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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015 Críticas, Filmes | 01:05

Direção potente reforça discurso politizado de “Selma”

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Existem filmes que são impulsionados por sua importância histórica, é o caso de “Selma” (EUA, 2014) que reverbera um dos mais importantes episódios da cruzada de Martin Luther King Jr. pela igualdade e liberdade civis na década de 60.

Dirigido por Ava DuVernay com mão de ferro, “Selma” é um filme que está sendo contestado por suas imprecisões históricas, elas existem e não são poucas, mas uma forma mais amistosa de se olhar para o filme é reconhecer nele um ponto de vista muito forte.  O drama recria a tentativa de King liderar uma marcha entre as cidades de Selma e Montgomery, no estado sulista do Alabama – um dos mais segregacionistas da América de então. O filme acompanha esses bastidores, a resistência do governador George Wallace (Tim Roth) e a leniência do presidente Lyndon B. Johnson (Tom Wilkinson). É justamente esse retrato vilanizador de Johnson que tem sido bastante questionado. As costuras políticas eram naturalmente delicadas e Johnson precisava vencer muita resistência política para atender aos anseios dos negros. O anseio em relevo em “Selma” era o do direito ao voto, na prática sufocado por tabeliães larápios e racistas. King defendia uma legislação federal que derrubasse todas as restrições para que eleitores negros se registrassem. Johnson, na leitura do filme, hesitava em atender essa demanda que no entendimento de King bastaria uma canetada.

Um King humanizado, mas ainda extremamente cativante, surge em "Selma" (Foto: divulgação)

Um King humanizado, mas ainda extremamente cativante, surge em “Selma”
(Foto: divulgação)

Não se deve exigir de “Selma” pureza histórica, mas sim fidelidade aos fatos. Nesse aspecto, o filme é feliz. Não há distorções ou ilações, apenas a expressão contundente e vigorosa de um ponto de vista, discorde-se dele ou não. DuVernay fez um filme sobre um ícone americano, hoje louvado e incensado em todo o país, mas que nem sempre foi visto desta maneira. Seu filme começa com King aceitando o prêmio Nobel da Paz. A cineasta propõe com este recorte o seguinte raciocínio: Está aqui um homem que não deseja lutar contra o sistema, mas que tenta fazer com que este sistema seja mais justo, democrático e humano. É um raciocínio irresistível. Difícil de resistir também é o olhar que ela lança sobre King, interpretado soberba e emocionantemente por David Oyelowo. Um líder humano, falho, cheio de medos e abraçado a sua fé em Deus e no homem, o King que surge em “Selma” está longe do mito que muitos reverenciam, ainda que seja talhado para admiração. Nesse sentido, o filme desvia tanto King quanto Johnson do veredito histórico que receberam e essa constatação revela que as críticas ao filme por sua obtusidade histórica nada mais são do que  má vontade para com uma obra com um discurso tão forte e clamoroso por justiça social, algo que tanto nos Estados Unidos como no Brasil, ainda parece circunscrito ao sonho que King ousou sonhar.

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2 comentários | Comentar

  1. 52 Cineclube por Reinaldo Glioche – iG Cultura » Entre falhas e acertos, “A 13ª Emenda” acena para América mais humanizada 21/02/2017 13:02

    […] Leia mais: Direção potente reforça discurso politizado de “Selma” […]

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  2. 51 Luis 25/02/2015 19:46

    Poxa, tenho qu assisitir esse filme, e logo. Filmes assim ficam pouco tempo em cartaz por aqui.

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