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segunda-feira, 28 de dezembro de 2015 Críticas, Filmes | 18:32

“Beasts of No Nation” flagra horror em sua forma mais pura

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Foto: divulgação

Foto: divulgação

A opção por não batizar o país africano em que se passa “Beasts of No Nation” (EUA 2015) pode parecer fruto de uma hesitação por parte da realização, mas é, na verdade, um dos muitos acertos desse filme de alto impacto, potência e beleza.

Cary Fukunaga, que além da direção brilhante, assina o roteiro deste que é o primeiro filme distribuído pelo Netflix, observa com olhar desapaixonado a virulência com que se prolifera a violência nos recônditos africanos em constante guerra civil.

A trajetória do menino Agu (o soberbo Abraham Attah), vítima de mais uma entre as incontáveis tragédias familiares que acontecem diariamente em países imersos em conflitos militares e aliciado por um grupo paramilitar, é narrada de maneira crua, concreta e apavorante. Fukunaga, porém, recorre à abstração de Agu para pintar com mais propriedade esse aterrador quadro em que “a única maneira de parar de lutar é morrer”, como teoriza o jovem de alma velha que tanto nos impressiona em “Beasts of No Nation”.

A figura do comandante, que se fia como pai e predador dos muitos órfãos que alicia pelos vastos campos africanos em que combate, é tangenciada por Idris Elba com o horror, afetação e carisma que o registro de Fukunaga demanda.

É, portanto, nas entrelinhas desse conto tão macabro quanto honesto, que o verdadeiro horror se revela. Ninguém se importa com o que acontece nesses países inominados da África. Nessas republiquetas de aluguel que municiam rebeldes e fabricam pequenos demônios. O joguete político é apenas uma manifestação da exploração constante de uma inocência perdida para sempre.

“Beasts of No Nation” se politiza, portanto, ao não politizar. Ao não esfregar na cara a complacência do Ocidente e de seus fóruns estabelecidos (ONU, para citar o exemplo mais óbvio) para com o quadro pérfido que se testemunha em uma África mais selvagem do que aquela mostrada em documentários do Animal Planet, o filme escancara o abandono que a região e seus habitantes enfrentam. O comandante, também ele, é fruto de suas circunstâncias.

Trata-se de um grande filme. “Beasts of No Nation” não é, de maneira alguma, algo remotamente identificável como entretenimento. É um grito surdo na arte que se propõe problematizante de nossa contemporaneidade. E filmado com todo o rigor que um artista seguro de suas convicções pode oferecer. Do ponto de vista intelectual ao plástico, “Beasts of No Nation” é lindo de se ver. Ao realçar o horror com essa beleza oca, plasmada, ruidosa, Fukunaga faz mais do que um filme importante. Faz um testamento de que a arte alcança até mesmo onde recusamos posar nossos olhos.

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