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sexta-feira, 16 de janeiro de 2015 Análises, Bastidores | 20:18

Academia de Hollywood vive guerra fria entre alas conservadora e modernizante

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Peço licença para nadar contra a corrente. Em um tempo em que a liberdade de expressão é tema de debates inflamados, o efeito manada – expressão cunhada para descrever quando indivíduos agem todos da mesma forma sem haver uma direção planejada – é perigoso e tergiversante.

“Birdman” e “O grande hotel Budapeste” lideram indicações ao Oscar 2015

Logo após o anúncio dos indicados ao Oscar 2015 tomou a internet, as redes sociais em particular, um movimento acusando a Academia de reiterar sua falta de apreço pela diversidade. De deliberadamente excluir mulheres, e haviam candidatas bem cotadas, do grupo de indicados aos prêmios de roteiro e direção. De não incluir atores negros entre os indicados e, consequentemente, de submeter “Selma”, filme sobre a emblemática figura de Martin Luther King Jr., a um papel menor na festa com suas duas e, para os propósitos dos queixosos, insignificantes nomeações. A imprensa, de maneira geral, abarcou as queixas e as reverberou sob o mesmo prisma.

Cena do filme "Selma" (Foto: divulgação)

Cena do filme “Selma”
(Foto: divulgação)

Essas ponderações se fundamentam em uma pesquisa de 2012 do jornal Los Angeles Times sobre o perfil demográfico do corpo de votantes da academia. Esse corpo é majoritariamente branco, masculino e acima dos 50 anos. Uma senha para o conservadorismo. Mas esse mesmo estudo revela que a academia jamais foi mais internacional e nunca acolheu tantas mulheres em seu colegiado. Ela é, inclusive, presidida por uma mulher negra (Cherly Boone), que tem contribuído para a diminuição dessa lacuna histórica.

Outro aspecto precisa ser analisado. Desde 2001, ano em que Halle Berry tornou-se a primeira atriz negra a vencer o Oscar de melhor atriz principal e Denzel Washington apenas o segundo ator a fazê-lo na categoria principal de atuação masculina (isso na 73ª edição do prêmio, estamos caminhando para a 87ª), muitos atores negros concorreram e venceram o Oscar. Exemplos de vitoriosos não faltam. Jamie Foxx, por “Ray” em 2004, Forest Whitaker por “O último rei da Escócia” em 2007”, Jennifer Hudson por “Dreamgirls” em 2007, Mo´Nique por “Preciosa” em 2010 e Lupita Nyong´o por “12 anos de escravidão” no ano passado se não são demonstrações eloquentes de que a diversidade é um conquista valorosa e crescente nas hostes da academia não é possível apontar o que poderiam ser.

A academia, porém, não está imune aos sobressaltos de qualquer movimento de transformação. Está em curso uma onda de modernização, naturalmente rechaçada por alas mais conservadoras. Esse conflito já podia ser percebido em anos anteriores e é novamente visível em 2015. Se por um lado, há a presença inesperadamente forte de um filme com estampa republicana, com potencial patriótico e sobre a presença militar americana no Iraque (“Sniper americano”), há duas comédias totalmente fora da caixa na liderança da corrida pelo Oscar. Uma dirigida por um latino (“Birdman”, de Alejandro González Iñarritu) e outra por um artista cultuado por hipsters e historicamente ignorado pela academia.

O cineasta Wes Anderson, autor peculiar e frequentemente esnobado agraciado em larga escala em 2015: novos tempos?

O cineasta Wes Anderson, autor peculiar e frequentemente esnobado agraciado em larga escala em 2015: novos tempos?
(Foto: divulgação)

Há de se considerar outros dois fatores preponderantes para a pouca atenção dispensada a “Selma” no Oscar, a despeito das elogiosas críticas que o filme recebe e o momento vivido pelos EUA (tema já abordado pela coluna aqui). Primeiro, a Paramount falhou na divulgação do filme e screnners, como é chamado a cópia digital enviada para votantes, simplesmente atrasaram ou não chegaram. O que contribuiu para a ausência do filme em quase todas as premiações de sindicatos, colegiados com muitos membros integrantes da academia. Repare que Globo de Ouro e Critic´s Choice Awards contemplaram bem “Selma”, mas isso porque o acesso ao filme por críticos de cinema, que são os que compõem essas duas premiações, é feito por meio de cabines, mecanismo em que as distribuidoras convidam jornalistas e críticos para assistirem seus lançamentos antes de disponibilizá-los comercialmente nos cinemas.

Outro ponto a ser considerado é a campanha nociva da qual o filme foi vítima, e ele não foi o primeiro e nem será o último, por conta de eventuais inverosimilhanças no relato. “A rede social”, “Argo”, “Cisne negro”, “O lobo de Wall Street” e “12 anos de escravidão” também foram vítimas recentes de campanhas difamatórias. É uma prática nova e vigorosa estabelecida por alguns gurus do marketing que ganham muito dinheiro para bolar estratégias de desconstrução. O Oscar é uma campanha política anual. Não se enganem.

Por outro lado, há de se considerar que, mesmo assim, e beneficiado por um sistema de votação que ainda carece de ajustes, “Selma” adentra a história como uma produção indicada ao Oscar de melhor filme. Fato que poderia gerar crítica inversa, como fomentou a vitória de “12 anos de escravidão” no ano passado.  Estaria a academia cedendo ao politicamente correto, ou como tuitou um blogueiro americano: “a indicação de ‘Selma’ a melhor filme é a academia dizendo: mas eu tenho um amigo negro”?

Cena de "12 anos de escravidão", vencedor do Oscar em 2014:  o baixo apreço a "Selma" seria uma reação conservadora ao triunfo do filme de Steve McQueen? (Foto: divulgação)

Cena de “12 anos de escravidão”, vencedor do Oscar em 2014: o baixo apreço a “Selma” seria uma reação conservadora ao triunfo do filme de Steve McQueen?
(Foto: divulgação)

reprodução/twitter

reprodução/twitter

Mais: São seis filmes independentes concorrendo a melhor filme. É difícil dizer que “Invencível”, de Angelina Jolie, uma produção de estúdio, foi esnobado por sexismo. As críticas eram ruins e “Garota exemplar”, assinado pela roteirista Gillian Flynn, um filme com avaliação e bilheteria melhores acabou recebendo menos indicações. “Invencível” concorre a três prêmios e “Garota exemplar” a apenas um. E como enquadrar a pouca atenção dispensada ao excepcional “O abutre”?  São os espólios dessa guerra fria que ocorre no seio da academia entre seu flanco mais conservador, ainda em maioria, e sua cada vez maior ala jovem e modernizante.

A percepção de injustiça é um efeito colateral de toda e qualquer manifestação democrática. É realmente de se lamentar a ausência de mulheres indicadas nas categorias de direção e roteiro. É lamentável que David Oyelowo, único ator negro que tinha chances na corrida, não tenha conseguido uma vaguinha. Mas ignorar avanços, lentos, mas ainda assim avanços, parecem apenas teimosia e gosto pela contrariedade.

A diversidade deve ser perseguida. Assim como a qualidade. As distorções na lista deste ano, que atingem tanto a diversidade como a qualidade, no limite que subjetividade e objetividade se tocam, reforçam a necessidade de ajustes. A presença sólida de “Foxcatcher” nas categorias nobres e sua ausência na disputa do Oscar de melhor filme, a ausência de Clint Eastwood entre os diretores com seu filme tão amplamente contemplado e mesmo “Selma” sem indicações que consubstanciem sua distinção como concorrente a melhor filme acusam a necessidade de burilar o sistema de votação como um todo. São questões que devem ser tratadas em alinhamento, pois embora escape à manada, uma influencia frontalmente na outra.

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10 comentários | Comentar

  1. 60 Jucelio Buback 17/01/2015 16:52

    Eu adoro essa coluna, eu amo cinema. Mas me parece uma idiotice completa indicar um filme simplesmente porque ele defende a causa de negros ou qualquer outra.
    Já basta ter engolido 12 anos de Escravidão.
    Sempre teremos filmes que foram injustiçados, feitos por brancos, negros ou homens e mulheres.
    A não ser que passemos a adotar o sistema de cotas oara filmes.

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    • Raphael Sanches 19/01/2015 14:30

      O caso é que sempre “engolimos” os filmes sobre o holocausto (judeus), todos os anos eles estão lá, principalmente na categoria Filme Estrangeiro, já que a maioria dos votantes são judeus…… No final o que importa é o controle da maioria sobre a minoria, e não a qualidade por si só…..

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  2. 59 Hugo 17/01/2015 11:23

    Uma coisa é indiscutível: Bradley Cooper é um péssimo ator. Como um canastrão de marca maior como ele consegue 3 indicações consecutivas ao Oscar é um mistério. Ainda não assisti a todos os concorrentes, mas tenho certeza que qualquer outro que estivesse no lugar de Bradley seria muito mais justo. Totalmente desnecessária essa indicação!

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    • Raphael Sanches 19/01/2015 14:31

      Concordo plenamente!

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    • Tati 18/01/2015 8:55

      Pois é. Ralph Fiennes, David Oyelowo e Jake Gyllenhal de fora enquanto o canastrão Bradley Cooper tem sua terceira indicação seguida. Inaceitável.

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  3. 58 Neo Carvalho 17/01/2015 9:48

    Nightcrawler (O Abutre) é absolutamente fantástico, qualquer lista onde não concorra a melhor filme, ator e atriz não faz muito sentido…e desde Scarface não me lembro de cena tão politicamente incorreta quanto a proposta de sexo e relacionamento do “abutre” para a “jornalista”, ambos com as devidas aspas…Altamente recomendável, previsivelmente esnobado….

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  4. 57 dagmar 17/01/2015 5:58

    Angelina Jolie é uma atriz ruim, e uma diretora também. Teve beleza, o que a projetou. Talento, não.

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  5. 56 Denis 17/01/2015 4:28

    Interessante o colunista nao comentar nada sobre as indicações de melhor documentários, especialmente pelo fato de um dos filmes que estão concorrendo ser sobre o fotografo Brasileiro Sebastiao Salgado e se não me engano um dos produtores ser Brasileiros, apesar de tentar não ir com a manada acabou fazenda exatamente isso ao ignorar essa categoria tao relevante.

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  6. 55 Yara 16/01/2015 23:07

    Cor,sexo,religião,etc.etc não são critérios artísticos. Acho errado alguém defender a indicação da Jolie ´pelo simples fato dela ser mulher,já que as críticas ao filmes não são muito boas.

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  7. 54 Pedro Ivo 16/01/2015 22:56

    Concordo com o texto. Eu penso nessa linha também a respeito da esnobada de “Selma”. Que na verdade nem foi exatamente uma esnobada, pois, na pior das hipóteses, concorre a melhor filme. Minha impressão é que boa parte dos votantes estavam com “12 Anos de Escravidão” ainda fresco na cabeça e não queriam repetir o tema (embora sejam momento históricos distintos). Vale lembrar da acusação de que diversos membros teriam votado em “12 Anos” sem nem ter visto o filme, apenas porque achavam correto premiá-lo. Talvez não quisessem repetir o surto de politicamente correto neste ano. Sem contar o sistema maluco de votação de vigora hoje. Mas dizer que a Academia é racista e sexista vai um pouco de exagero, embora tenha uma grande ala conservadora. É notória e estranha a completa ausência de atores ou atrizes negros neste, o que não ocorria há muitos anos. Mas creio que a Academia foi pega pelas circunstâncias e por suas próprias armadilhas, nada foi deliberado. E “American Sniper”, que não tem nada a ver com isso, tem sido taxado como “vilão” da história, mesmo que sua indicação já fosse razoavelmente previsível e seja o tipo de filme que tem conquistado indicações e prêmios nos últimos anos (The Hurt Locker e Zero Dark Thirty, ambos da Bigelow), ou seja, agrada a Academia.

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  8. 53 Kamila Azevedo 16/01/2015 22:50

    Pra mim, o grande problema da AMPAS é o sistema de votação que ela adota. A divisão entre os branchs ocasiona essa disparidade nas indicações, em que diretores recebem indicações solitárias e filmes indicados à categoria principal nem são lembrados em outras categorias. Acredito que as categorias gerais – e principais – da premiação deveriam ser votadas por todos. Além disso, acho que a Academia deveria voltar ao sistema antigo, em que cinco filmes estavam presentes na categoria principal. No mais, acho que a AMPAS está cada vez mais aberta. Ver um filme com um conceito diferente como “Birdman” liderando a lista de indicados é uma coisa admirável!

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  9. 52 roberto de souza 16/01/2015 22:44

    A Primeira negra a vencer o Oscar foi Hattie MacDaniels( eu penso ser esse o nome), a Babá de Scarlet Ohara, em ( E O vento Levou).Façanha da atriz,que ao contrario dos outros que recentemente levaram a famigerada estatueta,deu um show de interpretaçao,juntando as atuações estupendas de Vivien Leigh e do grande Clark Gable,formaram a espinha dorsal desse monumento cinematografico.E pensar que isso aconteceu num contexto adverso para os negros que eram tratados como escória e que volta e meia apareciam pendurados pelo pescoço em arvores,como estranhos frutos.De um tempo para cá,ficou mais fácil negro ganhar Oscar.Depende da produtora que ele representa, não necessariamente da qualidade do seu trabalho.Vamos fazer de conta que o mundo está ficando melhor……..Salve Hattie MacDaniels .

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  10. 51 MARIA DA GRACA 16/01/2015 21:05

    Que horror, quando, no cinema, a cor da pele se sobrepoe à qualidade artistica do filme!

    OU seja, se se tivessem cumprido todos os requisitos de pré-exposição, o filme teria ganho , ou seja, acham que tem requisitos de melhor filme do ano???????
    Só pelo script da vida do King????
    Tristeza

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    • Rui 16/01/2015 21:43

      Por que a cor da pele não é critério artístico é que mais filmes negros, com negros, devem ter espaço na Academia. Ou você acha que só filmes de brancos têm qualidade artística?

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