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Arquivo de maio, 2017

quinta-feira, 25 de maio de 2017 Críticas, Filmes | 13:44

Sátira das tensões raciais, “Corra!” une comédia ao terror com excelência

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Filme não reinventa a roda, mas consegue preencher clichês de um significado incomum em produções do gênero. Com “Corra!”, Jordan Peele se fia como um artista a se observar no cinema

Cena de "Corra!", filme já em cartaz no Brasil

Cena de “Corra!”, filme já em cartaz no Brasil

A primeira cena de “Corra!”, em que vemos um jovem negro acuado ser sequestrado demonstra que o filme de estreia do ator e roteirista Jordan Peele vai abordar frontalmente as tensões raciais. É justamente a maneira surpreendente e sedutora com que o faz que torna esse hit do cinema independente, que chegou com pompa às salas brasileiras, algo tão atraente e inteligente.

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Chris, a revelação Daniel Kaluuya, está se preparando para passar o fim de semana na casa dos pais da namorada, a doce, compreensiva e aparentemente defensora das minorias Rose (Allison Williams, de “Girls”). Ansioso e apreensivo, ele joga a pergunta: “Seus pais sabem que eu sou negro?”. Ela acha fofo, faz graça e tenta tirar o peso dos ombros do boy. “Corra!”, que se define como uma comédia de horror, gênero incomum, mas que quando dá o ar de sua graça costuma arrebatar, é melhor quando trata o racismo pelo viés da sátira e acredite: a sátira aqui é potente!

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Chegando à casa dos pais de Rose, Cris estranha de antemão a postura dos empregados negros da casa. Mas o pai de Rose (melhor papel de Bradley Whitford em anos), um neurocirurgião cujo pai perdeu a classificatória olímpica para Jesse Owens – aquele que humilhou Hitler em Berlim – se apressa em dizer que votaria em Obama para um terceiro mandato. O segundo ato do filme é todo ele dedicado a desmascarar nossos impulsos racistas velados e é um deleite a maneira como Peele os esquematiza.

A mãe de Rose, vivida pela sempre competente Catherine Keener, é uma psiquiatra que se orgulha da capacidade de hipnotizar as pessoas. Aos poucos, Peele vai nos ensejando que aquele clima de estranheza na verdade é um clima de muita hostilidade disfarçada e, sensitivo, Chris começa a reagir a isso.

Uma reunião informal: "Corra!" trata das tensões raciais que fingimos não existir

Uma reunião informal: “Corra!” trata das tensões raciais que fingimos não existir

Não é exatamente surpreendente a curva que o filme toma em seu terceiro ato, uma referência óbvia aos mais experimentados no gênero é “O Albergue” (2005), o terror gore de Eli Roth, mas o viés satírico da trama e a talentosa arquitetura narrativa de Peele fazem de “Corra!” um bicho de outra natureza.

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Produzido pela mesma Blumhouse que reabilitou a carreira de M.Night Shyamalan e entregou alguns dos filmes mais interessantes do gênero, “Corra!” ganha pontos por incorporar um discurso necessário, sem soar militante. É cinema de entretenimento, mas com vigor e reverberação.  A maneira como trata da fetichização do corpo negro é um assombro.  É um filme tão bem resolvido com seu tema, que extrai os momentos de maior terror e opressão de cenas aparentemente banais.

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terça-feira, 23 de maio de 2017 Atores | 15:21

Primeiro Bond a morrer, Roger Moore levou humor à franquia

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Ele foi o James Bond dos títulos inspirados. De “Somente para Seus Olhos” a “007 Contra o Homem com a Pistola de Ouro”, passando por “007 Viva e Deixe Morrer”, Roger Moore consolidou a série no cinema

Roger Moore, eternamente Bond (Divulgação)

Roger Moore, eternamente Bond
(Divulgação)

Primeiro James Bond a morrer. Roger Moore, que aferiu leveza e bom humor ao agente secreto com licença para matar e fez com que James Bond finalmente superasse Sean Connery e pudesse, de fato, virar um diamante eterno da sétima arte, morreu nesta terça-feira (23) em decorrência de um câncer.

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Roger Moore foi James Bond entre 1973 e 1985. É, ainda, o recordista a viver o personagem na série oficial. O britânico estrelou a fase mais cômica do personagem e foi com ele que 007 veio ao Rio de Janeiro em “007 Contra o Foguete da Morte”.

Bond favorito de muitos fãs e com título de Sir, Moore não era uma grande ator. Mas tinha um senso de humor afinadíssimo. Soube fazer graça dos boatos de que era gay em “Cruzeiro das Loucas” (2002) e foi um dos primeiros a defender a flexibilização do estigma de Bond como homem branco e mulherengo.

Ainda que não estivesse aposentado como Sean Connery, Moore praticamente não aparecera no cinema nos últimos dez anos. Estava relegado a produções televisivas na Inglaterra. Sua última participação em uma produção de Hollywood foi em “Como Cães e Gatos 2: A Vingança de Kitty Galore”. Apesar do aparente ostracismo, Roger Moore, continuava sendo um formador de opinião acessado pela imprensa inglesa para pautas de comportamento e cultura.

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terça-feira, 16 de maio de 2017 Críticas, Filmes | 15:43

“Taego Ãwa” permite que índios narrem a própria tragédia

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Novo lançamento da Sessão Vitrine Petrobras, “Teago Ãwa”, não é um filme de entretenimento, mas uma tese apaixonada sobre um Brasil que se perdeu

Cena do filme "Taego Ãwa"

Cena do filme “Taego Ãwa”

É fato que “Taego Ãwa” será um filme pouco visto, mas é importante como brasileiro que falemos dele. Não só por ser o primeiro filme goiano a ser distribuído comercialmente no País em 20 anos, mas por dispensar um necessário olhar à causa indígena. Causa esta que reveste e preenche discursos políticos, geralmente inseridos no espectro mais à esquerdada sociedade, mas que muito raramente avança ao discurso. O filme faz parte do projeto Sessão Vitrine Petrobras e já está em cartaz nos cinemas a preços promocionais.

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Os irmãos cineastas Henrique e Marcela Borela investiram mais de 12 anos na feitura de “Taego Ãwa”. Foi através de cinco fitas VHS com registros dos índios Ãwa, mais conhecidos como Avá-Canoeiros do Araguaia, achadas numa faculdade, que Marcela e Henrique deram início ao projeto. A partir daí, encontraram outros materiais e foram em busca daquele povo, investigando a fundo a origem e a trajetória dos Ãwa até aqui, inclusive o passado de enfrentamento com os brancos, o histórico de reclusão, a luta por demarcação de território e pela restituição das terras.

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No longa-metragem, o grupo Avá-Canoeiro do Araguaia narra sua trajetória de desterro, cativeiro e luta pela reconquista de sua terra tradicional, também chamada Taego Ãwa – que leva o nome da primeira mulher de Tutawa, Taego, que é mãe de Kaukama – ela que por sua vez é mãe, avó e bisavó de todos os Avá-Canoeiro do Araguaia que nasceram após o contato de 1973. No contato, realizado pela FUNAI, os Ãwa foram retirados à força da Mata Azul e de pois foram enjaulados e expostos para visitação pública. Boa parte do grupo morreu de doenças alheias. Os remanescentes acabaram entregues aos Javaé – ocupantes de uma terra vizinha ao território Avá-Canoeiro. Tutawa, capturado ainda jovem pela frente da Fundação Nacional do Índio (Funai), morreu em 2015 sem ao menos ter o direito de ser enterrado no último refúgio de seu  povo antes do trágico contato: o Capão de Areia.

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Trata-se de um filme essencialmente contemplativo. Há poucos diálogos e muita observação. Aos poucos os índios, todos civilizados, vão ficando mais à vontade com a câmera. Há uma cena, em que se deixam filmar fazendo uma pintura corporal, que mostra o choque geracional. Tutawa diz: “eu não tenho vergonha de mostrar meu pênis como vocês”. É um momento simples, fortuito até, mas que revela toda a tragédia não só dos Ãwa, mas dos índios no Brasil.

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