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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015 Críticas, Filmes | 15:14

Do que falamos quando falamos de “Birdman”?

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Esta crítica poderia começar da maneira como se convencionou introduzir textos analíticos sobre “Birdman ou a inesperada virtude da ignorância”, esse petardo cinematográfico disparado pelo mexicano Alejandro González Iñarritu, mas as convenções parecem pequenas ante a magnitude do filme. Sobre o que, afinal, estamos falando quando falamos de “Birdman”? Sobre cinema? Sobre o conflito entre o id e o ego? Sobre a complexa relação entre arte e indústria? Sobre a tentativa desesperada de um ator em retornar aos dias de glória de outrora?

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Ao abrilhantar seu filme com um jogo de metáforas original, mesmerizante e insidioso, Iñarritu reúne todos esses temas em uma narrativa nervosa, pulsante, irônica e profundamente reveladora dos personagens, do estado de espírito de seu realizador e fundamentalmente do cinema em seu contexto macroestrutural, mas também em sua veia mais íntima.

Riggan Thomson (Michael Keaton) produz, dirige e estrela uma adaptação de Raymond Carver para a Broadway. A peça é a última tentativa do ator, que recusou estrelar a terceira sequência do filme de super-herói Birdman, de recuperar o prestígio de outrora e de obter um reconhecimento que só vem fora das franquias milionárias que dominam Hollywood e que, por conjectura, paira sobre o teatro.

O híper realismo da narrativa de "Birdman" se refugia em um espirituoso arremedo de metalinguagens

O hiperrealismo da narrativa de “Birdman” se refugia em um espirituoso arremedo de metalinguagens

O filme se desdobra pela semana que antecede a noite de abertura da peça. Riggan precisa administrar a vaidade de um ator querido da crítica que pode representar a salvação da peça (Edward Norton), dar atenção à filha recém-egressa da rehab (Emma Stone), da namorada ciosa de mais afeto (Andrea Riseborough), da atriz insegura (Naomi Watts), e de seu produtor à beira de um ataque de nervos com os gastos do espetáculo (Zach Galifianakis).

Iñarritu alterna momentos de mais sutileza com outros de gravidade absoluta na interposição de conflitos pessoais do protagonista com comentários sobre Hollywood, cinema, arte e o jogo das celebridades. Essa verve dá a “Birdman” uma eloquência estupenda e rara de se ver em qualquer manifestação artística.

A estética também impressiona no filme. Da trilha sonora pontuada por agudos de bateria à edição que reforça a percepção de que assistimos a um enorme plano sequência. Iñarritu escondeu os cortes em um trabalho cuja adjetivação se prova insuficiente para frisar o quão engenhosa a iniciativa é e o quão produtiva para os efeitos ambicionados pelo roteiro ela se mostra.

Mas a fotografia de Emmanuel Lubezki, a música de Antonio Sanchez e o trabalho de montagem de Douglas Crise e Stephen Mirrione não teriam repercussão se um elenco poderoso não ressaltasse a alma dessa obra corajosa e desafiadora do cineasta de “21 gramas” e “Biutiful”.

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Michael Keaton exorciza os próprios demônios como o ator que precisa ser amado, querido e admirado na mesma medida em que precisa de oxigênio. Ainda na espetacular metalinguagem proposta por Iñarritu, “Birdman” devolve a Keaton sua celebridade, acrescida de um prestígio (que a indicação ao Oscar de melhor ator ratifica) que nunca obteve.

Edward Norton volta à grande forma com um decalque de … Edward Norton.  Como o ator sucesso de crítica, mas cínico e genioso, ele tem a oportunidade não só de brilhar, mas de se defender em celuloide.  A oportunidade é, também, de auto-crítica. Coisa que Iñarritu faz a todo tempo. É “Birdman” arte ou apenas uma manifestação egóica da busca de seu realizador por relevância?

A agudeza do registro se relaciona com a intensidade dos personagens

A agudeza do registro se relaciona com a intensidade dos personagens

Galifianakis, Watts, Stone e Amy Ryan, como a ex-mulher de Riggan, ajudam a tecer esse impressionista painel de Iñarritu sobre fama, arte, cinema e a intangível noção de felicidade que os une.

“Birdman” é um testamento vigoroso da imperfeição e de como ela municia robustamente a arte como um todo.

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1 comentário | Comentar

  1. 51 Eduardo Diniz 18/02/2015 22:18

    Na verdade, senti exatamente como todos os demais que assistiram esse filme …..no final ficaram exatamente as dúvidas acima mencionadas ……será que aconteceu tudo aquilo ou é fruto da imaginação dele ? Esse filme na minha opinião é sensacional pois nos faz parar para pensar …coisa que hoje em dia muitos filmes deixam a desejar …….muito bom, sensacional o BIRDMAN !!! Gostei muito …..apesar é claro, das dúvidas que pairam insistentemente na nossa mente ……

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