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domingo, 22 de fevereiro de 2015 Análises, Críticas | 09:19

Polarização entre “Boyhood” e “Birdman” cristaliza oportunidade da academia ousar

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Ganhe“Boyhood” ou “Birdman”, o Oscar de melhor filme estará em boas mãos. Em um ano de qualidade cinematográfica anêmica, especialmente nos EUA, é salutar que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood disponha de dois filmes tão originais e inovadores polarizando a disputa principal.

Montagem sobre reprodução

Montagem sobre reprodução

Pode ser coincidência, mas a pobreza de 2014 favoreceu dois injustiçados históricos. Richard Linklater e Wes Anderson, dois dos mais autorais cineastas americanos em atividade, chegam ao Oscar com propriedade e com filmes lançados no começo do ano. Tanto “Boyhood” como “O grande hotel Budapeste” debutaram no festival de Berlim, em fevereiro, e foram lançados em agosto e março respectivamente no mercado dos EUA. Os dois devem ser premiados. Anderson deve ficar com a estatueta de roteiro original e Linklater deve ser eleito o melhor diretor do ano.

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Essas ilações nos levam a uma tendência recente que deve se repetir em 2015. A pulverização dos prêmios. “O Grande hotel Budapeste” deve ser o maior vencedor da noite, com quatro ou cinco prêmios, mas o Oscar de melhor filme deve ficar entre “Birdman” e “Boyhood”.  Pela originalidade, arrojo estético e dificuldade na realização de ambos os filmes, a expectativa é de que a academia divida os prêmios de filme e direção entre as produções. A coluna aposta que “Birdman” fique com o Oscar de melhor filme e “Boyhood” renda a Linklater o troféu de direção. Desde a consagração de “O artista” em 2012, que uma mesma produção não vence os Oscars de filme e direção.

Vibrante, histérico, cativante, irônico e reflexivo do status de Hollywood, “Birdman” é um candidato irresistível para o metiê e vale lembrar que o Oscar é um prêmio de indústria e de uma que gosta de se levar a sério. Mais afinidade entre filme e premiação não poderia haver.

A popularidade e a efervescência do debate em torno de “Sniper americano” podem favorecer o filme no caso de um eventual racha entre os “Bs” que gozam de favoritismo. Mas há muita resistência ao filme de Clint Eastwood. Seria um cenário improvável, ainda que mais viável do que as vitórias de “Whiplash – em busca da perfeição” e “A teoria de tudo”.

Richard Linklater, à direita: o esforço e a retidão de conduzir um filme por doze anos devem ser recompensados com o Oscar de direção (Foto: divulgação)

Richard Linklater, à direita: o esforço e a retidão de conduzir um filme por doze anos devem ser recompensados com o Oscar de direção
(Foto: divulgação)

Consagração de carreiras

J. K Simmons é um monstro em “Whiplash” e ninguém tira o Oscar dele. Edward Norton por “Birdman” é o único a fazer uma distante sombra entre os atores coadjuvantes. Patricia Arquette, por “Boyhood” tem esbarrado na unanimidade na categoria de atriz coadjuvante. O Oscar a ela seria uma forma de homenagear a devoção do elenco a um projeto como “Boyhood”.

Julianne Moore não vê concorrência entre as atrizes. Sua performance em “Para sempre Alice” é, de fato, a melhor entre as indicadas. Mas a disputa ganhou contornos desleais quando enveredou pelo caminho “ela já merece há algum tempo”. Rosamund Pike, por ‘Garota exemplar” e Marion Cotillard, por “Dois dias, uma noite” apresentam desempenhos premiáveis, mas são zebras colossais.

Em comum, esses favoritos têm o fato de que esses Oscars competitivos ganham o peso de chancela a carreiras de extrema regularidade e bom gosto. Trata-se de um vício reiterado da academia em fazer homenagens e estabelecer políticas de compensação com Oscars competitivos. Por coincidência, o ano forjou candidaturas suficientemente sólidas para que esse mau hábito não seja circunstancialmente questionado.

Na categoria de melhor ator esse aspecto ganha contornos mais dramáticos. Michael Keaton (“Birdman”), outrora favorito explícito, preenche os requisitos listados acima. Mas se encontra em uma disputa acirradíssima em que os outros quatro concorrentes vivem personagens reais.

Keaton, no entanto, a exemplo de Simmons e Moore, tem a melhor performance entre os pleiteantes, com a escusa da subjetividade inerente à análise.  Só ele e Bradley Cooper, em “Sniper americano”, investigam seus personagens de dentro para fora. Os conflitos e dilemas tangenciados pelas respectivas atuações são totalmente emocionais e não há amparo da fisicalidade, como nos casos de Eddie Redmayne (“A teoria de tudo”) e Steve Carell (“Foxcatcher”), também ótimos.

Keaton demonstra inteligência incomum, e segurança extraordinária, ao brincar com a própria persona em um jogo de metalinguagens arriscado para qualquer intérprete.

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O Oscar fica entre ele e Redmayne, espetacular como Stephen Hawking em “A teoria de tudo” e beneficiário de defender uma interpretação ajustada aos perfis mais destacados pelo Oscar historicamente. Personagem real, gênio e/ou com deficiência física. Isolados ou combinados, esses fatores costumam render prêmio. A categoria de atriz também admite o mesmo raciocínio em 2015.

Michael Keaton: uma das últimas dúvidas do Oscar, pode ter o seu prêmio da carreira "furtado" por uma atuação com "cara de Oscar" (Foto: divulgação)

Michael Keaton: uma das últimas dúvidas do Oscar. Ele pode ter o seu prêmio da carreira “furtado” por uma atuação com “cara de Oscar”
(Foto: divulgação)

Escolhas ousadas?

A disputa pelo Oscar de filme estrangeiro parece concentrada entre o polonês “Ida” e o russo “Leviatã”. Além da questão geopolítica que une os dois candidatos, há a oposição de um tema caro à academia, o holocausto, com um tema quente, os desmandos políticos na Rússia. Mas esta categoria é uma das mais surpreendentes na história recente do Oscar. Portanto, as chances de vitória do argentino “Relatos selvagens” ou do estoniano “Tangerines” não podem ser desprezadas.

Parece improvável que o prêmio de fotografia não fique com o mexicano Emmanuel Lubezki por “Birdman”. Ele já venceu no ano passado por “Gravidade”. Seria o triunfo da ousadia de apresentar um plano-sequência falso na obra de Iñarritu.

“O Grande Hotel Budapeste” deve prevalecer nas categorias de figurino e direção de arte, podendo pincelar os prêmios de trilha sonora e mesmo fotografia.

O prêmio de montagem, se o mundo for justo, fica com “Boyhood”. Mas o mundo não é justo e a ousadia do Oscar costuma ficar restrita às indicações. Um reflexo da divisão cada vez mais flagrante entre as alas conservadora e moderna da academia. Fica a torcida para 2015 ser o ano que marque o início da virada.

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2 comentários | Comentar

  1. 52 Kamila Azevedo 22/02/2015 17:26

    Por mais que a polarização entre “Boyhood” e “Birdman” tenha dado o tom da atual temporada de premiação, prevejo um Oscar com uma divisão de prêmios quase igual entre vários filmes. Já se foi o ano em que um filme só ganhava tudo. Hoje, o cinema está mais “igual”, digamos assim. Então, a divisão de prêmios favorece isso.

    De toda maneira, acho que o Oscar será ousado se premiar um filme diferente e com uma proposta única como “Birdman”. Isso é de se comemorar!

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  2. 51 Amanda Aouad 22/02/2015 16:22

    Análise precisa, Reinaldo. E que venha a premiação logo mais para brindarmos a vitória de um filme que agrade a todos, finalmente, rs.

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