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sábado, 23 de dezembro de 2017 Críticas, Filmes | 14:52

“De Canção em Canção” é epílogo conceitual das relações amorosas contemporâneas

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Novo filme de Terrence Malick mostra as idas e vindas de personagens às voltas com suas escolhas e seus relacionamentos amorosos. É o equivalente dessa década ao que foi “Closer – Perto Demais” em 2004

O triangulo amoroso que move a história

O triangulo amoroso que move a história

O cinema de Terrence Malick é o mais polarizador da atualidade e há uma razão muito clara para isso. O cineasta escreve um filme, roda outro e monta um terceiro, frequentemente descolado das propostas que orientaram os dois primeiros. Não à toa, seu processo criativo é incontornável e, quiçá, irreproduzível. A pessoalidade do cinema de Malick é, ao mesmo tempo, sua maior força e sua inegável fragilidade.

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Especialmente depois de “A Arvore da Vida”, vencedor da Palma de Ouro e indicado aos Oscars de filme e direção em 2012, o americano se lançou em uma jornada de profunda introspecção e reverberação e levou seu cinema junto. Não à toa, esta é sua década mais prolífera e em que seus filmes mais se assemelham em termos de estrutura narrativa e temática.

“De Canção em Canção” é erguido sobre fragmentos, como o eram fundamentalmente seus antecessores (“Amor Pleno” e “Cavaleiro de Copas”). São memórias, devaneios, angústias e desejos materializadas em imagens que se organizam como poesia visual, mas também verbetes emocionais com os quais o cineasta pretende construir o sentido dos personagens, não necessariamente do filme. Para esse outro objetivo, o público terá que ser partícipe; coautor. Para que “De Canção em Canção” produza efeitos efetivamente no espectador, ele terá que se engajar. Abraçar aqueles personagens e seus conflitos – que não são apresentados cronologicamente – com o mesmo carinho e curiosidade com que Malick os propulsa.

Ryan Gosling e Rooney Mara em "De Canção em Canção"

Ryan Gosling e Rooney Mara em “De Canção em Canção”

O ponto de vista central aqui é de Faye (Rooney Mara), um dos vértices de um triangulo amoroso entre um aspirante a cantor (Ryan Gosling) e um produtor arrogante (Michael Fassbender). Há, claro, reminiscências de ambos ao longo das pouco mais de duas horas de metragem da fita, mas são as angústias de Faye que pautam o longa. “Tinha uma fase em minha vida que eu precisava que o sexo fosse violento”, ela diz logo de início. Estamos diante, portanto, de uma pessoa remoendo suas dores. Lá pelo final ela desenvolve: “Compaixão sempre foi uma palavra que eu não imaginava que fosse precisar”. O que Malick oferta por meio desses fragmentos é uma reflexão sobre como os relacionamentos amorosos nos transformam, nos moldam e é Faye a principal condutora dessa jornada. Não obstante, a maneira como o cineasta filma Mara é desconcertante. Sempre buscando ângulos inusitados, momentos banais e uma intimidade desarmada.

A maneira como Malick trabalha seus atores e com seus atores também atinge um novo patamar em “De Canção em Canção”. A fisicalidade das atuações é utilizada para explicar convulsões emocionais em uma construção audiovisual incomum para narrativas cinematográficas e que pode se perder para aqueles pouco treinados ou inspirados pelo cinema de vocação sensorial.

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Natalie Portman, mais linda e triste do que nunca, e Cate Blanchett, sempre uma presença atordoante, surgem como mulheres nas vidas dos protagonistas masculinos. Elas são apêndices para homens complicados. É o personagem de Fassbender quem mais fascina. Uma espécie de predador sexual que mergulha desimpedidamente em seus demônios. “Eles tem uma beleza em sua vida que me faz feio”, reflete sobre a relação entre Faye e BV (Gosling), a qual se introjeta com nenhuma outra finalidade que não desestabiliza-la.

Patti Smith e Rooney Mara em cena do filme

Patti Smith e Rooney Mara em cena do filme

Este é um filme sobre os percalços das relações amorosas, como elas nos definem e como nos deixamos nos definir por elas e o fato de usar a cena musical de Austin, no Texas, como contexto torna tudo ainda mais universal, tântrico, artístico. Há diversas boas pontas, ou cameos, no filme. Do Red Hot Chili Peppers a Iggy Pop, passando por Val Kilmer e tantos mais. Mas é Patti Smith quem responde por um dos momentos mais brilhantes e quando o filme se deixa flagrar em sua verdade mais condoída. Em uma conversa com Faye, em que a exorta a brigar por seu amor, ela diz que ainda mantém a aliança do marido que morreu. Sob uma outra “que eles dão para aqueles corredores que não vencem a maratona, mas terminam a prova”.

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