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segunda-feira, 21 de novembro de 2016 Críticas, Filmes | 15:59

Verhoeven revela desejos ocultos com sofisticação e assombro no sensacional “Elle”

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Com atuação inspirada da francesa Isabelle Huppert, cineasta holandês desconstrói fachadas sociais para mostrar os labirintos mais sórdidos da mente humana em um dos melhores filmes do ano

Cena do filme "Elle", que representa a França na briga pelo Oscar de filme estrangeiro em 2017

Cena do filme “Elle”, que representa a França na briga pelo Oscar de filme estrangeiro em 2017

E lá se de vão dez anos desde o lançamento de “A Espiã” (2006), último Verhoeven a ganhar os cinemas. O cineasta holandês volta lascivo, imponente, aterrador, cínico e absoluto em “Elle”, que integrou a mostra competitiva da 69ª edição do Festival de Cannes e é o representante francês na briga por uma vaga entre os finalistas ao Oscar de produção estrangeira. Trata-se de um filme provocador, imprevisível e incandescente.

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Aos 63 anos, Isabelle Huppert comprova mais uma vez porque é uma das maiores intérpretes que o cinema já conheceu ao galvanizar uma mulher torneada por um grande trauma e que a partir de um caso de violência sexual, que bem poderia ser definido como outro trauma, parte em uma obscura e nauseante jornada de autodescoberta. Em “Elle”, Huppert é Michèle, a definição de uma mulher fria. O pragmatismo que apresenta nas reuniões com seus comandados – em que sempre pede mais violência, sexo e violência com sexo nos games que produz – se estende ao convívio com o filho (Jonas Bloquet), que tenta manter um casamento implodido com uma mulher que o trai escandalosamente; o ex-marido (Charles Berling), ainda dependente emocional dela; e a mãe (Judith Magre), que sustenta michês.

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Verhoeven orienta Huppert no set de "Elle"

Verhoeven orienta Huppert no set de “Elle”

O filme começa com esse estupro. Michèle reage a ele com indiferença. Aos poucos, porém, vai sendo tomada por uma grande curiosidade a respeito da identidade de seu agressor.  Não vemos um drama aqui, mas um suspense de alta voltagem erótica com pitadas de humor negro. Sem qualquer compromisso com a correção política, Verhoeven e o roteirista David Birke observam as normas sociais de um ponto de vista incomum que, se tivéssemos que rotular, o denominaríamos de “psicopata”. Mas a realização resiste a resolver a personagem e nos priva dessa imposição conscienciosa enquanto público de qualificar suas atitudes.

É natural cruzar com acusações de que “Elle” é um produto misógino e fetichista, mas essas classificações apressadas e superficiais só atestam a ignorância de quem as professa. “Elle” é cinema robusto, de camadas, construído com muita coragem e sutileza. Verhoeven não se refugia em Freud propriamente dito, mas reveste seu cinema de profunda ressonância psicoanalítica na elaboração que faz de Michèle – que se agarra à história de violência de seu passado como se dela tirasse força para sobreviver. Nos seus termos.

Esse processo de autoconhecimento, no entanto, vai ganhando ares sinistros conforme vai se tornando visível para o público. Mas Michèle não é a única personagem com desejos e fetiches que eventualmente escapam a nossa compreensão. Todos os personagens em cena alimentam algum desejo que podemos tomar como sórdido. A amiga e sócia de Michèle, Anne, e seu marido, Robert, e a maneira como gravitam em torno da personagem de Huppert substanciam uma análise à parte. Mas que não deve ser desenvolvida aqui para que não seja comprometida a experiência fílmica.

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“Elle” é cinema de autor na sua mais musculosa espessura. Verhoeven, um diretor tão crítico dos arranjos sociais e da hipocrisia inerentes a eles, se alia a uma atriz sem quaisquer amarras e dona de uma coragem artística revigorante para fazer um dos filmes mais pulsantes e instigantes dos últimos tempos.  Com o queixo no chão, só resta ao público aplaudir um cinema tão senhor de seu significado.

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