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terça-feira, 27 de outubro de 2015 Críticas, Filmes | 08:54

Vencedor da Palma de Ouro, “Dheepan – o refúgio” faz abordagem corajosa do problema imigratório

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É inegável que Jacques Audiard é um dos cineastas mais impactantes e interessantes do cinema francês contemporâneo. Não surpreende, portanto, que o tema de seu mais recente filme, “Dheepan – o refúgio” (FRA, 2015), seja a imigração –  assunto que polariza toda a Europa atualmente.

Vencedor da Palma de Ouro no último festival de Cannes, “Dheepan” é aquilo que se convencionou chamar de filme de diretor. Audiard controla todos os aspectos do filme com mãos de ferro e usa de uma câmera saliente para acompanhar a rotina de Dheepan (Jesuthasan Antonythasan), que fugiu da guerra no Sri Lanka junto com Yalini (Kalieaswari Srinivasan) e a pequena Illayaal (Claudine Vinasithamby), sob identidades falsas, para tentar a vida na França. Sem conhecer o idioma e precisando agir como uma família de verdade, Dheepan e sua mulher e filha postiças precisam se adequar a uma vizinhança que vai se revelando cada vez mais perigosa. Além de tolerar as demandas que cada um tem para si.

Dheepan e a desesperadora constatação de que não se pode fugir de uma guerra interna

Dheepan e a desesperadora constatação de que não se pode fugir de uma guerra interna

Não fosse pelas intervenções estilísticas do diretor, que ressalta a todo momento o estado de desconforto que move os personagens – uma solução narrativa inteligente é permitir que a audiência compartilhe da desorientação dos personagens na chegada à França -, “Dheepan –  o refúgio”  poderia muito bem ser um drama televisivo. O roteiro, extremamente previsível, repisa clichês trabalhados de maneira mais satisfatória em séries como “The Bridge”.

É mesmo a direção de Audiard que tira “Dheepan” da obviedade. A relação de Yalini com Brahim (Vincent Rotties), o chefe da gangue local e sobrinho do idoso a quem Yalini é contratada para cuidar, abarca toda a dinâmica relacional entre a Europa e a massa imigrante em suas também previsíveis variações. Mas o recorte proposto por Audiard adensa o registro.

Mesmo assim, o fato de “Dheepan – o refúgio” ser precedido por uma Palma de Ouro desarranja as perspectivas. Não se trata de um grande filme, mas de um grande tema abordado com personalidade por um diretor confiante. A palma de direção talvez fizesse mais sentido. É indefectível constatar que o prêmio máximo em Cannes veio mais por seu valor histórico, atribuído a um filme que olha para uma das grandes celeumas da humanidade na contemporaneidade, do que por seu valor artístico.

“Dheepan – o refúgio” torna-se o filme mais bem sucedido de Audiard, ainda que um de seus mais fracos. No final das contas, tal como ocorre com o personagem central, as forças das circunstâncias embaralham essa realidade.

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