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sexta-feira, 30 de janeiro de 2015 Críticas, Filmes | 18:16

Sutilezas superam academicismo em “O jogo da imitação”

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A obsessão dos aliados para decifrar os códigos nazistas emanados da engenhosa Enigma, sistema computacional conceitualmente avançado para a época, já foi tema de muitos filmes. O mais recente e notório era “Enigma”, de Michael Apted e com Kate Winslet como protagonista. “O jogo da imitação”, credenciado como o vencedor do prêmio da audiência no Festival de Toronto 2014 e indicado ao Oscar 2015 em oito categorias (incluindo melhor filme), chega para assumir a referência sobre uma das passagens mais instigantes da segunda guerra mundial. Mas o filme assinado por Morten Tyldum, do surpreendente “Headhunters” (2011), vai além e se configura como um ótimo thriller de espionagem, do tipo mais classudo que se pode imaginar, uma biografia digna de uma figura importante, mas pouco conhecida e, finalmente, um libelo contra a intolerância sexual.

Benedict Cumberbtach vive com uma combinação muito feliz de destreza, sutileza e carisma Alan Turing, um matemático prodigioso que aos poucos se transforma em uma peça vital na engrenagem dos países aliados, essencialmente da Inglaterra, para derrotar a Alemanha nazista.

Foto: divulgação

Foto: divulgação

Turing, como costuma acontecer com os gênios, não tinha qualquer ranço de habilidade social e padecia de uma arrogância que tornava sua presença insuportável. Cumberbatch é hábil ao sublinhar isso, mas não reduzir seu personagem a esse punhado de rótulos. Pela sua capacidade de abraçar a tridimensionalidade de um personagem que é um pouco uma construção do olhar dos outros e um pouco uma idealização de si mesmo, o ator afere à obra um subtexto necessário. Trata-se de um homem em litígio consigo mesmo e que enxerga em sua colaboração com a coroa inglesa uma espécie de redenção; que nunca virá como em certo momento lhe alerta Joan Clarke (Keira Knightley), uma de suas poucas e leais amigas.

Um dos grandes acertos do filme é sobrepor a paixão de Turing por criptografia a sua homossexualidade. O fato do filme optar por revelar esta em camadas não deve de maneira alguma ser percebida como falha. Afinal, esse traço da personalidade de Turing está disponível a quem se interessar por ela e o noticiário sobre o filme repercute a sexualidade do matemático fartamente. Trata-se de uma opção da realização de respeitar o tempo do personagem e incrementar o comentário sobre a bifurcação entre intolerância e injustiça.

“O jogo da imitação” naturalmente se ajusta à má afamada fórmula do cinema acadêmico britânico. Uma direção firme e precisa guiada por um roteiro muito bem aparado, aliada a preciosismos técnicos de toda sorte. Além, é claro, de um elenco afinadíssimo.  No entanto, Tyldum não se contenta em apostar no certo e incute em seu filme um olhar sobre a humanidade que somente os grandes filmes são capazes de ostentar. “O jogo da imitação” é, portanto, uma elaboração vistosa sobre um episódio cativante da história da humanidade e um olhar febril sobre um personagem fascinante. Tudo embalado em um drama robusto e vigoroso como bem sabem fazer os ingleses.

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2 comentários | Comentar

  1. 52 Daniel 31/01/2015 0:12

    Infelizmente o filme é um desserviço à história, pois há diversos erros e simplificacoes tanto da vida de Turing quanto de sua obra.

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  2. 51 Roger Aquino 30/01/2015 21:09

    Brilhante! O filme é maravilhoso.
    Benedict não deve ganhar o Oscar e nem o filme também, pois a política deste ano não premiará os melhores.
    Cumberbatch se firma como um dos melhores atores da atualidade. Sua presença rouba a cena, como Sean Connery também fazia.
    E a crítica também foi brilhante. A primeira realmente inteligente sobre o filme. PARABÉNS!

    Responder
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