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segunda-feira, 5 de março de 2018 Análises, Filmes | 19:09

Consagração de “A Forma da Água” no Oscar representa aceno ao diálogo em Hollywood

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“Sempre lembraremos deste ano como o ano em que os homens erraram tanto que as mulheres começaram a sair com peixes”, disse Jimmy Kimmel em dado momento de seu monólogo de abertura na 90ª edição do Oscar, realizada neste domingo (4). A fala diz muito sobre o tom do Oscar 2018 que consagrou “A Forma da Água” o melhor filme do ano. Foram quatro estatuetas. Além de produção do ano, o longa amealhou os prêmios de Direção, Trilha Sonora e Direção de Arte.

Guillermo del Toro recebe o Oscar pelo filme "A Forma da Água"

Guillermo del Toro recebe o Oscar pelo filme “A Forma da Água”

A vitória de “A Forma da Água”, ainda que o filme fosse apontado como favorito, foi um tanto surpreendente. Primeiramente pela resistência da Academia em premiar filmes de gênero. Eles raramente são inseridos na principal categoria, tendência que começa a ser revertida  – em 2018 ainda tivemos “Corra!” entre os concorrentes. Segundo porque o filme não parecia reunir o apoio do maior e mais decisivo colegiado da Academia que é o dos atores, já que ficou de fora do SAG de melhor elenco. Desde que o prêmio foi criado nos anos 90, apenas “Coração Valente” venceu o Oscar de Melhor Filme sem ter concorrido a Melhor Elenco no SAG.

Leia também: Oscar vê na ternura de “A Forma da Água” a receita para as dores do presente

Por outro lado, “A Forma da Água” era o filme mais fácil de reunir algum consenso entre os indicados e no Oscar, um termômetro elevado dos humores dos votantes, isso importa e muito. Principalmente no clima que a 90ª edição dos prêmios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas se deu. A ideia era sinalizar para um futuro menos opulento e com a Academia ombreando com setores da sociedade e da indústria na disposição de promover diversidade e inclusão. O filme de del Toro, por ser de um cineasta mexicano e imigrante, por ser sobre a história de amor entre uma mulher e uma criatura marinha, por reunir metáforas diversas sobre mazelas que o mundo ainda enfrenta, era a escolha mais adequada. E afetuosa.

O raciocínio da Academia enquanto grupo organizado e suscetível às mais diversas influências não pode ser menosprezado. Há erros, alguns crassos, mas há acertos que talvez não sejam percebidos como acertos de imediato. É notório que “A Forma da Água” não era o melhor filme entre os indicados. Mas sua escolha representa não só um avanço na abertura que a instituição dá ao cinema de gênero, como é uma resposta delicada e parcimoniosa às destemperanças do presente: o clima político belicoso, as denúncias de assédio, a impaciência das mulheres para com a insistente misoginia na indústria. A opção por um filme que prega tolerância talvez não mude nada disso, mas certamente representa um aceno ao diálogo.

Toda a cerimônia, menos politizada do que se esperava, foi um passo nesse sentido. O Oscar 2018 poderia ter sido mais ousado e feito escolhas tão dignas como as que fez, mas mais subversivas e eloquentes em matéria de cinema nos âmbitos da estética e narrativa. Optou, e não há de se contestar a legitimidade dessa escolha, por atender demandas do cinema em seu eixo industrial e não deixou de premiar filmes e artistas premiáveis por conta disso.

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