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Arquivo de janeiro, 2015

sábado, 10 de janeiro de 2015 Análises | 16:08

Algumas conjecturas sobre o Globo de ouro deste domingo

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A temporada de prêmios no cinema entra em fase decisiva nesta semana com a entrega dos prêmios Globo de Ouro, no domingo,  Critic´s Choice Awards, na quinta-feira, e com o anúncio dos indicados ao Oscar, na mesma quinta. Favoritos serão consolidados, tendências confirmadas e muitos filmes e artistas se verão excluídos definitivamente da corrida pelo Oscar.

O Globo de Ouro deve confirmar neste domingo com os primeiros prêmios mais midiáticos a polarização que “Boyhood” e “Birdman” vêm experimentando. Mas “Selma”, filme que surgiu com forte presença entre a associação de correspondentes estrangeiros, que distribui o prêmio, não pode ser desprezado.

Entre os diretores, Richard Linklater (“Boyhood”) e Alejandro Gonzáles Iñarritu (Birdman) podem ser eclipsados pela força ascendente de Ava DuVernay, primeira negra indicada na categoria. Além do hype ser bom (e lograria um feito ao Globo de Ouro ainda inédito no Oscar), o trabalho de Ava é louvado pela crítica. Ademais, seria uma premiação estratégica se a tendência for pela pulverização dos prêmios entre os principais concorrentes, tônica comum no Globo de ouro nos últimos anos.

Em sentido horário: o líder em indicações "Birdman", o   azarão sólido "Selma", o celebrado "Boyhood" e o inglês tradicional "O jogo da imitação" (Foto: montagem sobre reprodução)

Em sentido horário: o líder em indicações “Birdman”, o azarão sólido “Selma”, o celebrado “Boyhood” e o
inglês tradicional “O jogo da imitação”
(Foto: montagem sobre reprodução)

Nas categorias de atuação já é possível apontar algumas certezas. É improvável que Julianne Moore não seja premiada neste domingo. Há a possibilidade bastante palpável de que ela repita o feito de Kate Winslet em 2009 e seja duplamente laureada, já que concorre por “Mapa para as estrelas”, entre as comédias, e “Para sempre Alice”, entre os dramas. De qualquer modo, a vitória mais provável é entre as atrizes dramáticas pelo trabalho em “Para sempre Alice”.

Jennifer Aniston (“Cake”), entre as atrizes dramáticas, e Emily Blunt, entre as cômicas, podem ser as pedras no meio do caminho de Moore em ambas as frentes.

Já entre os atores, Michael Keaton (“Birdman”) reina absoluto na categoria de comédia/musical. Difícil crer que outro senão ele seja o vencedor neste domingo. Mas Ralph Fiennes, por “O grande hotel Budapeste” pode ser aquela zebra que faz bem a toda a premiação.

Entre os atores dramáticos, o buraco é mais embaixo. Qualquer um dos cinco finalistas poderia levar o troféu. Mas os atores ingleses (Benedict Cumberbatch e Eddie Redmayne), lembrados pelas biografias “O jogo da imitação” e “A teoria de tudo”, parecem estar um passo à frente nesta contenda.

A disputa entre os coadjuvantes parece mais encaminhada. Se tudo correr conforme se imagina, Patricia Arquette (“Boyhood”) e J.K Simmons (“Whiplash: em busca da perfeição”) devem prevalecer.

Wes Anderson pode ser agraciado pelo roteiro de “O grande hotel Budapeste”, já que aqui reside a chance mais substancial de seu filme, em alta na temporada, ser premiado.

O polonês “Ida” deve ser apontado a melhor produção em língua estrangeira, mas não seria nenhuma surpresa se a vitória ficasse com o sueco “Força maior” ou o russo “Leviatã”.

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sexta-feira, 9 de janeiro de 2015 Notícias | 22:26

Michael Mann mira no ciberterrorismo com “Hacker”

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Foto: divulgação

Foto: divulgação

Diretor de preciosidades do cinema moderno como “Fogo contra fogo” (1995), “O informante” (1999) e “Colateral” (2004), o cineasta Michael Mann retorna de um longo hiato – seu último filme foi o frustrante “Inimigos públicos” em 2009 – com “Hacker”, um thriller sobre ciberterrorismo e a teia de possibilidades ensejada por essa nova forma de semear o caos em um mundo plenamente conectado.

O Thor Chris Hemsworth estrela como um hacker acionado pelo FBI para ajudar a capturar outro hacker, cujo cartão de visitas é bagunçar com o sistema financeiro global. O trailer, que pode ser conferido com legendas abaixo, sugere um filme mais pensativo do que foram os últimos trabalhos de Mann (além do já citado “Inimigos públicos”, a adaptação cinematográfica da série “Miami vice”). Ainda é cedo para sabermos, no entanto, se “Hacker” se aproxima de mais de “O informante” ou “Colateral”. Se “Hacker” confirmar-se na companhia de qualquer um desses dois filmes, quem ganha somos nós espectadores. No Brasil, o filme estreia em 5 de março.

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Filmes, Notícias | 20:14

Francês “Girlhood” investe na perspectiva feminina do amadurecimento

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foto: divulgação

foto: divulgação

Uma das sensações cinematográficas de 2014 foi “Boyhood: da infância à juventude”, de Richard Linklater. Filmada ao longo de 12 anos, a produção ainda deve colher frutos em 2015. Ano em que “Girlhood”, fita assinada por Céline Sciamma, diretora dos ótimos “Lírios d´água” (2007) e “Tomboy” (2011), será lançado.

Leia também: Tempo é parâmetro absoluto para epifanias de “Boyhood”

O filme de Sciamma não pretende a vanguarda como o de Linklater, mas segundo a crítica internacional que já teve contato com ele, exala o mesmo frescor. “É uma inebriante história de descoberta e formação de identidade”, assinalou o semanário The Hollywood Reporter. A fita acompanha a jornada de Marieme (Karidja Touré), que farta dos abusos familiares e da ditadura masculina na escola e no bairro, foge de casa. Ela entra para uma gangue, conhece meninas de espírito livre e estabelece uma relação complexa com um homem mais velho, entre outras tantas mudanças frenéticas na busca pela autoria da própria vida.

O filme será lançado em circuito limitado nos EUA no próximo dia 20 de janeiro e ainda não tem distribuição garantida no Brasil. O trailer, com legendas em inglês, pode ser conferido abaixo.

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quinta-feira, 8 de janeiro de 2015 Críticas, Filmes | 17:35

Espaço cult: Costa-Gravas devassa lógica capitalista no intenso e cerebral “O capital”

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Costa-Gravas no set de "O Capital"

Costa-Gravas no set de “O Capital”

Historicamente alinhado ao pensamento de esquerda, o cineasta grego Costa-Gravas entrega com “O capital” (2012), seu mais recente filme, sua mais bem elaborada e contundente análise do capitalismo como sistema econômico e modelo de vida.

No filme, testemunhamos a saga de Marc Torneuil (Gad Elmaleh). Um literato da economia alçado à presidência de um prestigiado e poderoso banco europeu quando o presidente da instituição, que habitualmente o ouvia, adoece e precisa se afastar do comando. A partir do momento do apontamento de Torneuil para o cargo, “O capital” já denota sua intenção de demolir fachadas e investir contra os clichês de um sistema com a coragem que, por exemplo, falta às produções americanas.

A ideia do diretor grego, também responsável pelo roteiro (prática comum em seus filmes), não é tecer uma grita contra o capitalismo e o neoliberalismo, mas examinar com precisão cirúrgica, e blindado por um humor em seu estado de maior perversão, os entraves de um sistema que deu certo, mas segue produzindo ruídos alarmantes pelo mundo. Muito porque estimula um jogo desleal e que gera ressentimento em todos aqueles que não dispõem do tabuleiro.

Torneuil sabe que sua indicação para a presidência do banco é um embuste somente tolerado enquanto grupos de olho no poder, e no apoio da força acionária majoritária, se movimentam nos bastidores. É preciso agir rápido e com proeminência. Ele rapidamente se liga a um grupo de investidores americanos que secretamente age para tomar o controle do banco, nem que para isso seja necessário precipitar medidas que derrubem seu valor de mercado. Torneuil vai se revelando um hábil estrategista e guiando-se pela filosofia maoista repele sindicatos, doma seus diretores executivos, enrola os americanos e se fortalece como um player significativo na economia europeia.

Em paralelo, Costa-Gravas lança um olhar para a derrocada moral deste homem que sempre se viu seduzido pelo poder, mas nunca o havia exercido de fato. Os bônus pornográficos, o flagelo do casamento e o jogo de interesses estipulado por todos que dele se aproximam, são sombras desse novo Torneuil, concebido pelas engrenagens do capitalismo.

O Capital

Executivos e acionistas discutem os bônus que serão pagos no ano: o gosto pelo jogo financeiro
(Fotos: divulgação)

É um pouco do meio e um pouco do homem, advoga Costa-Gravas com seu filme. Não é uma conclusão inédita, tampouco explosiva, mas fruto de uma construção dramática vistosa. Na cena final, Torneuil vira-se para a câmera, sob aplausos de executivos radiantes após um breve discurso em que promete “roubar dos pobres para dar aos ricos”, e diz que “são todos crianças se divertindo e que vão se divertir até que tudo exploda”. O brilhantismo do sistema, antecipou Costa-Gravas em uma cena exibida alguns minutos antes, está em reinventar-se para continuar o mesmo.

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quarta-feira, 7 de janeiro de 2015 Bastidores, Notícias | 05:00

Filme abandonado por David O. Russell será lançado a sua revelia

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Depois de toda a comoção vivida pelo vazamento de documentos e e-mails da Sony e do vai e vem envolvendo o filme “A entrevista”, Hollywood já tem um novo escândalo para chamar de seu. De menor intensidade, é verdade, mas adornado pela mesma estranheza que pautou toda a atenção a “A entrevista”.

Um filme abandonado pelo cineasta David O. Russell (de “O labo bom da vida” e “Trapaça”) chegará aos cinemas e às plataformas de vídeo on demand nos EUA no início de fevereiro. Detalhe: Russell não quer que o filme seja lançado. Abandonado em 2008 por razões que ainda não são de conhecimento público, “Nailed” esteve perto de ser lançado no cinema algumas vezes, mas Russell sempre conseguiu barrar o lançamento. Parece que agora, com a entrada da pequena produtora Millennium Entertainment (mais conhecida pela franquia “Os mercenários”), o diretor não conseguirá impedir que o filme ganhe o mundo. Rebatizado de “Accidental love”, a dramédia (misto de drama e comédia) política mostra uma mulher (Jessica Biel) que recebe um prego na cabeça quando está prestes a receber a proposta de casamento de seu namorado (James Marsden). Sem plano de saúde e com uma variação de humor atroz, ela ruma para Washington na esperança de que um jovem congressista (Jake Gyllenhaal) possa ajuda-la.

É interessante notar como Jake Gyllenhaal, em alta após ótimos trabalhos em “Os suspeitos” e “O abutre”, está bem mais novo. Na avidez por retomar o investimento dispensado na produção, os produtores colocaram nos créditos de direção um tal de Stephen Greene, que é apontado como um pseudônimo para evitar processos por parte de Russell. O uso de pseudônimos no cinema, diferentemente da literatura, é incomum; para não dizer inédito.  Greene, diretor de cinema de ofício, não existe. Pelo menos ninguém conhece e não há nenhuma informação sobre essa pessoa no IMDB (site referencial para fichas e créditos no cinema).

Enquanto aguardamos as cenas dos próximos capítulos, o trailer e o primeiro cartaz de “Accidental love”.

Accidental love

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terça-feira, 6 de janeiro de 2015 Curiosidades, Fotografia | 20:12

Os melhores atores de 2014 em ensaio artístico na W

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Todo ano a revista W, prestigiada publicação cultural americana, em sua edição de fevereiro, mês em que tradicionalmente é realizada a cerimônia do Oscar, realiza um badalado ensaio fotográfico com os atores e atrizes que se destacaram no ano, muitos deles na corrida pelo Oscar. As fotos da W são um dos pontos altos da temporada de premiações do cinema pelo caráter folclórico e imaginativo que adquiriram com o tempo, mas principalmente porque são uma forma mais sutil de fazer campanha por prêmios.

O Cineclube separou algumas das fotos mais interessantes da edição que chega às bancas americanas no próximo mês.

A atriz Emma Stone, coadjuvante em "Birdman"

A atriz Emma Stone, coadjuvante em “Birdman”

Bradley Cooper, elogiado por "Sniper americano"

Bradley Cooper, elogiado por “Sniper americano”

O sempre ótimo J.K Simmons, coadjuvante no bem cotado "Whiplash: em busca da perfeição"

O sempre ótimo J.K Simmons, coadjuvante no bem cotado “Whiplash: em busca da perfeição”

Jessica Chastain, lembrada pelos filmes "Interestelar" e "Um ano mais violento"

Jessica Chastain, lembrada pelos filmes “Interestelar” e “Um ano mais violento”

Ethan Hawke, reverenciado pelo trabalho em "Boyhood"

Ethan Hawke, reverenciado pelo trabalho em “Boyhood”

Jack O´ Connell, protagonista de "Invencível"

Jack O´ Connell, protagonista de “Invencível”

Keira Knightley, em busca do ouro por "O jogo da imitação"

Keira Knightley, em busca do ouro por “O jogo da imitação”

Michael Keaton voltou aos holofotes por "Birdman"

Michael Keaton voltou aos holofotes por “Birdman”

Miles Teller, a força motora de "Whiplash: em busca da perfeição"

Miles Teller, a força motora de “Whiplash: em busca da perfeição”

Reese Whiterspoon, que deve voltar ao Oscar com "Livre"

Reese Whiterspoon, que deve voltar ao Oscar com “Livre”

Scarlett Johansson, destacada por "Sob a pele"

Scarlett Johansson, destacada por “Sob a pele”

Steve Carrel, em alta pelo trabalho em "Foxcatcher"

Steve Carrel, em alta pelo trabalho em “Foxcatcher”

Sienna Miller, coadjuvante em "Sniper americano"

Sienna Miller, coadjuvante em “Sniper americano”

Amy Adams está novamente na corrida com "Grandes olhos"

Amy Adams está novamente na corrida com “Grandes olhos”

Ralph Fiennes, celebrado pelo papel em "O Grande hotel Budapeste"

Ralph Fiennes, celebrado pelo papel em “O Grande hotel Budapeste”

Tommy Lee Jones, lembrado por "The homesman"

Tommy Lee Jones, lembrado por “The homesman”

Uma das capas da revista com Benedict Cumberbatch e Keira Knightley

Uma das capas da revista com Benedict Cumberbatch e Keira Knightley

Fotos: reprodução/W/Just Jared

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Críticas, Filmes | 17:41

Crise de identidade move o país e a protagonista de “Ida”

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Com técnica exuberante, "Ida" impressiona pelo vigor narrativo e pela dimensão que dá ao dilema de sua protagonista (Foto: divulgação)

Com técnica exuberante, “Ida” impressiona pelo vigor narrativo e pela dimensão que dá ao dilema de sua protagonista
(Foto: divulgação)

Com pouco mais de 80 minutos de duração, “Ida” consegue uma proeza digna de nota. Ir fundo na investigação de uma Polônia agonizante, nos idos dos anos 60, que ainda sentia o impacto do nazismo e via o comunismo se estabelecer como regime.  Dirigido com sobriedade e pulso firme por Pawel Pawlikowski, filmado em belíssimo preto e branco e no formato quadrado (1.33), “Ida” conjuga excelência técnica com vigor narrativo.

Às vésperas de prestar seus votos para se tornar freira, noviça Anna (Agata Trzebuchowska) é despachada por sua madre superiora para conhecer a única familiar que tem viva. A tia Wanda (Agata Kulesza). A ideia é que Anna reúna mais contexto sobre si antes de tomar uma decisão tão importante como a que tem pela frente.

O contato com Wanda começa trêmulo e problemático, como era de se imaginar. Wanda oferta a Anna um elemento desestabilizador. Ela, na verdade, se chama Ida e é judia. Seus pais morreram pouco depois dela ter nascido.

Ida é silenciosa e contemplativa e essa aparente paz esconde uma crise de identidade e fé que se materializa na viagem que decide fazer com sua tia para descobrir o lugar em que seus pais foram enterrados. Se a viagem traz respostas, ainda que terríveis para Ida, retira de Wanda a máscara que ela se habituou a usar. É no contraponto entre os efeitos da viagem em Ida e Wanda que “Ida”, o filme, se permite extrair poesia do sofrimento, do horror, do instável.

Por fim, Pawlikowski impõe um dilema a sua protagonista. Ciente de suas origens, ela precisa decidir se segue essa vocação, agora problematizada, de ser freira, ou atende aos anseios de sua tia, que fugia às convenções dispensadas às mulheres na época, e viveria plenamente uma vida que fora privada de seus pais.

A decisão de “Ida” ressignifica o filme como um todo. Afere-lhe um sentido incômodo, expansivo e que provoca na audiência uma reflexão deslocada, emudecida e totalmente imprevista.

“Ida”, dessa maneira, se configura como uma revisão histórica de um país que mergulhou na escuridão e foi um dos protagonistas de uma das eras mais perturbadoras da humanidade no mesmo compasso em que ilumina uma personagem fascinante em seu silêncio constantemente desafiador.

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segunda-feira, 5 de janeiro de 2015 Críticas, Filmes | 15:42

Ridley Scott coloca Moisés entre Deus e a esquizofrenia em “Êxodo: Deuses e reis”

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Não se engane. “Êxodo: Deuses e reis” não é um filme religioso no sentido clássico do termo, mas um filme político. Diferentemente do que Darren Aronofsky fez com “Noé”, Ridley Scott não reinterpreta a passagem bíblica do personagem, mas lhe afere uma conotação política exacerbada. Daí incorre ilações sobre o período retratado por “Êxodo” e paralelos com o longevo e controverso conflito entre Israel e Palestina.

Não só. Scott evita o espetáculo religioso, mas não o espetáculo visual, e se esmera na ciência, no limite do factível, para explicar desde as sete pragas que assolaram o Egito até à abertura do Mar vermelho. Nessa opção não está a negativa de Deus, mas o privilégio da fé, do que trata, afinal, a bíblia de maneira geral, e a passagem abordada em “Êxodo”, em particular. Ao situar o Moisés vivido com a habitual intensidade por Christian Bale entre a esquizofrenia e Deus, Scott favorece a interpretação de quem toma contato com seu filme. E acusa logo na cena inicial, em que uma profeta fala do desfecho de uma batalha para o faraó, que seu filme privilegiará a interpretação em detrimento da assertividade religiosa.

Essa é uma das indiscutíveis riquezas do filme. Sua recusa em assumir-se como uma fantasia hollywoodiana e se resolver como um registro histórico com DNA de trama política. Nesse contexto, Moisés pode ser percebido tanto como um terrorista que se rebela contra o império após seu exílio, como o tão aguardado guia para a libertação dos hebreus.

Um Moisés adornado pela ambiguidade do roteiro escrito pelo ateu Steven Zaillian (Foto: divulgação)

Um Moisés adornado pela ambiguidade do roteiro escrito pelo ateu Steven Zaillian
(Foto: divulgação)

Em muito por isso, Scott dedica considerável atenção ao período em que Moisés se encontra entre os egípcios. A fundamentação de suas motivações, políticas e emocionais, importam tanto para Scott como a suntuosidade dos grandes cenários apresentados em “Êxodo”.

Outro acerto é a caracterização de Deus como uma criança, aos olhos sempre questionadores de Moisés. Para quem tem a mínima afinidade com a bíblia, não se trata de uma ousadia, já que é notório na escritura sagrada que o Todo-Poderoso pode assumir a feição de uma criança. A opção reforça a qualidade da pesquisa de Scott e acusa sua sensibilidade na abordagem da história de Moisés para o público do século XXI.

Não se trata de um filme que tem como objetivo pregar para convertidos, mas de colocar presente e passado em discussão. Não à toa, já rumando para Canaã, Moisés expõe uma angústia a Josué (Aaron Paul): “Estamos unidos porque temos a fuga em comum. Mas como será quando todos se assentarem?” O Moisés de Ridley Scott externa a preocupação que hoje é um dos eixos centrais do conflito entre israelenses e palestinos. Os rótulos de terrorista e império foram recodificados.

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