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Arquivo de outubro, 2015

sábado, 31 de outubro de 2015 Críticas, Filmes | 08:19

Amoralidade do combate às drogas move “Sicario: Terra de Ninguém”

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foto: Montagem/reprodução

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Muitos filmes sobre a guerra ao tráfico de drogas já foram feitos e é comum apontar “Traffic – ninguém sai ileso” (2000) como o mais representativo desta frente cinematográfica. Quinze anos depois da premiada fita de Steven Soderbergh, “Sicario: Terra de ninguém” (2015) se apresenta para assumir o posto ocupado por “Traffic”. Não se trata de ser um filme melhor, mas de radiografar os efeitos perniciosos do combate às drogas com o mesmo agravo de “Traffic”, mas com o acinte da contemporaneidade. O mundo capturado por Denis Villeneuve é ainda mais sórdido, tenebroso e amoral do que o mostrado por Soderbergh.

Os filmes têm ainda outro elemento em comum. Benicio Del Toro, oscarizado por viver um policial honesto em meio ao mar de corrupção na fronteira entre México e EUA em “Traffic”, surge agora como um misterioso colombiano recrutado por uma força-tarefa entre agências americanas montada pela Secretaria da Defesa para desbaratar um cartel mexicano que expande seus domínios nos EUA. Essa força-tarefa, comandada com o devido grau de cinismo e insolência por Matt Graver (Josh Brolin) tem na agente do FBI Kate Macer (Emily Blunt) seu corpo estranho.

Macer, que liderava a divisão antissequestro da polícia federal americana no Arizona, cai meio de paraquedas no grupo e à medida que questiona sua função na equipe, questiona também os rumos ambíguos que o combate ao tráfico pelos EUA tomou.

O fato de o filme ser protagonizado por uma personagem feminina eleva não só a tensão dramática, como recodifica a percepção da brutalidade daquele universo estranho a Kate, mas também a audiência. “Sicario” não reclama para si a responsabilidade de ofertar respostas para um problema que parece maior cada vez que se presta atenção nele, mas se incumbe de apontar a crescente de amoralidade em uma guerra sem mocinhos. “Os limites foram alterados”, explica a uma queixosa Kate seu superior direto em um dado momento do filme. Uma luta em que agendas pessoais, corporativas e geopolíticas se misturam corrompendo qualquer objetivo probo que possa existir.

A violência e os desvios morais inerentes a ela compõem a matéria-prima da filmografia de Villeneuve – como pode ser visto em “Incêndios” (2010) e “Os suspeitos” (2013) – e o roteiro de Taylor Sheridan (ator da série “Sons of Anarchy” estreante como roteirista) oferece o relevo necessário para o canadense evoluir no escopo de sua própria obra.

Não há qualquer espaço para redenção em “Sicario” e Villeneuve, embora capriche na tensão (uma cena de tiroteio em Juarez, no México, é toda ela construída apenas com veículos parados e closes nos atores), se recusa a filmar obedecendo convenções de gênero. Seu filme em nada se parece com as produções que abordam o combate ao tráfico de drogas. As informações não são mastigadas para a plateia e ação importa menos do que o raciocínio a fomentá-la. Denso, brilhantemente fotografado e provocativo nos detalhes, “Sicario” não é o melhor de Villeneuve, mas atesta que o canadense é mesmo um dos melhores cineastas da atualidade. E com sobras.

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quinta-feira, 29 de outubro de 2015 Críticas, Filmes | 17:48

“Goosebumps: monstros e arrepios” é o “Jumanji” desta geração

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Foto: divulgação

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Sob muitos aspectos, “Goosebumps: monstros e arrepios” (2015) pertence a um estrato de filmes em extinção. Aquele filme que se insere no círculo de entretenimento familiar, mas o faz combinando elementos de humor e horror. Os anos 80 viram produções desse porte brilharem na forma de “Os Gremlins” e “Os caça-fantasmas”.

Estrelado por Jack Black, “Goosebumps” coloca o ator na pele de R.L Stine, o autor de uma interminável série de livros de terror infantil batizada de Goosebumps. No filme, Stine é um tipo neurótico que vive se mudando de cidade com a finalidade de preservar uma privacidade exacerbada, algo difícil quando se tem uma adolescente para criar. É justamente a partir do interesse de Zach (Dylan Minnette) por Hannah (Odeya Rush), que as coisas vão começar a desandar para Stine e os habitantes da pequena fictícia cidade de Madison, em que se passa a ação.

As criaturas maléficas criadas por Stine nas páginas ganham vida em uma noite aterrorizante e ele precisa liderar um grupo composto por três adolescentes para evitar um apocalipse macabro. Sob muitos aspectos, “Goosebumps” é o “Jumanji” desta geração.

Se recupera esse espírito de aventura de Sessão da Tarde, a fita dirigida por Rob Letterman (que já havia trabalhado com Black em “As viagens de Gulliver”) peca por um excesso de puerilidade que parece deslocar o filme de sua contemporaneidade.  Algo que não acontecia com “Jumanji”. Mas talvez o problema não seja do filme em si e, sim, da realidade em que ele se insere.

Especulações à parte, “Goosebumps” cativa pela engenhosidade com que insere referências diversas na trama, a rivalidade se Stine com Stephen King é um bom exemplo, mas se compromete com um arranjo amoroso forçado para todos os personagens, especialmente para o protagonista.

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terça-feira, 27 de outubro de 2015 Críticas, Filmes | 08:54

Vencedor da Palma de Ouro, “Dheepan – o refúgio” faz abordagem corajosa do problema imigratório

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É inegável que Jacques Audiard é um dos cineastas mais impactantes e interessantes do cinema francês contemporâneo. Não surpreende, portanto, que o tema de seu mais recente filme, “Dheepan – o refúgio” (FRA, 2015), seja a imigração –  assunto que polariza toda a Europa atualmente.

Vencedor da Palma de Ouro no último festival de Cannes, “Dheepan” é aquilo que se convencionou chamar de filme de diretor. Audiard controla todos os aspectos do filme com mãos de ferro e usa de uma câmera saliente para acompanhar a rotina de Dheepan (Jesuthasan Antonythasan), que fugiu da guerra no Sri Lanka junto com Yalini (Kalieaswari Srinivasan) e a pequena Illayaal (Claudine Vinasithamby), sob identidades falsas, para tentar a vida na França. Sem conhecer o idioma e precisando agir como uma família de verdade, Dheepan e sua mulher e filha postiças precisam se adequar a uma vizinhança que vai se revelando cada vez mais perigosa. Além de tolerar as demandas que cada um tem para si.

Dheepan e a desesperadora constatação de que não se pode fugir de uma guerra interna

Dheepan e a desesperadora constatação de que não se pode fugir de uma guerra interna

Não fosse pelas intervenções estilísticas do diretor, que ressalta a todo momento o estado de desconforto que move os personagens – uma solução narrativa inteligente é permitir que a audiência compartilhe da desorientação dos personagens na chegada à França -, “Dheepan –  o refúgio”  poderia muito bem ser um drama televisivo. O roteiro, extremamente previsível, repisa clichês trabalhados de maneira mais satisfatória em séries como “The Bridge”.

É mesmo a direção de Audiard que tira “Dheepan” da obviedade. A relação de Yalini com Brahim (Vincent Rotties), o chefe da gangue local e sobrinho do idoso a quem Yalini é contratada para cuidar, abarca toda a dinâmica relacional entre a Europa e a massa imigrante em suas também previsíveis variações. Mas o recorte proposto por Audiard adensa o registro.

Mesmo assim, o fato de “Dheepan – o refúgio” ser precedido por uma Palma de Ouro desarranja as perspectivas. Não se trata de um grande filme, mas de um grande tema abordado com personalidade por um diretor confiante. A palma de direção talvez fizesse mais sentido. É indefectível constatar que o prêmio máximo em Cannes veio mais por seu valor histórico, atribuído a um filme que olha para uma das grandes celeumas da humanidade na contemporaneidade, do que por seu valor artístico.

“Dheepan – o refúgio” torna-se o filme mais bem sucedido de Audiard, ainda que um de seus mais fracos. No final das contas, tal como ocorre com o personagem central, as forças das circunstâncias embaralham essa realidade.

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domingo, 25 de outubro de 2015 Críticas, Filmes | 14:52

Guerra fria em “Ponte dos Espiões” dá a Spielberg seu melhor filme em anos

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Foto: divulgação

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Sob muitos aspectos, “Ponte dos Espiões” (2015) é um filme tão único quanto especial na carreira de Steven Spielberg. O filme, que consagra a quarta colaboração de cineasta com o ator Tom Hanks (as outras foram “O Terminal”, “Prenda-me se For Capaz” e “O Resgate do Soldado Ryan”) e é o terceiro “sério” de Spielberg na sequência (“Cavalo de Guerra” em 2011 e “Lincoln” em 2012) – um fato raro em uma carreira que alterna produções de prestígio com blockbusters – , agrega o DNA do Spielberg dos blockbusters à solenidade do Spielberg das produções adultas.

Ambientado na guerra fria, o drama visivelmente influenciado por uma atmosfera de Frank Capra – responsável por filmes clássicos como “A mulher faz o homem”, “A felicidade não se compra” e “Aconteceu naquela noite” -, mostra um advogado do setor de seguros que se vê impelido a defender um homem acusado de ser espião da União Soviética. James Donovan sabe que por melhor que faça seu trabalho, o destino de Rudolph Abel (Mark Rylance) está traçado e que suas chances de obter um julgamento justo são para lá de remotas.

O primeiro ato de “Ponte dos Espiões”, portanto, se assevera como um elogio do direito como raramente se viu no cinema recente. Flertando novamente com outro tempo do cinema americano, Spielberg ensaia o seu “O Sol é para Todos”, mesmo sem adentrar o ritmo de drama de tribunal.

Mais adiante, e convém lembrar que o roteiro assinado pelos irmãos Coen e Matt Charman é inspirado em fatos reais, o drama se transforma completamente. A espionagem, que era uma sombra vultosa, mas uma sombra, passa a dominar a ação e “Ponte dos Espiões” assume sua vocação de drama político com a mesma inteligência até então apresentada, mas com muito mais sagacidade. É quando o texto dos Coen se permite ser mais complexo e bem-humorado. Um humor típico dos Coen que Tom Hanks, com timing perfeito, incorpora em meio ao clima de crescente tensão.

Depois que um piloto americano é capturado pelos soviéticos, a CIA escala Donovan para negociar uma troca pelo agora condenado espião soviético. Conforme a ação se transporta para a Berlim oriental, “Ponte dos Espiões” se transforma novamente e assume o ritmo de um thriller enervante, sem que haja qualquer cena de ação e sem deixar que as costuras políticas – a reboque da oratória afiada de Donovan – percam o protagonismo.

Spielberg enquadra Hanks: "Ponte dos Espiões" é o melhor fruto da parceria (Foto: divulgação)

Spielberg enquadra Hanks: “Ponte dos Espiões” é o melhor fruto da parceria
(Foto: divulgação)

Na verdade, “Lincoln” já era um filme em que Spielberg colocava a fala, e a política por trás dela, no centro da ação.  Só que “Ponte dos Espiões” é muito mais ambicioso no que apenas sugere em decorrência do que é mostrado.

Hanks, como o herói inquestionável e muito bem iluminado pela fotografia de Janusz Kaminski, personifica o James Stewart de Frank Capra, em outro paralelo eloquente alinhado por Spielberg. A do homem comum que ao recusar a rendição faz a diferença.

Sutil nas elucubrações e econômico na narrativa, Spielberg realiza um filme potente nas minúcias e atraente na temática. Se usa o passado para falar do presente, em que direitos individuais e constitucionais são descartados sem cerimônias pelo Estado, ele o faz com otimismo indisfarçável. Se atenta para o absurdo das guerras travadas nas sombras, e elas são em maior número hoje do que foram no momento em que o filme se passa, o faz com a inteligência de quem sabe que a menor das vitórias ainda é uma grande e dolorosa derrota para muitos.

É um equilíbrio raro na filmografia do cineasta e um Spielberg contingenciado como não se via desde “Minority Report – a nova lei” (2002) e “Munique” (2005). Mas sem deixar de ser Spielberg. Ao buscar abrigo em Capra e reverenciar um cinema americano menos cínico, sem fechar os olhos para o cinismo do mundo, Spielberg entrega o seu melhor filme em muito tempo.

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quinta-feira, 22 de outubro de 2015 Críticas, Filmes | 14:13

“Um amor a cada esquina” é comédia sofisticada e homenagem afetuosa ao cinema

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Peter Bogdanovich antes de ser um cineasta é um cinéfilo. “Um amor a cada esquina” (EUA 2014), que marca seu retorno à direção de uma ficção para cinema após 14 anos – seu último filme foi “O miado do gato” – é uma carta de amor ao cinema cheia de afeto.

Billy Wilder, Howard Hawks e Woody Allen são referências explícitas na trama e na construção dos diálogos desta que é uma comédia tão sofisticada quanto inteligente.

Owen Wilson vive Arnold Albertson, um diretor de teatro que chega a Nova York para sua nova peça. Ele decide passar uma noite com uma garota de programa que sonha em ser atriz. Izzy (Imogen Poots) o fascina e ele lhe propõe dar U$$ 30 mil para ela largar a vida de prostituta e perseguir seu sonho. Artimanha do destino, ou a manifestação do mero acaso, faz com que que Izzy seja escalada para a peça que Arnold vai dirigir e que será estrelada pela sua mulher (Kathryn Hahn).

Foto: divulgação

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A confusão, que já parece suficientemente grande, torna-se ainda maior com os outros cativantes personagens da trama. Rhys Ifans faz um galã inglês apaixonado pela mulher de Arnold; Will Forte é o produtor e autor da peça que se apaixona instantaneamente por Izzy. Jennifer Aniston faz a carente e amalucada terapeuta de Izzy que é namorada do personagem de Forte. Há, ainda, Austin Pendleton como um juiz obcecado por Izzy.

O fascínio que a personagem parece exercer sobre os homens da trama, no entanto, é um macguffin, podemos dizer. Já que é a jornada de Izzy de prostituta a atriz de sucesso que interessa à realização. Mas interessa apenas por meio da memória afetuosa que Izzy revela.

O maior trunfo do filme de Bogdanovich, porém, são os diálogos caprichados que esculpem uma trama inventiva e cativante. “Um amor a cada esquina” não é um filme para a eternidade, mas é daqueles que se infiltra na sua memória com docilidade. Atenção para a participação especial de Quentin Tarantino que ajuda a elevar o filme de patamar e cristaliza a homenagem poderosa que Bogdanovich presta ao cinema.

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terça-feira, 20 de outubro de 2015 Críticas, Filmes | 19:35

O amor dá vida ao horror em “A Colina Escarlate”

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Guillermo Del Toro tem uma visão muito particular do gênero terror. Filmes como “A espinha do Diabo” (2001) e “O labirinto do fauno” (2006) já ensejavam esse fato. “A Colina Escarlate” (2015), no entanto, sob muitos aspectos o primeiro filme genuinamente inserido no gênero assinado pelo cineasta mexicano, leva essa percepção a outro nível.

Alimentando-se da premissa de uma casa mal-assombrada, Del Toro vai afastando-se comedidamente das elaborações deste subgênero para ofertar um conto diabolicamente triste sobre “um amor monstruoso” como um personagem tão brilhantemente coloca em uma das mais memoráveis cenas de um filme que se serve do clima de suspense e horror para abastecer a história que quer contar e não o contrário.

Edith Cushing (Mia Wasikowska) é uma jovem aspirante a escritora da Nova York da virada do século XIX que se ressente da ostentação dos aristocratas. Sob muitos aspectos, ela e seu pai – um construtor – são personificações do futuro à espreita. Quando um baronete da Inglaterra vem a negócios a Nova York, Edith se flagra atraída por ele. Thomas Sharpe (Tom Hiddleston) a cativa para além da corte habitual, atentando para sua expertise como escritora e seu gosto por fantasmas.

Uma combinação desestabilizadora de circunstâncias une Thomas e Edith que parte para a Inglaterra para viver com ele na mansão em ruínas que divide com sua irmã Lucille (Jessica Chastain). Os Sharp, logo percebemos, guardam terríveis segredos e a mansão que faz brotar vermelho na neve – não tão carinhosamente apelidada pelos locais de Colina escarlate – parece ser um organismo vivo a repelir esses segredos.

Del Toro habilmente estabelece todo um clima sobrenatural para adornar uma história terrivelmente humana. O amor, um sentimento tão complexo quanto incandescente, tanto move como paralisa todos os personagens do longa. O verdadeiro terror está aí. Nas possibilidades, nem sempre belas ou referendáveis, do mais nobre dos sentimentos.

Del Toro é feliz em dimensionar os conflitos à medida que eles vão sendo descortinados. Os fantasmas de “A Colina Escarlate” são metáforas de um passado que não se pode escapar.  Essa constatação, tão dolorosamente poética, é a maior das belezas de um filme visualmente soberbo e textualmente imaginativo.

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segunda-feira, 19 de outubro de 2015 Críticas, Filmes | 14:48

Zemeckis faz homenagem às torres gêmeas com “A Travessia”

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Robert Zemeckis é um cineasta que gosta de brincar com a percepção de que o cinema é um lugar de magia e “A Travessia” (EUA 2015), filme que recria a trajetória do equilibrista francês Phillippe Petit (Joseph Gordon-Levitt), famoso por atravessar as torres gêmeas usando apenas um cabo, é uma experiência cinematográfica que agrega a essa mística inerente à filmografia do cineasta.

“A Travessia” não é um grande filme. O primeiro ato é enfadonho e cheio de efeitos especiais óbvios que afastam o sentimentalismo que a narrativa projeta. A caracterização de Levitt também é problemática. A franjinha esnobe, os olhos azuis dolorosamente falsos e o sotaque francês de araque incomodam e deixam sua interpretação ruidosamente artificial. Conforme o filme avança, e Petit pelo olhar afetuoso de Zemeckis vai ganhando pujança, esses problemas deixam de ser centrais.

O diretor arquiteta seu filme muito bem. A quebra da quarta parede (quando o personagem dialoga com a audiência) faz sentido para contar a proeza impossível de Petit, um homem que via em seu ofício uma expressão artística incompreendida. A ideia de articular toda a preparação para a travessia ilegal no World Trade Center como um golpe é outro acerto da realização. O filme ganha em charme e humor e a o sonho impalpável de Petit é mais bem dimensionado dramaticamente.

Tudo isso para alimentar a ansiedade pelo grande momento do filme, quando Petit finalmente cruza as torres em um cabo de metal. A cena é de uma beleza extrema e Zemeckis leva a sério a ideia de colocar o espectador junto no cabo com Petit. Nada que provoque vertigem, como esteve sendo noticiado aqui e acolá, mas a cena se alonga mais do que o necessário.

Em última análise, com seus defeitos e virtudes, e trata-se de um filme rachado por eles, “A Travessia” deve ser visto como uma homenagem carinhosa às torres gêmeas e a memória de uma cidade mais inocente do que é a Nova York de hoje.  Um préstimo que só o cinema parece capaz de oferecer por meio de uma magia envolvente que tem no cinema de Zemeckis seu principal fiador.

 

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quinta-feira, 15 de outubro de 2015 Críticas, Filmes | 19:51

“Bata antes de entrar” transforma sonho masculino em pesadelo

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Demonstrando notável evolução como cineasta, Eli Roth entrega com “Bata antes de entrar” (2015), um thriller divertido sobre infidelidade conjugal. Com ecos de “Atração Fatal”, Roth coloca Keanu Reeves como Evan, um ex-DJ e agora arquiteto casado com uma artista plástica que é o retrato do homem bom. Dócil e atencioso com os filhos e todo amoroso e compreensível com a esposa.

Por trabalho, ele fica em casa em um fim de semana que a mulher e os filhos partem para a praia. Logo na primeira noite, terrivelmente chuvosa, duas jovens encharcadas batem a porta de Evan. Elas se perderam e com um celular molhado, estão incomunicáveis. Evan, para lá de bem intencionado, as acolhe, oferece chá e pelo Uber chama um carro para levá-las a seu destino. Mas as moças, genialmente interpretadas por Lorenza Izzo e Ana de Armas parecem pouco dispostas a partir. Elas se põem a conversar sobre preferências sexuais e avançam sobre Evan como predadoras na noite.

O desconforto do homem casado, no entanto, não é maior do que sua excitação com a situação toda e toda a cena, pacientemente construída por Roth, é muito feliz em expor esse complexo dilema do macho e problematiza o machismo com muito sadismo.

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Como o trailer antecipa, Evan não resiste à promessa de “pizza grátis”, como ele próprio metaforiza mais adiante. Só que as duas moças decidem fazer da vida do infiel Evan, um inferno.

Elas parecem loucas, mas a audiência pode intuir que tudo faz parte de um teatro  sádico e Roth deixa a ópera fluir. Há encenação de incesto, pedofilia e toda sorte de depravação. Afinal de contas, um homem que trai aqueles que ama é um homem capaz de qualquer coisa do gênero, não é? A piração das moças é um deleite para Roth que não deixa pedra sobre pedra filmando praticamente em um só cenário, o interior da casa de Evan, e expondo visualmente a fissura que uma traição provoca no traído.

O moralismo da fita não é de verdade. É ele, também, uma grande ridicularização dos costumes, como atesta a genial cena final.  Nesse conto macabro de Eli Roth sobre infidelidade, o melhor dos sonhos masculinos é um pesadelo.

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quarta-feira, 14 de outubro de 2015 Críticas, Filmes | 14:43

“Um Senhor Estagiário” tem discurso feminista forte embutido em comédia sofisticada e sensível

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Nancy Meyers faz falta ao cinema. Muito já se falou de como o cinema mainstream negligencia um público mais maduro e mais recentemente muito tem se falado sobre como o público feminino é deixado de lado pelos grandes estúdios. Desde que se firmou como diretora, sua segunda incursão na direção com “Do que as mulheres gostam” em 2000 pode ser o marco zero, Nancy Meyers voltou-se para um público mais maduro dando preferência às mulheres.

Com “Um senhor estagiário” (2015), seu primeiro filme desde o bem sucedido “Simplesmente complicado” (2009), a cineasta continuar a contemplar esses desprestigiados nichos, mas o faz com mais assertividade e uma retórica incomum em seu cinema.

Aqui ela adota com mais clareza um discurso feminista e também advoga em favor da ideia de que idosos, se assim desejarem, devem sim ter espaço no mercado de trabalho. No filme, Robert De Niro é Ben, um septuagenário que após a morte da esposa decide voltar a trabalhar. Ele se inscreve no programa de estágio sênior da companhia fundada por Jules Ostin (Anne Hathaway), que viu seu blog de moda crescer exponencialmente para uma empresa de e-commerce e agora, além de lidar com todas as pressões inerentes ao negócio, precisa resistir ao assédio dos investidores para contratar um CEO. “Mark Zuckerberg pôde controlar sua própria empresa mesmo sendo um adolescente e nunca tendo trabalhado antes”, observa Jules em um dado momento do filme.

Tiradas como essa, sempre certeiras e impactantes, pontuam o filme que devolve Meyers ao campo das comédias sofisticadas. Apesar de sua agenda, “Um senhor estagiário” nunca emoldura um discurso aborrecido e sempre encanta pela leveza e emoção.

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Jules e Ben são dois personagens cativantes e muito bem adensados pelas interpretações de De Niro e Hathaway.

A jornada de Jules para se estabelecer em um mundo ainda dominado por homens e que mostra sinais de resistência a ascendência feminina mesmo em donas de casa, como Meyers tão brilhantemente sublinha em um dos núcleos do filme, é o principal fio condutor de “Um senhor estagiário”, mas Meyers tem o mérito de observar essa jornada a partir da relação improvável entre Jules e seu, a princípio renegado, estagiário. É uma solução criativa colocar em um cavalheiro que sempre tem um lenço a mão para ofertar a uma donzela em lágrimas a maior convicção feminista do filme. O feminismo, no escopo de “Um senhor estagiário”, aliás, tem tudo a ver com a recolocação de Ben no mercado. Meyers não equipara uma coisa com a outra, mas sabiamente filtra os pontos em comum e eles são muitos.

Conceber personagens femininas fortes é outro mérito de Meyers replicado aqui. A Jules defendida tão lindamente por Hathaway é uma mulher que já contabiliza algumas feridas por nadar contra a maré e vamos descobrindo isso junto com Ben. Meyers não poupa sua personagem dos clichês que vitimam a mulher moderna e opta não por desfechos hollywoodianos, mas por um viés otimista na resolução dos conflitos propostos. Tudo a ver com um septuagenário praticante de ioga. Eles não são muitos, mas são cada vez mais numerosos. Assim como as Jules deste mundo.

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segunda-feira, 12 de outubro de 2015 Críticas, Filmes | 10:55

Com humor, “Perdido em Marte” propõe uma ficção científica menos solene

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Ridley Scott, um dos principais semeadores da boa ficção científica no cinema, volta ao gênero depois da controversa incursão com “Prometheus” (2012) com o elogiado “Perdido em Marte” (EUA 2015). Estrelado por Matt Damon e com um roteiro esperto de Drew Goddard, do ótimo “Guerra Mundial Z” e da série “Demolidor” da Netflix, o filme tem o mérito de devolver o humor à ficção científica. Pode parecer pouca coisa, mas não é.

O gênero andava muito sisudo e o próprio Scott tinha alguma coisa a ver com isso. Em “Perdido em Marte” ele coloca Matt Damon como um astronauta que é dado como morto por sua equipe durante uma forte tempestade em Marte e que precisa se virar para sobreviver em um planeta de recursos escassos até que a Nasa envie outra missão para lá.

“Perdido em Marte” parte de um futuro em que as expedições ao planeta vermelho já são uma realidade bem estabelecida e parte de seu fascínio reside justamente em ir descobrindo a maneira “realista” com que a Terra avança sobre Marte.

Outro acerto do filme é confiar a Matt Damon, um ator que quando navegou pela comédia (“O desinformante” e “Ligado em você”) o fez maravilhosamente bem, o ritmo do filme. É ele com seu Mark Watney carismático e otimista quem faz a banda de “Perdido em Marte” tocar.

Apesar do ótimo elenco de apoio, com nomes como Kate Mara, Jessica Chastain, Sean Bean, Jeff Daniels, Kristen Wiig e Michael Peña, é mesmo Damon quem norteia o filme.

A bem da verdade, o grande mérito de Scott na direção foi perceber que o show era do ator e que o humor tão presente no texto de Goddard deveria ser valorizado. Não à toa, alguns dos melhores momentos de “Perdido em Marte” vêm de monólogos de Watney.

No mais, “Perdido em Marte” cumpre aquilo se predispõe fazer: remover a solenidade exacerbada da ficção científica. Em tempos de “Interestelar” – que ironicamente conta com Damon e Chastain no elenco -, o novo filme de Scott é um sopro de humildade a um extrato do gênero (o sci-fi com mote espacial) que andava mesmo precisando se redescobrir.

Como diz em bom inglês o personagem de Damon em um dado momento de sua solidão forçada em Marte: “I´m gonna have to Science the shit out of this”. Com um pouco de humor, dá para dispensar a tradução.

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