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segunda-feira, 4 de julho de 2016 Diretores | 21:11

Morre Abbas Kiarostami, cineasta que radiografou o Irã, o homem e soube registrar o mundo como ninguém

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Foto: Divulgação

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O cinema perdeu uma de suas principais forças criativas com a morte do cineasta iraniano Abbas Kiarostami. A notícia foi confirmada nesta segunda-feira (4) pela agência de notícias iraniana Isna. Diagnosticado com um câncer gastrointestinal, Kiarostami se tratou em Paris e, inclusive, submeteu-se a uma cirurgia em junho.  O diagnóstico veio em março e o câncer, como atesta a morte no princípio de julho, foi feroz e impiedoso.

“Gosto dos filmes que fazem as pessoas dormirem”, disse certa vez o vencedor da Palma de Ouro em Cannes com “Gosto de Cereja” em 1997. A frase, ainda que contextualizada por seu caráter anedótico, diz muito sobre o artista Kiarostami. Dono de um cinema altivo e que busca a reflexão contínua e intermitente sobre a vida e suas idiossincrasias, o iraniano filmou seus últimos filmes fora de seu país, assim como alguns dos mais expressivos cineastas de lá como Jafar Panahi e Asghar Farhadi.

Leia também: “Cópia Fiel” é cinema de questionamento 

Sua filmografia congregava rigor narrativo, força etérea e estupor visual. Produções como “Close-up”, a primeira a lhe atribuir alguma visibilidade internacional, dialogam com obras mais reverenciadas e famosas como “Cópia Fiel” em níveis que apenas estudiosos do cinema parecem compreender. Abbas Kiarostami é propulsor de um cinema que se pretende acadêmico, mas não aliena o público que nele pretende imergir.

À Folha, a diretora da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo Renata Almeida, amiga do diretor e que a ele proveu grande espaço no festival paulistano, disse que Kiarostami foi um “poeta visual”.

“De todos os diretores iranianos, ele foi um que conseguiu viajar, filmar em vários lugares. Era universal. Tinha muita poesia. Originalidade. Não era nem o maior cineasta iraniano, era um dos maiores cineastas do mundo. Ponto. Isso é surpreendente”, observou. Para ela, em qualquer lugar que se predispusesse filmar, Kiarostami tinha o talento e a sensibilidade para registrar algo novo, próprio. “Uma perda imensa para as artes”.

“Cópia Fiel”, que assim como a grande maioria dos filmes de Kiarostami a partir de meados da década de 90, integrou a competição oficial do festival de Cannes, talvez seja o seu filme definitivo.  Na produção rodada na Itália, um crítico de arte e um amor do passado discutem o valor da arte e de como a cópia pode reafirmar esse valor, com paralelos na vida e nas relações amorosas. É o filme que melhor traduz, hoje, o gênio de Kiarostami e merece ser elevado ao posto de seu testamento artístico.

O cineasta ao lado da atriz Juliette Binoche no set de "Cópia Fiel" (Foto: divulgação)

O cineasta ao lado da atriz Juliette Binoche no set de “Cópia Fiel”
(Foto: divulgação)

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