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Arquivo de outubro, 2017

segunda-feira, 16 de outubro de 2017 Análises, Bastidores | 15:45

Oscar e Hollywood ganham a chance de se reinventar na era pós- Harvey Weinstein

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Produtor de Hollywood caiu em desgraça e denúncias que pipocam contra ele, mas também contra outros figurões do cinema podem precipitar uma mudança de paradigma na indústria

Harvey Weinstein produziu e distribuiu todos os filmes de Quentin Tarantino, seu amigo pessoal e que ainda não deu declarações convictas após a explosão das denúncias

Harvey Weinstein produziu e distribuiu todos os filmes de Quentin Tarantino, seu amigo pessoal e que ainda não deu declarações convictas após a explosão das denúncias

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood após assembleia extraordinária realizada no último fim de semana expulsou Harvey Weinstein. É a segunda vez que um membro da instituição que outorga o Oscar é expulso, o primeiro foi Carmine Caridi, um ator que violou a política de sigilo envolvendo os screeners (maneira pela qual os acadêmicos veem muitos dos filmes que tentam vaga na premiação).

É difícil achar alguém em Hollywood que não tenha trabalhado com ou sob as ordens de Harvey Weinstein. Justamente por isso o caos na meca do cinema é tamanho após a reportagem do New York Times e da New Yorker revelando os maus-feitos do produtor. A saraivada de denúncias, depoimentos e desabafos que se sucedeu – e ainda ocupa o noticiário – era esperada. Bem como a ampliação de seus efeitos. Ben Affleck, Oliver Stone, Lars Von Trier e George Clooney já foram a abainhados pela espiral de denúncias de assédio que tomou Hollywood de assalto.

Woody Allen, outro envolto em polêmicas de pedofilia e abuso, alertou para uma “caça as bruxas” e o mundo do cinema parece enfeitiçado por um assunto que não deve ir embora (e talvez não deva mesmo) tão cedo.

A queda de um mito

Harvey Weinstein e Kate Winslet, uma das atrizes que venceu o Oscar apoiada pela máquina de Harvey

Harvey Weinstein e Kate Winslet, uma das atrizes que venceu o Oscar apoiada pela máquina de Harvey

Para além do que representa Harvey Weinstein enquanto homem e magnata de Hollywood – e para todos os efeitos ele é um símbolo perene do poder e seus tentáculos no cinema e em qualquer outra indústria – Harvey foi (o tempo passado já é presente nas referências a ele) um revolucionário no cinema americano. Primeiro por ter sido o arauto da revitalização do cinema independente norte-americano na década de 90, segundo por ter feito da campanha de promoção com vistas ao Oscar, uma arte de domínio particular.

Harvey Weinstein tornou-se um guru do Oscar. Filmes e celebridades promovidos por ele eram figuras dadas como certas na premiação. Produções contestadas como “Shakespeare Apaixonado” (1998) e “O Artista” (2011), esse com o acréscimo de ser estrangeiro, mudo e em preto e branco, triunfaram no Oscar e todo o crédito é plenamente atribuído a Weinstein.

Sempre se soube de seu temperamento opressor e de seu estigma rancoroso em Hollywood. Na série da HBO “Entourage” (2004 – 2011) o próprio aparece como ele mesmo “rindo” dessa situação. À luz das denúncias, cenas e acontecimentos do passado são reinterpretados. Quanto à Academia, ela já é cobrada a tomar providências a respeito de Roman Polanski, condenado por estupro de vulnerável, Bill Cosby e Mel Gibson. A inclusão do último nessa galeria é um reflexo da ardência do momento. Gibson pode até ser antissemita, mas não paira sobre ele suspeitas tão nocivas.

E como fica o business?

Hollywood não vai mudar da noite para o dia e a condução do “caso Harvey Weinstein” pela opinião pública demanda cautela. Afinal, passa pelo comportamento e postura da mídia a efetividade e longevidade de mudança de qualquer natureza em uma indústria notória por reger suas relações de maneira sexista e corporativista.

O efeito imediato é a debandada da The Weinstein Company. Até mesmo Bob Weinstein desandou a falar mal do irmão. Artistas estão pedindo para  retirar seus projetos do estúdio e produções que tentariam o Oscar, como “Terra Selvagem” e “The Current War” devem ser prejudicadas.

Harvey Weinstein e os premiados por "Shakespeare Apaixonado": uma vitória surpreendente que pavimentou a ascensão de um mito Fotos (AMPAS, reprodução Twitter)

Harvey Weinstein e os premiados por “Shakespeare Apaixonado”: uma vitória surpreendente que pavimentou a ascensão de um mito
Fotos (AMPAS, reprodução Twitter)

Quanto ao Oscar em si, os métodos patenteados por Weinstein há muito não são praticados só por ele. A corrida eleitoral que é a disputa pela estatueta mais cobiçada do cinema, no entanto, deve sentir a ausência de seu mais radical, desleal e competitivo fomentador.

A desgraça de Harvey Weinstein, no entanto, representa no longo prazo a chance de purificação da Academia. De resgate do valor dos filmes por eles mesmos. Um processo, na verdade, já em curso graças aos esforços de Cheryl Boone Isaacs que presidiu a instituição até o início deste ano. Para o bem ou para o mal, para a Academia, mas também para seu anjo caído, Hollywood adora uma segunda chance.

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sábado, 14 de outubro de 2017 Análises, Filmes | 10:00

“Toda Nudez Será Castigada” completa 45 anos sob assombrosa atualidade

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Fotos: divulgação

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Lançado comercialmente em março de 1973 após um rigoroso escrutínio por parte da Divisão de Censura de Diversões Públicas, órgão subordinado à Polícia Federal durante o regime militar, “Toda Nudez Será Castigada” completa 45 anos em 2017 em um momento particularmente ruidoso no Brasil. O filme seria originalmente lançado em 1972, mas o processo para liberação da película atrasou o lançamento. No ínterim, venceu o Urso de Prata no Festival de Berlim.

O filme de Arnaldo Jabor, adaptado da obra de Nelson Rodrigues, era uma porrada na hipocrisia da classe média brasileira dos anos 70 – ou 60, já que a peça foi escrita em 1965 – e é uma porrada na cara da classe média brasileira de hoje. “Toda a Nudez Será Castigada” faz aniversário sob a égide do obscurantismo que pauta o debate social e sobre a arte no País.

toda nudez será castigadaO homem que se apaixona pela prostituta e se recusa a assumir esse sentimento, o homossexual enrustido, o irmão malandro que quer lucrar com a infelicidade alheia, no caso do próprio irmão, são personagens assustadoramente atuais. Um mérito, claro, da peça de Nelson, mas também desse conservadorismo palpitante que nos assalta diariamente e que se volta intempestivamente para a manifestação artística.

O pessimismo inato rodriguiano está diretamente relacionado à maneira como os seres humanos lidam com suas angústias, receios e desejos e o patamar de brilhantismo alcançado com as resoluções de “Toda a Nudez Será Castigada”, em que a prostituta se suicida, depois de ter sido amante do filho gay (enrustido) do homem pelo qual ela se apaixonou , permanece singular.

A atualidade do filme de Jabor assombra e talvez por isso uma revisão, à luz do aniversário de 45 anos, mas também em virtude do debate enviesado e obscurantista em curso, se faça necessária.

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quinta-feira, 12 de outubro de 2017 Críticas, Filmes | 18:26

“O Advogado” captura tensão entre as Coreias no despertar da consciência de seu protagonista

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Produção sul-coreana de 2013 chega finalmente ao País com a deferência de ser um dos maiores sucessos de bilheteria da história da Coreia do Sul

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Estreia deste fim de semana em São Paulo, “O Advogado” chega referendado pelo fato de ser uma das maiores bilheterias do cinema sul-coreano e por ser inspirado na história de Roh Moo-hyun, advogado tributarista que se tornou o nono presidente do País.

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O filme se escora no “Burim Case”, de 1981, durante o regime militar do autoritário Chun Doo-hwan, quando 22 estudantes, professores e trabalhadores foram presos sob a alegação de serem simpatizantes de norte-coreanos. “O Advogado”, portanto, se incumbe de avalizar as tensões entre as coreias e, também, de ser um filme sobre o despertar político de um “self made man”.

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O esnobado advogado Song (Kang-ho Song) não tem clientes, nem conexões, mas é particularmente engenhoso. Tanto que virou advogado mesmo não tendo todas as graduações jurídicas necessárias para isso. É importante ter em mente que o sistema legal da Coréia do Sul difere fundamentalmente do brasileiro, mesmo do americano que costuma ser uma referência no cinema.

Song é até mesmo um pouco arrogante e não tem consciência de sua alienação. A coisa começa a mudar de figura quando ele se depara com um caso indesejado de um jovem acusado de um crime e torturado na prisão. Ninguém parece disposto a defendê-lo e Song só aceita o caso, a princípio, como um favor para uma pessoa importante em sua vida.

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“O Advogado” não é um filme exatamente especial, é até um pouco mais longo do que o desejável, mas o diretor Woo-Seok Yang trabalha os códigos de gênero muito bem. O filme começa como uma comédia algo cínica, envereda pelo thriller de tribunal e se consagra como um drama com fundo humanista.

“O Advogado” é, portanto, uma opção para quem quer fugir da programação mais comercial e fazer um esquenta para a Mostra internacional de São Paulo que se avizinha.

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