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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015 Críticas, Filmes | 17:04

“Dois dias, uma noite” vai além da crônica social ao expurgar tragédia íntima de personagem central

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Os irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne cunharam em sua filmografia, principalmente a partir de “Rosetta” (1999), um forte componente de denúncia social. Esse aspecto que logo se tornou reconhecível no cinema dos irmãos e produtores belgas vencedores duas vezes da Palma de Ouro em Cannes, volta com força ainda mais demolidora em “Dois dias, uma noite” (2014).

A premissa, um tanto surreal, é fruto de uma combinação de simplicidade narrativa e altivez dramatúrgica. É sexta-feira e Sandra (Marion Cotillard) recebe a notícia de que seus colegas na fábrica em que trabalha optaram, em uma votação aberta, pela demissão dela para preservarem a possibilidade de receberem um bônus no fim do ano. Instigada pelo marido e por uma amiga, Sandra consegue que na segunda-feira haja outra votação, secreta e sem a presença de um supervisor que estaria coagindo os demais funcionários, para decidir a mesma questão. Ela tem, então, dois dias e uma noite para convencer 16 pessoas a abdicarem de suas bonificações em favor da manutenção do emprego dela. É uma tarefa inglória e Sandra sabe disso.

Foto: divulgação

Foto: divulgação

O primeiro grande mérito dos Dardenne está em fazer uma mulher com clara predisposição à depressão, ao longo do filme vamos descobrindo mais detalhes sobre essa condição, a brigar por sua vida. Trata-se de um paradoxo claro. Um depressivo tende a deixar as coisas como estão. Evita a interferência. A reação.  Os cineastas belgas vão além. Eles partem dessa situação aparentemente improvável, em que o patrão transfere para os funcionários o ônus de uma demissão em tempos de crise econômica, um comentário feroz sobre as idiossincrasias do sistema capitalista. É impossível não sentir alguma solidariedade por Sandra, mas é compreensível a recusa de muitos em abrir mão de um bônus para favorecer outro alguém. Afinal, o dinheiro é necessário para todos, como os Dardenne nem precisariam, mas alinham com a crueza de um registro desinteressado em tomar partidos.

Sandra pondera com seu marido em meio a extenuante jornada regada a calmantes e antiansiolíticos de toda sorte, e imposta pela necessidade de sobrevivência, que mesmo que a maioria votasse por sua permanência, a convivência dali em diante seria problemática. Tanto com os que votaram em seu favor, como os que se sentiram lesados por sua permanência.

“Ensinucada”, a personagem se move por um instinto quase adormecido e pela devoção resistente do marido Manu (Fabrizio Rangione) sempre confortando e estimulando a mulher. Suas cobranças parecem mais interessadas em evitar um novo desfalecimento em vida da esposa do que um esforço tenaz pela manutenção do emprego dela, situação que a cada momento que passa parece mais improvável.

O filme corria um grande risco de cair no tédio. A proposta dos Dardenne jamais seria tangenciada se não contassem com o alento hercúleo de uma atriz como Marion Cotillard. É ela quem reveste o filme de brio, saliência e traduz esse engajamento político dos Dardenne em emoção.

Ao fim da projeção, os Dardenne subvertem as expectativas e oferecem desfechos plenamente críveis e satisfatórios para os dois arcos que movem o drama de Sandra. Nesse sentido, as esferas íntima e social, se distanciam no escopo da narrativa, mas se aproximam no olhar do espectador que finalmente se vê dispensado da tentação de julgar Sandra.

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2 comentários | Comentar

  1. 52 Amanda Aouad 22/02/2015 16:26

    Ótimo texto, Reinaldo. Um filme que nos pega em diversos pontos, principalmente na interpretação de Marion Cotillard, mas toda a condução é muito feliz, principalmente, a resolução crível e com uma boa dose de surpresa.

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  2. 51 josias 20/02/2015 23:55

    Eu achei o filme muito bom, sem falar que gosto muito da atriz marion cotilard,olha nao acho que ela ganhe o oscar mais nao vou me supreender se ela ganhar.

    Responder
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