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Arquivo de setembro, 2017

segunda-feira, 25 de setembro de 2017 Análises, Críticas, Filmes | 14:13

Orgia testamental de Aronofsky, “mãe!” é cinema que busca sentido em quem o assiste

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Novo filme de Darren Aronofsky é uma das produções mais polarizantes de 2017 e um petardo difícil de ser digerido pelo público. Entre o ruído e a excelência, “mãe!” é um filme marcante

Jennifer Lawrence em cena de "Mãe!"

Jennifer Lawrence em cena de “Mãe!”

Se o cinema é a conjugação de enquadramentos e extracampo, Darren Aronofsky parece decidido a levar essa máxima ao limite.  “mãe!” é um filme que parece existir apenas por meio das alegorias que viabiliza. Essa construção tão hermética quanto rocambolesca é, em si, uma restrição à grandeza cinemática objetivada pelo cineasta. É como se seu filme, ao abrir-se quase que por inteiro à interpretação daqueles que se deixem tocar por ele, prescindisse de sua inteireza narrativa e se contentasse com o fato de ser uma colcha de retalhos. De seu criador e daqueles em contato com ele.

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Feita essa restrição, “mãe!” é um filme de profunda e constante reverberação. Não é um filme fácil, tampouco para ser digerido como nos acostumamos a digerir o cardápio usual oferecido pelo cinema contemporâneo.  Esteta de mão cheia, Aronofsky propõe uma experiência incômoda, provocadora e capaz de subsistir em referências e devaneios filosóficos de toda ordem.

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mãe posterÉ premente identificar a bíblia como principal fonte para as referências e metáforas salpicadas ao longo das duas horas de filme. Mas as alegorias vão além. É possível perceber um comentário potente a respeito do casamento, do machismo inerente ao viés religioso, de nossa relação com o planeta, à vaidade intelectual, entre outras coisas. O mais acachapante em “mãe!”, no entanto, é a radiografia de um Deus narcisista e autocomplacente.

O filme é, sob muitos aspectos, uma intermitente sessão de terapia. Aronofsky se tem em grande estima e isso fica muito claro nos paralelos que estipula com a figura do criador, mas essa prepotência não é despropositada. O criador não é uma figura tão simpática e benevolente como muitos podem crer. É um filme de muitas camadas e capaz de produzir sentidos conflitantes em diferentes revisões.

 

Entre a parábola e as metáforas

Jennifer Lawrence é a mãe do título. Ela mora com Ele (Javier Bardem) em uma casa afastada no campo. Ele é um escritor e passa por uma profunda crise criativa. Ela é devotada a ele. A relação dos dois parece resfriada e começa a sofrer espasmos quando um estranho (Ed Harris) bate à porta e é acolhido por Ele. Pouco tempo depois é a mulher do estranho (Michelle Pfeiffer) quem chega para desestabilizar de vez mãe, cada vez mais incomodada com a atenção dispensada por Ele aos estranhos.

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Aronofsky não é um diretor conhecido pela sutileza e a metáfora para Adão e Eva está posta. Logo vem Cain e Abel e quando nos damos conta estamos diante do novo testamento. E o que Aronofsky propõe é uma reinterpretação furiosa desse ciclo bíblico.

A ideia de humanizar a natureza, Jennifer Lawrence nada mais é do que a Mãe Natureza, parece tão desalojada quando genial. Assumir o ponto de vista da Natureza em sua relação com Deus e com o homem pode parecer pueril, mas demanda uma energia criativa potente. Algo que o cinema de poucas concessões de Aronofsky é capaz de prover e aí é preciso alinhar a performance corajosa de Jennifer Lawrence. A atriz assume um papel difícil, todo ele sustentado por expressões de agonia, desentendimento e dor, e se entrega a um diretor disposto a usá-la como artífice e arquétipo em um filme de rara megalomania. Metade da força bruta de “mãe” reside na atuação de Lawrence, que alterna fúria e delicadeza com a mesma intensidade que a natureza oferta um arco-íris após a tempestade.

Darren Aronofsky orienta Jennifer Lawrence no set de mãe!

Darren Aronofsky orienta Jennifer Lawrence no set de mãe!

A falta de química com Javier Bardem é um dos brilhantismos da direção de Aronosfky – há outros. Trata-se de um mecanismo narrativo providencial para adensar as alegorias pretendidas e ensejadas pelo longa-metragem.

“mãe!” é delirante em seus superlativos. Talvez Aronofsky desacredite do cinema de entretenimento. Talvez tenha levado ao extremo o clichê de se pôr no lugar do outro. Talvez seja um filme que só o tempo será capaz de açoitar preconceitos e expectativas. Certo é que “mãe!” é de uma rigidez intelectual ímpar no cinema contemporâneo. Não há como desgostar de uma obra que se proponha a tanto.

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domingo, 10 de setembro de 2017 Críticas, Filmes | 12:37

Boas cenas de ação e Charlize letal não garantem qualidade de “Atômica”

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Charlize Theron apanha e bate muito, mas não consegue fazer com que “Atômica” seja tão divertido quanto o filme pensa ser

Charlize Theron em cena de "Atômica" Fotos: divulgação

Charlize Theron em cena de “Atômica”
Fotos: divulgação

Charlize Theron já havia demonstrado mandar bem na ação em produções como “Mad Max: Estrada da Fúria” (2015), “Velozes e Furiosos 8” (2017), “Hancock”  (2008), “Aeon Flux” (2003), entre outros. “Atômica” (2017), no entanto, é seu atestado de excelência no gênero. É quando reclama o posto de versão feminina de Liam Neeson na contemporaneidade do cinema americano.

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Dirigido por David Leitch, um ex-dublê que estreou na direção codirigindo “De Volta ao Jogo”, “Atômica” é visualmente exuberante. Seja pela gélida e plácida recriação da Berlim do fim dos anos 80, seja pelas coreografias espertas das cenas de luta. Falta ao filme, no entanto, autoconsciência. A produção, que versa sobre a espiral de traições envolvendo espiões na esteira da tensão política pré-queda do muro, se leva (muito) mais a sério do que o desejável.

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Não que o público não entenda as maquinações e não seja possível intuir as motivações dos personagens, todos de maneira geral pouco simpáticos, mas porque elas se mostram mais tediosas do que um filme do gênero poderia suportar e porque francamente boa parte delas não faz o menor sentido e exige da audiência mais condescendência do que o combinado.

Entre os pontos fortes do filme estão Charlize Theron, fria, linda e letal como se espera de uma personagem como Lorraine Broughton, a trilha sonora caprichada que ajuda a emular o clima punk rock da fita e James McAvoy como o operativo do MI6 em Berlim, David Percival. McAvoy é, em mais de um momento, a fagulha que traz de volta o público para a onda do filme.

Charlize e Sophia se pegam em uma das melhores cenas do longa

Charlize e Sophia se pegam em uma das melhores cenas do longa

Lorraine é despachada para Berlim para tentar recuperar um arquivo que contém o nome de todos os espiões atuando na cidade que vive grande efervescência político-social. De quebra, ela precisa descobrir a identidade de um traidor nas hostes do MI6. É tudo relativamente óbvio e a maneira como as revelações se organizam expõe mais uma fragilidade narrativa.

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“Atômica” é o exemplar perfeito para o argumento de que boas cenas de ação sozinhas não fazem um bom filme de ação. Leitch tem talento, mas precisa controlar sua ambição. A carreira pode descarrilar antes mesmo de se consolidar.

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