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sexta-feira, 1 de maio de 2015 Análises, Curiosidades | 19:34

Quando comediantes fazem chorar

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Jennifer Aniston em cena de "Cake" (Fotos: divulgação)

Jennifer Aniston em cena de “Cake”
(Fotos: divulgação)

Duas das estreias deste fim de semana nos cinemas brasileiros têm como principais atrativos atores mais identificados à comédia exercitando suas veias dramáticas. “Entre abelhas”, estreia de Ian SBF em longas-metragens de ficção, traz o ator e comediante Fábio Porchat em um registro mais cândido, agridoce como um homem que depois de enfrentar uma separação amorosa passa a não enxergar mais as pessoas. O filme tem um humor mais sutil do que o que Porchat está acostumado a praticar com a trupe do “Porta dos Fundos” e abraça o drama sem medo de ser feliz. Já em “Cake – uma razão para viver”, Jennifer Aniston renuncia ao posto de queridinha da América alcançado com comédias românticas e a série “Friends” para viver uma mulher mergulhada em uma depressão profunda. O filme lhe valeu indicações para diversos prêmios, inclusive o Globo de Ouro e o SAG. Aniston, porém, não foi ao Oscar pelo papel. Muitos creditaram a esnobada a seu background na comédia, frequentemente apontado como desabonador nas hostes da academia. Mas outro ator egresso da comédia, Steve Carell, foi indicado ao Oscar em 2015 justamente por um papel dramático. Em “Foxcatcher – uma história que chocou o mundo”, Carell que até já havia atuado em dramas, mostra uma faceta que grande parte do público que o conhece de produções como “Agente 86” e “The Office” desconhecia.

De cima para baixo: Steve Carell e Channing Tatum, Fábio Porchat e Adam Sandler

De cima para baixo: Steve Carell e Channing Tatum, Fábio Porchat e Adam Sandler

Jim Carrey tentou o reconhecimento obtido por Carrel em 2015, mas tudo o que conseguiu foi emendar daquelas piadas longevas sobre ser vítima de preconceito da academia. Carrey chegou a ganhar consecutivamente dois globos de ouro por “O show de Truman” e “O mundo de Andy”, mas não foi sequer indicado ao Oscar. Depois das incursões pelo drama no final da década de 90, o ator voltou à carga em 2004 com “Brilho eterno de uma mente sem lembranças” e embora tenha visto sua colega de cena, Kate Winslet, ser indicada ao Oscar ficou a ver navios.

Outro expoente da década de 90, muito contestado por críticos, Adam Sandler é outro que manifesta o desejo de se provar ator sério migrando para o drama de quando em quando. Mais recentemente esteve às ordens do cineasta Jason Reitman em “Homens, mulheres e filhos”. “Espanglês”, “Tá rindo do quê?”, e “Reine sobre mim” foram tentativas anteriores de obter esse respeito que a comédia teima em não angariar.

Há a percepção de que o drama é mais solene, difícil e dignificante. Não é o caso. Jack Nicholson, um dos poucos atores a ser largamente premiado tanto por dramas como por comédias, disse certa vez que a comédia é muito mais difícil. É preciso timing, segurança e talento. Não tem como fingir ou ser dirigido para conquistar os efeitos pretendidos. No drama, um bom diretor e um ator mediano poderiam fazer maravilhas.

Percepções à parte, atores tarimbados no drama externam o desejo de fazer comédias, mas se mostram mais receosos de se aventurarem pela arte do riso. Enquanto promovia o filme de ação “O protetor”, Denzel Washington, cuja carreira foi erguida em dramas de toda sorte, disse que gostaria de fazer comédias. O ator até já se arriscou em produções que flertam com o gênero como “Muito barulho por nada” (1994) e “Dose dupla” (2013), mas jamais estrelou uma comédia assumida e na condição de protagonista. Esse receio talvez seja mais forte porque o reconhecimento de atores com bagagem dramática é algo muito forte e que pode ser mostrar um tiro pela culatra se a incursão pela comédia não for bem sucedida.

Por isso é mais comum vermos atores ligados à comédia fazendo (bem) dramas do que atores de fundo dramático excursionando pelos domínios da comédia. Channing Tatum também colheu muitos elogios por sua atuação em “Foxcather”. Jonah Hill, para muitos o gordinho de “Superbad”, tem duas indicações ao Oscar por papeis dramáticos (“Moneyball – o homem que mudou o jogo” e “O lobo de Wall Street”). Quando de sua segunda indicação ao Oscar, as redes sociais transbordaram em escárnio. Um tuíte dizia: “Jonah Hill tem duas indicações ao Oscar enquanto Gary Oldman apenas uma. Lide com isso”. Uma demonstração de que o preconceito com a comédia não está apenas na indústria ou na crítica, mas primordialmente no público. Um exemplo é Matthew McConaughey. O ator sempre esteve associado a comédias românticas em que surgia descamisado. O perfeito Marcos Pasquim texano. McConaughey se engajou em mudar os rumos de sua carreira. De mudar a percepção que público, crítica e indústria tinham dele. A guinada começou em 2011 com o drama de tribunal “O poder e a lei”, mas foram precisos nove filmes e uma aclamada série de TV para que ele finalmente tivesse seu imenso talento dramático reconhecido com indicações a prêmios.

Ben Stiller, outro ator mais afeito à comédia e à comédia de uma nota só, rodou um filme para que pudesse mostrar que há talento dramático onde o público só enxerga comédia física. O filme em questão é “A vida secreta de Walter Mitty”.

Não se pode medir talento pela assiduidade de um ator ou atriz em um mesmo gênero ou pela extensão de nobreza que aferimos a este. Mas não se pode negar que quando um comediante nos provoca apreensão ou lágrimas na sala de cinema, a sensação de arrebatamento é muito mais atordoante.

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1 comentário | Comentar

  1. 51 Kamila Azevedo 03/05/2015 20:14

    Fazer chorar é fácil! Fazer rir que é difícil! E somente por isso esses comediantes merecem nosso respeito! Fazer drama é a forma que eles encontram de obter o reconhecimento da crítica e dos seus pares.

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