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quarta-feira, 14 de outubro de 2015 Críticas, Filmes | 14:43

“Um Senhor Estagiário” tem discurso feminista forte embutido em comédia sofisticada e sensível

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Nancy Meyers faz falta ao cinema. Muito já se falou de como o cinema mainstream negligencia um público mais maduro e mais recentemente muito tem se falado sobre como o público feminino é deixado de lado pelos grandes estúdios. Desde que se firmou como diretora, sua segunda incursão na direção com “Do que as mulheres gostam” em 2000 pode ser o marco zero, Nancy Meyers voltou-se para um público mais maduro dando preferência às mulheres.

Com “Um senhor estagiário” (2015), seu primeiro filme desde o bem sucedido “Simplesmente complicado” (2009), a cineasta continuar a contemplar esses desprestigiados nichos, mas o faz com mais assertividade e uma retórica incomum em seu cinema.

Aqui ela adota com mais clareza um discurso feminista e também advoga em favor da ideia de que idosos, se assim desejarem, devem sim ter espaço no mercado de trabalho. No filme, Robert De Niro é Ben, um septuagenário que após a morte da esposa decide voltar a trabalhar. Ele se inscreve no programa de estágio sênior da companhia fundada por Jules Ostin (Anne Hathaway), que viu seu blog de moda crescer exponencialmente para uma empresa de e-commerce e agora, além de lidar com todas as pressões inerentes ao negócio, precisa resistir ao assédio dos investidores para contratar um CEO. “Mark Zuckerberg pôde controlar sua própria empresa mesmo sendo um adolescente e nunca tendo trabalhado antes”, observa Jules em um dado momento do filme.

Tiradas como essa, sempre certeiras e impactantes, pontuam o filme que devolve Meyers ao campo das comédias sofisticadas. Apesar de sua agenda, “Um senhor estagiário” nunca emoldura um discurso aborrecido e sempre encanta pela leveza e emoção.

Foto: divulgação

Foto: divulgação

Jules e Ben são dois personagens cativantes e muito bem adensados pelas interpretações de De Niro e Hathaway.

A jornada de Jules para se estabelecer em um mundo ainda dominado por homens e que mostra sinais de resistência a ascendência feminina mesmo em donas de casa, como Meyers tão brilhantemente sublinha em um dos núcleos do filme, é o principal fio condutor de “Um senhor estagiário”, mas Meyers tem o mérito de observar essa jornada a partir da relação improvável entre Jules e seu, a princípio renegado, estagiário. É uma solução criativa colocar em um cavalheiro que sempre tem um lenço a mão para ofertar a uma donzela em lágrimas a maior convicção feminista do filme. O feminismo, no escopo de “Um senhor estagiário”, aliás, tem tudo a ver com a recolocação de Ben no mercado. Meyers não equipara uma coisa com a outra, mas sabiamente filtra os pontos em comum e eles são muitos.

Conceber personagens femininas fortes é outro mérito de Meyers replicado aqui. A Jules defendida tão lindamente por Hathaway é uma mulher que já contabiliza algumas feridas por nadar contra a maré e vamos descobrindo isso junto com Ben. Meyers não poupa sua personagem dos clichês que vitimam a mulher moderna e opta não por desfechos hollywoodianos, mas por um viés otimista na resolução dos conflitos propostos. Tudo a ver com um septuagenário praticante de ioga. Eles não são muitos, mas são cada vez mais numerosos. Assim como as Jules deste mundo.

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