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segunda-feira, 5 de novembro de 2018 Críticas, Filmes | 15:25

Versão oficial da história do Queen, “Bohemian Rhapsody” é montanha-russa de emoção para os fãs

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Cena de "Bohemian Rhapsody" que recria o histórico show do Queen no Live Aid em 1985

Cena de “Bohemian Rhapsody” que recria o histórico show do Queen no Live Aid em 1985

Há uma cena em “Bohemian Rhapsody”, a aguardada cinebiografia de Freddie Mercury e da banda Queen, em que o vocalista da banda tenta argumentar com o produtor da EMI Ray Foster (vivido com histrionismo por Mike Myers) porque a música que dá nome ao filme deveria ser o primeiro single de “A Night at the Opera”, segundo disco da banda.

Mercury (Rami Malek) diz que a banda não quer e não vai seguir fórmulas e que busca transcender por meio de sua arte. É uma ambição e tanto e também um lastro que o Queen deixou, mas que “Bohemian Rhapsody” não consegue dimensionar. Isso não implica na constatação de que o filme é ruim, apenas em reconhecer que não faz jus ao legado da banda e não atinge toda a sua potencialidade enquanto cinema.

Marcado por polêmicas e turbulências, “Bohemian Rhapsody” foi desde muito cedo taxado como o filme oficial da banda. Com Roger Taylor e Brian May como produtores, o filme perdeu seu protagonista, que seria Sacha Baron Cohen por divergências criativas. Cohen queria fazer um retrato de Freddie que afrontava o que a banda queria mostrar. Depois veio a demissão de Bryan Singer, que continua creditado como diretor. Dexter Fletcher, creditado como produtor executivo e que em 2019 lança a cinebiografia de outro astro do Rock, Elton John, rodou algumas cenas e encerrou os trabalhos.

Se os tumultuados bastidores honram o espírito Rock´n Roll de uma das maiores bandas de todos os tempos, revestiram de incerteza o que se veria no cinema. O longa não tem problemas de ritmo como muitos imaginariam e não tergiversa a respeito da homossexualidade de Mercury, mas assume desavergonhadamente ser a versão do Queen para sua história e a de seu front man.

O roteiro óbvio ratifica a vocação chapa-branca do filme que encontra espaço para mostrar como Freddie Mercury não era o único gênio do Queen, o que demonstra que o longa também foi palco de certa egolatria dos demais integrantes da banda. Menos de John Deacon, no filme interpretado com cadência e sutileza por Joseph Mazzello, que não participou da produção.

Reencarnação ou imitação?

O Queen do cinema Fotos: divulgação

O Queen do cinema
Fotos: divulgação

Rami Malek não era uma escolha óbvia para viver o complexo Freddie Mercury, mas o ator que ganhou fama como o protagonista da série “Mr. Robot” se provou a altura do desafio. A capilaridade dramática desse registro do Queen, que se comunica melhor com os fãs, está toda concentrada em seu trabalho. Malek tem alguma dificuldade em dimensionar o jovem Freddie, mas talvez por conta do roteiro que se fragmenta demais no começo da jornada da banda. Quando o registro envereda pelos anos 70 e 80, Malek domina completamente a cena com energia e carisma que não ficam a dever ao personagem que interpreta.

Todavia, se nos momentos mais dramáticos, ele parece reencarnar Mercury, nos momentos mais performáticos, parece se contentar com a imitação. Não chega a ser algo ruim ou incômodo, mas é uma rusga em um filme que parece divergir de si mesmo.

 

Final apoteótico

O longa, afinal, toma uma série de liberdades poéticas e narrativas para aclimatar melhor suas necessidades dramáticas e apresenta pelo menos um easter egg genial ao brincar com “Quanto Mais Idiota Melhor”, em que Mike Myers e sua turma cantam Bohemian Rhapsody dentro de um carro.

A mais controvertida das liberdades narrativas do filme foi situar semanas antes do histórico show no Live Aid a revelação de Mercury para os demais

Mike Myers responde por um inteligente comentário no filme sobre a obra que é a música Bohemian Rhapsody

Mike Myers responde por um inteligente comentário no filme sobre a obra que é a música Bohemian Rhapsody

integrantes da banda de que era portador do vírus da AIDS. O ajuste serve bem ao registro dramático, mas é uma imprecisão grave para um filme que se pretende recriar a trajetória do cantor. Ele revelara ser HIV positivo em 1987, dois anos depois do referido show.

Junte-se a isso menções escorregadias ao temperamento turbulento de Freddie e a seu vício em drogas e você tem um ambiente propício a críticas não tão construtivas assim. De todo modo, tudo isso se apequena diante dos 20 minutos finais, em que o show do Live Aid, é reencenado nos mínimos detalhes. É aí, e somente aí, que “Bohemian Rhapsody” abraça o espetáculo maior que a vida que é o Queen e ganha a audiência com energia e paixão.

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