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sexta-feira, 9 de junho de 2017 Críticas, Filmes | 19:50

Vaca em crise existencial é trunfo do hermético “Animal Político”

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“Animal Político” já recebeu prêmios em muitos festivais e é a melhor estreia das salas de cinema do Brasil neste final de semana

animal político

Existem filmes que investem na sutileza ao fazer um comentário político ou social. Não é o caso de “Animal Político”, estreia da vez da Sessão Vitrine Petrobras, que estreia em diversas capitais brasileiras. Dirigido por Tião e rodado entre 2010 e 2013 em Pernambuco e na Paraíba, o filme tem como protagonista uma vaca em crise existencial. A opção é legítima, corajosa e desestabilizadora, pois propõe um distanciamento do olhar do espectador para as banalidades de seu cotidiano. Do ponto de vista discursivo é um triunfo, narrativo nem tanto. Há certas barrigas que apenas um olhar lúdico pode contemporizar.

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A vida do protagonista é confortável. Infância feliz, quase nenhuma doença – um par de cáries aqui e ali – família participativa, um bom emprego, mas a sensação de vazio se agiganta. Não é uma trama estranha ao universo de quem se interessa por dramaturgia. Seja ela no cinema, na televisão, na literatura, etc. O que difere “Animal Político” é justamente a ousadia de colocar uma vaca como senhora de uma reflexão capaz de encontrar eco em todos os espectadores.

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animal 11É uma diferença fundamental e que responde pelo que o filme tem de melhor a apresentar – e de mais ingênuo também. É preciso embarcar na viagem proposta pela obra – e o verniz filosófico é potente e bem calibrado. A narração do ator Rodrigo Bolzar para os pensamentos de Cerveja, o nome real da vaca protagonista, nada mais é do que um ensaio de reverberações filosóficas clamorosas.

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A outra presença no filme, humana, mas menos civilizada, que expande a sensorialidade proposta pelo projeto. Há também uma necessária referência a “2001: Uma Odisseia no Espaço”, filme que de certa maneira é precursor de todo o embate existencial encampado aqui. Aspecto interessante a se observar no longa é justamente quando a vaca parece desumanizar-se. Há tanto um componente anárquico – e a piada com o manual da ABNT é simplesmente antológica – como uma ode ao naturalismo do primeiro ato do filme. Valorizando essencialmente a busca pelo sentido da vida, “Animal Político” expõe a citação clássica de Buda em mais um dos grandes pequenos achados que estruturam a narrativa: “A vida não é uma pergunta a ser respondida, mas um mistério a ser vivido”.

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segunda-feira, 5 de junho de 2017 Análises | 16:00

A guerra do estúdios ao site Rotten Tomatoes e a restabelecida energia da crítica de cinema

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Paramount e Disney abrem fogo contra o site agregador de críticas Rotten Tomatoes e falam em cancelar sessões para a imprensa de seus grandes lançamentos. Mas essa “guerra” não é essencialmente nova em Hollywood

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É um tanto comum a percepção de que a crítica de cinema é uma arte moribunda. Muito pouca gente se abaliza por uma crítica na hora de ir ao cinema ou escolher um filme para assistir. Se internet e redes sociais hoje são senhoras do hype, um fenômeno interessante envolvendo a crítica de cinema aconteceu: o site agregador de críticas Rotten Tomatoes passou a servir como uma referência. É justamente essa referência, e a crítica por tabela, que estão no centro de uma polêmica envolvendo alguns dos principais estúdios de cinema.

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Paramount e Disney culparam o Rotten Tomatoes pelo pífio desempenho comercial de “Baywatch”, do primeiro, e “Piratas do Caribe: A Vingança de Salazar”, do segundo, nos cinemas. Na lógica desses estúdios a baixa aprovação crítica, “Baywatch” tem cotação de 19% enquanto “A Vingança de Salazar” tem pouco mais de 40%, afugentou a audiência do cinema.

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O Rotten Tomatoes tem, de fato, muitos problemas enquanto conceito. Ele parte do pressuposto que uma resenha se resume a avaliar positiva ou negativamente uma produção – uma demanda mais do público médio do que da crítica em si. A gradação é outro ponto questionado. Uma nota “C+” é alinhada entre as críticas positivas enquanto um “B-“, nitidamente uma nota superior, entre as negativas.  Ainda assim, a queixa dos estúdios não procede.

"Piratas do Caribe: A Vingança de Salazar" não emplacou junto a crítica e vai mais ou menos na bilheteria

“Piratas do Caribe: A Vingança de Salazar” não emplacou junto a crítica e vai mais ou menos na bilheteria

É sintomático em uma indústria que prioriza o seguro em detrimento do risco e aposta em franquias e histórias consolidadas, que grande parte dos lançamentos de uma temporada naufrague. Com produções cada vez mais caras – “Piratas” custou US$ 320 milhões e o “barato” Baywatch”, US$ 69 milhões -, a necessidade dos estúdios produzirem sucessos também é cada vez maior.

O público sabe o que quer e o que não quer. Um quinto “Piratas” desperta menos curiosidade do que o primeiro “Mulher – Maravilha”. Nesse sentido, o Rotten Tomatoes, que sustenta a exagerada marca de 93% de aprovação para o filme de Patty Jenkins, nada mais é do que um reflexo do interesse do público. Ainda que todos esses filmes gozem de menos prestígio junto à crítica do que “Corra!”, um hit do cinema independente que já amealhou mais de US$ 200 milhões nas bilheterias dos EUA.

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A Paramount ameaçou não fazer sessões de seus filmes para a imprensa. Puro recalque, diria Valesca Popozuda. O problema não é a crítica. O problema é a qualidade dos filmes e, ainda que com conotação negativa para os estúdios, a percepção e critério mais sofisticados da audiência em relação à variedade de opções no cinema. A ideia de sabotar a crítica de cinema paira já há algum tempo, mas imbróglios como esse inadvertidamente acabam por fortalecê-la.

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sábado, 3 de junho de 2017 Críticas, Filmes | 09:00

“Mulher-Maravilha” é acerto da Warner em Hollywood, no cinema e na vida

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Com o sucesso de crítica consolidado, o céu é o limite para “Mulher-Maravilha”, o filme que por razões externas à tela grande, coloca a Warner um passo a frente da Marvel na briga de foice entre as gigantes de Hollywood

Gal Gadot é a Mulher-Maravilha

Gal Gadot é a Mulher-Maravilha

É a maior aprovação crítica de um filme de super-herói desde “Batman – O Cavaleiro das trevas” (2008), o paradigma definitivo para o gênero que virou o carro-chefe de Hollywood. “Mulher- Maravilha” detinha até sexta-feira (2) o índice de 93% de aprovação no Rotten Tomatoes, agregador de críticas na internet. O filme de Nolan ostenta 94%. É um senhor dividendo em um contexto bem adverso.

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É sabido que a Warner vem tentando reiteradamente repetir o sucesso da Marvel. Obsessão tamanha que afetou a qualidade de “Esquadrão Suicida” (2016), que apesar de ter arrecadado mais de US$ 700 milhões, foi percebido como um fiasco. “Mulher-Maravilha”, que era um filme já pressionado por ser o primeiro desse filão protagonizado por uma heroína e com uma diretora no comando, recebeu ainda mais pressão. Esse filme tinha que dar certo.

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Patty Jenkins tinha apenas um filme independente no currículo, “Monster – Desejo Assassino”, que rendeu o Oscar de atriz a Charlize Theron. E lá se vão 13 anos. Jenkins não foi a primeira escolha para o projeto. A Warner escalou Michelle MacLaren, que havia dirigido alguns episódios de “Breaking Bad”, para a empreitada. Mas diferenças criativas com o estúdio provocaram sua saída. Jenkins, que já estava no radar dos estúdios – esteve para dirigir “Thor – O Mundo Sombrio” – assumiu o projeto, o orçamento de US$ 150 milhões e a responsabilidade de corresponder às expectativas de uma agenda feminista que vinha a tiracolo.

Patty Jenkins no set de Mulher-Maravilha

Patty Jenkins no set de Mulher-Maravilha

Para todos os efeitos, “Mulher-Maravilha” é um filme que opera dentro da margem de segurança. Do estúdio – e este é um filme de estúdio – , da referida agenda feminista – há ótimas piadas para agradar a militância – e à audiência convencional do gênero – os clichês estão todos lá, dos vilões às cenas de ação, passando pelo romance. Mas Patty Jenkins tem muitos méritos. O cuidado com as arestas da narrativa é o principal deles. O que parecia fora do tom e do eixo nas produções assinadas por Zack Snyder (“O Homem de Aço” e “Batman vs Superman”) surge como aspecto positivo aqui. Outro acerto foi a dimensão do humor na fita. Jenkins resiste à tentação de emular a Marvel e consegue fazer um filme que não é pautado pelo humor, mas que ainda assim é bem humorado.

Fotos: divulgação

Fotos: divulgação

“Mulher-Maravilha” não é um candidato natural ao clube do bilhão, cada vez mais inflado, mas diferentemente das últimas produções do universo DC no cinema, deve ser percebido como um sucesso. A marca de US$ 600 milhões globalmente é tangível e qualquer coisa além será a confirmação de um sucesso irrepreensível. Fato corroborado, claro, pela boa vontade dispensada ao filme. Não fosse bom, “Mulher-Maravilha” poderia representar um retrocesso nessa pauta que hoje move Hollywood – a da igualdade de oportunidades e remuneração entre os gêneros.

Não é um filme para 93% de aprovação no Rotten Tomatoes, mas é compreensível o entusiasmo com ele. Além do excelente trabalho de Jenkins, a outra grande responsável pelo sucesso do filme é a atriz Gal Gadot. Ela é a Mulher-Maravilha que eles e elas pediram a Deus. Um filme que chega (bem) perto de agradar gregos e troianos merece o confete.

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segunda-feira, 29 de maio de 2017 Críticas, Filmes | 18:34

“War Machine” desconstrói mentalidade da guerra com humor e inteligência

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Primeiro blockbuster da Netflix investe no público que os estúdios de Hollywood estão negligenciando e conta com o talento e carisma de Brad Pitt para ajudar a cacifar a plataforma de streaming como um player no mercado

Brad Pitt em cena de War Machine, já em cartaz na Netflix

Brad Pitt em cena de War Machine, já em cartaz na Netflix

A controvertida investida dos EUA no Oriente Médio após os atentados terroristas de 11 de setembro já rendeu alguns bons filmes, caso de “Zona Verde” e “Guerra ao Terror”, por exemplo, e até boas sátiras como “The Brink”, ótima série da HBO que durou apenas uma temporada. O primeiro blockbuster da Netflix, “War Machine” não deixa de ser um amálgama dessas produções.

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Inspirado no livro “The Operators: The Wild & Terrifying Inside Story of America’s War in Afghanistan” do jornalista Michael Hastings, “War Machine” faz parte da estratégia da plataforma de streaming de entrar definitivamente no business cinematográfico. O filme custou cerca de US$ 60 milhões e é estrelado por Brad Pitt, que coproduz junto a sua Plan B. Ainda que a medição de audiência seja precária, já que a Netflix não costuma divulgar dados e estatísticas de maneira regular e aprofundada, é inegável que se trata de uma estratégia exitosa.

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Escrito e dirigido por David Michôd, o filme acompanha a missão do general Glen McMahon no Afeganistão. Ele foi chamado para “limpar a bagunça”, ainda que tente se convencer de que lá está para “ganhar a guerra”. O filme debocha de McMahon, decalcado de um general real, Stanley McChrystal, e de sua entourage e o faz de maneira a realçar a desconformidade de uma mentalidade de guerra em um mundo cansado delas.

A sátira é potente, mas está inerentemente alinhada a um comentário político de viés progressista e antibélico. O filme assume o pessimismo de quem ainda dá murro em ponta de faca, mas não se censura um momento sequer.

Fotos: divulgação

Fotos: divulgação

Talvez aí resida um dos problemas do longa. Não exatamente na falta de censura, mas na repetição de uma mesma ideia. O que os homens sob o comando de McMahon e todos os civis que o gravitam rapidamente percebem é que a noção de uma estratégia de contrainsurgência quando se é o país invasor simplesmente não funciona. McMahon não percebe isso e o ocaso de sua brilhante carreira – e o filme o tangencia como um republicano clássico – se dá sem que ele perceba isso. Mas o espectador percebera tão ou mais rapidamente do que os homens sob o comando do general – isso se ainda não compartilhar do ponto de vista do filme.  Portanto, repetir a ideia – por mais que ela venha embalada por momentos cômicos ou de alguma tensão – é tornar o filme apenas cansativo.

Brad Pitt, que já havia abraçado a sátira com gosto em “Queime Depois de Ler” (2008) e “Bastardos Inglórios” (2009), o faz novamente com brio e inteligência. De movimentos robóticos e postura arrogante, seu McMahon é um fantoche sem consciência de tal condição. Um trabalho minucioso e minimalista, ainda que possa parecer exagerado para um expectador pouco calejado.

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Há excelente piadas e a narração em off é responsável pela maior parte delas. Por outro lado, esse off reforça essa estafa com temas repisados pelo filme. Chegasse dois ou três anos antes, ainda sob o governo Obama, “War Machine” teria muito mais impacto. De toda forma, é um belo cartão de visitas da Netflix para o establishment hollywoodiano. Trata-se, afinal, de um filme adulto, feito de uma maneira provocativa e calcado na figura de um astro de cinema. O tipo de filme que Hollywood não anda produzindo tanto atualmente. E ainda tem uma piada maravilhosa com Lady Gaga.

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sexta-feira, 26 de maio de 2017 Críticas, Filmes | 18:09

Robert De Niro volta a brilhar na pele de magnata fraudulento em “O Mago das Mentiras”

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Robert De Niro tem sua melhor atuação em anos na pele do vigarista Bernard Madoff no filme original HBO

Robert De Niro em cena de O Mago das Mentiras

Robert De Niro em cena de O Mago das Mentiras

Em uma dada cena de “O Mago das Mentiras”, filme original HBO sobre o papa das finanças Bernie Madoff, que à luz da hecatombe econômica de 2008 teve revelado o seu esquema de pirâmide, o protagonista expressa seu descontentamento com uma comparação feita por um psicoanalista entre ele e o assassino serial Ted Bundy, que inspirou diversos filmes como “Psicose” e “O Silêncio dos Inocentes”. Trata-se de uma cena forte, bem urdida, e profundamente reverberante do que o filme estrelado por Robert De Niro e assinado por Barry Levinson pretende deflagrar.

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Na pele de Madoff, De Niro reencontra-se como ator depois de um período de letargia. É sua melhor atuação desde, pelo menos, “O Lado Bom da Vida” (2012). Ele aborda esse homem poderoso, truculento e extremamente egocêntrico com a couraça de um grande intérprete. Entre o minimalismo e o desarranjo dramático, De Niro é a válvula propulsora de “O Mago das Mentiras”.

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Levinson já havia dirigido para a HBO “You don´t Know Jack”, outro filme sobre uma polêmica personalidade. Com Al Pacino à frente do elenco, aquela fita investigava o médico entusiasta da eutanásia Jack Kevorkian. Lá como cá, o elenco de apoio é preciso, a montagem, enxuta e Levinson, tenaz. Cineasta e De Niro já trabalharam juntos algumas vezes. A mais gratificante de todas elas talvez seja a sátira política “Mera Coincidência” (1997). Coincidência ou não, ambos também produzem uma série para a HBO inspirada no filme.

Michelle Pheiffer também atua em O Mago das Mentiras

Michelle Pheiffer também atua em O Mago das Mentiras

Em “O Mago das Mentiras” pouco interessa a essa sagaz e colaborativa parceria desvendar os mecanismos do golpe de Madoff. Ciente de que o outrora filho pródigo de Wall Street é um dos grandes personagens do milênio, Levinson se dedica a acompanhar a ruína desse império de mentiras e fraudes. O impacto no seio familiar, o frenesi midiático e a impassibilidade de Madoff – legitimada naquela comparação que tanto incomoda.

Baseado no livro da jornalista Diana Henriques, o filme não se arrisca a tentar penetrar Madoff, uma tarefa a qual a própria jornalista não logrou êxito, mas o cerca de maneira proeminente e imaginativa. Michelle Pfeiffer faz a esposa que parece não ter alternativa a não ser se manter leal a Madoff e é exímia nos momentos que tem para brilhar.

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Alessandro Nivola e Nathan Darrow, que raramente têm chances de ostentar bons papéis na tela grande, dimensionam muito bem os dramas e conflitos dos filhos do magnata fraudulento.

“O Mago das Mentiras” é um entretenimento robusto, daqueles que Levinson especializou-se em fazer nos anos 80 e 90 e que hoje parece circunscrito à TV.

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quinta-feira, 25 de maio de 2017 Críticas, Filmes | 13:44

Sátira das tensões raciais, “Corra!” une comédia ao terror com excelência

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Filme não reinventa a roda, mas consegue preencher clichês de um significado incomum em produções do gênero. Com “Corra!”, Jordan Peele se fia como um artista a se observar no cinema

Cena de "Corra!", filme já em cartaz no Brasil

Cena de “Corra!”, filme já em cartaz no Brasil

A primeira cena de “Corra!”, em que vemos um jovem negro acuado ser sequestrado demonstra que o filme de estreia do ator e roteirista Jordan Peele vai abordar frontalmente as tensões raciais. É justamente a maneira surpreendente e sedutora com que o faz que torna esse hit do cinema independente, que chegou com pompa às salas brasileiras, algo tão atraente e inteligente.

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Chris, a revelação Daniel Kaluuya, está se preparando para passar o fim de semana na casa dos pais da namorada, a doce, compreensiva e aparentemente defensora das minorias Rose (Allison Williams, de “Girls”). Ansioso e apreensivo, ele joga a pergunta: “Seus pais sabem que eu sou negro?”. Ela acha fofo, faz graça e tenta tirar o peso dos ombros do boy. “Corra!”, que se define como uma comédia de horror, gênero incomum, mas que quando dá o ar de sua graça costuma arrebatar, é melhor quando trata o racismo pelo viés da sátira e acredite: a sátira aqui é potente!

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Chegando à casa dos pais de Rose, Cris estranha de antemão a postura dos empregados negros da casa. Mas o pai de Rose (melhor papel de Bradley Whitford em anos), um neurocirurgião cujo pai perdeu a classificatória olímpica para Jesse Owens – aquele que humilhou Hitler em Berlim – se apressa em dizer que votaria em Obama para um terceiro mandato. O segundo ato do filme é todo ele dedicado a desmascarar nossos impulsos racistas velados e é um deleite a maneira como Peele os esquematiza.

A mãe de Rose, vivida pela sempre competente Catherine Keener, é uma psiquiatra que se orgulha da capacidade de hipnotizar as pessoas. Aos poucos, Peele vai nos ensejando que aquele clima de estranheza na verdade é um clima de muita hostilidade disfarçada e, sensitivo, Chris começa a reagir a isso.

Uma reunião informal: "Corra!" trata das tensões raciais que fingimos não existir

Uma reunião informal: “Corra!” trata das tensões raciais que fingimos não existir

Não é exatamente surpreendente a curva que o filme toma em seu terceiro ato, uma referência óbvia aos mais experimentados no gênero é “O Albergue” (2005), o terror gore de Eli Roth, mas o viés satírico da trama e a talentosa arquitetura narrativa de Peele fazem de “Corra!” um bicho de outra natureza.

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Produzido pela mesma Blumhouse que reabilitou a carreira de M.Night Shyamalan e entregou alguns dos filmes mais interessantes do gênero, “Corra!” ganha pontos por incorporar um discurso necessário, sem soar militante. É cinema de entretenimento, mas com vigor e reverberação.  A maneira como trata da fetichização do corpo negro é um assombro.  É um filme tão bem resolvido com seu tema, que extrai os momentos de maior terror e opressão de cenas aparentemente banais.

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terça-feira, 23 de maio de 2017 Atores | 15:21

Primeiro Bond a morrer, Roger Moore levou humor à franquia

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Ele foi o James Bond dos títulos inspirados. De “Somente para Seus Olhos” a “007 Contra o Homem com a Pistola de Ouro”, passando por “007 Viva e Deixe Morrer”, Roger Moore consolidou a série no cinema

Roger Moore, eternamente Bond (Divulgação)

Roger Moore, eternamente Bond
(Divulgação)

Primeiro James Bond a morrer. Roger Moore, que aferiu leveza e bom humor ao agente secreto com licença para matar e fez com que James Bond finalmente superasse Sean Connery e pudesse, de fato, virar um diamante eterno da sétima arte, morreu nesta terça-feira (23) em decorrência de um câncer.

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Roger Moore foi James Bond entre 1973 e 1985. É, ainda, o recordista a viver o personagem na série oficial. O britânico estrelou a fase mais cômica do personagem e foi com ele que 007 veio ao Rio de Janeiro em “007 Contra o Foguete da Morte”.

Bond favorito de muitos fãs e com título de Sir, Moore não era uma grande ator. Mas tinha um senso de humor afinadíssimo. Soube fazer graça dos boatos de que era gay em “Cruzeiro das Loucas” (2002) e foi um dos primeiros a defender a flexibilização do estigma de Bond como homem branco e mulherengo.

Ainda que não estivesse aposentado como Sean Connery, Moore praticamente não aparecera no cinema nos últimos dez anos. Estava relegado a produções televisivas na Inglaterra. Sua última participação em uma produção de Hollywood foi em “Como Cães e Gatos 2: A Vingança de Kitty Galore”. Apesar do aparente ostracismo, Roger Moore, continuava sendo um formador de opinião acessado pela imprensa inglesa para pautas de comportamento e cultura.

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terça-feira, 16 de maio de 2017 Críticas, Filmes | 15:43

“Taego Ãwa” permite que índios narrem a própria tragédia

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Novo lançamento da Sessão Vitrine Petrobras, “Teago Ãwa”, não é um filme de entretenimento, mas uma tese apaixonada sobre um Brasil que se perdeu

Cena do filme "Taego Ãwa"

Cena do filme “Taego Ãwa”

É fato que “Taego Ãwa” será um filme pouco visto, mas é importante como brasileiro que falemos dele. Não só por ser o primeiro filme goiano a ser distribuído comercialmente no País em 20 anos, mas por dispensar um necessário olhar à causa indígena. Causa esta que reveste e preenche discursos políticos, geralmente inseridos no espectro mais à esquerdada sociedade, mas que muito raramente avança ao discurso. O filme faz parte do projeto Sessão Vitrine Petrobras e já está em cartaz nos cinemas a preços promocionais.

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Os irmãos cineastas Henrique e Marcela Borela investiram mais de 12 anos na feitura de “Taego Ãwa”. Foi através de cinco fitas VHS com registros dos índios Ãwa, mais conhecidos como Avá-Canoeiros do Araguaia, achadas numa faculdade, que Marcela e Henrique deram início ao projeto. A partir daí, encontraram outros materiais e foram em busca daquele povo, investigando a fundo a origem e a trajetória dos Ãwa até aqui, inclusive o passado de enfrentamento com os brancos, o histórico de reclusão, a luta por demarcação de território e pela restituição das terras.

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No longa-metragem, o grupo Avá-Canoeiro do Araguaia narra sua trajetória de desterro, cativeiro e luta pela reconquista de sua terra tradicional, também chamada Taego Ãwa – que leva o nome da primeira mulher de Tutawa, Taego, que é mãe de Kaukama – ela que por sua vez é mãe, avó e bisavó de todos os Avá-Canoeiro do Araguaia que nasceram após o contato de 1973. No contato, realizado pela FUNAI, os Ãwa foram retirados à força da Mata Azul e de pois foram enjaulados e expostos para visitação pública. Boa parte do grupo morreu de doenças alheias. Os remanescentes acabaram entregues aos Javaé – ocupantes de uma terra vizinha ao território Avá-Canoeiro. Tutawa, capturado ainda jovem pela frente da Fundação Nacional do Índio (Funai), morreu em 2015 sem ao menos ter o direito de ser enterrado no último refúgio de seu  povo antes do trágico contato: o Capão de Areia.

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Trata-se de um filme essencialmente contemplativo. Há poucos diálogos e muita observação. Aos poucos os índios, todos civilizados, vão ficando mais à vontade com a câmera. Há uma cena, em que se deixam filmar fazendo uma pintura corporal, que mostra o choque geracional. Tutawa diz: “eu não tenho vergonha de mostrar meu pênis como vocês”. É um momento simples, fortuito até, mas que revela toda a tragédia não só dos Ãwa, mas dos índios no Brasil.

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quarta-feira, 26 de abril de 2017 Análises, Diretores | 12:47

Cineasta clássico, Jonathan Demme explorou o cinema ao máximo e manteve-se humilde

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Diretor de obras consagradas como “O Silêncio dos Inocentes”, “Filadélfia” e “Sob o Domínio do Mal”, também dirigiu coisas para a TV como as preciosidades “The Killing” e “Enlightened”

O cineasta Jonathan Demme ao lado de Meryl Streep e Rick Springfield no set de "Ricki and The Flash"

O cineasta Jonathan Demme ao lado de Meryl Streep e Rick Springfield no set de “Ricki and The Flash”

Em um ano que já levou Emmanuelle Riva, John Hurt, Bill Paxton, entre outros grandes nomes da sétima arte, a notícia da partida do cineasta Jonathan Demme é especialmente dolorida. O diretor morreu na manhã desta quarta-feira (26) em Nova York  decorrência da luta contra um câncer de esôfago.

Ele tinha 73 anos e seu último filme foi “Justin Timberlake + The Tennessee Kids”, um documentário para a Netflix. Jonathan Demme era do tipo que alternava-se entre longas de ficção e documentários. O gosto por contar histórias era tão altivo que dirigiu episódios de séries de TV antes mesmo delas sequestrarem os talentos de Hollywood.

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Foi um dos grandes, mesmo que não se comportasse como tal e não se importasse em envernizar um legado que, agora, cresce de tamanho. Junto de Milos Forman e Frank Capra ostenta a honorável marca de cineasta a ter dirigido um filme a conquistar o prestigiado big five no Oscar, os prêmios de filme, direção, roteiro, ator e atriz. “O Silêncio dos Inocentes” (1991), o último a conquistar tal façanha, compreensivelmente, será seu filme mais lembrado. Mas sua filmografia é muito mais diversa e reverenciável do que este excelente e definidor filme propõe.

Jonathan Demme, depois do primeiro tratamento contra o câncer, no festival de Veneza em 2015 (Fotos: divulgação/shutterstock

Jonathan Demme, depois do primeiro tratamento contra o câncer, no festival de Veneza em 2015
(Fotos: divulgação/shutterstock)

O primeiro Oscar de Tom Hanks, hoje um patrimônio tanto do cinema como do establishment americano, veio com o suporte de Demme que produziu e dirigiu “Filadéfia” (1993), um robusto drama sobre o impacto da AIDS em um momento que a América ainda tratava o assunto com reticências.

Demme transitava com desenvoltura por diversos gêneros. A comédia sofisticada (“De Caso com a Máfia”), a comédia de ação (“Totalmente Selvagem”), o thriller político (“Sob o Domínio do Mal”), o drama familiar indie (“O Casamento de Rachel”) e suspense (“O Abraço da Morte”). Seu último longa de ficção foi o tenro e musical “Rickiand The Flash: De Volta para a Casa” (2015), estrelado por Meryl Streep, em que pôde conjugar suas duas grandes paixões: a música e o cinema.

Jonathan Demme foi um cineasta clássico, com acurado domínio da gramática do cinema. Soube remover-se de sua zona de conforto e explorou o cinema o máximo que pôde. Construiu uma filmografia plural, rica, intensa e que a história se incumbirá de tornar  grande.

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terça-feira, 25 de abril de 2017 Críticas, Filmes | 12:59

Sensível e bem-humorado, “O Novato” aborda bullying escolar com propriedade

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Filme francês já está em cartaz nos cinemas brasileiros e acerta em cheio com sua trama sobre amizade e os dissabores do convívio escolar

A turminha de losers de O Novato: filme cativante

A turminha de losers de O Novato: filme cativante

Em meio a todo o debate sobre bullying provocado pela série “13 Reasons Why”, um belo filme francês estreia nos cinemas brasileiros e passa praticamente despercebido – embora agregue muito valor ao debate ensejado pela série da Netflix. Trata-se de “O Novato”, que foi exibido no festival Varilux de 2016 e que estreia agora em circuito comercial distribuído pela Bonfilm.

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Em cartaz em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Curitiba e Niterói, “O Novato” acompanha Benoît (Réphaël Ghrenassia), jovem recém-chegado em Paris, que se esforça para se enturmar no colégio. O longa de Rudi Rosenberg ilumina uma problemática contumaz no tecido social que é o bullying, mas não o faz de maneira protocolar. Há muita sutileza e sensibilidade na maneira com que Rosenberg aborda não só os conflitos de Benoît, mas também daqueles que gravitam seu universo.

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Ainda que apressado, o rótulo de “Glee francês” não é inacurado. O filme trabalha, e bem, o conceito de ser um loser e de se sentir um em um ambiente predominantemente hostil.

Cena de O Novato: desilusão amorosa

Cena de O Novato: desilusão amorosa

Benoît faz amizade com a sueca também recém-chegada Johanna (Johanna Lindstedt), mas logo a menina se atrai pela turma bagunceira de Charles (Eythan Chiche) e deixa o novato em segundo plano. Na intenção de ajudar o sobrinho a fazer novas amizades, o tio de Benoît tem a ideia de fazer uma festa para a classe inteira. O que o menino não esperava era que a partir daí encontraria o seu verdadeiro grupo.

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A leveza com que trata temas duros e olhar otimista e esperançoso que dispensa para uma das fases mais conturbadas da vida dá a “O Novato” não só relevância, mas eficácia dramática. Filme e personagens vão de encontro a mais hypada “13 Reasons Why” e se firmam como um valioso contraponto para um debate inesperado, mas necessário.

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