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domingo, 25 de outubro de 2015 Críticas, Filmes | 14:52

Guerra fria em “Ponte dos Espiões” dá a Spielberg seu melhor filme em anos

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Foto: divulgação

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Sob muitos aspectos, “Ponte dos Espiões” (2015) é um filme tão único quanto especial na carreira de Steven Spielberg. O filme, que consagra a quarta colaboração de cineasta com o ator Tom Hanks (as outras foram “O Terminal”, “Prenda-me se For Capaz” e “O Resgate do Soldado Ryan”) e é o terceiro “sério” de Spielberg na sequência (“Cavalo de Guerra” em 2011 e “Lincoln” em 2012) – um fato raro em uma carreira que alterna produções de prestígio com blockbusters – , agrega o DNA do Spielberg dos blockbusters à solenidade do Spielberg das produções adultas.

Ambientado na guerra fria, o drama visivelmente influenciado por uma atmosfera de Frank Capra – responsável por filmes clássicos como “A mulher faz o homem”, “A felicidade não se compra” e “Aconteceu naquela noite” -, mostra um advogado do setor de seguros que se vê impelido a defender um homem acusado de ser espião da União Soviética. James Donovan sabe que por melhor que faça seu trabalho, o destino de Rudolph Abel (Mark Rylance) está traçado e que suas chances de obter um julgamento justo são para lá de remotas.

O primeiro ato de “Ponte dos Espiões”, portanto, se assevera como um elogio do direito como raramente se viu no cinema recente. Flertando novamente com outro tempo do cinema americano, Spielberg ensaia o seu “O Sol é para Todos”, mesmo sem adentrar o ritmo de drama de tribunal.

Mais adiante, e convém lembrar que o roteiro assinado pelos irmãos Coen e Matt Charman é inspirado em fatos reais, o drama se transforma completamente. A espionagem, que era uma sombra vultosa, mas uma sombra, passa a dominar a ação e “Ponte dos Espiões” assume sua vocação de drama político com a mesma inteligência até então apresentada, mas com muito mais sagacidade. É quando o texto dos Coen se permite ser mais complexo e bem-humorado. Um humor típico dos Coen que Tom Hanks, com timing perfeito, incorpora em meio ao clima de crescente tensão.

Depois que um piloto americano é capturado pelos soviéticos, a CIA escala Donovan para negociar uma troca pelo agora condenado espião soviético. Conforme a ação se transporta para a Berlim oriental, “Ponte dos Espiões” se transforma novamente e assume o ritmo de um thriller enervante, sem que haja qualquer cena de ação e sem deixar que as costuras políticas – a reboque da oratória afiada de Donovan – percam o protagonismo.

Spielberg enquadra Hanks: "Ponte dos Espiões" é o melhor fruto da parceria (Foto: divulgação)

Spielberg enquadra Hanks: “Ponte dos Espiões” é o melhor fruto da parceria
(Foto: divulgação)

Na verdade, “Lincoln” já era um filme em que Spielberg colocava a fala, e a política por trás dela, no centro da ação.  Só que “Ponte dos Espiões” é muito mais ambicioso no que apenas sugere em decorrência do que é mostrado.

Hanks, como o herói inquestionável e muito bem iluminado pela fotografia de Janusz Kaminski, personifica o James Stewart de Frank Capra, em outro paralelo eloquente alinhado por Spielberg. A do homem comum que ao recusar a rendição faz a diferença.

Sutil nas elucubrações e econômico na narrativa, Spielberg realiza um filme potente nas minúcias e atraente na temática. Se usa o passado para falar do presente, em que direitos individuais e constitucionais são descartados sem cerimônias pelo Estado, ele o faz com otimismo indisfarçável. Se atenta para o absurdo das guerras travadas nas sombras, e elas são em maior número hoje do que foram no momento em que o filme se passa, o faz com a inteligência de quem sabe que a menor das vitórias ainda é uma grande e dolorosa derrota para muitos.

É um equilíbrio raro na filmografia do cineasta e um Spielberg contingenciado como não se via desde “Minority Report – a nova lei” (2002) e “Munique” (2005). Mas sem deixar de ser Spielberg. Ao buscar abrigo em Capra e reverenciar um cinema americano menos cínico, sem fechar os olhos para o cinismo do mundo, Spielberg entrega o seu melhor filme em muito tempo.

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quinta-feira, 22 de outubro de 2015 Críticas, Filmes | 14:13

“Um amor a cada esquina” é comédia sofisticada e homenagem afetuosa ao cinema

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Peter Bogdanovich antes de ser um cineasta é um cinéfilo. “Um amor a cada esquina” (EUA 2014), que marca seu retorno à direção de uma ficção para cinema após 14 anos – seu último filme foi “O miado do gato” – é uma carta de amor ao cinema cheia de afeto.

Billy Wilder, Howard Hawks e Woody Allen são referências explícitas na trama e na construção dos diálogos desta que é uma comédia tão sofisticada quanto inteligente.

Owen Wilson vive Arnold Albertson, um diretor de teatro que chega a Nova York para sua nova peça. Ele decide passar uma noite com uma garota de programa que sonha em ser atriz. Izzy (Imogen Poots) o fascina e ele lhe propõe dar U$$ 30 mil para ela largar a vida de prostituta e perseguir seu sonho. Artimanha do destino, ou a manifestação do mero acaso, faz com que que Izzy seja escalada para a peça que Arnold vai dirigir e que será estrelada pela sua mulher (Kathryn Hahn).

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A confusão, que já parece suficientemente grande, torna-se ainda maior com os outros cativantes personagens da trama. Rhys Ifans faz um galã inglês apaixonado pela mulher de Arnold; Will Forte é o produtor e autor da peça que se apaixona instantaneamente por Izzy. Jennifer Aniston faz a carente e amalucada terapeuta de Izzy que é namorada do personagem de Forte. Há, ainda, Austin Pendleton como um juiz obcecado por Izzy.

O fascínio que a personagem parece exercer sobre os homens da trama, no entanto, é um macguffin, podemos dizer. Já que é a jornada de Izzy de prostituta a atriz de sucesso que interessa à realização. Mas interessa apenas por meio da memória afetuosa que Izzy revela.

O maior trunfo do filme de Bogdanovich, porém, são os diálogos caprichados que esculpem uma trama inventiva e cativante. “Um amor a cada esquina” não é um filme para a eternidade, mas é daqueles que se infiltra na sua memória com docilidade. Atenção para a participação especial de Quentin Tarantino que ajuda a elevar o filme de patamar e cristaliza a homenagem poderosa que Bogdanovich presta ao cinema.

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terça-feira, 20 de outubro de 2015 Críticas, Filmes | 19:35

O amor dá vida ao horror em “A Colina Escarlate”

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Guillermo Del Toro tem uma visão muito particular do gênero terror. Filmes como “A espinha do Diabo” (2001) e “O labirinto do fauno” (2006) já ensejavam esse fato. “A Colina Escarlate” (2015), no entanto, sob muitos aspectos o primeiro filme genuinamente inserido no gênero assinado pelo cineasta mexicano, leva essa percepção a outro nível.

Alimentando-se da premissa de uma casa mal-assombrada, Del Toro vai afastando-se comedidamente das elaborações deste subgênero para ofertar um conto diabolicamente triste sobre “um amor monstruoso” como um personagem tão brilhantemente coloca em uma das mais memoráveis cenas de um filme que se serve do clima de suspense e horror para abastecer a história que quer contar e não o contrário.

Edith Cushing (Mia Wasikowska) é uma jovem aspirante a escritora da Nova York da virada do século XIX que se ressente da ostentação dos aristocratas. Sob muitos aspectos, ela e seu pai – um construtor – são personificações do futuro à espreita. Quando um baronete da Inglaterra vem a negócios a Nova York, Edith se flagra atraída por ele. Thomas Sharpe (Tom Hiddleston) a cativa para além da corte habitual, atentando para sua expertise como escritora e seu gosto por fantasmas.

Uma combinação desestabilizadora de circunstâncias une Thomas e Edith que parte para a Inglaterra para viver com ele na mansão em ruínas que divide com sua irmã Lucille (Jessica Chastain). Os Sharp, logo percebemos, guardam terríveis segredos e a mansão que faz brotar vermelho na neve – não tão carinhosamente apelidada pelos locais de Colina escarlate – parece ser um organismo vivo a repelir esses segredos.

Del Toro habilmente estabelece todo um clima sobrenatural para adornar uma história terrivelmente humana. O amor, um sentimento tão complexo quanto incandescente, tanto move como paralisa todos os personagens do longa. O verdadeiro terror está aí. Nas possibilidades, nem sempre belas ou referendáveis, do mais nobre dos sentimentos.

Del Toro é feliz em dimensionar os conflitos à medida que eles vão sendo descortinados. Os fantasmas de “A Colina Escarlate” são metáforas de um passado que não se pode escapar.  Essa constatação, tão dolorosamente poética, é a maior das belezas de um filme visualmente soberbo e textualmente imaginativo.

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segunda-feira, 19 de outubro de 2015 Críticas, Filmes | 14:48

Zemeckis faz homenagem às torres gêmeas com “A Travessia”

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Robert Zemeckis é um cineasta que gosta de brincar com a percepção de que o cinema é um lugar de magia e “A Travessia” (EUA 2015), filme que recria a trajetória do equilibrista francês Phillippe Petit (Joseph Gordon-Levitt), famoso por atravessar as torres gêmeas usando apenas um cabo, é uma experiência cinematográfica que agrega a essa mística inerente à filmografia do cineasta.

“A Travessia” não é um grande filme. O primeiro ato é enfadonho e cheio de efeitos especiais óbvios que afastam o sentimentalismo que a narrativa projeta. A caracterização de Levitt também é problemática. A franjinha esnobe, os olhos azuis dolorosamente falsos e o sotaque francês de araque incomodam e deixam sua interpretação ruidosamente artificial. Conforme o filme avança, e Petit pelo olhar afetuoso de Zemeckis vai ganhando pujança, esses problemas deixam de ser centrais.

O diretor arquiteta seu filme muito bem. A quebra da quarta parede (quando o personagem dialoga com a audiência) faz sentido para contar a proeza impossível de Petit, um homem que via em seu ofício uma expressão artística incompreendida. A ideia de articular toda a preparação para a travessia ilegal no World Trade Center como um golpe é outro acerto da realização. O filme ganha em charme e humor e a o sonho impalpável de Petit é mais bem dimensionado dramaticamente.

Tudo isso para alimentar a ansiedade pelo grande momento do filme, quando Petit finalmente cruza as torres em um cabo de metal. A cena é de uma beleza extrema e Zemeckis leva a sério a ideia de colocar o espectador junto no cabo com Petit. Nada que provoque vertigem, como esteve sendo noticiado aqui e acolá, mas a cena se alonga mais do que o necessário.

Em última análise, com seus defeitos e virtudes, e trata-se de um filme rachado por eles, “A Travessia” deve ser visto como uma homenagem carinhosa às torres gêmeas e a memória de uma cidade mais inocente do que é a Nova York de hoje.  Um préstimo que só o cinema parece capaz de oferecer por meio de uma magia envolvente que tem no cinema de Zemeckis seu principal fiador.

 

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quinta-feira, 15 de outubro de 2015 Críticas, Filmes | 19:51

“Bata antes de entrar” transforma sonho masculino em pesadelo

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Demonstrando notável evolução como cineasta, Eli Roth entrega com “Bata antes de entrar” (2015), um thriller divertido sobre infidelidade conjugal. Com ecos de “Atração Fatal”, Roth coloca Keanu Reeves como Evan, um ex-DJ e agora arquiteto casado com uma artista plástica que é o retrato do homem bom. Dócil e atencioso com os filhos e todo amoroso e compreensível com a esposa.

Por trabalho, ele fica em casa em um fim de semana que a mulher e os filhos partem para a praia. Logo na primeira noite, terrivelmente chuvosa, duas jovens encharcadas batem a porta de Evan. Elas se perderam e com um celular molhado, estão incomunicáveis. Evan, para lá de bem intencionado, as acolhe, oferece chá e pelo Uber chama um carro para levá-las a seu destino. Mas as moças, genialmente interpretadas por Lorenza Izzo e Ana de Armas parecem pouco dispostas a partir. Elas se põem a conversar sobre preferências sexuais e avançam sobre Evan como predadoras na noite.

O desconforto do homem casado, no entanto, não é maior do que sua excitação com a situação toda e toda a cena, pacientemente construída por Roth, é muito feliz em expor esse complexo dilema do macho e problematiza o machismo com muito sadismo.

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Como o trailer antecipa, Evan não resiste à promessa de “pizza grátis”, como ele próprio metaforiza mais adiante. Só que as duas moças decidem fazer da vida do infiel Evan, um inferno.

Elas parecem loucas, mas a audiência pode intuir que tudo faz parte de um teatro  sádico e Roth deixa a ópera fluir. Há encenação de incesto, pedofilia e toda sorte de depravação. Afinal de contas, um homem que trai aqueles que ama é um homem capaz de qualquer coisa do gênero, não é? A piração das moças é um deleite para Roth que não deixa pedra sobre pedra filmando praticamente em um só cenário, o interior da casa de Evan, e expondo visualmente a fissura que uma traição provoca no traído.

O moralismo da fita não é de verdade. É ele, também, uma grande ridicularização dos costumes, como atesta a genial cena final.  Nesse conto macabro de Eli Roth sobre infidelidade, o melhor dos sonhos masculinos é um pesadelo.

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quarta-feira, 14 de outubro de 2015 Críticas, Filmes | 14:43

“Um Senhor Estagiário” tem discurso feminista forte embutido em comédia sofisticada e sensível

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Nancy Meyers faz falta ao cinema. Muito já se falou de como o cinema mainstream negligencia um público mais maduro e mais recentemente muito tem se falado sobre como o público feminino é deixado de lado pelos grandes estúdios. Desde que se firmou como diretora, sua segunda incursão na direção com “Do que as mulheres gostam” em 2000 pode ser o marco zero, Nancy Meyers voltou-se para um público mais maduro dando preferência às mulheres.

Com “Um senhor estagiário” (2015), seu primeiro filme desde o bem sucedido “Simplesmente complicado” (2009), a cineasta continuar a contemplar esses desprestigiados nichos, mas o faz com mais assertividade e uma retórica incomum em seu cinema.

Aqui ela adota com mais clareza um discurso feminista e também advoga em favor da ideia de que idosos, se assim desejarem, devem sim ter espaço no mercado de trabalho. No filme, Robert De Niro é Ben, um septuagenário que após a morte da esposa decide voltar a trabalhar. Ele se inscreve no programa de estágio sênior da companhia fundada por Jules Ostin (Anne Hathaway), que viu seu blog de moda crescer exponencialmente para uma empresa de e-commerce e agora, além de lidar com todas as pressões inerentes ao negócio, precisa resistir ao assédio dos investidores para contratar um CEO. “Mark Zuckerberg pôde controlar sua própria empresa mesmo sendo um adolescente e nunca tendo trabalhado antes”, observa Jules em um dado momento do filme.

Tiradas como essa, sempre certeiras e impactantes, pontuam o filme que devolve Meyers ao campo das comédias sofisticadas. Apesar de sua agenda, “Um senhor estagiário” nunca emoldura um discurso aborrecido e sempre encanta pela leveza e emoção.

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Jules e Ben são dois personagens cativantes e muito bem adensados pelas interpretações de De Niro e Hathaway.

A jornada de Jules para se estabelecer em um mundo ainda dominado por homens e que mostra sinais de resistência a ascendência feminina mesmo em donas de casa, como Meyers tão brilhantemente sublinha em um dos núcleos do filme, é o principal fio condutor de “Um senhor estagiário”, mas Meyers tem o mérito de observar essa jornada a partir da relação improvável entre Jules e seu, a princípio renegado, estagiário. É uma solução criativa colocar em um cavalheiro que sempre tem um lenço a mão para ofertar a uma donzela em lágrimas a maior convicção feminista do filme. O feminismo, no escopo de “Um senhor estagiário”, aliás, tem tudo a ver com a recolocação de Ben no mercado. Meyers não equipara uma coisa com a outra, mas sabiamente filtra os pontos em comum e eles são muitos.

Conceber personagens femininas fortes é outro mérito de Meyers replicado aqui. A Jules defendida tão lindamente por Hathaway é uma mulher que já contabiliza algumas feridas por nadar contra a maré e vamos descobrindo isso junto com Ben. Meyers não poupa sua personagem dos clichês que vitimam a mulher moderna e opta não por desfechos hollywoodianos, mas por um viés otimista na resolução dos conflitos propostos. Tudo a ver com um septuagenário praticante de ioga. Eles não são muitos, mas são cada vez mais numerosos. Assim como as Jules deste mundo.

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segunda-feira, 12 de outubro de 2015 Críticas, Filmes | 10:55

Com humor, “Perdido em Marte” propõe uma ficção científica menos solene

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Ridley Scott, um dos principais semeadores da boa ficção científica no cinema, volta ao gênero depois da controversa incursão com “Prometheus” (2012) com o elogiado “Perdido em Marte” (EUA 2015). Estrelado por Matt Damon e com um roteiro esperto de Drew Goddard, do ótimo “Guerra Mundial Z” e da série “Demolidor” da Netflix, o filme tem o mérito de devolver o humor à ficção científica. Pode parecer pouca coisa, mas não é.

O gênero andava muito sisudo e o próprio Scott tinha alguma coisa a ver com isso. Em “Perdido em Marte” ele coloca Matt Damon como um astronauta que é dado como morto por sua equipe durante uma forte tempestade em Marte e que precisa se virar para sobreviver em um planeta de recursos escassos até que a Nasa envie outra missão para lá.

“Perdido em Marte” parte de um futuro em que as expedições ao planeta vermelho já são uma realidade bem estabelecida e parte de seu fascínio reside justamente em ir descobrindo a maneira “realista” com que a Terra avança sobre Marte.

Outro acerto do filme é confiar a Matt Damon, um ator que quando navegou pela comédia (“O desinformante” e “Ligado em você”) o fez maravilhosamente bem, o ritmo do filme. É ele com seu Mark Watney carismático e otimista quem faz a banda de “Perdido em Marte” tocar.

Apesar do ótimo elenco de apoio, com nomes como Kate Mara, Jessica Chastain, Sean Bean, Jeff Daniels, Kristen Wiig e Michael Peña, é mesmo Damon quem norteia o filme.

A bem da verdade, o grande mérito de Scott na direção foi perceber que o show era do ator e que o humor tão presente no texto de Goddard deveria ser valorizado. Não à toa, alguns dos melhores momentos de “Perdido em Marte” vêm de monólogos de Watney.

No mais, “Perdido em Marte” cumpre aquilo se predispõe fazer: remover a solenidade exacerbada da ficção científica. Em tempos de “Interestelar” – que ironicamente conta com Damon e Chastain no elenco -, o novo filme de Scott é um sopro de humildade a um extrato do gênero (o sci-fi com mote espacial) que andava mesmo precisando se redescobrir.

Como diz em bom inglês o personagem de Damon em um dado momento de sua solidão forçada em Marte: “I´m gonna have to Science the shit out of this”. Com um pouco de humor, dá para dispensar a tradução.

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quinta-feira, 8 de outubro de 2015 Críticas, Filmes | 20:53

“Evereste” é experiência visual poderosa, mas apresenta narrativa frouxa

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Mais do que uma receita, o cinema-catástrofe tem uma meta. Expor o ser humano ao seu limite, de preferência com o acinte do que há de melhor em matéria de efeitos especiais no cinema da época. “Evereste”, incursão do islandês Baltasar Kormákur dos divertidos “Dose dupla” (2013) e “Contrabando” (2012) no filão, é um preenchimento pouco inspirado narrativamente, mas soberbo visualmente dessa meta.

A grande protagonista da fita é a montanha que representa o desafio para os alpinistas. Até aí, nenhum problema. Mas Kormákur nega qualquer tipo de redenção a seus personagens. Não pelo fato do filme ser inspirado em uma tragédia real ocorrida em 1996 e contada nos livros “Deixado para morrer”, de Beck Weathers (vivido no filme pelo ator Josh Brolin) e “No ar rarefeito”, de Jon Krakauer (no filme, vivido por Michael Kelly), mas por tratar seus personagens como meros fantoches.

Cena do filme "Evereste" (Foto: divulgação)

Cena do filme “Evereste”
(Foto: divulgação)

A ideia de adaptar não um, mas dois livros que detalham a tragédia deveria enriquecer “Evereste”, mas Kormákur tem como meta particular fazer um filme que seja antes de ser um drama fidedigno e envolvente sobre aquela tragédia específica, algo a ser experimentado em uma sala IMAX.

Ao subaproveitar algumas das ideias ofertadas pelo roteiro de William Nicholson e Simon Beaufoy, o islandês se contenta em estabelecer um jogo com sua audiência para ver quais astros de seu elenco sobrevivem ao devastador desfecho.  E eles são muitos. Jason Clarke, Jake Gyllenhaal, Sam Worthington, Martin Henderson e John Hawkes para citar alguns deles.

No frigir dos ovos, “Evereste” não chega a ser exatamente um filme-catástrofe. Em parte por ostentar apenas uma (ainda que longa) cena de destruição, mas fundamentalmente porque falha em levar o ser humano ao seu limite. Apesar de apresentar personagens ansiosos por aventuras radicais e, em última análise, em circunstâncias desesperadoras, “Evereste” não dimensiona seus personagens e, apesar do pedigree, sucumbe à nevasca da mediocridade.

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terça-feira, 6 de outubro de 2015 Notícias | 17:56

Amor flagelado pelas ruas de Nova York cativa no delicado 1º trailer de “Shelter”

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Foi liberado o primeiro trailer de “Shelter” (Abrigo em português), filme que marca a estreia do ator Paul Bettany (“Uma mente brilhante” e “Wimbledon – o jogo do amor”) na direção.

O filme é protagonizado pela esposa do ator na vida real, a oscarizada Jennifer Connelly. Na trama, ela é Hannah, uma mulher que passa a morar na rua e acaba se envolvendo com Tahir (Anthony Mackie de “Guerra ao Terror”), outro morador de rua que vem de um mundo completamente diferente do dela. Na medida em que a história apresenta o passado de ambos, é possível entender por que eles precisam um do outro para construir um futuro. Trata-se de uma incomum história de amor ambientada em Nova York, principal palco dos romances que ganham o cinema.

O roteiro de “Shelter” também é assinado por Bettany. O filme, rodado de maneira independente, ainda não tem previsão de estreia no Brasil.

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sexta-feira, 2 de outubro de 2015 Críticas, Filmes | 20:57

“Mate-me por favor” aborda repressão sexual a partir do contato com a morte

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Cena do filme "Mate-me por favor"

Cena do filme “Mate-me por favor”

Um close demorado na face de uma mulher. Corta. Ela corre desesperada de alguém, tropeça e grita. Esse prelúdio, filmado com incomum estilização no cinema brasileiro recente anuncia um filme que evita as soluções fáceis. “Mate-me por favor”, estreia na direção de longas-metragens da carioca Anita Rocha da Silveira, é um poderoso comentário acerca das circunstâncias do desejo e de sua repressão. O filme tem como pano de fundo um caso de serial killer a desovar corpos de jovens bonitas em terrenos baldios da Barra da Tijuca, bairro nobre da Zona Oeste do Rio de Janeiro. O interesse da cineasta, no entanto, reside na maneira como o caso afeta Bia (Valentina Herszage) e suas amigas que travam aquele tipo de amizade inseparável tão comum à adolescência.

Bia se vê infligida por uma súbita curiosidade de experimentar com o seu corpo. Esse desejo encontra uma barreira no namoradinho que parece mais suscetível às influências religiosas do que Bia. Mesmo assim, ele cede a algumas das investidas de Bia (em um dos muitos recortes sobre o verniz hipócrita de nossa sociedade ofertados por Anita), que logo parte para experimentações mais extremas.

“Mate-me por favor” valoriza os contrapontos e, nesse sentido, a relação da jovem com suas amigas – todas pinceladas com propriedade pelo roteiro de Anita, ganha relevo para além dos dramas individuais. O irmão de Bia, João (Bernardo Marinho), imerso em uma relação que jamais excede o campo virtual, é outra sutileza da cineasta que propõe um olhar revisionista ao Rio de Janeiro.  Da Barra da Tijuca filmada de maneira quase abstrata ao uso contumaz do funk, como alegoria, mas também como expressão da cultura local, a cidade é um personagem tão ou mais hermético do que Bia em sua recém-implementada divagação existencial.

Sem obedecer à lógica de um só gênero, a cineasta se permitir flertar com a sátira aqui e ali, mas adorna seu filme de uma atmosfera de terror filtrada de clássicos de David Lynch como “Veludo azul” e “Twin peaks”.  Apesar da temática, “Mate-me por favor” não é um filme fatalista. A morte jamais surge como um desejo absoluto, mas como um traço de um desejo muito mais complexo, incandescente e ruidoso.

A cena final, daquelas de tirar o fôlego da plateia e ampliar o significado de todo um filme, é das coisas mais impactantes produzidas no cinema recente. Anita Rocha da Silveira é, indubitavelmente, um nome do cinema nacional para se acompanhar de muito perto.

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