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terça-feira, 28 de abril de 2015 Críticas, Filmes | 17:55

“Casa Grande” pensa o Brasil a partir do derretimento da classe média

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Um menino ajeita o cabelo em frente ao espelho. Ele quer parecer bonito. Apaga a luz do banheiro e cerra as portas por onde passa. Sai de sua casa e bate na porta de uma casinha ainda no terreno. É recepcionado por Rita (Clarissa Pinheiro) que se põe a contar para ele uma experiência sexual. De quando teve sua bunda loucamente beijada por um motoqueiro.

Com essa cena aparentemente banal e sem qualquer propósito mais elaborado, “Casa grande”, brilhante filme de Fellipe Barbosa, se insinua com força para a audiência. Estamos diante de um filme que intenciona pensar o Brasil ao apontar a lupa para as dinâmicas estabelecidas em uma família de classe média alta carioca às voltas com sua decadência socioeconômica.

Foto: divulgação

Foto: divulgação

O filme foca em Jean (o ótimo Thales Cavalcanti), um adolescente de 17 anos indeciso sobre o vestibular e decidido a conquistar uma mulher. Jean é filho de Hugo (Marcello Novaes, surpreendente), um banqueiro à espera de recolocação no mercado de trabalho que vê sua liquidez ruir, e Sônia (Susana Pires), habituada à tranquilidade de uma vida privilegiada que precisa repensar hábitos e desejos. A família é composta, ainda, por Natalie (Alice Melo), a filha caçula.

Embora o ponto de vista adotado seja o de Jean, Barbosa não limita o escopo de seu filme à desestruturação econômica desta família. Ao evocar o debate sobre cotas raciais nas universidades com seus personagens, Barbosa vai além da metaforização ao expor a profunda divisão entre classes sociais vigentes no Brasil. Este, porém, não é o único recurso utilizado pelo diretor/roteirista na obra. Ao flagrar as tensões sexuais entre patrões e empregados, o preconceito velado transferido silenciosamente de pai para filho e outros clichês típicos da classe média brasileira, Barbosa radiografa os vícios de um Brasil parado no tempo e banhado em conservadorismo. Mas Barbosa não emite julgamentos. Pelo contrário, provoca o público a fazê-los. Maliciosamente. Como na cena em que Jean, pela primeira vez usando transporte público sozinho para ir à escola, vê um rapaz negro e com aparência pobre sentar ao seu lado no banco. Sem emitir qualquer som, Barbosa convoca a plateia a posicionar-se a respeito do que vê na tela.

Em outra cena, Hugo surge falando para amigos de seu filho como “aprendeu a gostar de negras”. Mais adiante, a câmara de Barbosa flagra Hugo esgueirando-se para ouvir sua esposa tentar arrancar uma confissão que nunca vem de uma empregada em vias de ser demitida. Novamente, Barbosa não emite julgamentos, mas conta com o juízo da plateia para produzir valor à narrativa.

Mesmo analisada isoladamente, a trama central – o derretimento financeiro de uma família com os pais tentando privar os filhos dessa consciência – encanta com suas sutilezas sortidas, seus diálogos certeiros e sua arquitetura singela. Mas “Casa grande” funde tão categoricamente esse conflito de uma classe média pós-lulismo ao Brasil histórico que é impossível não ficar boquiaberto diante de toda a sua potência narrativa. Essa força dramatúrgica que envolve do breve erotismo à comédia juvenil, qualifica essa estreia de Fellipe Barbosa em longas-metragens como um dos melhores filmes do ano e uma das melhores produções brasileiras da década.

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2 comentários | Comentar

  1. 52 Aline Viana 07/05/2015 14:34

    É impressionante o que um crítico afiado pode revelar sobre as entrelinhas de uma obra. Parabéns pela análise profunda e, ao mesmo tempo, super acessível.

    Responder
  2. 51 Felipe Vercatto 03/05/2015 19:52

    Quer dizer que o diretor “pensa o Brasil a partir do derretimento (!) da classe media”? Teoria social interessante, a sua. Mas será que o objetivo não foi apenas contar de uma história?

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