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quinta-feira, 9 de agosto de 2018 Análises, Bastidores | 11:33

Rejeitadas, mudanças no Oscar podem ser muito boas para o cinema e para o prêmio

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Oscar

Mudanças no Oscar geralmente não são celebradas por cinéfilos e pela mídia especializada, que costumam ser tão tradicionalistas quanto a premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, mas raramente despertam reação negativa tão virulenta quanto a verificada nesta quarta-feira (8) na esteira do anúncio de “boas novas” da Academia.

A mais rejeitada mudança foi a de que a partir da 91ª edição do Oscar, em 2019, a premiação terá a categoria de melhor filme popular (Achievement in Popular Film, no original). A Academia ainda não divulgou os critérios e parâmetros de elegibilidade para esta nova categoria, por certo por não tê-los amadurecidos.

As medidas, especialmente esta, atendem a alarmante necessidade de conter a queda agressiva de audiência. Em 2018, nos EUA, o Oscar registrou queda de 17% em relação a 2017 e estabeleceu um recorde negativo histórico. A queda foi de 39% em relação ao de 2014, quando a cerimônia registrou seu recorde positivo na década.

OscarEstá comprovado estatisticamente que as edições de maior audiência da premiação são aquelas com filmes mais populares. As edições mais vistas nos últimos 20 anos são 1998, ano de “Titanic”, 2004, ano de “O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei”, 2010, ano de “Avatar”, e 2014, ano de “Gravidade” e “O Lobo de Wall Street”.

A criação de uma categoria de “melhor blockbuster” ou “melhor filme pop” atende essa demanda de ter filmes de elevado apreço popular na disputa por um Oscar que não é técnico. Não é a primeira medida da Academia nesse sentido. Em 2010, a organização ampliou para dez os indicados na categoria de melhor filme na expectativa de que produções de maior apelo comercial figurassem entre os indicados. Isso aconteceu. Filmes como “Mad Max: Estrada da Fúria” (2015), “A Origem” (2010), “Dunkirk” (2017), “Perdido em Marte” (2015), entre outros figuraram entre os melhores do ano.

Em 2012, a Academia ajustou a regra e a categoria de melhor filme passou a contar com a possibilidade ter entre cinco e dez indicados.

De olho nas mudanças

O ritmo e o fluxo de blockbusters entre os melhores filmes, no entanto, são inferiores à necessidade do Oscar enquanto programa de TV. Nesse sentido, as três mudanças anunciadas são contumazes e um avanço importante para o estancamento dessa sangria. As outras medidas foram o encurtamento da cerimônia para três horas – em 2018 foram 3h58min de cerimônia – com a entrega de alguns prêmios menos badalados durante os intervalos da cerimônia com a mera exibição de flashes ao longo da transmissão televisiva e a antecipação da cerimônia em 2020 para 9 de fevereiro.

Esta última mudança é providencial e provocará um efeito cascata em toda a indústria. O primeiro efeito imediato será o recuo de todo o calendário de premiações. Porta-vozes do Bafta, premiação britânica, já se manifestaram no sentido de antecipar a premiação para antes da entrega do Oscar, como estabelecido pela academia britânica de

Foto: montagem/reprodução

Foto: montagem/reprodução

cinema desde 2001.

O encurtamento da temporada de premiações é bem-vindo. Quando o Oscar vai ao ar, o público já está cansado de premiações e a grande maioria dos vencedores já pode ser intuído pelos resultados das premiações prévias. É inegável que isso reflete na audiência da cerimônia. A antecipação do Oscar vai impactar, também, na distribuição dos longas-metragens especialmente no mercado internacional. A tendência é um congestionamento ainda mais descontrolado de filmes de Oscar em janeiro e fevereiro no Brasil.

Melhor filme popular?

É possível que a nova categoria fragilize a categoria principal? Sim. É provável? Nem tanto. Filmes como “Um Sonho Possível” (2009), “Um Homem Sério” (2009), “Cavalo de Guerra” (2011), “Tão Forte e Tão Perto” (2011) são alguns exemplos de produções que não merecem a alcunha de melhor filme e chegaram lá por conta da flexibilização na categoria principal. As vezes com apenas duas indicações, caso de produções como “Selma” (2014) e “The Post” (2017).

Essa deformidade depõe mais contra o prestígio da categoria principal no Oscar do que a existência de uma categoria de melhor filme popular. Há, ainda, outra maneira de olhar para essa novidade. O cinemão faz muitos filmes bons que acabam esbarrando no preconceito de uma ala (cada vez menor) da Academia. Ao inserir produções de maior apelo popular e fazer com que o acadêmico olhe efetivamente para esses filmes, o Oscar age pedagogicamente. Com o tempo, a tendência é de que mais filmes populares alcancem a categoria principal.

No Oscar 2019 temos dois filmes que, mesmo antes de definidos os critérios pela academia – e esses critérios devem ser regidos por arrecadação nas bilheterias- , se situam como fortes candidatos nas duas categorias. São eles “Pantera Negra” e “Um Lugar Silencioso”.

Cena de "Um Lugar Silencioso"

Cena de “Um Lugar Silencioso”

Cinéfilos e críticos precisam ter em mente que o Oscar também é um programa de televisão e, como tal, deve procurar soluções para se manter relevante e competitivo. A pressão da ABC é justificada. O Oscar é o grande evento televisivo fora do calendário da NFL nos EUA e essa condição está cada vez mais em xeque.

Não passou batido aos críticos de que a ABC pertence a Disney e que a nova categoria beneficiaria diretamente o estúdio, que detém marcas valiosas como Marvel, Star Wars e agora a FOX. É um raciocínio pedestre. A categoria de animação, mais bem-vinda quando anunciada, é reino absoluto da Pixar, também um braço do estúdio de Mickey Mouse.

O que norteou as mudanças foram necessidades comerciais da ABC e do Oscar, programa de TV, mas pelo menos duas dessas mudanças devem trazer impacto positivo no longo prazo para o Oscar, prêmio de cinema. Um Oscar entregue mais cedo é bom porque diminui a temporada de premiações e reduz a influência de prêmios periféricos sobre acadêmicos e um Oscar para os blockbusters não só tem potencial pedagógico como agregador.

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