Publicidade

quarta-feira, 4 de maio de 2016 Críticas, Filmes | 17:37

Com sátira a Hollywood, “Ave, César!” é deleite narrativo para iniciados nos Coen

Compartilhe: Twitter
A Hollywood da era de ouro é ridicularizada com afeto no novo filme dos irmãos Coen (Fotos: divulgação)

A Hollywood da era de ouro é ridicularizada com afeto no novo filme dos irmãos Coen
(Fotos: divulgação)

Há uma cena em “Ave, César!” em que um assistente de produção do épico cujas filmagens o novo filme dos irmãos Coen se ocupa, questiona um homem pregado na cruz: ‘você é figurante ou consta do elenco principal’? O homem devolve: ‘ eu acho que sou principal’. Essa é apenas uma das elaboradas e bem sacadas piadas do saboroso filme dos Coen que, além do grande elenco, oferta ao público uma saborosa sátira da Hollywood da era de ouro.

Se piscar, perde a piada.

“Ave, César!”, porém, não é um filme de piadas fáceis. Embora tenha sua cota de grande momentos que independem de maior contextualização histórica, o filme se fia no conhecimento do público de certos meandros da Hollywood clássica. Esse “conhecimento de causa” torna o filme muito mais vigoroso e divertido.

Ser fã do cinema dos Coen, obviamente, gera empatia imediata. Ainda que diferentemente de filmes como “Fargo” (1996) e “Queime Depois de Ler” (2008), o humor dos cineastas está menos a serviço de uma postura cínica diante do mundo e mais no espírito lisonjeiro ao cinema americano de outra época. Algo tangenciado no protagonista Ed Mannix, vivido confortavelmente por Josh Brolin como se atuasse com um alfinete no dedão do pé. Mannix é o chefe do estúdio Capitol Pictures e, naturalmente, tem sua cota diária de pepinos para resolver. Do astro de faroestes monossilábico que não consegue atuar para o diretor refinado à estrela que aparece grávida e necessitada de um marido para que um escândalo seja evitado, Mannix costura acordos e resoluções a torto e a direito. Durante a produção do épico “Ave, César”, no entanto, essa sua estressada rotina piora. Para começar, o astro do filme, Baird Whitlock (George Clooney), é sequestrado por um grupo de tendências comunistas denominado O Futuro. Mannix ainda é assediado por uma empresa de aviação civil que o quer na gestão cotidiana do negócio. Ele resiste. Como o cigarro, o cinema é um vício para o católico e certinho Mannix.

São muitos os grandes momentos que os Coen oferecem em “Ave, César!”, mas o todo parece deslocado. Talvez seja o sentimento de piada interna, talvez seja o ritmo de esquetes que rapidamente toma conta do filme, fato é que “Ave, César!” parece funcionar melhor nas partes do que no todo; o que não afasta a percepção de que se trata de um belo filme.

Filme é cheio de minúcias e o personagem Hobie Doyle é uma das mais bem engendradas

Filme é cheio de minúcias e o personagem Hobie Doyle é uma das mais bem engendradas

Os Coen riem com gosto dessa fogueira de vaidades que é Hollywood. Continuam vendo astros de cinema burros – os personagens de Clooney e Tatum são um achado e vale a penar atentar à oposição entre eles e o decalque de John Wayne vivido por Alden Ehrenreich, ator mais inteligente do que nos damos conta – sujeitos oportunistas a rodo e pequenas idiossincrasias que vão agradar cinéfilos de toda a sorte.

“Ave, César!” é, enfim, um filme que ridiculariza a musculatura de Hollywood só para louvar seu status quo.

 

Autor: Tags: , ,

1 comentário | Comentar

  1. 51 Rodrigo Mendes 21/05/2016 15:56

    Adorei!
    Belo texto, Reinaldo.
    Eu me diverti com o filme. E, sendo bem sincero,adoro filmes sobre filmes e ainda mais comédias.
    Os Coen tem um estilo cômico inigualável.

    Abraço.
    Rodrigo
    https://cinemarodrigo.blogspot.com.br/

    Responder
  1. ver todos os comentários
 

Antes de escrever seu comentário, lembre-se: o iG não publica comentários ofensivos, obscenos, que vão contra a lei, que não tenham o remetente identificado ou que não tenham relação com o conteúdo comentado. Dê sua opinião com responsabilidade!

* Campos obrigatórios


 

Responder comentário


* Campos obrigatórios