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Arquivo de fevereiro, 2015

domingo, 22 de fevereiro de 2015 Análises, Críticas | 09:19

Polarização entre “Boyhood” e “Birdman” cristaliza oportunidade da academia ousar

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Ganhe“Boyhood” ou “Birdman”, o Oscar de melhor filme estará em boas mãos. Em um ano de qualidade cinematográfica anêmica, especialmente nos EUA, é salutar que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood disponha de dois filmes tão originais e inovadores polarizando a disputa principal.

Montagem sobre reprodução

Montagem sobre reprodução

Pode ser coincidência, mas a pobreza de 2014 favoreceu dois injustiçados históricos. Richard Linklater e Wes Anderson, dois dos mais autorais cineastas americanos em atividade, chegam ao Oscar com propriedade e com filmes lançados no começo do ano. Tanto “Boyhood” como “O grande hotel Budapeste” debutaram no festival de Berlim, em fevereiro, e foram lançados em agosto e março respectivamente no mercado dos EUA. Os dois devem ser premiados. Anderson deve ficar com a estatueta de roteiro original e Linklater deve ser eleito o melhor diretor do ano.

Leia também: O Oscar 2015 nas entrelinhas

Crítica:  Do que falamos quando falamos de “Birdman”? 

Crítica: Tempo é parâmetro absoluto para epifanias de “Boyhood”

 

Essas ilações nos levam a uma tendência recente que deve se repetir em 2015. A pulverização dos prêmios. “O Grande hotel Budapeste” deve ser o maior vencedor da noite, com quatro ou cinco prêmios, mas o Oscar de melhor filme deve ficar entre “Birdman” e “Boyhood”.  Pela originalidade, arrojo estético e dificuldade na realização de ambos os filmes, a expectativa é de que a academia divida os prêmios de filme e direção entre as produções. A coluna aposta que “Birdman” fique com o Oscar de melhor filme e “Boyhood” renda a Linklater o troféu de direção. Desde a consagração de “O artista” em 2012, que uma mesma produção não vence os Oscars de filme e direção.

Vibrante, histérico, cativante, irônico e reflexivo do status de Hollywood, “Birdman” é um candidato irresistível para o metiê e vale lembrar que o Oscar é um prêmio de indústria e de uma que gosta de se levar a sério. Mais afinidade entre filme e premiação não poderia haver.

A popularidade e a efervescência do debate em torno de “Sniper americano” podem favorecer o filme no caso de um eventual racha entre os “Bs” que gozam de favoritismo. Mas há muita resistência ao filme de Clint Eastwood. Seria um cenário improvável, ainda que mais viável do que as vitórias de “Whiplash – em busca da perfeição” e “A teoria de tudo”.

Richard Linklater, à direita: o esforço e a retidão de conduzir um filme por doze anos devem ser recompensados com o Oscar de direção (Foto: divulgação)

Richard Linklater, à direita: o esforço e a retidão de conduzir um filme por doze anos devem ser recompensados com o Oscar de direção
(Foto: divulgação)

Consagração de carreiras

J. K Simmons é um monstro em “Whiplash” e ninguém tira o Oscar dele. Edward Norton por “Birdman” é o único a fazer uma distante sombra entre os atores coadjuvantes. Patricia Arquette, por “Boyhood” tem esbarrado na unanimidade na categoria de atriz coadjuvante. O Oscar a ela seria uma forma de homenagear a devoção do elenco a um projeto como “Boyhood”.

Julianne Moore não vê concorrência entre as atrizes. Sua performance em “Para sempre Alice” é, de fato, a melhor entre as indicadas. Mas a disputa ganhou contornos desleais quando enveredou pelo caminho “ela já merece há algum tempo”. Rosamund Pike, por ‘Garota exemplar” e Marion Cotillard, por “Dois dias, uma noite” apresentam desempenhos premiáveis, mas são zebras colossais.

Em comum, esses favoritos têm o fato de que esses Oscars competitivos ganham o peso de chancela a carreiras de extrema regularidade e bom gosto. Trata-se de um vício reiterado da academia em fazer homenagens e estabelecer políticas de compensação com Oscars competitivos. Por coincidência, o ano forjou candidaturas suficientemente sólidas para que esse mau hábito não seja circunstancialmente questionado.

Na categoria de melhor ator esse aspecto ganha contornos mais dramáticos. Michael Keaton (“Birdman”), outrora favorito explícito, preenche os requisitos listados acima. Mas se encontra em uma disputa acirradíssima em que os outros quatro concorrentes vivem personagens reais.

Keaton, no entanto, a exemplo de Simmons e Moore, tem a melhor performance entre os pleiteantes, com a escusa da subjetividade inerente à análise.  Só ele e Bradley Cooper, em “Sniper americano”, investigam seus personagens de dentro para fora. Os conflitos e dilemas tangenciados pelas respectivas atuações são totalmente emocionais e não há amparo da fisicalidade, como nos casos de Eddie Redmayne (“A teoria de tudo”) e Steve Carell (“Foxcatcher”), também ótimos.

Keaton demonstra inteligência incomum, e segurança extraordinária, ao brincar com a própria persona em um jogo de metalinguagens arriscado para qualquer intérprete.

Leia também: Michael Keaton exorciza Michael Keaton com “Birdman”

O Oscar fica entre ele e Redmayne, espetacular como Stephen Hawking em “A teoria de tudo” e beneficiário de defender uma interpretação ajustada aos perfis mais destacados pelo Oscar historicamente. Personagem real, gênio e/ou com deficiência física. Isolados ou combinados, esses fatores costumam render prêmio. A categoria de atriz também admite o mesmo raciocínio em 2015.

Michael Keaton: uma das últimas dúvidas do Oscar, pode ter o seu prêmio da carreira "furtado" por uma atuação com "cara de Oscar" (Foto: divulgação)

Michael Keaton: uma das últimas dúvidas do Oscar. Ele pode ter o seu prêmio da carreira “furtado” por uma atuação com “cara de Oscar”
(Foto: divulgação)

Escolhas ousadas?

A disputa pelo Oscar de filme estrangeiro parece concentrada entre o polonês “Ida” e o russo “Leviatã”. Além da questão geopolítica que une os dois candidatos, há a oposição de um tema caro à academia, o holocausto, com um tema quente, os desmandos políticos na Rússia. Mas esta categoria é uma das mais surpreendentes na história recente do Oscar. Portanto, as chances de vitória do argentino “Relatos selvagens” ou do estoniano “Tangerines” não podem ser desprezadas.

Parece improvável que o prêmio de fotografia não fique com o mexicano Emmanuel Lubezki por “Birdman”. Ele já venceu no ano passado por “Gravidade”. Seria o triunfo da ousadia de apresentar um plano-sequência falso na obra de Iñarritu.

“O Grande Hotel Budapeste” deve prevalecer nas categorias de figurino e direção de arte, podendo pincelar os prêmios de trilha sonora e mesmo fotografia.

O prêmio de montagem, se o mundo for justo, fica com “Boyhood”. Mas o mundo não é justo e a ousadia do Oscar costuma ficar restrita às indicações. Um reflexo da divisão cada vez mais flagrante entre as alas conservadora e moderna da academia. Fica a torcida para 2015 ser o ano que marque o início da virada.

Mais: Academia de Hollywood vive  guerra fria entre alas conservadora e modernizante 

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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015 Análises | 18:17

O Oscar 2015 nas entrelinhas

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Que o cinema independente é cota majoritária na edição deste ano do Oscar é plenamente sabido. Mais arrazoado ainda, é o fato de que isto não é exatamente uma novidade, mas sim uma tendência. Essa inclinação do Oscar à introspecção rendeu detalhes curiosos na atual edição do maior prêmio da indústria cinematográfica.

iG On: “Birdman” e “O grande hotel Budapeste” lideram indicações ao Oscar 2015

Leia também: Briga pelo Oscar toma forma e restam poucas dúvidas

Há a predominância de histórias reais entre os concorrentes. Dos indicados a melhor filme, quatro não são baseados em fatos reais. Três destes, “Whiplash – em busca da perfeição”, “Birdman” e “Boyhood”, se bifurcam com a realidade em pontos interessantes. O primeiro é baseado nas experiências do diretor e roteirista Damien Chazelle com seu professor de música na adolescência. O segundo é um exercício de metalinguagem dos mais sofisticados sobre a carreira do ator Michael Keaton e do status quo hollywoodiano, enquanto que o terceiro é cinema de vanguarda em que as opções estéticas do cineasta Richard Linklater oferecem a evolução física dos atores como tempero de uma história sobre a passagem do tempo.

O ano de 2014 não foi um grande ano para o cinema americano. Mas as duas produções que chegam com mais chances de faturar o Oscar de melhor filme são inovadoras e essencialmente originais. Tanto “Birdman” como “Boyhood” não apresentam tramas efetivamente novas, mas impressionam pelas opções estéticas e pelo desprendimento com que desvelam suas narrativas. Prova disso é que praticamente ninguém aventa a possibilidade de triunfo de um dos dois candidatos ingleses na corrida (“A teoria de tudo” e “O jogo da imitação”), que fazem o tipo “padronizado para o Oscar”. Uma particularidade digna de celebração da edição de 2015.

Birdman

Cena de “Birdman”: o triunfo da originalidade
(Foto: divulgação)

O destaque a Alejandro González Iñarritu, Bennett Miller, Richard Linklater e Wes Anderson, quatro dos cinco indicados ao prêmio de direção, representa um reconhecimento a uma geração autoral. Se Miller e Iñarritu, com poucos filmes no currículo, sempre rondaram o Oscar, Anderson e Linklater são esnobados históricos que chegaram com força na safra de 2015. Algo semelhante ocorre em outras categorias do Oscar. Julianne Moore, notavelmente, é um dos maiores expoentes não só de sua geração, como do cinema contemporâneo e ainda não tem um Oscar. É a maior baba da noite. Dificilmente o Oscar não será dela em 22 de fevereiro pelo papel de uma vítima de Alzheimer em “Para sempre Alice”. Trata-se de uma daquelas situações que a academia adora. Premiar alguém pelo conjunto da obra com um Oscar competitivo. Uma distorção que, embora compreensível, acarreta muitas críticas. Michael Keaton, outrora favorito na categoria de melhor ator, pode ser enquadrado na mesma categoria. Mas seu caso é um tanto diferente. Afinal, Keaton não detém o prestígio de Moore e o favoritismo hoje é do rival Eddie Redmayne por “A teoria de tudo”.

Leia também: Em lista amalucada, academia colhe esnobados históricos e surpreende 

Mas a grande incógnita neste momento é o tamanho com que “Sniper americano” sairá da noite do Oscar. Com uma bilheteria vultosa, de mais de U$ 300 milhões nos EUA, o filme provocou uma polarização que há muito não se via em torno de uma produção concorrente ao Oscar. A fita que aborda a vida do marine Chris Kyle, considerado o atirador de elite mais letal do exército americano, se viu no epicentro de um furioso debate sobre suas pretensões e responsabilidades ao levar às telas a vida de um homem como Kyle.

Leia também: O que o conflito entre apoiadores de “Selma” e “Sniper americano” diz sobre a Hollywood de hoje? 

Além de ser o maior sucesso entre os indicados do ano, e o maior sucesso de bilheteria desde 2011, quando concorreram ao Oscar de melhor filme os blockbusters “Toy story 3” e “A origem”, “Sniper americano” pode significar para o Oscar a efervescência cultural que muitos alegam estar perdida.  É tentador. Além do mais, a vitória de um filme popular, no sentido de ser sucesso de público, não faria mal à popularidade da academia.

Cena de "Sniper americano": A América em debate (Foto: divulgação)

Cena de “Sniper americano”: A América em debate
(Foto: divulgação)

“Birdman”, no qual a indústria tem a oportunidade de se reconhecer, é um filme mais atraente. “Boyhood”, mais encantador. De todo jeito, a consagração de “Sniper americano”, improvável, seria um contrassenso a esse movimento de abraçar o cinema independente. Ainda que o filme de Clint Eastwood siga a linha da introspecção tão valorizada nos candidatos do ano. “Boyhood” é o independente hardcore, feito com pouco dinheiro e muita garra ao longo de  12 anos. “Birdman” é o filme que melhor captura esse momento que vive a academia. O resultado de domingo, por mais arbitrário e circunstancial que possa parecer, pode ser o mais influente em anos.

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Críticas, Filmes | 17:04

“Dois dias, uma noite” vai além da crônica social ao expurgar tragédia íntima de personagem central

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Os irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne cunharam em sua filmografia, principalmente a partir de “Rosetta” (1999), um forte componente de denúncia social. Esse aspecto que logo se tornou reconhecível no cinema dos irmãos e produtores belgas vencedores duas vezes da Palma de Ouro em Cannes, volta com força ainda mais demolidora em “Dois dias, uma noite” (2014).

A premissa, um tanto surreal, é fruto de uma combinação de simplicidade narrativa e altivez dramatúrgica. É sexta-feira e Sandra (Marion Cotillard) recebe a notícia de que seus colegas na fábrica em que trabalha optaram, em uma votação aberta, pela demissão dela para preservarem a possibilidade de receberem um bônus no fim do ano. Instigada pelo marido e por uma amiga, Sandra consegue que na segunda-feira haja outra votação, secreta e sem a presença de um supervisor que estaria coagindo os demais funcionários, para decidir a mesma questão. Ela tem, então, dois dias e uma noite para convencer 16 pessoas a abdicarem de suas bonificações em favor da manutenção do emprego dela. É uma tarefa inglória e Sandra sabe disso.

Foto: divulgação

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O primeiro grande mérito dos Dardenne está em fazer uma mulher com clara predisposição à depressão, ao longo do filme vamos descobrindo mais detalhes sobre essa condição, a brigar por sua vida. Trata-se de um paradoxo claro. Um depressivo tende a deixar as coisas como estão. Evita a interferência. A reação.  Os cineastas belgas vão além. Eles partem dessa situação aparentemente improvável, em que o patrão transfere para os funcionários o ônus de uma demissão em tempos de crise econômica, um comentário feroz sobre as idiossincrasias do sistema capitalista. É impossível não sentir alguma solidariedade por Sandra, mas é compreensível a recusa de muitos em abrir mão de um bônus para favorecer outro alguém. Afinal, o dinheiro é necessário para todos, como os Dardenne nem precisariam, mas alinham com a crueza de um registro desinteressado em tomar partidos.

Sandra pondera com seu marido em meio a extenuante jornada regada a calmantes e antiansiolíticos de toda sorte, e imposta pela necessidade de sobrevivência, que mesmo que a maioria votasse por sua permanência, a convivência dali em diante seria problemática. Tanto com os que votaram em seu favor, como os que se sentiram lesados por sua permanência.

“Ensinucada”, a personagem se move por um instinto quase adormecido e pela devoção resistente do marido Manu (Fabrizio Rangione) sempre confortando e estimulando a mulher. Suas cobranças parecem mais interessadas em evitar um novo desfalecimento em vida da esposa do que um esforço tenaz pela manutenção do emprego dela, situação que a cada momento que passa parece mais improvável.

O filme corria um grande risco de cair no tédio. A proposta dos Dardenne jamais seria tangenciada se não contassem com o alento hercúleo de uma atriz como Marion Cotillard. É ela quem reveste o filme de brio, saliência e traduz esse engajamento político dos Dardenne em emoção.

Ao fim da projeção, os Dardenne subvertem as expectativas e oferecem desfechos plenamente críveis e satisfatórios para os dois arcos que movem o drama de Sandra. Nesse sentido, as esferas íntima e social, se distanciam no escopo da narrativa, mas se aproximam no olhar do espectador que finalmente se vê dispensado da tentação de julgar Sandra.

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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015 Críticas, Filmes | 18:45

“Caminhos da floresta” é cozidão pop que imagina contos de fadas pelo avesso

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Rob Marshall será sempre assombrado por seu primeiro filme, o primoroso e vencedor do Oscar “Chicago” (2002). Seu debute no cinema não poderia ser um paradigma mais resiliente. “Chicago” surfou na onda de “Moulin Rouge”, lançado um ano antes, e consolidou a revitalização do musical no cinema. Gênero e Marshall ainda tentam superar o impacto do filme estrelado por Richard Gere e Catherine Zeta-Jones.

A filmografia irregular de Marshall ostenta outros dois musicais, o subestimado “Nine” e esse “Caminhos da floresta” (EUA, 2014), uma adaptação do musical de Stephen Sondheim que reúne diversos personagens de variados contos de fadas. O filme se comunica com o momento da Disney de explorar personagens de fábulas em contextos diferentes e representa, também, certa ousadia.

Personagens clássicos como Cinderela, Chapeuzinho vermelho, Rapunzel, a bruxa má e João e o pé de feijão interagem em um vilarejo fantástico. Mas suas representações passam longe do tradicionalismo presente nos contos de fadas tradicionais.

A bruxa má vivida por Meryl Streep, o padeiro (James Corden) e sua mulher (Emily Blunt): eles puxam a trama (Foto: divulgação)

A bruxa má vivida por Meryl Streep, o padeiro (James Corden) e sua mulher (Emily Blunt): eles puxam a trama
(Foto: divulgação)

Contudo, “Caminhos da floresta” não empolga nem como musical nem como ousadia. Fica tudo no quase. Em parte porque a trama é simplória demais e o fato de ser um musical com bons momentos não disfarça isso e, fundamentalmente, porque torna-se refém de seu mote. Os personagens não são cativantes, as músicas são boas, mas não irrompem o interesse circunstancial – algumas chegam a cansar – e Marshall deixou passar algumas arestas mal desenvolvidas.

Isso posto, “Caminhos da floresta” tem o mérito, que já vem da peça original, de mitigar os efeitos dos contos de fadas. O cinismo do registro é bem-vindo e se surge majestoso e expansivo no número musical em que os dois príncipes competem para ver quem é mais vaidoso, é bastante sutil, por exemplo, no momento em que o personagem vivido por Chris Pine avança sobre a mulher do padeiro, defendida por Emily Blunt. A atriz britânica, aliás, responde pela vitalidade da fita. Quando sai de cena, o filme murcha um pouco. É ela quem injeta energia e verdade em um filme que perde muito de seu impacto no ato final, menos musicado.

“Caminhos da floresta” acaba por se revelar um filme menos interessante do que o fã de musicais supõe. Cozidão pop, empobrece a filmografia de Marshall no mesmo compasso em que acentua o brilhantismo de “Chicago”, para todos os efeitos o último grande musical a ganhar os cinemas. É este o paradoxo do qual Marshall ainda não conseguiu se desvencilhar.

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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015 Críticas, Filmes | 15:14

Do que falamos quando falamos de “Birdman”?

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Esta crítica poderia começar da maneira como se convencionou introduzir textos analíticos sobre “Birdman ou a inesperada virtude da ignorância”, esse petardo cinematográfico disparado pelo mexicano Alejandro González Iñarritu, mas as convenções parecem pequenas ante a magnitude do filme. Sobre o que, afinal, estamos falando quando falamos de “Birdman”? Sobre cinema? Sobre o conflito entre o id e o ego? Sobre a complexa relação entre arte e indústria? Sobre a tentativa desesperada de um ator em retornar aos dias de glória de outrora?

Leia também: Michael Keaton exorciza Michael Keaton com “Birdman”

Ao abrilhantar seu filme com um jogo de metáforas original, mesmerizante e insidioso, Iñarritu reúne todos esses temas em uma narrativa nervosa, pulsante, irônica e profundamente reveladora dos personagens, do estado de espírito de seu realizador e fundamentalmente do cinema em seu contexto macroestrutural, mas também em sua veia mais íntima.

Riggan Thomson (Michael Keaton) produz, dirige e estrela uma adaptação de Raymond Carver para a Broadway. A peça é a última tentativa do ator, que recusou estrelar a terceira sequência do filme de super-herói Birdman, de recuperar o prestígio de outrora e de obter um reconhecimento que só vem fora das franquias milionárias que dominam Hollywood e que, por conjectura, paira sobre o teatro.

O híper realismo da narrativa de "Birdman" se refugia em um espirituoso arremedo de metalinguagens

O hiperrealismo da narrativa de “Birdman” se refugia em um espirituoso arremedo de metalinguagens

O filme se desdobra pela semana que antecede a noite de abertura da peça. Riggan precisa administrar a vaidade de um ator querido da crítica que pode representar a salvação da peça (Edward Norton), dar atenção à filha recém-egressa da rehab (Emma Stone), da namorada ciosa de mais afeto (Andrea Riseborough), da atriz insegura (Naomi Watts), e de seu produtor à beira de um ataque de nervos com os gastos do espetáculo (Zach Galifianakis).

Iñarritu alterna momentos de mais sutileza com outros de gravidade absoluta na interposição de conflitos pessoais do protagonista com comentários sobre Hollywood, cinema, arte e o jogo das celebridades. Essa verve dá a “Birdman” uma eloquência estupenda e rara de se ver em qualquer manifestação artística.

A estética também impressiona no filme. Da trilha sonora pontuada por agudos de bateria à edição que reforça a percepção de que assistimos a um enorme plano sequência. Iñarritu escondeu os cortes em um trabalho cuja adjetivação se prova insuficiente para frisar o quão engenhosa a iniciativa é e o quão produtiva para os efeitos ambicionados pelo roteiro ela se mostra.

Mas a fotografia de Emmanuel Lubezki, a música de Antonio Sanchez e o trabalho de montagem de Douglas Crise e Stephen Mirrione não teriam repercussão se um elenco poderoso não ressaltasse a alma dessa obra corajosa e desafiadora do cineasta de “21 gramas” e “Biutiful”.

Leia também: Os novos rumos do cinema de Alejandro González Iñarrritu

Michael Keaton exorciza os próprios demônios como o ator que precisa ser amado, querido e admirado na mesma medida em que precisa de oxigênio. Ainda na espetacular metalinguagem proposta por Iñarritu, “Birdman” devolve a Keaton sua celebridade, acrescida de um prestígio (que a indicação ao Oscar de melhor ator ratifica) que nunca obteve.

Edward Norton volta à grande forma com um decalque de … Edward Norton.  Como o ator sucesso de crítica, mas cínico e genioso, ele tem a oportunidade não só de brilhar, mas de se defender em celuloide.  A oportunidade é, também, de auto-crítica. Coisa que Iñarritu faz a todo tempo. É “Birdman” arte ou apenas uma manifestação egóica da busca de seu realizador por relevância?

A agudeza do registro se relaciona com a intensidade dos personagens

A agudeza do registro se relaciona com a intensidade dos personagens

Galifianakis, Watts, Stone e Amy Ryan, como a ex-mulher de Riggan, ajudam a tecer esse impressionista painel de Iñarritu sobre fama, arte, cinema e a intangível noção de felicidade que os une.

“Birdman” é um testamento vigoroso da imperfeição e de como ela municia robustamente a arte como um todo.

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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015 Diretores, Filmes, Notícias | 19:38

Cinema de Jafar Panahi volta a ganhar relevo com “Táxi”

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Foto: divulgação

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O cineasta iraniano Jafar Panahi fez alguns bons filmes em sua carreira, o melhor e mais festejado deles, “O círculo” venceu o Leão de Ouro em Veneza no ano 2000. A fita, de uma postura política inflamada para os padrões vigentes no Oriente médio, tratava das dificuldades impostas às mulheres por um estado islâmico como o Irã. Em 2009, ele apoiou o adversário de Mahmoud Ahmadinejad nas eleições presidenciais, o que fez com que fosse alvo de perseguição do regime dos aiatolás. Em março de 2010 foi feito prisioneiro. Em novembro daquele ano, declarado culpado de incitar protestos oposicionistas e de cultivar um cinema “obsceno”. Confinado à prisão domiciliar e proibido de fazer filmes por 20 anos, Panahi não se furtou do ofício de fazer cinema.

Em 2011, lançou “Isto não é um filme”, documentário em que retrata um dia de sua rotina como prisioneiro do regime iraniano. O filme foi rodado com câmeras amadoras e celulares.

“Cortinas fechadas”, premiado no festival de Berlim de 2013 com o prêmio de melhor roteiro, mistura ficção e realidade e abusa do poder de metaforização ao mostrar um roteirista que se trancafia em uma casa com um cachorro (animal perseguido no Irã por ser considerado “imundo”) e tenta terminar de escrever o roteiro de um filme. Sons externos enunciam a instabilidade vivenciada pelo roteirista. A casa é invadida por dois jovens que alegam também eles serem vítimas de perseguição política. Em um dado momento, o próprio Panahi aparece em cena borrando as fronteiras de ficção e realidade.

Agora, o diretor retorna com “Táxi”, um documentário mais oxigenado na proposta e na investigação que alinha. Panahi oferece suas impressões de uma Teerã contemporânea através das janelas de um carro e das vozes de passageiros distintos. O filme já é sintomático do pouco de liberdade que Panahi conseguiu obter. Ele já pode sair de sua casa, mas não pode deixar o país. Seu cinema continua clandestino, mas mais vigoroso do que nunca. A reação da crítica internacional a “Táxi” foi de maravilhamento. O filme, que concorre ao Urso de Ouro em Berlim, recebeu nesta sexta-feira  (13) o prêmio da crítica no festival.

O cineasta virou atração no festival de Berlim  (Foto: reprodução/Der Spiegel)

O cineasta virou atração no festival de Berlim
(Foto: reprodução/Der Spiegel)

“Sou um cineasta. Não posso fazer outra coisa a não ser filmes. O cinema é meu modo de expressão e a razão da minha vida. Por isso, preciso continuar fazendo filmes sob qualquer circunstância”, disse Panahi em vídeo exibido quando da première de seu filme em Berlim. O Der Spiegel, um dos principais semanários da Alemanha, observou que o filme é uma maneira criativa de expor a realidade do Irã e uma elaboração política refinada por parte do cineasta. Tudo indica que “Táxi” será o grande filme da era clandestina da carreira do diretor iraniano.

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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015 Filmes, Listas | 21:34

Cinco filmes para assistir antes de “50 tons de cinza”

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É carnaval, mas um dos assuntos mais quentes do momento é a aguardadíssima adaptação cinematográfica do best-seller de E.L James. O filme entrou em cartaz nos cinemas nesta quinta-feira, mas vale a pena aproveitar o feriado prolongado – para quem não vai pular carnaval, é claro, e (re) ver esses cinco filmes antes de entrar no mundo de Christian Grey.

“9 e ½ semanas de amor” (EUA, 1986)

Fotos: divulgação

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Quem já viu, sabe. Essa perola cult estrelada por Mickey Rourke no auge da beleza e Kim Basinger mais linda do que qualquer outra coisa no planeta é a grande referência de “50 tons de cinza” em sua encarnação cinematográfica. Para todos os efeitos, os parâmetros com que o filme será julgado foram estabelecidos pela fita oitentista assinada por Adrian Lyne. Não importa a ordem, a sensação depois de uma sessão de “50 tons de cinza” e “9 e ½ semanas de amor”  é de que você já terá visto esse filme antes.

 

“A bela da tarde” (França, Itália, Espanha, 1967)

A bela da tarde

Catherine Deneuve faz uma jovem rica, bonita e infeliz nesta obra-prima de Luis Buñuel. Insatisfeita no casamento, ela procura um bordel para que em todas as tardes possa travar experiências sexuais distintas e realizar seus desejos eróticos. À tarde ela busca o prazer que seu marido não lhe dá e à noite retorna à burocrata rotina do matrimônio.

 

“Parceiros da noite” (EUA, 1980)

Parceiros da noite

Al Pacino vive um policial que se infiltra na cena gay nova-iorquina para investigar uma série de assassinatos de homossexuais. O filme foi censurado à época de seu lançamento e teve cenas passadas em clube de sadomasoquismo cortadas. É do mesmo diretor de “O exorcista” e do ultraviolento “Killer Joe – matador de aluguel”.

 

“Secretária” (EUA, 2002)

Secretária

James Spader vive outro Grey, um advogado que contrata uma moça (Maggie Gyllenhaal) recém-saída de um manicômio para ser sua secretária. Aos poucos eles vão estabelecendo uma dinâmica de dominação e submissão que revela uma incomum história de amor. Muito mais agudo nas cenas de erotismo e sexual em sua elaborações do que “50 tons de cinza”.

 

“Clube do fetiche” (Inglaterra, 1998)

clube do fetiche

O parlamento inglês promove um cerco contra clubes de sexo e fetichismo de Londres. Um membro do parlamento envia um jovem para investigar de dentro os bastidores desses clubes e acaba por se deliciar com seus relatos picantes. O bom filme inglês é um petardo contra a hipocrisia de muitos conservadores e o embuste que se ergue quando o tema é sexo.

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Filmes, Notícias | 19:24

Liberado o trailer da comédia que promete ser a mais ultrajante e divertida de 2015

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Foto: divulgação

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Você sabe o que significa o termo “Trainwreck”, que curiosamente nomeia o novo filme do diretor de perolas como “O virgem de 40 anos” e “Ligeiramente grávidos”? É uma expressão usada para discriminar uma mulher que mantém relações sexuais sequenciais com homens distintos.

Judd Apatow, o homem que revitalizou a comédia americana e é um dos produtores da série de forte pulsão feminista e que abraça o chavão ame ou odeie (estamos falando de “Girls”), se junta à comediante apontada como a maior sensação da atualidade na cena americana (não estamos falando de Lena Dunhan, mas sim de Amy Schumer), para forjar a comédia que promete ser a mais insanamente divertida da temporada.

A trama segue uma jornalista, que trabalha em uma revista masculina, que não acredita em relacionamentos monogâmicos. Ela gosta de sua vida livre e não quer compromissos entediantes com outras pessoas, mas tudo muda quando começa a se apaixonar pelo homem que ela está perfilando para a revista.

Schumer também assina o roteiro da fita que promete escrachar certas convenções sociais e inflamar a discussão sobre as diferenças de liberdade sexual entre os gêneros.

O elenco conta ainda com o astro do basquete LeBron James, Bill Hader, Marisa Tomei, Brie Larson, Daniel Radcliffe, Tilda Swinton e Ezra Miller.

O filme, que ainda não tem título nacional, deve aportar nos cinemas brasileiros em setembro.

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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015 Análises, Bastidores | 19:49

Quem pode ser o novo Homem-Aranha no cinema?

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A onda de boatos começou. Enquanto Hollywood ainda tenta entender como foi costurado o acordo mais surpreendente e inovador da história da indústria, a internet se remói tentando projetar para onde um dos personagens mais queridos das HQs, e mais rentáveis do cinema, vai agora que sua tutela é dividida entre a Marvel Studios e a Sony Pictures.

São dois caminhos mais óbvios os que podem ser seguidos daqui para frente. Como a primeira aparição deste novo Aranha não deve ser em um filme solo, o mais provável é que um novo filme de origem seja dispensado, o que não implica em abdicar de um Homem-Aranha jovem, perfil que parece ter agradado com Andrew Garfield. Neste recorte, alguns nomes já são aventados por publicações como Variety e sites como Collider e The Daily Beast. Logan Lerman de “As vantagens de ser invisível” e “Percy Jackson” e Dylan o´Brien de “Maze Runner: correr ou morrer” são aventados. A coluna destaca ainda o nome de Freddie Highmore, que aos 22 anos e atualmente estrelando a série Bates Motel como um jovem Norman Bates, é disparado o melhor ator dos três e poderia substituir com desenvoltura Andrew Garfield. Lerman, no entanto, é mais experimentado em blockbusters, como o recente “Corações de ferro” e “Noé” e pode ser uma aposta mais segura por parte dos estúdios.

Freddie Highmore é ótimo ator e seria uma boa aposta (Foto: Getty)

Freddie Highmore é ótimo ator e seria uma boa aposta
(Foto: Getty)

Dylan o´Brien capricha na pose "Andrew Garfield" para descolar a vaga...  (Foto: reprodução/MTV)

Dylan o´Brien capricha na pose “Andrew Garfield” para descolar a vaga…
(Foto: reprodução/MTV)

Outro caminho a ser seguido é apostar em um Homem-Aranha mais experiente o que poderia significar recuperar Tobey Maguire, e talvez Sam Raimi, ou apostar em Jake Gyllenhaal, que quase estrelou o terceiro filme em substituição a um lesionado Maguire. Gyllenhaal traria star power e prestígio ao papel.

A Marvel deve explorar sagas das HQs e, justamente por isso, a uma forte onda de boatos dando conta de que Peter Parker poderia ser substituído, o que abriria espaço para Miles Morales, o Homem-Aranha da linha alternativa da HQ denominada Ultimate. Morales é negro e latino. Seria um movimento ousado, mas talvez não exatamente bem-vindo. Muitos fãs torcem o nariz para a linha Ultimate.

Tobey Maguire e Jake Gyllenhaal em editorial de moda do New York Times: star power ou nostalgia?

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A Marvel, que para todos os efeitos detém a curadoria deste Homem-Aranha em gestação, ainda não errou na escolha de seus protagonistas, mas as atenções sobre o novo Aranha serão redobradas. Primeiro pelo ineditismo da parceria forjada, mas também pelo fato da Sony já ter reiniciado o personagem e ter sido bastante criticada por isso.

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Curiosidades, Filmes | 06:00

“50 tons de cinza” tem recepção surpreendentemente positiva da crítica internacional

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Foto: divulgação

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Talvez soe como uma surpresa para muitos, mas as primeiras impressões da crítica internacional – em especial da americana e da inglesa, sobre a adaptação cinematográfica de “50 tons de cinza” são para lá de positivas.  O consenso é de que o filme é superior ao livro. Apesar de críticas pouco amistosas às cenas de sexo, prevalece a percepção de que o filme emula o universo do sadomasoquismo com propriedade e sofisticação.

As comparações com o cult oitentista “9 e ½ semanas de amor” deram o tom das críticas das publicações Variety e The Hollywood Reporter. No Rotten Tomatoes, site que reúne todas as críticas feitas sobre um filme, “50 tons de cinza” estreou com 73% de avaliação positiva, o que o coloca entre os vinte melhores filmes avaliados no site e estamos em plena época do Oscar.

“O crédito vai para a diretora Sam Taylor-Johnson e para a roteirista, Kelly Marcel, que limaram as maiores falhas do primeiro livro do filme, mas preservaram a essência da narrativa”, anotou a crítica Elizabeth Weitzman do Daily News. Já o inglês Guardian elogia as elegantes opções da diretora para contextualizar o nascituro da relação entre Christian Grey e Anastasia Steele. Mais ácida, mas ainda elogiosa, a crítica do New York Post vaticina: “o filme nunca finge ser o que não é. Um pornô soft para mulheres diluído em uma classificação etária mais abrangente”.

Dissonante, a IndieWire reconheceu o esforço dos realizadores, mas ao demonizar a fonte, reconhece a dificuldade de ver no filme algo realmente palatável.  A Associated Press vai além. “Johnsson tem a missão impossível de juntar Lars Von Trier (diretor de “Ninfomaníaca”) com Nancy Meyers (diretora de filmes como “Alguém tem que ceder” e “Simplesmente complicado”) e ofertar um produto de apelo para as massas.

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