Publicidade

sexta-feira, 5 de junho de 2015 Críticas, Filmes | 16:58

Cinema fascinante, ucraniano “A gangue” é soco no estômago

Compartilhe: Twitter
Foto: divulgação

Foto: divulgação

De tempos em tempos nos deparamos com um filme que nos priva o fôlego. O ucraniano “A gangue”, de Myroslav Slaboshpitsky é um destes filmes. Rodado inteiramente na linguagem de sinais, com elenco quase todo em sua totalidade de surdos-mudos, “A gangue” é cinema de verve que obriga a audiência a tatear por significados; a confiar nas imagens. Ao renunciar à oralidade, o cineasta propõe mais do que a total imersão no universo que retrata em seu filme, ele conclama a audiência a um cinema de aproximação. Onde intuição e observação rimam na produção de uma narrativa poderosa.

O filme acompanha a chegada de um rapaz a um internato para surdos-mudos. Como em toda escola, ele é alvo de bullying de adolescentes receosos por marcar território. Aos poucos, ele vai sendo aceito e meio que por osmose entra para a gangue do título. Que entre tantos outros malfeitos, explora sexualmente duas meninas da escola, estupra, rouba e espanca alunos menores.

Esse universo paralelo de violência e desamparo revela uma Ucrânia em vil decadência após a separação da Rússia. O protagonista do filme, que vai interiorizando a violência à medida que se projeta na nova organização criminosa, precisa sobreviver. O ambiente é hostil e ele não parece ter outra alternativa a não ser figurar entre os opressores. É isso ou ser parte dos oprimidos. Mas o amor, como se sabe, surge para desestabilizar qualquer circunstância. E o rapaz se vê apaixonado por uma das meninas que é forçada a se prostituir.

A expressividade do filme se sobressalta em sua simplicidade. Poucas produções atuais usam de tamanha economia narrativa. Slaboshpitsky filma em tela panorâmica e os personagens sempre se movimentam com muita rapidez. O gestual é frenético muitas vezes. Há muitos planos-sequência também. A urgência, o nervosismo daquele mundo, é hipnotizante; nosso afã por antecipar o que se anuncia nos mantêm petrificados na cadeira. Do sexo à violência, tudo é real, sem anestesia. O cineasta não está interessado no conto moral, mas sim na verdade obscura. É um objetivo que se comunica da estética ousada ao desenlace da trama.

A coragem de Slaboshpitsky não se esgota em colocar na tela um filme de mais de duas horas sem diálogos, mas sim de apresentar uma história violenta e chocante, sem concessões, onde muitos só enxergariam correção política. “A gangue” é apenas o primeiro longa-metragem do ucraniano, mas já dá para dizer que a sétima arte tem muito a se beneficiar com o cineasta. Há muito tempo que um filme não atingia o estômago com tanta força.

Autor: Tags: , ,

1 comentário | Comentar

  1. 51 Patríck Bento Laurindo 06/06/2015 8:41

    Vamos ver a força desse soco. Obrigado pela dica.

    Responder
  1. ver todos os comentários
 

Antes de escrever seu comentário, lembre-se: o iG não publica comentários ofensivos, obscenos, que vão contra a lei, que não tenham o remetente identificado ou que não tenham relação com o conteúdo comentado. Dê sua opinião com responsabilidade!

* Campos obrigatórios


 

Responder comentário


* Campos obrigatórios