atores fez com que eles interpretassem irmãos em “Entre irmãos” (2009).

6- Rachel McAdams e Ryan Gosling nasceram no mesmo hospital na cidade de Ontario, no Canadá. Eles se envolveriam romanticamente durante as gravações de “Diário de uma paixão” (2004).

Cena de "Diário de uma paixão" (2004)

Cena de “Diário de uma paixão” (2004)

7 – Christopher Nolan disse que todos os filmes de sua trilogia do Batman têm um tema em particular. O primeiro seria sobre o medo. O segundo, sobre caos; e o terceiro, dor.

8 – Angelina Jolie já admitiu em uma entrevista, à época em que recebeu seu Oscar por “Garota interrompida” (1999) ter comido baratas e desejo sexual por seu irmão

9 – Johnny Depp jamais assiste aos filmes que estrela

10 –  O nome do meio de Richard Gere é Tiffany

11 – Daniel Craig, o James Bond em pessoa, tem medo de empunhar armas

12 – Bill Murray foi o primeiro ator a ter um dia dedicado só a ele no Festival Internacional de Cinema de Toronto. A honraria aconteceu em 2014

13 – O ator James Woods tem um Q.I de 180, maior do que Stephen Hawking (160) e Albert Einstein (160). Mas nunca ganhou um Oscar

14 – Tem algo da Starbucks em toda cena de “Clube da luta”

15 – O quinto filme da franquia Rambo terá o subtítulo “Last blood”. O primeiro teve o subtítulo “First blood”. Será que vai ser o último mesmo? Larga o osso, Sly!

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O 007 não gosta de armas…

16 – Tom Hiddleston, além do inglês, fala fluentemente alemão, espanhol e francês; e arranha o russo.

17 – “Frozen” foi baixado ilegalmente mais de 30 milhões de vezes em 2014. E nem mesmo foi o filme mais pirateado do ano. O troféu ficou com “O lobo de Wall Street”

18 – Emily Blunt recusou o papel de Mulher-gato em “Batman: o cavaleiro das trevas ressurge”

19 – Toda vez que John Travolta vai ao banheiro em “Pulp Fiction- tempo de violência” (1994) algo ruim acontece

20 – Chris Pratt costumava morar em uma van antes de vingar como ator

21 – O título russo de “O lado bom da vida” (2012) é “Meu namorado é um psicopata”.

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