Publicidade

Arquivo do Autor

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016 Críticas, Filmes | 18:46

“Boi Neon” flagra Nordeste moderno e aborda empoderamento feminino e limites de gênero

Compartilhe: Twitter

Gabriel Mascaro é dos realizadores mais interessantes a emergir no cinema contemporâneo. Prova disso, é a aclamação que seu terceiro longa-metragem, “Boi Neon”, amealhou festivais mundo afora. Com destaque para os prêmios em Veneza, Toronto e Rio de Janeiro.

“Boi Neon” é um filme de inescapável força dramática, ainda que não se escore nos recursos mais tradicionais da dramaturgia para tanto. Mascaro problematiza o corpo e o gênero com a sutileza de um artesão.

Iremar (Juliano Cazarré) é um vaqueiro de curral que viaja pelo Nordeste junto com uma pequena trupe. Ele prepara os bois para as tradicionais vaquejadas (em que sobre cavalos, os vaqueiros precisam alinhar e conduzir os bois para os locais demarcados). Iremar, no entanto, gosta mesmo é de desenhar roupas. Ele sonha em ser estilista de moda. No Nordeste contemplado por Mascaro, Iremar pode até ser excêntrico, mas não é uma ave rara. Galega (Maeve Jinkings), que pertence à mesma trupe, é uma mulher “bronca” na definição de Iremar. Caminhoneira rude no tratamento com as pessoas, ela cede à arte do strip-tease à noite e a roupa que tira é desenhada por Iremar. Há, ainda, Júnior (Vinicius de Oliveira), um rapaz que substitui (Carlos Pessoa) no grupo. A vaidade de Júnior o coloca em frontal deslocamento com a aparência dos homens que vemos por ali.

Foto: divulgação

Foto: divulgação

Esses recortes expõe a verdade que Mascaro quer relativizar com seu filme. Os limites de gênero, impostos lá atrás, estão se dilatando não apenas nas grandes metrópoles. Mas o filme, que mostra este Nordeste redentor, de gente que aspira mais, mas está muito bem com sua rotina, tem mais a revelar com seu minimalismo narrativo e seu desprendimento visual.

O corpo é uma das matérias-primas de “Boi Neon”. Tanto os corpos humanos como os dos animais. Iremar, por exemplo, abriga uma feminilidade no gestual e na relação com Cacá (Alyne Santana), filha de Galega, que não expulsa de seu corpo a masculinidade característica de um homem com seu ofício. Essa contradição do corpo é uma das maiores belezas, na provocação perene que estabelece, de “Boi Neon”.

A imagem é soberana em “Boi Neon”, mas muito das inflexões do filme não estão nelas, mas partem do que elas propõem. Um exemplo disso é o empoderamento feminino. O sexo em “Boi Neon”, tratado com a parcimônia dos amantes experimentados, parece adornado para dimensionar como os clichês do comportamento social já soam deslocados em um Nordeste muito mais moderno do que o pregado a torto e a direito.

Há uma cena de sexo, envolvendo uma mulher grávida, em que o clamor do desejo é correspondido com ternura e delicadeza, mas também muito tesão. É uma cena de sexo quase explícita, em termos gráficos, mas extremamente reveladora de um mundo em transformação. Não à toa, é uma das cenas mais longas do filme.

“Boi Neon” é um cinema de propostas sólidas, de uma reflexão manente e de narrativa delicada. É um filme que precipita seu contexto com inventividade e inquietação. Para quem gosta de cinema, não dá para pedir mais do que isso.

Autor: Tags: , , ,

sábado, 16 de janeiro de 2016 Análises | 12:20

Escolhas de 2016 ratificam Oscar mais criterioso do que no passado

Compartilhe: Twitter

Em um primeiro momento, parece compulsório reconhecer que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood acolhe seus favoritos habituais por qualquer trabalho. Estão lá “Ponte dos Espiões”, novo Spielberg – o cineasta emplacou entre os melhores filmes com suas últimas três produções – , Jennifer Lawrence, Alejandro González Iñárritu, Mark Ruffalo, John Williams, entre outros.

Mas essa seria uma constatação apressada. Não estão lá “Labirinto de Mentiras”, filme alemão sobre os ruídos do nazismo (entre outros tempos uma aposta certeira), Aaron Sorkin, Quentin Tarantino e Meryl Streep (sim, ela esteve em dois filmes neste ano).

Western de vanguarda: Há muito mais do que alcançam os olhos em "Estrada da fúria" (Foto: divulgação)

Western de vanguarda: Há muito mais do que alcançam os olhos em “Estrada da fúria”
(Foto: divulgação)

Há, ainda, a costumeira queixa de que há pouca diversidade entre os indicados. Um parâmetro enviesado. Já que as escolhas da Academia refletem o cenário do cinema americano, em particular, e internacional, como um todo. É fato que a Academia podia reforçar sua preocupação com a abertura do cinema por meio de certas nomeações em certas categorias, mas responsabilizar a instituição por não fazê-lo é não compreender o real problema e ignorar as válvulas do funcionamento da Academia.

Há de se observar, também, que o Oscar segue um movimento de internacionalização e rejuvenescimento iniciado lá atrás. Passa por esse movimento outro muito mais importante e reverberante. O Oscar está mais ousado a cada ano. Sim, em 2016 há predominância de filmes de estúdio entre os indicados a melhor filme e é muito provável que uma produção de estúdio vença o Oscar -–algo que não ocorre desde 2013 quando “Argo” triunfou. Mas são filmes de estúdio com franca pretensão artística. “O Regresso”, líder na competição com 12 indicações, teve um orçamento de US$ 120 milhões, mas teve sucessivos atrasos e diversos problemas na execução. Iñárritu fez um filme de arte com orçamento de blockbuster. Não é todo mundo que tira esse coelho da cartola. “Mad Max: Estrada da Fúria”, com 10 nomeações, levou anos para ser realizado e a Warner praticamente escondeu o filme em seu lançamento. Não cria no apelo de uma franquia que não dava as caras desde os anos 80 com o público jovem. A bilheteria do filme foi respeitável e “Estrada da Fúria” é a Warner no Oscar. Trata-se de um filme de ação incomum, caótico e com uma mensagem feminista para lá de polivalente.

O fato da Academia reconhecer, no nível que reconhece, essas duas produções, merece aplausos. Isso, no ano seguinte à consagração de filmes como “Birdman”, “Whiplash”, O Grande Hotel Budapeste” e “Boyhood” .

É um Oscar muito mais atento ao que acontece no cinema e capaz de filtrar o que de mais qualificado surge. É um Oscar mais inclusivo e reflexivo. É, afinal, um Oscar bem melhor na assunção de sua vocação do que o que se verificava há dez anos atrás.

Autor: Tags: , ,

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016 Atores | 20:05

Alan Rickman sofisticava o simples e aferia graça ao malicioso

Compartilhe: Twitter
Foto: Getty Images

Foto: Getty Images

Morreu nesta quinta-feira (14), aos 69 anos, o ator britânico Alan Rickman. Ele cravou-se no âmago da cultura pop por dar vida a Severus Snape, icônico e primordial personagem da franquia Harry Potter. Para além da graça afetada e do ar intrigante com que revestiu Snape, um dos favoritos dos fãs, Rickman notabilizou-se por sofisticar personagens triviais e hipnotizar a audiência com o melhor dos acentos do famoso charme inglês.

Suas presenças em filmes como “Simplesmente Amor” (2003), “Razão e Sensibilidade” (1995), “Um Certo Olhar” (2006), “Michael Collins” (1996) e “Sweeney Todd – o Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet” (2007) são testemunhos dessa magia que Rickman operava em papeis pequenos ou simplórios.

O britânico agraciou o cinema com um dos maiores vilões de todos os tempos. Seu Hans Gruber de “Duro de Matar” (1988) ajudou a consolidar o filme de John McTiernan como um dos highlights da década e, ainda hoje, impressiona pela caracterização refinada e maquiavélica.

Rickman era desses que navegava com habilidade indecifrável pelos diferentes tons da interpretação. Não à toa, era requisitado por gente tão diferente como Kevin Smith, que o fez ser um anjo em “Dogma” (1999), e Lee Daniels – que o transformou em Ronald Reagan em “O Mordomo da Casa Branca” (2013).

Da comédia ao drama, passando pela aventura – foi vilão também em “Robin Hood – O Príncipe dos Ladrões” (1992) – , Rickman cativava sempre. Seu maior predicado, porém, era a capacidade de aferir graça ao malicioso. De tonar o dúbio, sedutor. Algo que já estava presente em Hans Gruber, mas que ele elevou a um nível de arte nos filmes de Harry Potter.

Autor: Tags: , ,

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016 Curiosidades | 17:47

Apostas da coluna para os indicados ao Oscar 2016 nas principais categorias

Compartilhe: Twitter

Na manhã desta quinta-feira (14), a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood divulga a lista dos indicados ao Oscar 2016. Trata-se de um dos anos com a disputa mais aberta e indefinida. Mesmo assim, há filmes e artistas que podem ser dados como certos entre os contemplados pelo Oscar. Esses e os outros estão na breve lista de apostas que o Cineclube elaborou. Será que a gente emplaca a maioria?

"Carol" deve receber indicações a melhor filme, atriz e roteiro adaptado, mas seu diretor, Todd Haynes, deve ficar de fora...

“Carol” deve receber indicações a melhor filme, atriz e roteiro adaptado, mas seu diretor, Todd Haynes, deve ficar de fora…

 

 Melhor Filme

“Mad Max: Estrada da Fúria”

“Spotlight – Segredos Revelados”

“A Grande Aposta”

“Ponte dos Espiões”

“Perdido em Marte”

“Carol”

“O Regresso”

“Divertida Mente”

“O Quarto de Jack”

“Star Wars: O Despertar da Força”

Direção

Alejandro González Iñárritu (“O Regresso”)

Tom McCarthy (“Spotlight – Segredos Revelados”)

Adam McKay (“A Grande Aposta”)

George Miller (“Mad Max: Estrada da Fúria”)

Steven Spielberg (“Ponte dos Espiões”)

Roteiro original

“Spotlight – Segredos Revelados”

“Divertida Mente”

“Ponte dos Espiões”

“Os Oito Odiados”

“Ex-Machina: Instinto Artificial”

Roteiro adaptado

“A Grande Aposta”

“Perdido em Marte”

“O Quarto de Jack”

“Carol”

“Steve Jobs”

Ator

Leonardo DiCaprio (“O Regresso”)

Bryan Cranston (“Trumbo: Lista Negra”)

Johnny Depp (“Aliança do Crime”)

Eddie Redmayne (“A Garota Dinamarquesa”)

Matt Damon (“Perdido em Marte”)

Atriz

Brie Larson (“O Quarto de Jack”)

Saoirse Ronan (“Brooklyn)

Cate Blanchett (“Carol”)

Charlotte Rampling (“45 Anos”)

Alicia Vikander (“A Garota Dinamarquesa”)

Ator coadjuvante

Mark Rylance (“Ponte dos Espiões”)

Sylvester Stallone (“Creed: Nascido para Lutar”)

Christian Bale (“A Grande Aposta”)

Mark Ruffalo (“Spotlight – Segredos Revelados”)

Michael Keaton (“Spotlight – Segredos Revelados”)

Atriz coadjuvante

Rooney Mara (“Carol”)

Kate Winslet (“Steve Jobs”)

Helen Mirren (“Trumbo: Lista Negra”)

Jennifer Jason Leigh (“Os Oito Odiados”)

Alicia Vikander (“Ex-Machina”: Instinto Artificial”)

Filme estrangeiro

“Filho de Saul” (Hungria”)

“Cinco Graças” (França”)

“O Novíssimo Testamento” (Bélgica”)

“Theeb” (Jordânia”)

“Labirinto de Mentiras” (Alemanha”)

Autor: Tags: , ,

Análises, Notícias | 14:01

Grupo chinês compra estúdio hollywoodiano e movimenta jogo dos tronos do cinema

Compartilhe: Twitter

Legendary

O Grupo chinês Wanda, controlado pelo multibilionário Wang Jianlin, prepara os últimos ajustes de um negócio que promete mudanças no médio e longo prazo no jeito de se produzir cinema em Hollywood e de se consumir Hollywood na China.

A compra do estúdio Legendary Pictures, especializado em produções de ação e atualmente com parceria celebrada com a Universal Pictures, já está acertada. Por U$ 3,5 bilhões, “a maior aquisição internacional da China no setor cultural até o momento”, como definiu Jianlin, deve movimentar as placas tectônicas do negócio chamado cinema.

Primeiro porque a Legendary, dona de um catálogo que inclui a trilogia do Batman de Christopher Nolan, “Jurassic World”, a trilogia “Se Beber não Case”, entre outros, é um estúdio que costuma produzir hits atrás de hits. Trata-se, portanto, de um senhor player para ser o cartão de visitas chinês em Hollywood. A Legendary investe em projetos estratégicos e essa característica deve ser estrategicamente mantida. É, também, uma forma da China – com uma indústria de cinema incipiente – adquirir mais know-how em soft power, e por consequência desenvolvê-lo, a partir da vivência in loco em Hollywood, grande vitrine do soft power americano.

Por outro lado, estabelece-se um canal para lá de dilatado entre Hollywood e China. Vale lembrar que no país asiático há uma cota de produções estrangeiras que podem estrear nos cinemas do país – algo em torno de 60 produções ao ano – e Hollywood, de olho no bilhão de potenciais espectadores, não poderia estar mais insatisfeito com essa condição. Todas as produções da Legendary serão creditadas como coproduções entre China e EUA, driblando, portanto, essa cota.

A discussão sobre a censura, outra particularidade deste país capitalista nas proposições econômicas, mas de regime socialista em seu escopo político, é uma discussão secundária. Pelo menos neste momento em que Hollywood vê nascer a primeira grande chance de penetrar com força no cinema chinês.

Visto à luz deste novo contexto, fica mais fácil entender porque “Jurassic World”, que há pouco perdeu seus recordes para “Star Wars: O Despertar da Força”, foi lançado simultaneamente nos EUA e na China, e o filme de J.J Abrams só pintou nas salas chinesas no 1º fim de semana de janeiro. O que indica que os chineses, assim como Hollywood, não entraram neste jogo para perder.

Autor: Tags: , , ,

terça-feira, 12 de janeiro de 2016 Análises, Filmes | 17:03

“Os Oito Odiados” é um Tarantino inconformista

Compartilhe: Twitter
Cena de "Os Oito Odiados":  um filme erguido pelo desejo de resistência

Cena de “Os Oito Odiados”: um filme erguido pelo desejo de resistência

Principal estreia deste fim de semana, “Os Oito Odiados” é, também, o oitavo filme do badalado cineasta Quentin Tarantino. Em novembro, o cineasta esteve em São Paulo para divulgar o filme e comentou sobre suas principais motivações para rodar “Os Oito Odiados”.

Vale lembrar que logo depois do vazamento do roteiro do filme, Tarantino ameaçara abandonar o projeto. Voltou atrás. “Era uma primeira versão”, disse sobre o texto vazado em uma roundtable da qual a coluna participou.

Tarantino disse, ainda, que seu desejo de contribuir para o gênero do western norteou a feitura do filme. “Dizem que com três filmes você já pode ser considerado um diretor de westerns. Me falta um”, observou o autor de “Django Livre” (2012).

“Os Oito Odiados” mostra um Tarantino mais dominante dos códigos do western, mas também um inconformista. Trata-se de um filme de resistência. Não há mocinhos em cena e o passado escravagista da América, o olho no furacão de “Django Livre”, é uma sombra poderosa na construção da mise-en-scène aqui.

“Os Oito Odiados” é, sob muitos aspectos, uma crônica pessimista sobre a humanidade – e reparem no destino do único personagem não odiável em cena. É, também, um exercício de estilo dos mais referendados do roteirista Tarantino. Pouco modesto, o próprio entende ser seu melhor roteiro. De fato, é possível identificar nas bem elaboradas cenas de ‘Os Oito Odiados” as referências aos outros filmes do cineasta. É o triunfo da palavra. Nunca se falou tanto em um filme de Tarantino e os diálogos já são tidos como a especialidade da casa.

O mais teatral dos seus filmes, talvez escancare o desejo de Tarantino de se desapegar do cinema e enveredar-se pelas outras artes, como a literatura e o teatro. “Os Oito Odiados” funciona muito bem como cinema, mas talvez seu impacto como um romance, ou como uma montagem, fosse maior; mais perene. Essa inquietação, que se transfere do autor para o público que o acompanha como um mestre em sua arte, palpita em “Os Oito Odiados” como a carta de Abraham Lincoln o faz para com os personagens do filme.

Autor: Tags: , ,

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016 Análises, Críticas | 14:20

Globo de Ouro renuncia condição de prévia do Oscar e tenta formalizar influência em 2016

Compartilhe: Twitter
Iñárritu e DiCaprio: noite de consagração inesperada de "O Regresso"

Iñárritu e DiCaprio: noite de consagração inesperada de “O Regresso”

Pode ser apenas uma impressão, mas a sensação é de que a Hollywood Foreign Press Association (HFPA), que outorga os prêmios Globo de Ouro, desencanou de vez da alcunha de ser a mais eloquente prévia do Oscar. Tudo bem que a temporada está impregnada de um bem-vindo mistério em termos de favoritos, mas as escolhas do Globo de Ouro se não são anticlimáticas, pouco contribuem para a consolidação de um ou outro frontrunner na disputa.

Dessas maquinações do destino, “O Regresso”, filme que Alejandro González Iñárritu disse que deveria ser assistido em um templo, viu sua candidatura ao Oscar ganhar um boom. O filme teve desempenho tão surpreendente no Globo de Ouro quanto no box office americano em que em seu primeiro fim de semana com circuito expandido mediu forças com “Star Wars” e faturou impressionantes U$ 38 milhões. Nada mal para um filme praticamente silencioso e um pouquinho hermético. Com três prêmios (filme em drama, ator dramático e direção), “O Regresso” será a maior prova de influência do Globo de Ouro na temporada do Oscar em anos.

Em um ano sem grandes comédias, a HFPA resolveu premiar uma ficção científica que faz bom uso do humor para incrementar sua narrativa. “A Grande Aposta” é muito mais filme, mas a escolha de “Perdido em Marte” não deixa de ser correta –  ainda que seja bem estranha sua inclusão nesta categoria.

Nas categorias de atuação, os aplausos de pé a Leonardo DiCaprio mostraram que sua jornada em busca de um Oscar angaria mais simpatizantes e, nesse sentido, a HFPA – que já lhe deu três prêmios – merece os sinceros agradecimentos de Leo. Brie Larson (“O Quarto de Jack”) é o nome que sai mais forte do Globo de Ouro porque já dividia as atenções com Saiorse Ronan (“Brooklyn”) e seu triunfo é o único que parece dizer algo na temporada.

Que Stallone estará na lista do Oscar que será divulgada na próxima quinta-feira já parece certo, sua vitória, no entanto é outra história. A categoria de ator coadjuvante é a mais embaralhada e historicamente a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood tem resistência em premiar atores sem pedigree dramático. O hype em cima de Stallone, no entanto, tende a aumentar exponencialmente.

Kate Winslet (“Steve Jobs”) deve ficar por aqui mesmo. A categoria de atriz coadjuvante, com os acréscimos de Rooney Mara (“Carol”) e Alicia Vikander (“A Garota Dinamarquesa”) deve ganhar outra forma no Oscar.

O apreço da HFPA por “seus bispos de sempre” também se manifestou nas vitórias de Aaron Sorkin em roteiro – nem remotamente próximo do nível dos textos de “Spotlight” e “A Grande Aposta” – e Jennifer Lawrence em “Joy”.

Após o Globo de Ouro 2016, a única certeza que se tem é de que a corrida pelo Oscar está mais aberta do que nunca.

Autor: Tags: , , , , ,

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016 Diretores, Filmes | 14:39

Eu queria resgatar o tempo do sexo no cinema, diz diretor do aclamado “Boi Neon”

Compartilhe: Twitter

Na próxima quinta-feira (14), estreia no Brasil o filme “Boi Neon”, o mais novo elixir oriundo do cinema pernambucano. Assinado por Gabriel Mascaro, que antes já havia causado sensação com “Doméstica” (2012) e “Ventos de Agosto” (2014), o filme mostra um Nordeste radicalmente diferente da leitura tradicional que se tem da região. Mas não é só.

“Boi Neon” é um filme que pensa o corpo como nenhum outro ousou fazer no cinema recente. Mascaro, com muita sutileza, tateia a questão de gênero, e seus limites cada vez mais dilatados, com imaginação e riqueza visual.

O cineasta pernambucano Gabriel Mascaro na pré-estreia do filme em São Paulo (Foto: divulgação/Imovision)

O cineasta pernambucano Gabriel Mascaro na pré-estreia do filme em São Paulo
(Foto: divulgação/Imovision)

Premiado em Veneza e Toronto e grande vencedor do último festival do Rio, “Boi Neon” é, sob muitos aspectos, representante de um cinema brasileiro mais oxigenado e que pode, e deve, ajudar a transformar o olhar estrangeiro sobre o nosso cinema. Não à toa, o filme fez uma longa carreira em festivais internacionais antes do lançamento comercial no País.

A coluna bateu um papo com o cineasta no dia em que ele apresentou o filme para convidados na capital paulista. Mascaro se mostrou orgulhoso do resultado.  Nada mais justo, já que o filme é maravilhoso, e entusiasmado com as possibilidades para seu rebento daqui para a frente. “Quero que o filme seja descoberto e que chegue ao interior. Quero muito ver quais serão seus efeitos por lá”.

Leia também: Longa brasileiro “Boi Neon” busca contradição do corpo e causa boa impressão em Veneza

Cineclube: Você diria que “Boi Neon” é seu filme mais ousado? Por quê?

Gabriel Mascaro: Eu não saberia dizer. Porque não faria “Boi Neon” se não tivesse feito os outros filmes. É uma experiência muito única. Essa troca com os atores, com a equipe. Certo, posso dizer, é que foi um processo muito rico.

Cineclube: Qual é a sensação de estrear um filme no Brasil depois de uma carreira tão bem sucedida em festivais mundo afora?

GM: Alegria imensa. Ter essa possibilidade de mostrar para as pessoas que o filme é reconhecido. A sensação é de ter fechado esse ciclo.

Cineclube: O corpo e a questão de gênero são muito prementes no filme. Como foi trabalhar isso visualmente e de que maneira você concebeu essa característica do filme para os propósitos narrativos?

GM: O corpo é uma coisa muito forte no filme. É sobre transformação. Ele acumula. Onde os homens estão reapropriando essa ideia do masculino. Tem uma série de novas possibilidades de vivência que estão acontecendo lá (no Nordeste) e que para mim era importante trazer para o filme. O sexo, a urina do Iremar (o filme se demora na exposição desses ritos). O cinema não tem tempo para mostrar um ato sexual do começo ao fim e eu queria resgatar isso.

Cineclube: A quebra de paradigmas parece um norte do filme. Vivemos em um mundo que a relativização é bem-vinda? Seria esse o ponto de encontro da sua filmografia? Eu estou viajando ou é por aí mesmo?

GM: Acho que você coloca uma coisa muito pertinente. Personagens diferentes. Estranhos. Que são exceções. O filme cria ambiguidade e o filme te aproxima desses personagens que a gente acha diferente e escancara a possibilidade de convergência. A ambiguidade está lá apenas para afastar a ideia de normalidade. Viajei mais do que você (risos).

A gente imagina que a cultura do Nordeste é aquele lugar que as pessoas querem ir embora pela dificuldade e tal, nesse filme ninguém quer ir embora. Querem modificar a vida, mas permanecer ali. São personagens que resistem de certa forma. Ousam sonhar sonhos diferentes.

Autor: Tags: , , ,

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015 Filmes, Listas | 16:58

Retrospectiva 2015: Os vinte melhores filmes do ano

Compartilhe: Twitter

Foi um ano intenso. Não só no cinema. Mas talvez o cinema seja o melhor fórum para uma análise dessa natureza. A pluralidade dos filmes selecionados pelo Cineclube para compor esse ranking do que de melhor surgiu no Brasil (cinema, VOD, home vídeo, etc) entre janeiro e dezembro de 2015, garante a satisfação de quem gosta de cinema em toda a sua plenitude.

Uma boa passagem de ano para todos os leitores e nos vemos em 2016!

20 – Força Maior”, de Ruben Östlund  (Suécia, 2014)

Um olhar frio, distante e irreversível sobre a dinâmica familiar burguesa contemporânea em um filme sem medo de inconveniências.

19 – “A Visita”, de M. Night Shyamalan (EUA, 2015)

Shyamalan redescobre a simplicidade narrativa em um filme que tem sustos, sim, mas tem muito mais coração

18 – “Um Amor a cada Esquina”, de Peter Bogdanovich (EUA, 2014)

O maior trunfo do cinema é a imaginação nesta comédia deliciosa que homenageia Hollywood com inteligência e delicadeza

Foxcatcher: o que não é mostrado move o poderoso filme de Bennett Miller

Foxcatcher: o que não é mostrado move o poderoso filme de Bennett Miller

17 – “A Pequena Morte”, de Josh Lawson (Austrália, 2014)

A ideia de normalidade é afastada em um filme que a partir de inusitados fetiches sexuais fala da nossa necessidade de conexão

16 – “Love 3D”, de Gaspar Noé (FRA, 2015)

A sexualização do amor, intangível como só ela, é tateada com fatalismo romântico pelo polêmico Gaspar Noé em um filme que fala à alma de um jeito muito particular

15 – “Divertida Mente”, de Pete Docter (EUA, 2015)

Você se sente exposto, representado e compreendido pelo filme que melhor combina emoção e diversão na temporada

14 – “Foxcatcher – um Crime que Chocou o Mundo”, de Bennett Miller (EUA, 2014)

O patriotismo distorcido de uma América competitiva dá o tom desse filme de muitas camadas e grandes atuações

13 – “O Jogo da Imitação”, de Morten Tyldum (EUA/INGL 2014)

O academicismo de Tyldum realça a boa história de Alan Turing, mas é Benedict Cumberbatch quem faz do filme algo a mais

12 – “À Beira-Mar”, de Angelina Jolie (EUA, 2015)

O inverno do amor é flagrado em toda a sua dor e agonia em um filme que se constrói nos detalhes de uma relação amorosa implodida

À Beira Mar: Quando o amor só exite pelo ódio, o que fazer?

À Beira Mar: Quando o amor só exite pelo ódio, o que fazer?

11 – “Que Horas ela Volta?”, de Anna Muylaert (Brasil, 2015)

Dando nome aos bois dessa coisa de ser mãe é padecer no paraíso e, no ínterim, revelando a dicotomia do Brasil de duas gerações diferentes

10 – “Ponte dos Espiões”, de Steven Spielberg (EUA, 2015)

Thriller de espionagem de alta voltagem rima com filme edificante? Spielberg faz crer que sim

9 – “Mapa para as Estrelas”, de David Cronenberg (EUA/FRA,2014)

Hollywood, esse lugar de gente doida, esquisita e esculhambada por David Cronenberg

8 – “Casa Grande”, de Fellipe Barbosa (Brasil, 2015)

O derretimento da classe média no pós-Lula ganha o cinema com um filme articulado, reflexivo e com muito a dizer

7 – “A Gangue”, de Miroslav Slaboshpitsky (UCR, 2014)

Nosso fôlego se esvai com um dos filmes mais duros e violentos dos últimos anos. O fato de não haver som e todos os diálogos serem na linguagem de sinais torna tudo mais impactante

6 – “Kingsman: Serviço Secreto”, de Matthew Vaughn (EUA 2015)

Nenhum filme foi tão eficiente em simplesmente entreter como este aqui. De quebra, cinismo em alta, cenas de ação estilosas e o melhor vilão do ano

Kingsman: Porque o cinema também é diversão pura e simples

Kingsman: Porque o cinema também é diversão pura e simples

5 – “Corrente do Mal”, de David Robert Mitchell (EUA, 2015)

O terror mais original em anos no cinema conta uma história de amor que vai ganhando gravidade e sentido e torna a resolução ainda mais assustadora

4 – “Beasts of No Nation”, de Cary Fukunaga (EUA, 2015)

O horror irrefreável de uma África esquecida que força suas crianças a se demonizarem para subsistir é um dos filmes paradoxalmente mais lindos do ano. E mais cruéis também!

3- “Whiplash – Em Busca da Perfeição”, de Demien Chazelle (EUA, 2014)

A música e a obsessão compõem um soneto perfeito neste filme pulsante, cheio de energia e que se recusa a deixar o espectador a sós com seus pensamentos

2- “Mad Max: Estrada da Fúria”, de George Miller (EUA, 2015)

A ópera do caos em toda a sua fúria, cor e excelência. Nenhum outro filme cravou-se no imaginário popular quanto esse petardo de estilo de Miller. O cinema de ação se despede outro de 2015

1 – “Birdman – ou a Inesperada Virtude da Ignorância”, de Alejandro González Iñárritu (EUA 2014)

Um pequeno conto sobre vaidade, insegurança e outras coisitas mais com Hollywood como pano de fundo. Imperdível.

Birdman: Porque a eletricidade do registro faz a inteligência da história crescer de tamanho

Birdman: Porque a eletricidade do registro faz a inteligência da história crescer de tamanho

Autor: Tags: , , , , ,

Críticas, Filmes | 14:38

“O Despertar da Força” incorpora padrão Disney a “Star Wars”

Compartilhe: Twitter
Foto: divulgação

Foto: divulgação

Sob muitos aspectos “Star Wars: O Despertar da Força” (EUA 2015) é o filme que os fãs da saga criada por George Lucas merecem. É um entretenimento vistoso em sua capacidade de abraçar a nostalgia com beats de outros filmes da série, em especial de “Star Wars: Uma Nova Esperança” (1977), e de reorganizar os arranjos para a expansão da franquia, agora sob o jugo da Disney.

J.J Abrams é um diretor hábil em repaginar sucessos. Não à toa, revitalizou outra franquia sci-fi (“Star Trek”) e era bastante óbvio para quem quer que acompanhe sua carreira que seria exitoso em sua incursão pelo universo de “Star Wars”.

O grande mérito de “O Despertar da Força”, no entanto, está nos novos personagens. Tudo bem que Rey (Daisy Ridley) nada mais é do que a reengenharia de Luke Skywalker (Mark Hamill), mas a personagem tem fôlego e o fato de uma mulher ser a protagonista da nova trilogia estabelece um novo e bem-vindo paradigma para a série e para a ficção científica como um todo.  Passa por aí, também, as figuras de Finn (John Boyega) e Poe Dameron (Oscar Isaac), este último uma reimaginação de Han Solo (Harrison Ford), personagem da trilogia original com mais espaço no novo filme.

Finn é o mais oxigenado dos novos personagens, ainda que seja o vilão Kylo Ren – defendido com a habitual competência por Adam Driver – o mais cativante. O conflito do personagem entre a luz e a escuridão e seu confesso desejo pelo segundo invertem a expectativa natural em relação ao tema. Além do mais, ele precisa lidar com a sombra de Darth  Vader. Intra e extra-diegeticamente.

As relações entre os personagens obedecem toda a estruturação clássica da série, algo que pode ser creditado ao fato de Lawrence Kasdan, que assinou “O Império Contra-ataca” (1980) e “O Retorno de Jedi” (1983), ser o responsável pelo roteiro. Todo o DNA de “Star Wars” está lá. O filme funciona muitíssimo bem para quem é fã e funciona ainda melhor para quem toma contato com este universo pela primeira vez.

Neste primeiro momento, é factível dizer que “Star Wars” se beneficia desse padrão Disney, mas essa leitura tende a se diversificar com a chegada dos novos filmes e, também, com o olhar histórico sobre este filme.

O hype é imenso e com um bom filme nos cinemas é difícil opor-se de alguma forma a “O Despertar da Força”. Mas não estamos diante de um grande filme. Para além da boa vontade generalizada, há escolhas discutíveis – nas frentes narrativa e estética – e pequenas falhas concentradas no roteiro principalmente que não escapam a olhos mais atentos.

De qualquer forma, é um recomeço e tanto para uma franquia que ajudou a definir o conceito de cinema enquanto indústria. Em pleno vapor, a reengenharia de “Star Wars” foca no seguro e mesmo aquelas que parecem escolhas ousadas – e o filme tem sua porção delas – são movimentos bem calculados em uma margem para lá de segura. A Disney sabe o que está fazendo. Antes de ser um filme, “O Despertar da Força” é um grande produto.

Autor: Tags: , , ,

  1. Primeira
  2. 10
  3. 20
  4. 28
  5. 29
  6. 30
  7. 31
  8. 32
  9. 40
  10. 50
  11. 60
  12. Última