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quinta-feira, 28 de dezembro de 2017 Análises, Críticas, Filmes | 11:13

George Clooney vai ao passado para explicar América da Era Trump em “Suburbicon”

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Novo filme de George Clooney como diretor tem roteiro afiado dos irmãos Coen e é uma sátira nervosa de costumes sociais que perduram e justificam ascensão conservadora

Matt Damon em cena de "Suburbicon: Bem-Vindos ao Paraíso"

Matt Damon em cena de “Suburbicon: Bem-Vindos ao Paraíso”

Alguns dos melhores momentos de George Clooney como ator foi sob a batuta dos irmãos Coen. O humor cheio sarcasmo e finas ironias dos irmãos era a principal bússola de “E aí, Meu Irmão Cadê Você?” (2000), “O Amor Custa Caro” (2003) e “Queime Depois de Ler” (2008) e é a força motriz de “Suburbicon: Bem-Vindos ao Paraíso”. Os Coen tinham esse roteiro engavetado desde os anos 70 e cederam a Clooney que estava ávido por dirigir um material dessas referências do cinema americano. A parceria deu muito certo.

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“Suburbicon” é essencialmente um filme dos Coen, o que é muito bom. Mas traz também a preocupação político social inerente ao cinema mais robusto de Clooney como cineasta (“Tudo pelo Poder”, “Boa Noite e Boa Sorte”). O timing joga a favor do filme. Com a era Trump em pleno vapor, voltar aos EUA dos anos 50 para observar os motores da intolerância em paralelo à manufatura da hipocrisia à americana é um desses felizes achados cinematográficos.

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O filme se passa em um bairro planejado, um daqueles subúrbios acima de qualquer suspeita. A vizinhança se inquieta com a chegada de uma família negra. O alvoroço denota o racismo institucionalizado e serve como paisagem para os conflitos que movem a trama. Estamos aqui em um terreno tipicamente Coeniano:  personagens menos inteligentes do que acham que são, da ganância desenfreada e da imponderabilidade do acaso.

Cena do filme Suburbicon

Cena do filme Suburbicon

Gardner (Matt Damon) vive um casamento cheio de ruídos e ressentimentos com Rose (Julianne Moore), presa a uma cadeira de rodas após um acidente de carro dirigido pelo marido. Ele vive um caso com a irmã de Rose, Margaret, também vivida por Moore, e é possível que esteja por trás da arquitetura de um plano para matar a mulher.

O filme começa cheio de sutilezas e sugestões e vai ganhando gravidade e agudeza aos poucos até se configurar em uma ópera de erros e desgraças. A direção de Clooney segue no mesmo compasso. Começa embevecida dos olhos tristes de Nicky (Noah Jupe), o filho dos Gardners, e vai ficando histérica – ao ponto que a própria música se torna onipresente e delirante.

“Suburbicon: Bem-Vindos ao Paraíso” é uma sátira potente, no todo, mas fundamentalmente nos detalhes. A relação do menino branco com o vizinho negro, a perversidade de Gardner que vai escalando conforme ele vai se sentindo sufocado e mesmo as cenas que exibem o racismo descampado de uma sociedade febril e destemperada são pequenos comentários cheios de lucidez e espanto de um realizador senhor de suas convicções e dos efeitos que quer alcançar.

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sábado, 23 de dezembro de 2017 Críticas, Filmes | 14:52

“De Canção em Canção” é epílogo conceitual das relações amorosas contemporâneas

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Novo filme de Terrence Malick mostra as idas e vindas de personagens às voltas com suas escolhas e seus relacionamentos amorosos. É o equivalente dessa década ao que foi “Closer – Perto Demais” em 2004

O triangulo amoroso que move a história

O triangulo amoroso que move a história

O cinema de Terrence Malick é o mais polarizador da atualidade e há uma razão muito clara para isso. O cineasta escreve um filme, roda outro e monta um terceiro, frequentemente descolado das propostas que orientaram os dois primeiros. Não à toa, seu processo criativo é incontornável e, quiçá, irreproduzível. A pessoalidade do cinema de Malick é, ao mesmo tempo, sua maior força e sua inegável fragilidade.

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Especialmente depois de “A Arvore da Vida”, vencedor da Palma de Ouro e indicado aos Oscars de filme e direção em 2012, o americano se lançou em uma jornada de profunda introspecção e reverberação e levou seu cinema junto. Não à toa, esta é sua década mais prolífera e em que seus filmes mais se assemelham em termos de estrutura narrativa e temática.

“De Canção em Canção” é erguido sobre fragmentos, como o eram fundamentalmente seus antecessores (“Amor Pleno” e “Cavaleiro de Copas”). São memórias, devaneios, angústias e desejos materializadas em imagens que se organizam como poesia visual, mas também verbetes emocionais com os quais o cineasta pretende construir o sentido dos personagens, não necessariamente do filme. Para esse outro objetivo, o público terá que ser partícipe; coautor. Para que “De Canção em Canção” produza efeitos efetivamente no espectador, ele terá que se engajar. Abraçar aqueles personagens e seus conflitos – que não são apresentados cronologicamente – com o mesmo carinho e curiosidade com que Malick os propulsa.

Ryan Gosling e Rooney Mara em "De Canção em Canção"

Ryan Gosling e Rooney Mara em “De Canção em Canção”

O ponto de vista central aqui é de Faye (Rooney Mara), um dos vértices de um triangulo amoroso entre um aspirante a cantor (Ryan Gosling) e um produtor arrogante (Michael Fassbender). Há, claro, reminiscências de ambos ao longo das pouco mais de duas horas de metragem da fita, mas são as angústias de Faye que pautam o longa. “Tinha uma fase em minha vida que eu precisava que o sexo fosse violento”, ela diz logo de início. Estamos diante, portanto, de uma pessoa remoendo suas dores. Lá pelo final ela desenvolve: “Compaixão sempre foi uma palavra que eu não imaginava que fosse precisar”. O que Malick oferta por meio desses fragmentos é uma reflexão sobre como os relacionamentos amorosos nos transformam, nos moldam e é Faye a principal condutora dessa jornada. Não obstante, a maneira como o cineasta filma Mara é desconcertante. Sempre buscando ângulos inusitados, momentos banais e uma intimidade desarmada.

A maneira como Malick trabalha seus atores e com seus atores também atinge um novo patamar em “De Canção em Canção”. A fisicalidade das atuações é utilizada para explicar convulsões emocionais em uma construção audiovisual incomum para narrativas cinematográficas e que pode se perder para aqueles pouco treinados ou inspirados pelo cinema de vocação sensorial.

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Natalie Portman, mais linda e triste do que nunca, e Cate Blanchett, sempre uma presença atordoante, surgem como mulheres nas vidas dos protagonistas masculinos. Elas são apêndices para homens complicados. É o personagem de Fassbender quem mais fascina. Uma espécie de predador sexual que mergulha desimpedidamente em seus demônios. “Eles tem uma beleza em sua vida que me faz feio”, reflete sobre a relação entre Faye e BV (Gosling), a qual se introjeta com nenhuma outra finalidade que não desestabiliza-la.

Patti Smith e Rooney Mara em cena do filme

Patti Smith e Rooney Mara em cena do filme

Este é um filme sobre os percalços das relações amorosas, como elas nos definem e como nos deixamos nos definir por elas e o fato de usar a cena musical de Austin, no Texas, como contexto torna tudo ainda mais universal, tântrico, artístico. Há diversas boas pontas, ou cameos, no filme. Do Red Hot Chili Peppers a Iggy Pop, passando por Val Kilmer e tantos mais. Mas é Patti Smith quem responde por um dos momentos mais brilhantes e quando o filme se deixa flagrar em sua verdade mais condoída. Em uma conversa com Faye, em que a exorta a brigar por seu amor, ela diz que ainda mantém a aliança do marido que morreu. Sob uma outra “que eles dão para aqueles corredores que não vencem a maratona, mas terminam a prova”.

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domingo, 17 de dezembro de 2017 Análises, Filmes | 17:52

SAG testa seu poder de influência sobre Oscar mais globalizado em 2018

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Cinéfilos e analistas da indústria cinematográfica observaram a semana que se passou com muita atenção. Ela sinalizou o começo efetivo da temporada de premiações do cinema, ou temporada do Oscar, como preferem os que evitam eufemismos. As indicações ao Globo de Ouro e ao SAG, anunciadas na segunda-feira (11) e quarta-feira (13) respectivamente, agregam valor e perspectiva às indicações do Critic´s Choice Awards, divulgadas na semana anterior, e moldam a corrida pelo Oscar.

É claro que produções, performances e artistas que falharam em adentrar nessas listas continuam com chances de chegar ao Oscar, mas elas ficam indubitavelmente menores.

Armie Hammer em cena de "Me Chame pelo Seu Nome"

Armie Hammer em cena de “Me Chame pelo Seu Nome”

“Me Chame pelo Seu Nome” talvez seja o grande perdedor da semana. A produção até amealhou uma indicação a melhor filme dramático no Globo de Ouro, mas não emplacou indicações em roteiro e direção e seu elenco não foi contemplado com uma indicação na principal categoria do SAG. Vale lembrar que o Oscar mantém uma escrita implacável. Desde que o sindicato dos atores criou seu prêmio há 23 anos, apenas “Coração Valente” venceu o Oscar de melhor filme sem ter recebido uma indicação a melhor elenco. Apenas o protagonista Thimothéé Chalamet foi nomeado ao SAG.

Já produções como “Lady Bird” e “Três Anúncios para um Crime” ganharam musculatura nesta semana. Já é possível lista-las como certeza entre os indicados ao Oscar de melhor filme e o momentum a favor dessas candidaturas – e de outras relacionadas aos filmes – só crescerá nas próximas semanas.

Influência em jogo

Se o Globo de Ouro tenta influenciar a corrida com a promoção de produções como “Todo o Dinheiro do Mundo” e performances como a de Hong Chau (“Pequena Grande Vida”), o SAG tem uma questão mais premente a tratar em matéria de influência no Oscar. Desde que a Academia espremeu o calendário de premiações com vistas a reduzir as influências dos prêmios satélites sobre o Oscar, o SAG foi o sindicato que viu seu poder de influência mais reduzido. Nos últimos cinco anos, apenas dois filmes que ganharam o prêmio de elenco ganharam o Oscar de melhor filme. Nos cinco anos anteriores a estatística era de quatro em cinco.

Cena de "Lady Bird", filme com cada vez mais hype na temporada

Cena de “Lady Bird”, filme com cada vez mais hype na temporada

Este ano há algumas curiosidades nas escolhas do SAG. Um filme distribuído diretamente na Netflix nos EUA (“Mudbound – Lágrimas Sobre o Mississipi”), um favorito da crítica (“Doentes de Amor”), um sucesso comercial de gênero (“Corra!”), além dos já citados “Lady Bird” e “Três Anúncios para um Crime”. Os três primeiros não necessariamente fazem o perfil de filmes nomeados pelo Oscar.

Se “Mudbound” trabalha com o mesmo material de “Histórias Cruzadas” e “Estrelas Além do tempo”, que venceram o SAG e emplacaram indicações a melhor filme no Oscar, tem contra si o fato de ter estreado direto em streaming. O apoio do SAG pode ser providencial para que a Academia supere esse preconceito. Por outro lado, a Academia que hoje já ostenta mais de oito mil membros está cada vez mais global e menos suscetível à influência dos sindicalizados nos EUA.

Outra frente em que o SAG testará sua influência será com “Doentes de Amor”. O filme festejado pela crítica é uma comédia romântica bem feitinha, com diálogos espertos  e um conjunto de atores em boa forma. O apoio do SAG fará com que o filme lançado em junho nos EUA chegue ao Oscar?  E “Corra!”, sátira racial, filme de gênero que decolou em Sundance e fez grande sucesso comercial? O SAG ajudará a academia a abraçar um dos filmes mais elogiados da temporada, mas que não faz o perfil da premiação?

Essas são questões encampadas pelo SAG, mas são questões que podem ser eclipsadas em um ano em que o dito cinemão

Cena de "Doentes de Amor": O SAG acolhe um favorito da crítica para ratificar sua influência no Oscar

Cena de “Doentes de Amor”: O SAG acolhe um favorito da crítica para ratificar sua influência no Oscar

voltou com força. Spielberg e seu “The Post” podem ser uma espécie de trator na temporada. Um filme sobre o valor do jornalismo, da independência editorial e da liberdade de expressão em tempos de Donald Trump pode soar irresistível demais. E com Tom Hanks e Meryl Streep no elenco vira até covardia. Christopher Nolan e seu “Dunkirk” parecem vir com força. Há ainda a fantasia reclamando redenção com “A Forma da Água”, que já vem com o selo de aprovação de Veneza, onde ganhou o Leão de Ouro.

As muitas influências emparelhadas nessa atribulada semana que representou o ponto de partida oficial da temporada do Oscar agora convergem em protagonismo de ocasião. A votação para o Oscar começa só em 5 de janeiro. Até lá muito pode mudar e novas tendências surgirem na primeira temporada de premiações pós-Harvey Weinstein (ainda tem essa “ausência” de influência em jogo).

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domingo, 26 de novembro de 2017 Análises, Filmes | 13:19

As chances de “Corra!” na temporada de prêmios e a polêmica no Globo de Ouro

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Lançado no começo do ano, em fevereiro nos EUA e em maio no Brasil, o thriller “Corra!” promete chegar com força na temporada de premiações e como um bom termômetro disso já se encontra no epicentro de uma das polêmicas da temporada. Além de como o tema assédio sexual pautará a Oscar season, a classificação do filme de Jordan Peele para concorrer entre as comédias no Globo de Ouro gerou polêmica e grande repercussão negativa.

Cena de "Corra!", protagonista de uma das primeiras polêmicas da temporada de premiações em 2018

Cena de “Corra!”, protagonista de uma das primeiras polêmicas da temporada de premiações em 2018

Para começo de conversa, “Corra!” não é uma comédia, mas é uma sátira social aguda que trabalha de maneira inteligente com o humor. Peele, que é comediante, protestou. “O que o filme trata não é engraçado”. O filme mostra um fim de semana de um casal inter-racial na casa dos pais da namorada (branca) e como o racismo pode ser submerso e subversivo. A primeira vez que a produção chamou a atenção foi no festival de Sundance em janeiro e desde então foi uma saraivada de elogios.

Leia também: Sátira das tensões raciais, “Corra!” une comédia ao terror com excelência 

A Universal Pictures, que comprou os direitos da fita e a distribuiu globalmente, inscreveu o filme para concorrer entre as comédias. Simplesmente porque as chances de nomeação – e vitória – são maiores nesse eixo, já que o Globo de Ouro divide as principais categorias entre dramas e comédias. “Eu acho que foi apenas inscrito”, comentou Peele tentando minimizar o papel do estúdio que apoiou seu filme na “lambança”. De fato, a palavra final é da Associação dos Correspondentes Estrangeiros de Hollywood (HFPA, na sigla em inglês), mas a organização é conhecida por seu alto grau de flexibilidade, ou por abrir as pernas no português mais chulo, em nome das boas relações com os poderosos de Hollywood.

A submissão de “Corra!” às comédias não é nem mesmo a maior bobagem que a HFPA já fez nesse sentido. Alguém lembra de “O Turista”? Pois é… A inclusão de “Corra!” entre as comédias talvez incomode mais porque o filme discute com incrível sagacidade um tema importante e sempre incendiário que é o racismo, mas o raciocínio mercadológico da Universal não está errado. A indicação ao Globo de Ouro, ainda que em uma categoria contestável,  pode vitaminar as chances do filme que precisa estar no radar dos votantes do Oscar – algo que mais do que qualquer outra premiação, apenas a HFPA pode fazer.

Fotos: divulgação

Fotos: divulgação

Chances reais

Apesar de “Corra!” não ser um grande filme, sua inteligência e originalidade o precedem. Isso, aliado ao fator de não ser essencialmente um “filme de Oscar”, ter sido um hit nas bilheterias (mais de US$ 250 milhões arrecadados mundialmente) e o debate importante que encampa devem lhe colocar na rota de uma indicação a melhor filme. Na verdade, apenas o roteiro merecia lembrança. No Spirit Awards, bom termômetro para o Oscar, figurou em mais categorias do que o esperado. Além de filme e roteiro, foi lembrado em montagem, direção e ator.  A aparente patetada no Globo de ouro pode ser a chave para consolidar um dos contenders mais inusitados dos últimos anos no Oscar.

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sábado, 25 de novembro de 2017 Filmes, Notícias | 11:30

Boa safra de indies vai com força para o Oscar 2018

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Foram divulgados nesta semana os indicados ao Independent Spirit Awards, premiação do cinema independente americano que ganhou bastante projeção nos últimos anos por antecipar os principais concorrentes e vencedores do Oscar. Na safra de 2018 se destacaram “Me Chame pelo seu Nome”, “Corra!” e “Lady Bird”.

Com seis indicações, "Me Chame pelo seu Nome" lidera corrida pelo Independent Spirit Awards

Com seis indicações, “Me Chame pelo seu Nome” lidera corrida pelo Independent Spirit Awards

Não houve grandes surpresas na lista divulgada pelo Spirit, a despeito de alguma esquizofrenia. “Lady Bird”, por exemplo, que marca a estreia de Greta Gerwig na direção emplacou indicações nas principais categorias, mas Gerwig não foi lembrada entre os diretores. O elogiado “Três Anúncios para um Crime” recebeu nomeações para os intérpretes e roteiro, mas ficou de fora da categoria principal. Há outros casos, mas esses dois talvez sejam os mais emblemáticos dessa curiosa circunstância.

Curioso também é o fato de que filmes indies financiados por gente enrolada nos casos de assédio em Hollywood ficaram totalmente de fora, caso de “Terra Selvagem”. O distanciamento de Hollywood provocou a exclusão absoluta de “A Forma da Água”, de Guillermo del Toro.

“Projeto Flórida”,  “Bom Comportamento”, o chileno ‘Uma Mulher Fantástica”, “Artista do Desastre” e “I, Tonya” são outros filmes que brigam por vagas no Oscar.

Não é de hoje que o cinema independente americano vive grande fase e a safra de 2017 é especialmente entusiasmante como atestam os indicados a melhor primeiro filme, com destaque para o ótimo “Columbus”.

Nas próximas semanas conheceremos os indicados ao Critics´Choice Awards (6/12) e Globo de Ouro (11/12).

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sexta-feira, 24 de novembro de 2017 Críticas, Filmes | 17:13

Documentário sobre Fernando Gabeira mostra falência do sistema político-partidário do Brasil

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“Mais do que um político, ele é um homem do presente. Está sempre atuando, interferindo e reagindo”, observa o poeta Ferreira Gullar (1930 – 2016) sobre Fernando Gabeira, matéria-prima de “Gabeira”, documentário de Moacyr Goés a respeito de uma das figuras mais complexas, ricas e polarizantes da história recente do Brasil.

Gabeira 1

Como cinema, “Gabeira” é pouco propositivo. O próprio Fernando pauta a narrativa. É mais um gesto de reverência, um desagravo às memórias de um inconformista do que um longa investigativo ou problematizante. Ainda assim, o filme é interessantíssimo. Até porque o personagem sempre agiu como ombudsman de si e do meio – para evocar a formação e vocação jornalística do mineiro de alma carioca.

Leia também: Documentário relembra a trajetória do político Fernando Gabeira

Além de Gabeira, que ocupa a tela a maior parte do tempo, e Gullar, figuras célebres como Nelson Motta, Armínio Fraga, Cora Ronai, Caetano Veloso, além de familiares, surgem pincelando esse painel sobre uma figura tão contraditória que antecipou a crise de representatividade político-partidária que o Brasil vive hoje. Plural e fluído, Gabeira não se acomodou em nenhuma legenda brasileira. Arredio ao sistema político-partidário do País, esse homem de esquerda viu nossa esquerda ruir. No fim do filme, tece comentários sobre a Lava Jato, a crise surda da esquerda brasileira, a condenação de Lula e faz uma análise potente e reverberante da ascensão eleitoral de Jair Bolsonaro.

Fotos: divulgação

Fotos: divulgação

O ativismo político de Gabeira começou lá na adolescência quando ele foi expulso de todos os colégios que participou, advoga o amigo e poeta Afonso Romano Sant`Anna em dado momento.

Leia também: A carreira de Michael Fassbender sobrevive depois de seu péssimo 2017? 

O grande mérito do documentário é tentar abarcar a evolução do pensamento de Gabeira, um homem sem freios e sem receios em lançar-se a suas verdades, de defendê-las. Ver Gabeira falando é sempre um ato de inteligência, de reflexão e quando ele fala da importância de viver o “ridículo” da campanha de 1989, aquilo ecoa forte na audiência. “Eu gosto de ver as reportagens dele na GloboNews e de lê-lo no Globo”, pontua Caetano Veloso, “mas hoje me vejo mais à esquerda do que ele”.

“Gabeira” pode ser percebido como um manifesto. Um homem velho (76 anos) refletindo sobre os erros, acertos e convicções do passado. Do ponto de vista cultural, um programa imperdível.

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quinta-feira, 23 de novembro de 2017 Análises, Atores | 11:27

A carreira de Michael Fassbender sobrevive depois de seu péssimo 2017?

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Michael Fassbender em cena da estreia "Boneco de Neve"

Michael Fassbender em cena da estreia “Boneco de Neve”

Em maio de 2014, Michael Fassbender foi alvo de um texto mega elogioso no blog intitulado “Michael Fassbender: o ator do momento, já há algum tempo”. Três anos e um punhado de filmes malsucedidos depois, a constatação de outrora parece não proceder mais. Pior: o ator alemão de ascendência irlandesa parece ter sua carreira em uma crise potente de viabilidade.

Com o lançamento de “Boneco de Neve” nos cinemas brasileiros, um dos filmes mais mal avaliados de 2017, Michael Fassbender atinge um indesejado grau de saturação. Há de se ponderar se sua carreira continuará depois de tantos fracassos comerciais, filmes mal recebidos pela crítica e outros tantos esquecíveis.

Leia também: Sem Ambição, “Liga da Justiça” entrega bons personagens e diversão ligeira

Se no início da década, o ator esbanjava talento, faro e bom gosto em produções como “Shame”, “Um Método Perigoso”, “Frank” e “12 Anos de Escravidão”, que lhe valeu sua primeira indicação ao Oscar, agora agoniza com os fracassos de “Assassin´s Creed”, “Alien Covenant” e má aceitação de produções como “Song to Song” e o referido “Boneco de Neve”.

Michael Fassbender e Marion Cotillard em cena de "MacBeth", um dos primeiros filmes ruins do ator

Michael Fassbender e Marion Cotillard em cena de “MacBeth”, um dos primeiros filmes ruins do ator

Não se pode dizer que Fassbender agiu equivocadamente. Buscou parcerias com cineastas renomados e estimados pela crítica (Terrence Malick, Ridley Scott e Derek Ciafrance), estabeleceu vínculo comercial com um estúdio, a FOX (Alien, X-Men e Assassin´s Creed), produziu filmes com potencial de franquia (Assassin´s Creed e “Boneco de Neve”), investiu em material com pedigree e apostou na visão de Matthew Vaughn para seu Magneto. Visão esta, é bem verdade, que se deteriorou nas sequências.

Ocorre que em um espaço de dois anos – desde a indicação ao Oscar de melhor ator por “Steve Jobs” (2015), que já não era um grande filme – Fassbender só lançou filmes percebidos como ruins ou desnecessários (e foram oito lançamentos).

A combinação de baixa qualidade e ranço com o volume de produções lançadas pode ser fatal. Não à toa, tirando a participação no próximo filme da franquia mutante, Fassbender não está envolvido em nenhuma produção. Há quem diga que o ator vai dar um tempo no cinema. Claro, foi um ritmo intenso. Mas foi um ritmo intenso que não deu bons frutos. Há de se esmerar melhores projetos no futuro e, claro, assumi-los com maior parcimônia.

Cena de "Song to Song" Fotos: divulgação

Cena de “Song to Song”
Fotos: divulgação

Ficou patente para Michael Fassbender que a solução não está no volume de lançamentos. No início da década, por exemplo, ele figurou apenas em uma franquia e fez produções bem alternativas, colaborando com cineastas originais e senhores de sua liberdade. Não foi exatamente o que aconteceu aqui. Mais: agora ele já tem um lastro como astro e a perspectiva de toda e qualquer produção em que se envolver será diferente. A carreira pode sobreviver, mas para não virar um novo Nicolas Cage é preciso um pouco mais de planejamento e compreensão de seus objetivos.

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sábado, 18 de novembro de 2017 Críticas, Filmes | 15:46

Sem ambição, “Liga da Justiça” entrega diversão ligeira e bons personagens

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Reunião dos heróis da DC no cinema não decepciona, mas não é o filme que muitos esperavam. Com Joss Whedon, de “Os Vingadores” na produção, Warner se aproxima da fórmula Marvel

Os heróis em "Liga da Justiça" Fotos: divulgação

Os heróis em “Liga da Justiça”
Fotos: divulgação

A expectativa era grande e talvez “Liga da Justiça” não fique à altura, mas é inegável que ao coração do fã que sempre sonhou em ver alguns de seus heróis preferidos reunidos no cinema, a produção ecoa de uma maneira diferente, mais especial. Até porque os heróis aqui reunidos sempre fizeram parte do time A da DC Comics, diferentemente dos vingadores, que foram ganhando hype no cinema, já que antes não integravam a coroa da Marvel.

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Embora apenas Zack Snyder esteja creditado como diretor, ele se afastou da direção do longa por força de uma tragédia pessoal (o suicídio da filha) e Joss Whedon assumiu o cargo, reescrevendo muita coisa do roteiro e fazendo refilmagens (algumas para sempre infames no universo das redes sociais como o bigode de Henry Cavill apagado digitalmente de maneira bem contestável). “Liga da Justiça”, para todos os efeitos, é um filme esquizofrênico. Tem a sisudez e reverência do cinema de Snyder, além da beleza visual potente, e o escapismo bem humorado da pena de Whedon, que sempre se notabilizou por ser melhor escriba do que cineasta.

Leia também: “Amores Canibais” se destaca pela estética, mas se perde em sopa de metáforas 

Não é preciso ter afinidade com o cinema dos dois para constatar isso. Basta a referência dos trabalhos anteriores de ambos no universo dos heróis (Snyder dirigiu “O Homem de Aço” e “Batman VS Superman”, enquanto Whedon os dois primeiros “Vingadores”). Essa mistura rende um filme de efeitos visuais majoritariamente vistosos, mas outros um tanto comprometedores (longe do ideal para uma produção que beijou os US$ 300 milhões). Um fio narrativo por demais simplista, um vilão ruim, mas um bom desenho de personagens, uma dinâmica muitíssimo bem lubrificada entre os heróis e garantia de uma diversão ligeira em um filme de tamanho ideal – cerca de 120 minutos.

Após a morte do Superman, vista em “Batman VS Superman: A Origem da Justiça”, não só a desesperança movimenta os dias, como alienígenas começam a invadir a terra e, numa dessas, o Lobo da Estepe (Ciarán Hinds) reaparece para tentar unificar as três caixas maternas (artefatos ancestrais que acumulam imenso poder) e subjugar a Terra e todos que nela habitam. O Batman é o primeiro a perceber o perigo à espreita e ele tenta estabelecer uma aliança com outros seres extraordinários que vinha monitorando.

Zack Snyder orienta Jason Momoa no set de "Liga da Justiça"

Zack Snyder orienta Jason Momoa no set de “Liga da Justiça”

Atenção aos personagens

Se a trama é banal e seu desenvolvimento obedece a mesma lógica, “Liga da Justiça” pelo menos oferece um bom desenho de personagens. Sim, Bruce Wayne está mais piadista, mas ele não virou um piadista. Isso é meramente fruto das circunstâncias. Ele continua um homem amargurado, cheio de inseguranças e dono de um instinto suicida. Ben Affleck em mais uma demonstração de que é um ator mais consciente do que muitos se dão conta, estica na base do talento o pouco que o roteiro oferece de angustia a seu personagem.

O grande mérito do filme, no entanto, é apresentar personagens cativantes. O Barry Allen de Ezra Miller, um nerd clássico que se sente como um fã no meio dos heróis, é um dos highlights do filme. Jason Momoa dá conotação de rock star a seu Aquaman e agrada. Ray Fisher vê seu Cyborg como uma criatura angustiada que ainda não sabe se definir e começa a fazê-lo a partir do momento em que se vê inserido naquele grupo de super-humanos. Gal Gadot repete o encantamento que tanto arrebatou em “Mulher-Maravilha”.

A Liga em formação responde ao Bat Sinal: Elenco cheio de estrelas

A Liga em formação responde ao Bat Sinal: Elenco cheio de estrelas

Quando surge, o Superman está revigorado. A mitologia do Superman é muito melhor dimensionada aqui do que nos últimos filmes solo do personagem. A exemplo do que já havia acontecido em “Batman Vs Superman”.

“Liga da Justiça” certamente é um filme menos ambicioso narrativa e esteticamente do que se poderia supor, principalmente considerando o legado da DC no cinema. É, e a participação de Joss Whedon explica isso, o filme que mais se aproxima da bem sucedida fórmula Marvel. É tão pouco memorável como a maioria dos filmes da rival, mas diverte tanto quanto. Warner e DC perseguiam isso há algum tempo. É ver o que o sacramento das bilheterias indicará para o futuro. As duas ótimas cenas pós-crédito orientam certo otimismo.

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sexta-feira, 17 de novembro de 2017 Críticas, Filmes | 16:02

“Amores Canibais” se destaca pela estética, mas se perde em sopa de metáforas

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Filme, lançado diretamente na Netflix aqui no Brasil, é uma das produções esteticamente mais ambiciosas do ano

Amores canibais 1

A cineasta Ana Lily Amirpour causou sensação em 2014 com um pequeno, pulsante e extremamente original filme de vampiro falado em persa e rodado em preto e branco, o acachapante “Garota Sombria Caminha pela Noite”. Com mais ambição, um pouco mais de dinheiro e o mesmo senso estético, “Amores Canibais” (The Bad Batch, no original) pode não reproduzir o mesmo deslumbramento do primeiro, mas certamente ratifica a percepção de que estamos diante de uma autora (e esteta) que evita convenções da indústria.

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“Amores Canibais” é brilhante do ponto de vista técnico. A fotografia de Lyle Vincent, que também assinou o primeiro de Amirpour, é cheia de cores saturadas e dotada de tonalidades fortes. Ajuda e muito na construção anticlimática pretendida pela inglesa. Este é um filme que não esconde o desejo de ser cult e tem na sua elaboração visual um de seus grandes predicados.

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Em um futuro distópico, a região do Texas foi abandonada pelos EUA e uma profunda área desértica é onde os lotes estragados, os tais dos bad batch do título original, são exilados e entregues a própria sorte. Uns se rearranjam como predadores e canibais e Arlen (Suki Waterhouse) é logo capturada por um desses. Logo no início do filme, a protagonista é mutilada. Tiram-lhe uma perna e um braço. Ela consegue fugir e é ajudada na vastidão do deserto por um andarilho, papel de um irreconhecível, mas dono de forte presença cênica Jim Carrey.

Fotos: divulgação

Fotos: divulgação

Arly chega a Conforto, um projeto de cidade que é comanda pelo ditador The Dream, papel de um histriônico Keanu Reeves. Ele mantém uma série de mulheres grávidas. É um personagem interessante, ainda que ocupe pouco do filme de duas horas de metragem.

Jason Momoa surge como Miami Man, um imigrante cubano que é canibal, mas que parece se ressentir disso. Os caminhos de Miami Man e Arly se cruzam após uma breve vingança de Arly e o fato da filha dele ir parar sob os cuidados de The Dream em Conforto, lugar em que os canibais viram a caça.

Altamente estilizado, “Amores Canibais” salpica metáforas para todos os cantos com a América, a “terra prometida pós-moderna” como ponto focal. A maneira como Amirpour unta tudo isso é singular. Construído com muitos silêncios e elipses, o longa busca tanto uma sensorialidade como certa condescendência no público. É um cinema de ideias não necessariamente fluidas narrativamente, mas definitivamente do tipo que vale a pena racionalizar a respeito.

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terça-feira, 14 de novembro de 2017 Críticas, Filmes | 11:17

Drama argentino “Invisível” aborda desalento de jovem em busca de aborto

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Com narrativa seca, mas texto previsível, “Invisível” é um filme contraditório. Peca pelo ponto de vista engessado, mas tem boa carga dramática

Cena do filme Invisível

Cena do filme Invisível

Há filmes que tem uma premissa tão boa e objetivos tão nobres que parecem nos obrigar a gostar deles e, no caso da crítica, a contar com certa condescendência. É o caso do argentino “Invisível”. O novo filme de Pablo Giorgelli (“Las Acacias”) trata sobre a necessidade de se discutir o aborto pelo viés da saúde pública. Observa, ainda, com certa crueza a desesperança e desalento das classes menos favorecidas economicamente.

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Ely (Mora Arenillas) tem 17 anos e mora no bairro da Boca em Buenos Aires. Ela cursa o último ano do ensino médio e trabalha num pet shop para completar a renda familiar. Ao descobrir que está grávida do Raúl (Diego Cremonesi), dono do Pet Shop, seu mundo interno colapsa. Enquanto tenta manter sua rotina diária como se nada tivesse acontecido ela é tomada pelo medo e angústia.

A maneira silenciosa e aflitiva que Giorgelli desenvolve sua trama merece elogios. O diretor sabe que tem um drama poderoso em mãos e o aborda da maneira mais concentrada e incisiva possível, mas o roteiro (do próprio Giorgelli) não ajuda. Os desdobramentos são previsíveis e obedecem a certa lógica fetichista na abordagem do tema.

A obviedade das resoluções de “Invisível” se ajustam mais ao contexto de uma peça publicitária de viés ideológico do que a um cinema que se pretende encorpado, pensativo. Os conflitos parecem prévios, pré-estabelecidos e isso vai minando o poder de empatia do público. Exceção feita, é claro, àquela parcela que não se sente confortável em apontar malfeitos em um filme com premissa tão nobre.

“Invisível” padece de um ponto de vista engessado e de uma lógica unidimensional que busca única e exclusivamente a comoção e não se importa muito com aquilo que deveria promover com desprendimento: a promoção de um debate sério sobre aborto.

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