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segunda-feira, 16 de outubro de 2017 Análises, Bastidores | 15:45

Oscar e Hollywood ganham a chance de se reinventar na era pós- Harvey Weinstein

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Produtor de Hollywood caiu em desgraça e denúncias que pipocam contra ele, mas também contra outros figurões do cinema podem precipitar uma mudança de paradigma na indústria

Harvey Weinstein produziu e distribuiu todos os filmes de Quentin Tarantino, seu amigo pessoal e que ainda não deu declarações convictas após a explosão das denúncias

Harvey Weinstein produziu e distribuiu todos os filmes de Quentin Tarantino, seu amigo pessoal e que ainda não deu declarações convictas após a explosão das denúncias

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood após assembleia extraordinária realizada no último fim de semana expulsou Harvey Weinstein. É a segunda vez que um membro da instituição que outorga o Oscar é expulso, o primeiro foi Carmine Caridi, um ator que violou a política de sigilo envolvendo os screeners (maneira pela qual os acadêmicos veem muitos dos filmes que tentam vaga na premiação).

É difícil achar alguém em Hollywood que não tenha trabalhado com ou sob as ordens de Harvey Weinstein. Justamente por isso o caos na meca do cinema é tamanho após a reportagem do New York Times e da New Yorker revelando os maus-feitos do produtor. A saraivada de denúncias, depoimentos e desabafos que se sucedeu – e ainda ocupa o noticiário – era esperada. Bem como a ampliação de seus efeitos. Ben Affleck, Oliver Stone, Lars Von Trier e George Clooney já foram a abainhados pela espiral de denúncias de assédio que tomou Hollywood de assalto.

Woody Allen, outro envolto em polêmicas de pedofilia e abuso, alertou para uma “caça as bruxas” e o mundo do cinema parece enfeitiçado por um assunto que não deve ir embora (e talvez não deva mesmo) tão cedo.

A queda de um mito

Harvey Weinstein e Kate Winslet, uma das atrizes que venceu o Oscar apoiada pela máquina de Harvey

Harvey Weinstein e Kate Winslet, uma das atrizes que venceu o Oscar apoiada pela máquina de Harvey

Para além do que representa Harvey Weinstein enquanto homem e magnata de Hollywood – e para todos os efeitos ele é um símbolo perene do poder e seus tentáculos no cinema e em qualquer outra indústria – Harvey foi (o tempo passado já é presente nas referências a ele) um revolucionário no cinema americano. Primeiro por ter sido o arauto da revitalização do cinema independente norte-americano na década de 90, segundo por ter feito da campanha de promoção com vistas ao Oscar, uma arte de domínio particular.

Harvey Weinstein tornou-se um guru do Oscar. Filmes e celebridades promovidos por ele eram figuras dadas como certas na premiação. Produções contestadas como “Shakespeare Apaixonado” (1998) e “O Artista” (2011), esse com o acréscimo de ser estrangeiro, mudo e em preto e branco, triunfaram no Oscar e todo o crédito é plenamente atribuído a Weinstein.

Sempre se soube de seu temperamento opressor e de seu estigma rancoroso em Hollywood. Na série da HBO “Entourage” (2004 – 2011) o próprio aparece como ele mesmo “rindo” dessa situação. À luz das denúncias, cenas e acontecimentos do passado são reinterpretados. Quanto à Academia, ela já é cobrada a tomar providências a respeito de Roman Polanski, condenado por estupro de vulnerável, Bill Cosby e Mel Gibson. A inclusão do último nessa galeria é um reflexo da ardência do momento. Gibson pode até ser antissemita, mas não paira sobre ele suspeitas tão nocivas.

E como fica o business?

Hollywood não vai mudar da noite para o dia e a condução do “caso Harvey Weinstein” pela opinião pública demanda cautela. Afinal, passa pelo comportamento e postura da mídia a efetividade e longevidade de mudança de qualquer natureza em uma indústria notória por reger suas relações de maneira sexista e corporativista.

O efeito imediato é a debandada da The Weinstein Company. Até mesmo Bob Weinstein desandou a falar mal do irmão. Artistas estão pedindo para  retirar seus projetos do estúdio e produções que tentariam o Oscar, como “Terra Selvagem” e “The Current War” devem ser prejudicadas.

Harvey Weinstein e os premiados por "Shakespeare Apaixonado": uma vitória surpreendente que pavimentou a ascensão de um mito Fotos (AMPAS, reprodução Twitter)

Harvey Weinstein e os premiados por “Shakespeare Apaixonado”: uma vitória surpreendente que pavimentou a ascensão de um mito
Fotos (AMPAS, reprodução Twitter)

Quanto ao Oscar em si, os métodos patenteados por Weinstein há muito não são praticados só por ele. A corrida eleitoral que é a disputa pela estatueta mais cobiçada do cinema, no entanto, deve sentir a ausência de seu mais radical, desleal e competitivo fomentador.

A desgraça de Harvey Weinstein, no entanto, representa no longo prazo a chance de purificação da Academia. De resgate do valor dos filmes por eles mesmos. Um processo, na verdade, já em curso graças aos esforços de Cheryl Boone Isaacs que presidiu a instituição até o início deste ano. Para o bem ou para o mal, para a Academia, mas também para seu anjo caído, Hollywood adora uma segunda chance.

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sábado, 14 de outubro de 2017 Análises, Filmes | 10:00

“Toda Nudez Será Castigada” completa 45 anos sob assombrosa atualidade

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Fotos: divulgação

Fotos: divulgação

Lançado comercialmente em março de 1973 após um rigoroso escrutínio por parte da Divisão de Censura de Diversões Públicas, órgão subordinado à Polícia Federal durante o regime militar, “Toda Nudez Será Castigada” completa 45 anos em 2017 em um momento particularmente ruidoso no Brasil. O filme seria originalmente lançado em 1972, mas o processo para liberação da película atrasou o lançamento. No ínterim, venceu o Urso de Prata no Festival de Berlim.

O filme de Arnaldo Jabor, adaptado da obra de Nelson Rodrigues, era uma porrada na hipocrisia da classe média brasileira dos anos 70 – ou 60, já que a peça foi escrita em 1965 – e é uma porrada na cara da classe média brasileira de hoje. “Toda a Nudez Será Castigada” faz aniversário sob a égide do obscurantismo que pauta o debate social e sobre a arte no País.

toda nudez será castigadaO homem que se apaixona pela prostituta e se recusa a assumir esse sentimento, o homossexual enrustido, o irmão malandro que quer lucrar com a infelicidade alheia, no caso do próprio irmão, são personagens assustadoramente atuais. Um mérito, claro, da peça de Nelson, mas também desse conservadorismo palpitante que nos assalta diariamente e que se volta intempestivamente para a manifestação artística.

O pessimismo inato rodriguiano está diretamente relacionado à maneira como os seres humanos lidam com suas angústias, receios e desejos e o patamar de brilhantismo alcançado com as resoluções de “Toda a Nudez Será Castigada”, em que a prostituta se suicida, depois de ter sido amante do filho gay (enrustido) do homem pelo qual ela se apaixonou , permanece singular.

A atualidade do filme de Jabor assombra e talvez por isso uma revisão, à luz do aniversário de 45 anos, mas também em virtude do debate enviesado e obscurantista em curso, se faça necessária.

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quinta-feira, 12 de outubro de 2017 Críticas, Filmes | 18:26

“O Advogado” captura tensão entre as Coreias no despertar da consciência de seu protagonista

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Produção sul-coreana de 2013 chega finalmente ao País com a deferência de ser um dos maiores sucessos de bilheteria da história da Coreia do Sul

Divulgação

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Estreia deste fim de semana em São Paulo, “O Advogado” chega referendado pelo fato de ser uma das maiores bilheterias do cinema sul-coreano e por ser inspirado na história de Roh Moo-hyun, advogado tributarista que se tornou o nono presidente do País.

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O filme se escora no “Burim Case”, de 1981, durante o regime militar do autoritário Chun Doo-hwan, quando 22 estudantes, professores e trabalhadores foram presos sob a alegação de serem simpatizantes de norte-coreanos. “O Advogado”, portanto, se incumbe de avalizar as tensões entre as coreias e, também, de ser um filme sobre o despertar político de um “self made man”.

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O esnobado advogado Song (Kang-ho Song) não tem clientes, nem conexões, mas é particularmente engenhoso. Tanto que virou advogado mesmo não tendo todas as graduações jurídicas necessárias para isso. É importante ter em mente que o sistema legal da Coréia do Sul difere fundamentalmente do brasileiro, mesmo do americano que costuma ser uma referência no cinema.

Song é até mesmo um pouco arrogante e não tem consciência de sua alienação. A coisa começa a mudar de figura quando ele se depara com um caso indesejado de um jovem acusado de um crime e torturado na prisão. Ninguém parece disposto a defendê-lo e Song só aceita o caso, a princípio, como um favor para uma pessoa importante em sua vida.

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“O Advogado” não é um filme exatamente especial, é até um pouco mais longo do que o desejável, mas o diretor Woo-Seok Yang trabalha os códigos de gênero muito bem. O filme começa como uma comédia algo cínica, envereda pelo thriller de tribunal e se consagra como um drama com fundo humanista.

“O Advogado” é, portanto, uma opção para quem quer fugir da programação mais comercial e fazer um esquenta para a Mostra internacional de São Paulo que se avizinha.

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segunda-feira, 25 de setembro de 2017 Análises, Críticas, Filmes | 14:13

Orgia testamental de Aronofsky, “mãe!” é cinema que busca sentido em quem o assiste

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Novo filme de Darren Aronofsky é uma das produções mais polarizantes de 2017 e um petardo difícil de ser digerido pelo público. Entre o ruído e a excelência, “mãe!” é um filme marcante

Jennifer Lawrence em cena de "Mãe!"

Jennifer Lawrence em cena de “Mãe!”

Se o cinema é a conjugação de enquadramentos e extracampo, Darren Aronofsky parece decidido a levar essa máxima ao limite.  “mãe!” é um filme que parece existir apenas por meio das alegorias que viabiliza. Essa construção tão hermética quanto rocambolesca é, em si, uma restrição à grandeza cinemática objetivada pelo cineasta. É como se seu filme, ao abrir-se quase que por inteiro à interpretação daqueles que se deixem tocar por ele, prescindisse de sua inteireza narrativa e se contentasse com o fato de ser uma colcha de retalhos. De seu criador e daqueles em contato com ele.

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Feita essa restrição, “mãe!” é um filme de profunda e constante reverberação. Não é um filme fácil, tampouco para ser digerido como nos acostumamos a digerir o cardápio usual oferecido pelo cinema contemporâneo.  Esteta de mão cheia, Aronofsky propõe uma experiência incômoda, provocadora e capaz de subsistir em referências e devaneios filosóficos de toda ordem.

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mãe posterÉ premente identificar a bíblia como principal fonte para as referências e metáforas salpicadas ao longo das duas horas de filme. Mas as alegorias vão além. É possível perceber um comentário potente a respeito do casamento, do machismo inerente ao viés religioso, de nossa relação com o planeta, à vaidade intelectual, entre outras coisas. O mais acachapante em “mãe!”, no entanto, é a radiografia de um Deus narcisista e autocomplacente.

O filme é, sob muitos aspectos, uma intermitente sessão de terapia. Aronofsky se tem em grande estima e isso fica muito claro nos paralelos que estipula com a figura do criador, mas essa prepotência não é despropositada. O criador não é uma figura tão simpática e benevolente como muitos podem crer. É um filme de muitas camadas e capaz de produzir sentidos conflitantes em diferentes revisões.

 

Entre a parábola e as metáforas

Jennifer Lawrence é a mãe do título. Ela mora com Ele (Javier Bardem) em uma casa afastada no campo. Ele é um escritor e passa por uma profunda crise criativa. Ela é devotada a ele. A relação dos dois parece resfriada e começa a sofrer espasmos quando um estranho (Ed Harris) bate à porta e é acolhido por Ele. Pouco tempo depois é a mulher do estranho (Michelle Pfeiffer) quem chega para desestabilizar de vez mãe, cada vez mais incomodada com a atenção dispensada por Ele aos estranhos.

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Aronofsky não é um diretor conhecido pela sutileza e a metáfora para Adão e Eva está posta. Logo vem Cain e Abel e quando nos damos conta estamos diante do novo testamento. E o que Aronofsky propõe é uma reinterpretação furiosa desse ciclo bíblico.

A ideia de humanizar a natureza, Jennifer Lawrence nada mais é do que a Mãe Natureza, parece tão desalojada quando genial. Assumir o ponto de vista da Natureza em sua relação com Deus e com o homem pode parecer pueril, mas demanda uma energia criativa potente. Algo que o cinema de poucas concessões de Aronofsky é capaz de prover e aí é preciso alinhar a performance corajosa de Jennifer Lawrence. A atriz assume um papel difícil, todo ele sustentado por expressões de agonia, desentendimento e dor, e se entrega a um diretor disposto a usá-la como artífice e arquétipo em um filme de rara megalomania. Metade da força bruta de “mãe” reside na atuação de Lawrence, que alterna fúria e delicadeza com a mesma intensidade que a natureza oferta um arco-íris após a tempestade.

Darren Aronofsky orienta Jennifer Lawrence no set de mãe!

Darren Aronofsky orienta Jennifer Lawrence no set de mãe!

A falta de química com Javier Bardem é um dos brilhantismos da direção de Aronosfky – há outros. Trata-se de um mecanismo narrativo providencial para adensar as alegorias pretendidas e ensejadas pelo longa-metragem.

“mãe!” é delirante em seus superlativos. Talvez Aronofsky desacredite do cinema de entretenimento. Talvez tenha levado ao extremo o clichê de se pôr no lugar do outro. Talvez seja um filme que só o tempo será capaz de açoitar preconceitos e expectativas. Certo é que “mãe!” é de uma rigidez intelectual ímpar no cinema contemporâneo. Não há como desgostar de uma obra que se proponha a tanto.

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domingo, 10 de setembro de 2017 Críticas, Filmes | 12:37

Boas cenas de ação e Charlize letal não garantem qualidade de “Atômica”

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Charlize Theron apanha e bate muito, mas não consegue fazer com que “Atômica” seja tão divertido quanto o filme pensa ser

Charlize Theron em cena de "Atômica" Fotos: divulgação

Charlize Theron em cena de “Atômica”
Fotos: divulgação

Charlize Theron já havia demonstrado mandar bem na ação em produções como “Mad Max: Estrada da Fúria” (2015), “Velozes e Furiosos 8” (2017), “Hancock”  (2008), “Aeon Flux” (2003), entre outros. “Atômica” (2017), no entanto, é seu atestado de excelência no gênero. É quando reclama o posto de versão feminina de Liam Neeson na contemporaneidade do cinema americano.

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Dirigido por David Leitch, um ex-dublê que estreou na direção codirigindo “De Volta ao Jogo”, “Atômica” é visualmente exuberante. Seja pela gélida e plácida recriação da Berlim do fim dos anos 80, seja pelas coreografias espertas das cenas de luta. Falta ao filme, no entanto, autoconsciência. A produção, que versa sobre a espiral de traições envolvendo espiões na esteira da tensão política pré-queda do muro, se leva (muito) mais a sério do que o desejável.

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Não que o público não entenda as maquinações e não seja possível intuir as motivações dos personagens, todos de maneira geral pouco simpáticos, mas porque elas se mostram mais tediosas do que um filme do gênero poderia suportar e porque francamente boa parte delas não faz o menor sentido e exige da audiência mais condescendência do que o combinado.

Entre os pontos fortes do filme estão Charlize Theron, fria, linda e letal como se espera de uma personagem como Lorraine Broughton, a trilha sonora caprichada que ajuda a emular o clima punk rock da fita e James McAvoy como o operativo do MI6 em Berlim, David Percival. McAvoy é, em mais de um momento, a fagulha que traz de volta o público para a onda do filme.

Charlize e Sophia se pegam em uma das melhores cenas do longa

Charlize e Sophia se pegam em uma das melhores cenas do longa

Lorraine é despachada para Berlim para tentar recuperar um arquivo que contém o nome de todos os espiões atuando na cidade que vive grande efervescência político-social. De quebra, ela precisa descobrir a identidade de um traidor nas hostes do MI6. É tudo relativamente óbvio e a maneira como as revelações se organizam expõe mais uma fragilidade narrativa.

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“Atômica” é o exemplar perfeito para o argumento de que boas cenas de ação sozinhas não fazem um bom filme de ação. Leitch tem talento, mas precisa controlar sua ambição. A carreira pode descarrilar antes mesmo de se consolidar.

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quinta-feira, 31 de agosto de 2017 Críticas, Filmes | 11:43

Introspectivo e sombrio, “Bingo – O Rei das Manhãs” traz protagonista em carne viva

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Produção celebra os anos 80, quando não havia espaço para a correção política na cultura pop, e entrega um dos filmes mais potentes do cinema nacional em anos

Bingo (2)

Duas constatações se impõem rapidamente ao espectador de “Bingo – O Rei das Manhãs”, estreia potente de Daniel Rezende, montador de “Cidade de Deus” e “Tropa de Elite”, na direção. A destreza técnica do filme que o aproxima do cinema americano – a articulação da narrativa também evoca o paralelo – e o desenho dos anos 80, onde a trama de Augusto Mendes (Vladimir Brichta) se desenrola. Não há espaço para a correção política. Nem nos anos 80 em que se desenrola a trama, nem no filme de Daniel Rezende.

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O filme dá conta da história de Arlindo Barreto que deu vida ao icônico palhaço Bozo e protagonizou uma verdadeira guerra pela audiência das manhãs da TV brasileira com a rainha dos baixinhos. “Bingo – O Rei das Manhãs” se assevera, portanto, como uma elaborada radiografia da cultura pop brasileira da época, um incômodo estudo de personagem e um drama ruidoso sobre os labirintos da fama.

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Nesse sentido, o trabalho de Brichta é elemento fundamental, pois emana energia para todo o filme. O ator comporta toda a contradição de um homem de virtudes e defeitos que são potencializados conforme ele vai desaparecendo na figura de Bingo. Brichta se entrega de corpo e alma e assume o seu melhor momento como intérprete com um personagem profundo, complexo, arredio e repleto de antagonismos. Apenas um ator sensível e em comunhão com seu diretor poderia dar conta de um material tão denso e cheio de camadas.

Fotos: divulgação

Fotos: divulgação

Trabalhar com cineastas como José Padilha e Fernando Meirelles sem dúvida alguma preparou Rezende para sua estreia como cineasta. Dono de um ritmo acima de qualquer suspeita, o filme tem tudo no lugar certo. A jornada ao inferno do protagonista é pontuada com momentos de extrema introspecção, sacadas pop e arroubos soturnos. Tudo com a covalência de uma câmera que sabe onde estar e sempre provê o enquadramento necessário.

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“Bingo – O Rei das Manhãs” é um daqueles filmes de enorme força criativa que o cinema brasileiro oferta de quando em quando e que equaliza com rara felicidade elementos autorais e comerciais. Junta-se portanto a uma galeria nobilíssima formada por “Cidade de Deus”, “Tropa de Elite” e “O Palhaço”.

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terça-feira, 8 de agosto de 2017 Diretores, Filmes, Notícias | 12:22

Delirante e cheio de simbolismo, 1º trailer de “Mãe” é um espetáculo de potência

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Jennifer Lawrence em cena de "Mãe"

Jennifer Lawrence em cena de “Mãe”

Se existe um diretor receptivo a análises dos trailers de seus filmes, esse diretor é Darren Aronofsky. A Paramount divulgou nesta terça-feira (8) mundialmente o primeiro trailer de “Mãe”, novo filme do cineasta que integra a seleção oficial do Festival de Veneza e estreia nos cinemas brasileiros em 21 de setembro.

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Os últimos dois filmes de Aronofsky mergulharam potentemente nas profundezas da mente humana e abraçaram a espiral de terror psicológico. Tudo indica que “Mãe” dialoga em alta voltagem com “Cisne Negro” (2010) – repare na semelhança entre esses pôsteres – e “Noé” (2014). O trailer, extremamente climático e sombrio, pouco revela além do que a curta sinopse sugere:  dois convidados indesejados perturbam a paz do casal vivido por Javier Bardem e Jennifer Lawrence. Tudo no trailer sinaliza para uma provação intensa da personagem de Jennifer Lawrence.

 

À medida que a prévia de pouco mais de dois minutos avança, vemos um distanciamento atroz entre os personagens de Bardem e Lawrence. “ Ele tem uma foto sua na bagagem dele”, exclama Lawrence. “O que você estava fazendo mexendo na bagagem dele?”, devolve o marido.

Vale lembrar que os personagens não tem nomes, mas a ação se passa em um dia das mães. Todo o trailer se passa dentro da casa do casal e há referências a um refugiado pervertido e a um escravo sexual. Delírios, simbolismos e horror! Sentimos sua falta, Aronofsky!

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segunda-feira, 31 de julho de 2017 Análises, Filmes | 13:30

Cult instantâneo, “Em Ritmo de Fuga” inaugura o musical de ação enquanto gênero

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Novo filme de Edgar Wright, “Em Ritmo de Fuga”, é bom, original e divertido e o amor de que é alvo mostra que o público está ávido por filmes com essas qualidades

Cena de Em Ritmo de Fuga (Fotos: divulgação)

Cena de Em Ritmo de Fuga (Fotos: divulgação)

O ano de 2017 está se provando pródigo para o cinema e entre muitos bons filmes, “Em Ritmo de Fuga” destaca-se por sua originalidade fulgurante, seu charme inescapável e criatividade assertiva. É um cult instantâneo desses que habitará a memória afetiva de cinefilia no mesmo compasso de produções tão diversas como “Blade Runner – O Caçador de Androides” (1982), “O Grande Lebowski” (1998) e “Pulp Fiction – Tempos de Violência” (1994).

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Edgar Wright, responsável pela trilogia do Cornetto, composta por “Todo Mundo Quase Morto” (2004), “Chumbo Grosso” (2007) e “Heróis de Ressaca” (2013), defende um cinema pop, bem-humorado e com boas referências cinéfilas. “Em Ritmo de Fuga” traz essa assinatura em cada fotograma. É um musical de ação, como muita gente anda definindo.

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A premissa é simples, Baby (Ansel Elgort) é um jovem e prodigioso motorista que por ter uma “dívida” com Doc (Kevin Spacey), um gangster que opera nas sombras e escalas diferentes equipes para assaltos audaciosos, dirige os veículos de fuga de Doc nesses serviços. A peculiaridade de Baby é que ele ouve música o tempo inteiro, um recurso objetiva amenizar um zumbido que é sequela de um acidente na infância, mas também se justifica pelo apreço do rapaz a dar uma trilha sonora para todas as fases e momentos da vida.

Essa simbiose entre Baby e a música também se verifica entre as cenas, principalmente as de ação, e a música. Wright é hábil ao construir sua narrativa a partir dessa proposta. Podem ser cenas como o paquera de Baby e Debora (Lilly James) em que os nomes deles emulam canções e reflexões do tipo que costumamos lançar mão em paqueras em bares e restaurantes ou no trato com traficantes de armas, ao som de Tequila, do The Button Down Brass. Nada, porém, supera a genialidade e delicadeza de uma cena no clímax do filme, ao som de Never, never Gonna Give Ya Up de Barry White. O musical de ação de Wright mais do que espirituoso, é convidativo; o púbico flui junto com Baby.

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Edgar Wright orienta Ansel Elgort no set de Em Ritmo de Fuga

Edgar Wright orienta Ansel Elgort no set de Em Ritmo de Fuga

Se imaginação é o forte desse filme, que mescla romance, violência, música e cinismo, muito se deve ao talento de Wright como roteirista. À direção, no entanto, falta um pouco desse viço criativo. As cenas de ação, apesar da bem-vinda abordagem musical, são relativamente frustrantes. O clímax é atropelado – muita coisa acontece e muita coisa francamente inverossímil dentro do pacto estabelecido entre o público e o filme – e Wright investe em um final atípico para o público ao qual o filme majoritariamente se dirige. É um bom final, trágico de uma maneira esperançosa, socialmente responsável até, mas pode reforçar o status de que o filme não sobrevive ao hype.

Ansel Elgort tem uma performance física pertinente à proposta, mas exige algum esforço vê-lo como herói de ação – falta essa convicção ao próprio ator. O resto do elenco, no entanto, compensa essa relativa deficiência. Jamie Foxx ratifica o jeito que leva para construir alucinados em comédias, aqui surge ainda mais insano do que em “Quero Matar Meu Chefe”. Mas o grande trunfo da fita é mesmo Jon Hamm. “Em Ritmo de Fuga” oferta ao Don Draper de “Mad Men”, seu primeiro grande papel no cinema. Talvez seja a “killer track” que ele precisava.

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segunda-feira, 24 de julho de 2017 Análises, Bastidores, Filmes | 09:00

Sony já é a grande campeã do verão americano de 2017

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Estúdio não será o maior em faturamento na temporada, mas foi o único a apresentar uma equação equilibrada de qualidade, planejamento, risco e originalidade. Algo cada vez mais singular na indústria do entretenimento

Arte do filme "Em Ritmo de Fuga" por Joshua Kelly

Arte do filme “Em Ritmo de Fuga” por Joshua Kelly

A vida da Sony, um dos estúdios mais importantes e prestigiados do sistema que Hollywood representa, não vinha fácil. Sucessivos fracassos de bilheteria que irromperam até mesmo a 2017 – que tem tudo para ser o melhor ano da história recente do estúdio. Alguém se lembra de “Passageiros”, aquela ficção-científica que tanto prometia e ainda reunia dois dos astros mais empolgantes da atualidade? Essa foi a pá de cal na fase malfadada iniciada na tentativa de reiniciar a franquia do Homem-Aranha com Marc Webb e Andrew Garfield à frente.

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Os solavancos foram expressivos e se deram também no âmbito da espionagem corporativa, quando hackers norte-coreanos invadiram os servidores do estúdio e vazaram documentos e correspondências sigilosas em represália à produção e distribuição do filme “A Entrevista”, que satirizava o ditador daquele país. A década ainda não acabou, mas ela tem sido sofrível para o estúdio que não consegue amealhar sucessos de bilheteria, ou mesmo de crítica. Tirando o selo de arte, o Sony Classics, que praticamente só compra e distribui filmes independentes, o estúdio está fora do Oscar desde 2012, quando teve “ A Hora Mais Escura” entre os finalistas.

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A torre negraMas 2017 parece mesmo o ano da mudança. Para começar, “Homem-Aranha: De Volta ao Lar” agradou a crítica e já caminha para os US$ 500 milhões na bilheteria mundial. É oficialmente um hit e foi o filme mais barato do aracnídeo produzido pelo estúdio. A parceria com a Marvel rendeu e rendeu bem em todas as frentes. Se cercar de talento e apostar no risco foi uma estratégia certeira em outras frentes também.

Edgar Wright (“Scott Pilgrim Contra o Mundo”) é um dos cineastas mais talentosos e apaixonados por cinema que há hoje e botar esse cara para fazer um filme com o apoio do sistema de estúdios é a coisa certa a fazer, mas não é o que os estúdios andam fazendo atualmente. “Baby Driver”, “Em Ritmo de Fuga” no Brasil, é dos filmes mais bem cotados pela crítica americana no ano. Barato, tá com um boca a boca positivo e se segurando contra blockbusters de raiz no mercado da América do Norte. A Sony já pensa na continuação.

Mais do que o hype, “Em Ritmo de Fuga” é um filme original em uma era em que franquias e adaptações dominam. É um gol de placa da Sony em uma temporada que os arrasa-quarteirões não estão convencendo nas bilheterias.

deNão obstante, a Sony ainda tem “A Torre Negra”, aguardada adaptação de Stephen King, com Idris Elba e Matthew McConaughey à frente do elenco. É mais uma tentativa de emplacar um franquia e depender menos de um certo aracnídeo. O hype e a expectativa jogam a favor da empreitada da Sony que calculou muito bem sua movimentação na temporada.

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Essa é a herança positiva de Amy Pascal, que deixou a presidência da Sony Pictures na esteira do escândalo dos vazamentos de e-mails da empresa. Tom Rothman, que já dirigiu a FOX e a Tristar, divisão da Sony, deve seguir o bom caminho ensejado por Amy, que segue como produtora vinculada à empresa.

A Sony não vai figurar entre os melhores faturamentos do ano. Warner e Disney vão protagonizar mais uma vez essa disputa – com larga vantagem para a segunda – mas tem um 2017 de recuperação e deve deixar a Paramount isolada na posição de grandes estúdios em naufrágio acelerado.

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domingo, 23 de julho de 2017 Críticas, Filmes | 16:34

Com a fórmula Marvel, “Homem-Aranha: De Volta ao Lar” é o filme que o personagem precisava

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“Homem-Aranha: De Volta ao Lar” comprova a acertada decisão da Sony de recorrer à Marvel para recolocar o personagem que é seu maior trunfo nas bilheterias nos trilhos

Spider

A relação entre a pré-adolescência e a maturidade é um elemento poderoso em “A Viatura”,  primeiro e único filme de John Watts como diretor antes de “Homem-Aranha: De Volta ao Lar” e essa característica não só é importante para a compreensão do sexto filme estrelado pelo herói aracnídeo, o primeiro com curadoria da Marvel Studios, como ajuda a entender a razão da bem sucedida escolha de Watts para a empreitada.

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“Homem- Aranha: De Volta ao Lar” é, para todos os efeitos, um reboot, mas não é mais um. Aqui temos o Aranha raiz, para usar uma expressão da moda. Peter Parker, maravilhosamente abordado por um confiante e cativante Tom Holland, é um menino franzino e nerd do ensino médio com dificuldades para chegar na garota que gosta e que calha de ter sido picado por uma aranha radioativa, ou geneticamente modificada, a gosto do freguês, e desenvolvido superpoderes.

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Mas não se engane, apesar de ser uma coprodução entre Sony e Marvel, este é um filme com o DNA da Marvel. Toda a mecânica e dinâmica do filme obedecem aos cânones das produções de Kevin Feige (o homem forte do Marvel Studios) e Tony Stark não só está presente no filme, como é a grande figura catalisadora da trama. Não obstante, piadinhas com os vingadores e um easter egg com o Capitão América ratificam a percepção de que este é um filme Marvel.

spider 2Não há problema nenhum nisso. “De Volta ao Lar” é esperto, fluente, tem ótimas cenas de ação e consegue ser tanto um filme de origem ( e você nem se dá conta disso), como um filme teen estrelado por um super-herói improvável.  Essa combinação resulta em sucesso em qualquer dicionário e aqui não é diferente. Como bônus, o Abutre de Michael Keaton, esse grande ator que vira e mexe, de um jeito ou de outro, está às voltas com o universo dos super-heróis no cinema, é o melhor vilão já rascunhado pela Marvel no cinema. Além do mais, sem fazer muito esforço, ele entrega uma atuação diferenciada no contexto dos filmes do gênero mais recentes.

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É impossível não reagir positivamente a “Homem-Aranha: De Volta ao Lar”, um filme muitíssimo bem engendrado pela fórmula Marvel com a expertise de Watts para elaborar conflitos geracionais – e repare como o filme se comunica e no mesmo compasso traduz a juventude de hoje. Mas não é memorável no sentido que o primeiro “Homem-Aranha” (2002) de Sam Raimi foi. Talvez não fosse mesmo o caso. “De Volta ao Lar” é o filme que todos precisavam. Inclusive o “Homem-Aranha”.

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