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sábado, 23 de janeiro de 2016 Análises | 20:42

Polêmica em torno de racismo no Oscar pode segmentar ainda mais indústria do cinema

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O cineasta Spike Lee é um dos capitães do movimento que pede boicote ao Oscar

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A semana esquentou um debate para lá de controverso que vira e mexe volta à tona em tempos de Oscar. O fato de em 2016 todos os atores e atrizes nomeados serem brancos, bem como roteiristas, diretores e demais contemplados em categorias nobres pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood gerou algum mal-estar entre a comunidade negra. De imediato surgiram protestos nas redes sociais e estes deram vez a declarações pesadas de artistas negros como Spike Lee, Ice Cube e Will Smith.

Há, sim, pouca diversidade na academia. Esse é um problema crônico e derivado da indústria do cinema como um todo, mas não implica no fato da academia ser racista. Não é.  O que a ausência de artistas negros em 2016 reflete é o gargalo de uma indústria que ainda engatinha na promoção de diversidade. Há poucas mulheres no comando de estúdios, dirigindo filmes, escrevendo-os, fotografando-os e há poucos negros como protagonistas de superproduções de estúdio. Não há, porém, em termos proporcionais, pouco reconhecimento do Oscar a esses artistas. Há, apenas, um indesejado reflexo que ganha lente de aumento com todo o barulho provocado pelo Oscar.

Apesar da virulência cada vez mais flagrante nas declarações de atores como Michael Caine, Jeffrey Wright e Jada Pinkett-Smith, o debate é bom, mas precisa ser ajustado ao contexto para produzir efeitos positivos e perenes.

A presidente da Academia, Cheryl Boone Isaacs anunciou que a Academia considera promover uma série de mudanças para aumentar o espaço das minorias entre seu quadro de votantes. Se em espírito é uma atitude bem-vinda, à reboque do mal-estar experimentado no âmago da opinião pública, é uma decisão desastrada. Isaacs, que disse que a Academia não ficará à espera da indústria na questão, quer alterar a regulamentação que dá direito aos votos, mas sem mexer nos demais benefícios de um membro da Academia, o que deve aferir mais transitoriedade e (espera-se) diversidade no corpo votante.

"12 Anos de Escravidão" foi consagrado o melhor filme no Oscar 2014, último que não teve polêmicas sobre exclusão de negros

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Pode dar muito certo e pode dar muito errado – principalmente pelo fato de gerar desequilíbrio e ruídos na qualidade dos indicados. Há de se observar, ainda, que ela não garante que negros estejam entre os indicados em 2017. É, contudo, uma resposta ao clamor generalizado. Nesse sentido, como medida paliativa, muito bem-vinda.

É preciso ter atenção, no entanto, à forma de manter o debate vivo sem o Oscar como alvo. Afinal, o Oscar está sendo crucificado por um pecado que, na verdade, não é seu. Que ele apenas ilumina. De todo modo, a Academia pode sim exercer um papel pedagógico na questão. Esse caminho já estava sendo trilhado, mas de forma muito morosa. O que Isaacs sinaliza é a aceleração de um desenvolvimento que já era natural. Os efeitos disso, não na Academia, mas na indústria como um todo, podem ser ironicamente perniciosos. Hollywood já se viu dividida antes – o Macarthismo está aí para provar isso – e a maneira descontextualizada que o debate está sendo gerido na opinião pública inflige receios aos mais conscientizados.

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6 comentários | Comentar

  1. 56 Kamila Azevedo 24/01/2016 21:02

    Mas o problema não é do Oscar! A questão passa pela indústria cinematográfica como um todo. Como Viola Davis bem disse no seu discurso do Emmy 2015, o que separa as mulheres brancas das negras é a oportunidade! A verdade é que os diretores, roteiristas, diretores de elenco, não conseguem pensar além, não conseguem enxergar os atores negros, dando a eles a oportunidade de trabalhar em papeis desafiadores e que acabem rendendo o reconhecimento.

    As mudanças feitas pelo Oscar, em decorrência de toda a polêmica, são importantes, mas, de nada elas adiantarão se não houver uma transformação mais profunda em toda a indústria cinematográfica!

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  2. 55 Edmilson S. Ramos 24/01/2016 8:32

    Ola,pudera falar tudo que tenho vontade, mais, infelizmente em todo o mundo e em tudo ha existe racismo, so quem não quer ver que ignora.

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  3. 54 marcos 24/01/2016 7:22

    Debate sem sentido. Que vença o melhor. Afinal no cinema não tem cotas raciais como nas faculdades..

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  4. 53 David Dias 24/01/2016 6:18

    É preciso aceitar a realidade se os escolhidos foram os melhores e se os melhores forem da raça branca paciência que as demais raças mostrem melhores trabalhos ou estão querendo que inventem cotas como inventaram aqui no Brasil???

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    • Ana Paula 28/01/2016 0:55

      Também acho que os melhores foram indicados. E o Brasil não inventou as cotas.
      O conceito de cotas não nasceu aqui, surgiu surgiu na Índia dos anos 30 e foi adotado nos EUA nos anos 60…

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  5. 52 paulo 24/01/2016 5:36

    Até quando iremos tolerar esse tipo de discriminação. O mundo mudou a mentalidade continua a mesma coisa..Estamos no século XXI, avançamos em tudo…menos na mentalidade.. Continuamos segregando as pessoas pela cor, religião,sexo ..Violência contra mulheres crianças gay..Sem respeitos as opiniões, sem direito a nada..E ainda queremos um mundo melhor? Precisamos acreditar que podemos sim conviver com as diferenças..as diferenças sempre vão existir mas temos que conviver com isso..Isso sim é avançar para um mundo melhor.Com respeito, cada um com as suas diferenças e opiniões..

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  6. 51 ElINTON DA SILVA MONTE 24/01/2016 0:18

    Infelizmente não é só na entrega do Oscar que volta-se a falar -se dos PRECONCEITOS, no mundo. É só nós olharmos ontem e hoje os Países NEGROS Africanos, foram imensamente explorados no sentido mais amplo da palavra e depois foram Libertos e entregues suas própria sorte. Em quanto o mundo não se envergonhar e principalmente não equilibrar esta balança completamente desigual iremos assistir muitas e muitos anos Academias continuar a marginalizar as mesmas ETNIAS.

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