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terça-feira, 2 de junho de 2015 Críticas, Filmes | 17:14

“Miss Julie” reflete mal-estar da relação entre macho e fêmea e acomoda paradoxos sociais

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Liv Ulmann, atriz prolífera no cinema de Ingmar Bergman, herdou do frequente colaborador o gosto pelo cinema de questionamento existencial. 14 anos depois de dirigir um texto de Bergman para o cinema (“Infiel”), Ulmann retorna com uma adaptação do sueco August Strindberg, referência ocasional para Bergman, cuja peça “Miss Julie”, escrita em 1888, é das mais complexas e assertivas sobre o conflito de classes sociais.

Largamente adaptada para o cinema, a peça ganha pelas mãos de Ulmann sua versão mais teatral. Na radicalidade da encenação, Ulmann se deixa seduzir por sua protagonista maior que a vida na esperança de que o público também se deixe enfeitiçar.

Jessica Chastain é um colosso da atuação e na pele de miss Julie, já vivida por atrizes como Helen Mirren, Fanny Ardant, Bibi Anderson e Janet McTeer, atinge o mais alto grau de fascinação.

Foto: divulgação

Foto: divulgação

Miss Julie é um papel riquíssimo dos pontos de vista narrativo e interpretativo. O jogo de gato e rato histérico e sexual travado entre a filha do barão e o lacaio Jean, aqui grafado como John e vivido pelo irlandês Colin Farrell, em uma noite de solstício do verão irlandês dimensiona não somente o conflito intrínseco às castas sociais, como tangencia o mal-estar entre macho e fêmea em uma sociedade tão arraigada aos ditames de classe.

A psicologia dos personagens interessa mais a Ulmann do que a história em si. Talvez esteja aí a justificativa para a longa duração, 129 minutos, e para a exacerbação da teatralidade. São apenas três atores em cena. Além de Farrell e Chastain, há Samantha Morton, como a cozinheira e noiva de John. Ulmann, no entanto, só consegue transpor certa superficialidade por meio da curva dramática percorrida por Chastain. Ao longo da narrativa, Julie vai da provocação sexual ao amor, da fragilidade ao destempero e Chastain captura toda essa efervescência com absoluto magnetismo. É ela quem estipula as bases para Colin Farrell, cuja interpretação se adensa conforme Chastain toma conta da cena. Um paradoxo que se retroalimenta do conflito entre seus personagens. Ora John emerge da submissão para admoestar Julie, ora recolhe-se a sua referida insignificância com o mero objetivo da autopreservação.

“Miss Julie” certamente não é para qualquer paladar. A despeito de Ulmann não se preocupar tanto com a clareza da narrativa, a lentidão desta por vezes incomoda, ou com a profundidade da lente sobre os personagens, Bergman não pode ser replicado, seu filme é uma proposição interessantíssima de arte pensativa.

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