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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015 Análises | 18:17

O Oscar 2015 nas entrelinhas

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Que o cinema independente é cota majoritária na edição deste ano do Oscar é plenamente sabido. Mais arrazoado ainda, é o fato de que isto não é exatamente uma novidade, mas sim uma tendência. Essa inclinação do Oscar à introspecção rendeu detalhes curiosos na atual edição do maior prêmio da indústria cinematográfica.

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Há a predominância de histórias reais entre os concorrentes. Dos indicados a melhor filme, quatro não são baseados em fatos reais. Três destes, “Whiplash – em busca da perfeição”, “Birdman” e “Boyhood”, se bifurcam com a realidade em pontos interessantes. O primeiro é baseado nas experiências do diretor e roteirista Damien Chazelle com seu professor de música na adolescência. O segundo é um exercício de metalinguagem dos mais sofisticados sobre a carreira do ator Michael Keaton e do status quo hollywoodiano, enquanto que o terceiro é cinema de vanguarda em que as opções estéticas do cineasta Richard Linklater oferecem a evolução física dos atores como tempero de uma história sobre a passagem do tempo.

O ano de 2014 não foi um grande ano para o cinema americano. Mas as duas produções que chegam com mais chances de faturar o Oscar de melhor filme são inovadoras e essencialmente originais. Tanto “Birdman” como “Boyhood” não apresentam tramas efetivamente novas, mas impressionam pelas opções estéticas e pelo desprendimento com que desvelam suas narrativas. Prova disso é que praticamente ninguém aventa a possibilidade de triunfo de um dos dois candidatos ingleses na corrida (“A teoria de tudo” e “O jogo da imitação”), que fazem o tipo “padronizado para o Oscar”. Uma particularidade digna de celebração da edição de 2015.

Birdman

Cena de “Birdman”: o triunfo da originalidade
(Foto: divulgação)

O destaque a Alejandro González Iñarritu, Bennett Miller, Richard Linklater e Wes Anderson, quatro dos cinco indicados ao prêmio de direção, representa um reconhecimento a uma geração autoral. Se Miller e Iñarritu, com poucos filmes no currículo, sempre rondaram o Oscar, Anderson e Linklater são esnobados históricos que chegaram com força na safra de 2015. Algo semelhante ocorre em outras categorias do Oscar. Julianne Moore, notavelmente, é um dos maiores expoentes não só de sua geração, como do cinema contemporâneo e ainda não tem um Oscar. É a maior baba da noite. Dificilmente o Oscar não será dela em 22 de fevereiro pelo papel de uma vítima de Alzheimer em “Para sempre Alice”. Trata-se de uma daquelas situações que a academia adora. Premiar alguém pelo conjunto da obra com um Oscar competitivo. Uma distorção que, embora compreensível, acarreta muitas críticas. Michael Keaton, outrora favorito na categoria de melhor ator, pode ser enquadrado na mesma categoria. Mas seu caso é um tanto diferente. Afinal, Keaton não detém o prestígio de Moore e o favoritismo hoje é do rival Eddie Redmayne por “A teoria de tudo”.

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Mas a grande incógnita neste momento é o tamanho com que “Sniper americano” sairá da noite do Oscar. Com uma bilheteria vultosa, de mais de U$ 300 milhões nos EUA, o filme provocou uma polarização que há muito não se via em torno de uma produção concorrente ao Oscar. A fita que aborda a vida do marine Chris Kyle, considerado o atirador de elite mais letal do exército americano, se viu no epicentro de um furioso debate sobre suas pretensões e responsabilidades ao levar às telas a vida de um homem como Kyle.

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Além de ser o maior sucesso entre os indicados do ano, e o maior sucesso de bilheteria desde 2011, quando concorreram ao Oscar de melhor filme os blockbusters “Toy story 3” e “A origem”, “Sniper americano” pode significar para o Oscar a efervescência cultural que muitos alegam estar perdida.  É tentador. Além do mais, a vitória de um filme popular, no sentido de ser sucesso de público, não faria mal à popularidade da academia.

Cena de "Sniper americano": A América em debate (Foto: divulgação)

Cena de “Sniper americano”: A América em debate
(Foto: divulgação)

“Birdman”, no qual a indústria tem a oportunidade de se reconhecer, é um filme mais atraente. “Boyhood”, mais encantador. De todo jeito, a consagração de “Sniper americano”, improvável, seria um contrassenso a esse movimento de abraçar o cinema independente. Ainda que o filme de Clint Eastwood siga a linha da introspecção tão valorizada nos candidatos do ano. “Boyhood” é o independente hardcore, feito com pouco dinheiro e muita garra ao longo de  12 anos. “Birdman” é o filme que melhor captura esse momento que vive a academia. O resultado de domingo, por mais arbitrário e circunstancial que possa parecer, pode ser o mais influente em anos.

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1 comentário | Comentar

  1. 51 Kamila Azevedo 20/02/2015 21:41

    Reinaldo, acho que o grande ponto positivo do Oscar 2015 é que temos, pela primeira vez em muito tempo, uma disputa realmente equilibrada, com várias categorias em aberto, incluindo a principal: Melhor Filme. Não posso falar muito sobre a seleção de filmes em si, pois só assisti a poucos dos indicados, infelizmente.

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