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segunda-feira, 18 de janeiro de 2016 Críticas, Filmes | 18:46

“Boi Neon” flagra Nordeste moderno e aborda empoderamento feminino e limites de gênero

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Gabriel Mascaro é dos realizadores mais interessantes a emergir no cinema contemporâneo. Prova disso, é a aclamação que seu terceiro longa-metragem, “Boi Neon”, amealhou festivais mundo afora. Com destaque para os prêmios em Veneza, Toronto e Rio de Janeiro.

“Boi Neon” é um filme de inescapável força dramática, ainda que não se escore nos recursos mais tradicionais da dramaturgia para tanto. Mascaro problematiza o corpo e o gênero com a sutileza de um artesão.

Iremar (Juliano Cazarré) é um vaqueiro de curral que viaja pelo Nordeste junto com uma pequena trupe. Ele prepara os bois para as tradicionais vaquejadas (em que sobre cavalos, os vaqueiros precisam alinhar e conduzir os bois para os locais demarcados). Iremar, no entanto, gosta mesmo é de desenhar roupas. Ele sonha em ser estilista de moda. No Nordeste contemplado por Mascaro, Iremar pode até ser excêntrico, mas não é uma ave rara. Galega (Maeve Jinkings), que pertence à mesma trupe, é uma mulher “bronca” na definição de Iremar. Caminhoneira rude no tratamento com as pessoas, ela cede à arte do strip-tease à noite e a roupa que tira é desenhada por Iremar. Há, ainda, Júnior (Vinicius de Oliveira), um rapaz que substitui (Carlos Pessoa) no grupo. A vaidade de Júnior o coloca em frontal deslocamento com a aparência dos homens que vemos por ali.

Foto: divulgação

Foto: divulgação

Esses recortes expõe a verdade que Mascaro quer relativizar com seu filme. Os limites de gênero, impostos lá atrás, estão se dilatando não apenas nas grandes metrópoles. Mas o filme, que mostra este Nordeste redentor, de gente que aspira mais, mas está muito bem com sua rotina, tem mais a revelar com seu minimalismo narrativo e seu desprendimento visual.

O corpo é uma das matérias-primas de “Boi Neon”. Tanto os corpos humanos como os dos animais. Iremar, por exemplo, abriga uma feminilidade no gestual e na relação com Cacá (Alyne Santana), filha de Galega, que não expulsa de seu corpo a masculinidade característica de um homem com seu ofício. Essa contradição do corpo é uma das maiores belezas, na provocação perene que estabelece, de “Boi Neon”.

A imagem é soberana em “Boi Neon”, mas muito das inflexões do filme não estão nelas, mas partem do que elas propõem. Um exemplo disso é o empoderamento feminino. O sexo em “Boi Neon”, tratado com a parcimônia dos amantes experimentados, parece adornado para dimensionar como os clichês do comportamento social já soam deslocados em um Nordeste muito mais moderno do que o pregado a torto e a direito.

Há uma cena de sexo, envolvendo uma mulher grávida, em que o clamor do desejo é correspondido com ternura e delicadeza, mas também muito tesão. É uma cena de sexo quase explícita, em termos gráficos, mas extremamente reveladora de um mundo em transformação. Não à toa, é uma das cenas mais longas do filme.

“Boi Neon” é um cinema de propostas sólidas, de uma reflexão manente e de narrativa delicada. É um filme que precipita seu contexto com inventividade e inquietação. Para quem gosta de cinema, não dá para pedir mais do que isso.

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4 comentários | Comentar

  1. 54 De acervo a produtor: Canal Brasil muda de perfil e fomenta cultura do País | FLORESTA URGENTE 25/01/2017 10:32

    […] tanto sucesso que rendeu grandes produções na história do audiovisual no País ? e o aclamado “Boi Neon?  é uma dessas. “Acho que de uma forma mais ampla é o volume de produção que acaba […]

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  2. 53 De acervo a produtor: Canal Brasil muda de perfil e fomenta cultura do País | Folha Acadêmica 25/01/2017 9:30

    […] tanto sucesso que rendeu grandes produções na história do audiovisual no País ? e o aclamado “Boi Neon”  é uma dessas. “Acho que de uma forma mais ampla é o volume de produção que acaba […]

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  3. 52 Com Jesuíta Barbosa, “Fim do Mundo” conta história aterradora de Brasil arcaico | URGENTE NEWS 24/11/2016 5:10

    […] Cineclube: “Boi Neon” flagra Nordeste moderno e aborda empoderamento feminino e limites de gênero&… […]

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  4. 51 Com Jesuíta Barbosa, “Fim do Mundo” conta história aterradora de Brasil arcaico | Folha Acadêmica 24/11/2016 5:07

    […] Cineclube: “Boi Neon” flagra Nordeste moderno e aborda empoderamento feminino e limites de gênero&… […]

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