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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015 Críticas, Filmes | 16:43

Eastwood flagra América combalida por meio de herói duvidoso em “Sniper americano”

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De vez em quando surge um filme cujo rótulo “incompreendido” precisa ser empregado. Há muito tempo, no entanto, não surgia um filme capaz de provocar debate tão acirrado e dominar a agenda cultural de um país, no caso os EUA, como “Sniper americano” (EUA, 2014).

O filme de Clint Eastwood foi majoritariamente percebido como uma peça de propaganda militar, um filme urdido sob  benção de uma América autoindulgente e conservadora. Há, também, quem enxergue um grave deslocamento de causa e efeito. Percebe raízes antibelicistas na narrativa desenvolvida por Eastwood, mas julga que essa narrativa coadunada com a trajetória de Chris Kyle, considerado o atirador de elite mais letal da história dos EUA, é contraproducente. Portanto, um erro de estratégia.

Chris Kyle em ação: polarização em torno do personagem serve aos propósitos de Eastwood (Foto: divulgação)

Chris Kyle em ação: polarização em torno do personagem serve aos propósitos de Eastwood
(Foto: divulgação)

Ambas as teorias falham miseravelmente. Clint Eastwood não faz uma defesa da guerra, tampouco se levanta contra ela, ele já foi mais enfático no quesito no díptico que dirigiu sobre a segunda guerra mundial (“A conquista da honra” e “Cartas de Iwo Jima”, ambos de 2006).  O cineasta também não objetiva repisar os efeitos da guerra em um homem, algo belamente registrado pelo cinema em filmes como “Amargo regresso” (1978) e “Guerra do terror” (2009), entre outros.

O que ele oferece é um estudo muito mais interior, robusto, complexo e sensível. Por isso mesmo foge à compreensão de muitos. Eastwood radiografa, por meio desse herói enviesado, uma nação em litígio consigo mesma. Imbuído de um patriotismo de cavidade, Chris Kyle (Bradley Cooper) parece se esforçar para manter consigo uma visão de que o mundo é preto no branco, refutando o cinza tão defendido na contemporaneidade –  e que outros personagens ao longo da narrativa parecem aceitar. Kyle virou Seal (membro da elite da marinha americana) por falta de propósito, mas a visão de mundo é fruto de uma educação embrutecida do pai, um típico caubói do Texas, articula Eastwood logo no começo da projeção.

Há algo por trás da obsessão de Chris Kyle pela guerra. O espectador pode especular se tratar da rivalidade silenciosa com o atirador de elite sírio que desafia seus números, o desejo de vingar o iraquiano disposto a colaborar com as tropas americanas que foi morto pelo açougueiro ou mesmo a vaidade de reforçar sua “lenda”, como é carinhosamente chamado pelos corredores da guerra.

Mas trata-se mais de uma visão de mundo rudimentar que se apresenta verborragicamente para a audiência em uma conversa entre Klye e sua esposa (Sienna Miller) logo após a leitura de uma carta deixada por um amigo morto em combate.

São nesses respiros dramáticos que Eastwood tece pequenos comentários sobre uma América remoída e fragmentada. Há uma outra cena em que Kyle encara uma televisão e ouvimos todo tipo de explosões e tiroteios para depois descobrirmos que a TV estava desligada.

Eastwood defende com momentos como esse que a guerra é algo que se retroalimenta. A cultura expressa por Kyle, que o filme sabiamente não defende, acusa ou redime, está viva na América e toda a reação ao filme é sintomática dessa condição.

Bradley Cooper, não menos que extraordinário, ajuda a dimensionar as angústias de seu personagem (Foto: divulgação)

Bradley Cooper, não menos que extraordinário, ajuda a dimensionar as angústias de seu personagem
(Foto: divulgação)

Temos outra cena em que Kyle ensina seu filho a caçar. Ele diz “É uma coisa e tanto interromper um coração”. O diálogo, como bem lembrou Luísa Pécora em sua excelente crítica sobre o filme, remete a uma fala de “Os imperdoáveis” em que o veterano vivido por Clint Eastwood diz que “é uma coisa e tanto tirar a vida de um homem”. A diferença é que Kyle não estava cansado dessa vida e desferiu a frase com o desejo e excitação de que seu filho logo soubesse o que é esse sentimento, enquanto que o desgostoso caubói vivido por Eastwood em “Os imperdoáveis” receava que seu aprendiz tivesse que cometer tal ato em breve.

A autorreferência, sutil como ela mesma, ajuda a entender a força de “Sniper americano” uma investigação doída, profunda e eloquente de um personagem que mimetiza uma visão de mundo, tida como decadente, mas ainda muito influente.

Passa por aí a pouca atenção dada à morte de Kyle, tão absurda e inglória que talvez merecesse um comentário mais febril. Eastwood não trata o fato como desimportante, mas evita aferir-lhe propriedade para que o norte de seu filme não seja deslocado. Não contava, é claro, que desentendessem seu filme de todo jeito.

Um último adendo deve ser feito à atuação de Bradley Cooper.  O ator reveste seu Kyle de camadas insuspeitas e sublinha com comedimento e astúcia dramática os recortes pretendidos por Eastwood. Seu Chris Kyle é um homem com uma visão unilateral do mundo. Aferrado a ela. Mas essa visão também tem seu preço. O ônus familiar e emocional, tão bem encampados no filme, o tornam mais familiar e permitem a confusão de muitos ao tomá-lo por um filme sobre “os efeitos da guerra em um homem”. Não que haja demérito aí e essa camada de “Sniper americano” é suficientemente satisfatória. Mas há muito além e Bradley Cooper é, para todos os efeitos, o fiador dessa desestabilizadora experiência que é “Sniper Americano”. Um Eastwood dos grandes, enfim!

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1 comentário | Comentar

  1. 51 Claudio Luiz 26/02/2015 19:45

    Independentemente de quaisquer considerações, fico feliz por ver que alguém mais enxergou na obra do velho Clint as mesmas nuances que eu. Como foi muito bem dito, esse filme é mais um “Eastwood dos grandes”. Creio ser esse o único gênero/rotulo onde ele se encaixe

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