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quinta-feira, 9 de agosto de 2018 Análises, Bastidores | 11:33

Rejeitadas, mudanças no Oscar podem ser muito boas para o cinema e para o prêmio

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Oscar

Mudanças no Oscar geralmente não são celebradas por cinéfilos e pela mídia especializada, que costumam ser tão tradicionalistas quanto a premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, mas raramente despertam reação negativa tão virulenta quanto a verificada nesta quarta-feira (8) na esteira do anúncio de “boas novas” da Academia.

A mais rejeitada mudança foi a de que a partir da 91ª edição do Oscar, em 2019, a premiação terá a categoria de melhor filme popular (Achievement in Popular Film, no original). A Academia ainda não divulgou os critérios e parâmetros de elegibilidade para esta nova categoria, por certo por não tê-los amadurecidos.

As medidas, especialmente esta, atendem a alarmante necessidade de conter a queda agressiva de audiência. Em 2018, nos EUA, o Oscar registrou queda de 17% em relação a 2017 e estabeleceu um recorde negativo histórico. A queda foi de 39% em relação ao de 2014, quando a cerimônia registrou seu recorde positivo na década.

OscarEstá comprovado estatisticamente que as edições de maior audiência da premiação são aquelas com filmes mais populares. As edições mais vistas nos últimos 20 anos são 1998, ano de “Titanic”, 2004, ano de “O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei”, 2010, ano de “Avatar”, e 2014, ano de “Gravidade” e “O Lobo de Wall Street”.

A criação de uma categoria de “melhor blockbuster” ou “melhor filme pop” atende essa demanda de ter filmes de elevado apreço popular na disputa por um Oscar que não é técnico. Não é a primeira medida da Academia nesse sentido. Em 2010, a organização ampliou para dez os indicados na categoria de melhor filme na expectativa de que produções de maior apelo comercial figurassem entre os indicados. Isso aconteceu. Filmes como “Mad Max: Estrada da Fúria” (2015), “A Origem” (2010), “Dunkirk” (2017), “Perdido em Marte” (2015), entre outros figuraram entre os melhores do ano.

Em 2012, a Academia ajustou a regra e a categoria de melhor filme passou a contar com a possibilidade ter entre cinco e dez indicados.

De olho nas mudanças

O ritmo e o fluxo de blockbusters entre os melhores filmes, no entanto, são inferiores à necessidade do Oscar enquanto programa de TV. Nesse sentido, as três mudanças anunciadas são contumazes e um avanço importante para o estancamento dessa sangria. As outras medidas foram o encurtamento da cerimônia para três horas – em 2018 foram 3h58min de cerimônia – com a entrega de alguns prêmios menos badalados durante os intervalos da cerimônia com a mera exibição de flashes ao longo da transmissão televisiva e a antecipação da cerimônia em 2020 para 9 de fevereiro.

Esta última mudança é providencial e provocará um efeito cascata em toda a indústria. O primeiro efeito imediato será o recuo de todo o calendário de premiações. Porta-vozes do Bafta, premiação britânica, já se manifestaram no sentido de antecipar a premiação para antes da entrega do Oscar, como estabelecido pela academia britânica de

Foto: montagem/reprodução

Foto: montagem/reprodução

cinema desde 2001.

O encurtamento da temporada de premiações é bem-vindo. Quando o Oscar vai ao ar, o público já está cansado de premiações e a grande maioria dos vencedores já pode ser intuído pelos resultados das premiações prévias. É inegável que isso reflete na audiência da cerimônia. A antecipação do Oscar vai impactar, também, na distribuição dos longas-metragens especialmente no mercado internacional. A tendência é um congestionamento ainda mais descontrolado de filmes de Oscar em janeiro e fevereiro no Brasil.

Melhor filme popular?

É possível que a nova categoria fragilize a categoria principal? Sim. É provável? Nem tanto. Filmes como “Um Sonho Possível” (2009), “Um Homem Sério” (2009), “Cavalo de Guerra” (2011), “Tão Forte e Tão Perto” (2011) são alguns exemplos de produções que não merecem a alcunha de melhor filme e chegaram lá por conta da flexibilização na categoria principal. As vezes com apenas duas indicações, caso de produções como “Selma” (2014) e “The Post” (2017).

Essa deformidade depõe mais contra o prestígio da categoria principal no Oscar do que a existência de uma categoria de melhor filme popular. Há, ainda, outra maneira de olhar para essa novidade. O cinemão faz muitos filmes bons que acabam esbarrando no preconceito de uma ala (cada vez menor) da Academia. Ao inserir produções de maior apelo popular e fazer com que o acadêmico olhe efetivamente para esses filmes, o Oscar age pedagogicamente. Com o tempo, a tendência é de que mais filmes populares alcancem a categoria principal.

No Oscar 2019 temos dois filmes que, mesmo antes de definidos os critérios pela academia – e esses critérios devem ser regidos por arrecadação nas bilheterias- , se situam como fortes candidatos nas duas categorias. São eles “Pantera Negra” e “Um Lugar Silencioso”.

Cena de "Um Lugar Silencioso"

Cena de “Um Lugar Silencioso”

Cinéfilos e críticos precisam ter em mente que o Oscar também é um programa de televisão e, como tal, deve procurar soluções para se manter relevante e competitivo. A pressão da ABC é justificada. O Oscar é o grande evento televisivo fora do calendário da NFL nos EUA e essa condição está cada vez mais em xeque.

Não passou batido aos críticos de que a ABC pertence a Disney e que a nova categoria beneficiaria diretamente o estúdio, que detém marcas valiosas como Marvel, Star Wars e agora a FOX. É um raciocínio pedestre. A categoria de animação, mais bem-vinda quando anunciada, é reino absoluto da Pixar, também um braço do estúdio de Mickey Mouse.

O que norteou as mudanças foram necessidades comerciais da ABC e do Oscar, programa de TV, mas pelo menos duas dessas mudanças devem trazer impacto positivo no longo prazo para o Oscar, prêmio de cinema. Um Oscar entregue mais cedo é bom porque diminui a temporada de premiações e reduz a influência de prêmios periféricos sobre acadêmicos e um Oscar para os blockbusters não só tem potencial pedagógico como agregador.

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domingo, 29 de julho de 2018 Análises, Filmes | 15:27

Como “Efeito Fallout” muda estrutura da franquia e projeta futuro de “Missão Impossível”

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Em cartaz nos cinemas do Brasil e dos EUA, “Missão: Impossível – Efeito Fallout”, sexto exemplar da franquia iniciada em 1996, marca uma nova fase para a série. É inegável que Tom Cruise, em sua vertente de produtor, passou por poucas e boas com a série, mas é igualmente inegável o fôlego que a série apresenta. Algo extremamente incomum para um sexto filme.

Cena de "Missão: Impossível - Efeito Fallout": filme muda o jeito de ser e de ver a franquia

Cena de “Missão: Impossível – Efeito Fallout”: filme muda o jeito de ser e de ver a franquia

“Efeito Fallout” estreou na liderança das bilheterias dos EUA e muito bem nos outros 36 mercados internacionais que debutou, inclusive no Brasil. Com US$ 154 milhões em caixa, cerca de US$ 62 milhões provenientes do mercado doméstico, essa é a maior bilheteria de estreia da série.

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O sexto longa, dirigido e roteirizado pelo mesmo Christopher McQuarrie de “Nação Secreta”, quebra um paradigma da série. “Efeito Fallout” é uma continuação direta do filme anterior. Mais: se comunica e entrelaça com todos os outros filmes da franquia – a traficante de armas vivida por Vanessa Kirby, por exemplo, é filha da traficante de armas vivida por Vanessa Redgrave no original de 1996, um toque sutil e consciente da realização.

Tom Cruise e câmara man em salto impressionante para captar uma das cenas mais intensas e cheias de adrenalina do novo filme

Tom Cruise e câmara man em salto impressionante para captar uma das cenas mais intensas e cheias de adrenalina do novo filme

“Efeito Fallout” subverte, portanto, lógica e estrutura até então dominantes na série. Mas os feitos do filme não se esgotam aí. Em uma era em que o sinônimo de ação se concentra maiormente nas benesses e possibilidades do CGI (efeitos especiais gerados pelo computador), o filme resgata os chamados efeitos práticos. Com Cruise, Quarrie e companhia limitada fazendo sandices como pular de um avião e puxar o paraquedas já próximo do solo – algo que só militares altamente treinados são capazes de fazer -, escalar um helicóptero em movimento, pilotar motos em alta velocidade pelas ruas de Paris e escalar uma montanha sem equipamento de alpinismo.

Essa devoção impacta a audiência e torna “Efeito Fallout” um filme mais sensorial do que geralmente o são os filmes de ação modernos, o que acarreta um engajamento incomum que nos leva à literalidade da perda de fôlego.

Reflexos de seu tempo

Melhor franquia de ação: não é um absurdo apontar "Missão Impossível" como a melhor do gênero no cinema

Melhor franquia de ação: não é um absurdo apontar “Missão Impossível” como a melhor do gênero no cinema

Essa fixação com um cinema de ação de outro tempo, no entanto, não impede a franquia de evoluir. O sexto “Missão Impossível” é um filme de ação de cabo a rabo, com velocidade, inteligência e total senso de entretenimento. É, também, um filme de grupo, não de um espião com uma missão e alguns eventuais ajudantes.

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Ethan Hunt foi concebido como “a resposta americana” a James Bond e, em 1996, com Brian de Palma no comando, foi estrela de um filme de espionagem com a cara dos anos 90. O segundo volume, sob as ordens de John Woo, buscava habitar em um mundo pós-Matrix. O terceiro filme, por seu turno, tentava se situar em meio as cada vez mais barulhentas franquias e vislumbrava um fim – Ethan Hunt flertava com a aposentadoria. De alguma maneira esses filmes resistiam a se moldar dentro do esquema de um filme de ação absoluto e convicto.

Essa hesitação foi completamente posta de lado em “Protocolo Fantasma” (2011). Ali começava a ganhar forma um movimento que culminaria na excelência adensada por “Efeito Fallout”.

“Missão Impossível” não é a única franquia que se transformou ao longo dos anos. “Velozes e Furiosos”, “Exterminador do Futuro” e até “Harry Potter” são alguns exemplos contemporâneos, mas nenhuma delas ostenta o grau de sucesso, em todos os ângulos passíveis de observação, como a que tem Tom Cruise no leme.

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segunda-feira, 5 de março de 2018 Análises, Filmes | 19:09

Consagração de “A Forma da Água” no Oscar representa aceno ao diálogo em Hollywood

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“Sempre lembraremos deste ano como o ano em que os homens erraram tanto que as mulheres começaram a sair com peixes”, disse Jimmy Kimmel em dado momento de seu monólogo de abertura na 90ª edição do Oscar, realizada neste domingo (4). A fala diz muito sobre o tom do Oscar 2018 que consagrou “A Forma da Água” o melhor filme do ano. Foram quatro estatuetas. Além de produção do ano, o longa amealhou os prêmios de Direção, Trilha Sonora e Direção de Arte.

Guillermo del Toro recebe o Oscar pelo filme "A Forma da Água"

Guillermo del Toro recebe o Oscar pelo filme “A Forma da Água”

A vitória de “A Forma da Água”, ainda que o filme fosse apontado como favorito, foi um tanto surpreendente. Primeiramente pela resistência da Academia em premiar filmes de gênero. Eles raramente são inseridos na principal categoria, tendência que começa a ser revertida  – em 2018 ainda tivemos “Corra!” entre os concorrentes. Segundo porque o filme não parecia reunir o apoio do maior e mais decisivo colegiado da Academia que é o dos atores, já que ficou de fora do SAG de melhor elenco. Desde que o prêmio foi criado nos anos 90, apenas “Coração Valente” venceu o Oscar de Melhor Filme sem ter concorrido a Melhor Elenco no SAG.

Leia também: Oscar vê na ternura de “A Forma da Água” a receita para as dores do presente

Por outro lado, “A Forma da Água” era o filme mais fácil de reunir algum consenso entre os indicados e no Oscar, um termômetro elevado dos humores dos votantes, isso importa e muito. Principalmente no clima que a 90ª edição dos prêmios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas se deu. A ideia era sinalizar para um futuro menos opulento e com a Academia ombreando com setores da sociedade e da indústria na disposição de promover diversidade e inclusão. O filme de del Toro, por ser de um cineasta mexicano e imigrante, por ser sobre a história de amor entre uma mulher e uma criatura marinha, por reunir metáforas diversas sobre mazelas que o mundo ainda enfrenta, era a escolha mais adequada. E afetuosa.

O raciocínio da Academia enquanto grupo organizado e suscetível às mais diversas influências não pode ser menosprezado. Há erros, alguns crassos, mas há acertos que talvez não sejam percebidos como acertos de imediato. É notório que “A Forma da Água” não era o melhor filme entre os indicados. Mas sua escolha representa não só um avanço na abertura que a instituição dá ao cinema de gênero, como é uma resposta delicada e parcimoniosa às destemperanças do presente: o clima político belicoso, as denúncias de assédio, a impaciência das mulheres para com a insistente misoginia na indústria. A opção por um filme que prega tolerância talvez não mude nada disso, mas certamente representa um aceno ao diálogo.

Toda a cerimônia, menos politizada do que se esperava, foi um passo nesse sentido. O Oscar 2018 poderia ter sido mais ousado e feito escolhas tão dignas como as que fez, mas mais subversivas e eloquentes em matéria de cinema nos âmbitos da estética e narrativa. Optou, e não há de se contestar a legitimidade dessa escolha, por atender demandas do cinema em seu eixo industrial e não deixou de premiar filmes e artistas premiáveis por conta disso.

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quinta-feira, 28 de dezembro de 2017 Análises, Críticas, Filmes | 11:13

George Clooney vai ao passado para explicar América da Era Trump em “Suburbicon”

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Novo filme de George Clooney como diretor tem roteiro afiado dos irmãos Coen e é uma sátira nervosa de costumes sociais que perduram e justificam ascensão conservadora

Matt Damon em cena de "Suburbicon: Bem-Vindos ao Paraíso"

Matt Damon em cena de “Suburbicon: Bem-Vindos ao Paraíso”

Alguns dos melhores momentos de George Clooney como ator foi sob a batuta dos irmãos Coen. O humor cheio sarcasmo e finas ironias dos irmãos era a principal bússola de “E aí, Meu Irmão Cadê Você?” (2000), “O Amor Custa Caro” (2003) e “Queime Depois de Ler” (2008) e é a força motriz de “Suburbicon: Bem-Vindos ao Paraíso”. Os Coen tinham esse roteiro engavetado desde os anos 70 e cederam a Clooney que estava ávido por dirigir um material dessas referências do cinema americano. A parceria deu muito certo.

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“Suburbicon” é essencialmente um filme dos Coen, o que é muito bom. Mas traz também a preocupação político social inerente ao cinema mais robusto de Clooney como cineasta (“Tudo pelo Poder”, “Boa Noite e Boa Sorte”). O timing joga a favor do filme. Com a era Trump em pleno vapor, voltar aos EUA dos anos 50 para observar os motores da intolerância em paralelo à manufatura da hipocrisia à americana é um desses felizes achados cinematográficos.

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O filme se passa em um bairro planejado, um daqueles subúrbios acima de qualquer suspeita. A vizinhança se inquieta com a chegada de uma família negra. O alvoroço denota o racismo institucionalizado e serve como paisagem para os conflitos que movem a trama. Estamos aqui em um terreno tipicamente Coeniano:  personagens menos inteligentes do que acham que são, da ganância desenfreada e da imponderabilidade do acaso.

Cena do filme Suburbicon

Cena do filme Suburbicon

Gardner (Matt Damon) vive um casamento cheio de ruídos e ressentimentos com Rose (Julianne Moore), presa a uma cadeira de rodas após um acidente de carro dirigido pelo marido. Ele vive um caso com a irmã de Rose, Margaret, também vivida por Moore, e é possível que esteja por trás da arquitetura de um plano para matar a mulher.

O filme começa cheio de sutilezas e sugestões e vai ganhando gravidade e agudeza aos poucos até se configurar em uma ópera de erros e desgraças. A direção de Clooney segue no mesmo compasso. Começa embevecida dos olhos tristes de Nicky (Noah Jupe), o filho dos Gardners, e vai ficando histérica – ao ponto que a própria música se torna onipresente e delirante.

“Suburbicon: Bem-Vindos ao Paraíso” é uma sátira potente, no todo, mas fundamentalmente nos detalhes. A relação do menino branco com o vizinho negro, a perversidade de Gardner que vai escalando conforme ele vai se sentindo sufocado e mesmo as cenas que exibem o racismo descampado de uma sociedade febril e destemperada são pequenos comentários cheios de lucidez e espanto de um realizador senhor de suas convicções e dos efeitos que quer alcançar.

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domingo, 17 de dezembro de 2017 Análises, Filmes | 17:52

SAG testa seu poder de influência sobre Oscar mais globalizado em 2018

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Cinéfilos e analistas da indústria cinematográfica observaram a semana que se passou com muita atenção. Ela sinalizou o começo efetivo da temporada de premiações do cinema, ou temporada do Oscar, como preferem os que evitam eufemismos. As indicações ao Globo de Ouro e ao SAG, anunciadas na segunda-feira (11) e quarta-feira (13) respectivamente, agregam valor e perspectiva às indicações do Critic´s Choice Awards, divulgadas na semana anterior, e moldam a corrida pelo Oscar.

É claro que produções, performances e artistas que falharam em adentrar nessas listas continuam com chances de chegar ao Oscar, mas elas ficam indubitavelmente menores.

Armie Hammer em cena de "Me Chame pelo Seu Nome"

Armie Hammer em cena de “Me Chame pelo Seu Nome”

“Me Chame pelo Seu Nome” talvez seja o grande perdedor da semana. A produção até amealhou uma indicação a melhor filme dramático no Globo de Ouro, mas não emplacou indicações em roteiro e direção e seu elenco não foi contemplado com uma indicação na principal categoria do SAG. Vale lembrar que o Oscar mantém uma escrita implacável. Desde que o sindicato dos atores criou seu prêmio há 23 anos, apenas “Coração Valente” venceu o Oscar de melhor filme sem ter recebido uma indicação a melhor elenco. Apenas o protagonista Thimothéé Chalamet foi nomeado ao SAG.

Já produções como “Lady Bird” e “Três Anúncios para um Crime” ganharam musculatura nesta semana. Já é possível lista-las como certeza entre os indicados ao Oscar de melhor filme e o momentum a favor dessas candidaturas – e de outras relacionadas aos filmes – só crescerá nas próximas semanas.

Influência em jogo

Se o Globo de Ouro tenta influenciar a corrida com a promoção de produções como “Todo o Dinheiro do Mundo” e performances como a de Hong Chau (“Pequena Grande Vida”), o SAG tem uma questão mais premente a tratar em matéria de influência no Oscar. Desde que a Academia espremeu o calendário de premiações com vistas a reduzir as influências dos prêmios satélites sobre o Oscar, o SAG foi o sindicato que viu seu poder de influência mais reduzido. Nos últimos cinco anos, apenas dois filmes que ganharam o prêmio de elenco ganharam o Oscar de melhor filme. Nos cinco anos anteriores a estatística era de quatro em cinco.

Cena de "Lady Bird", filme com cada vez mais hype na temporada

Cena de “Lady Bird”, filme com cada vez mais hype na temporada

Este ano há algumas curiosidades nas escolhas do SAG. Um filme distribuído diretamente na Netflix nos EUA (“Mudbound – Lágrimas Sobre o Mississipi”), um favorito da crítica (“Doentes de Amor”), um sucesso comercial de gênero (“Corra!”), além dos já citados “Lady Bird” e “Três Anúncios para um Crime”. Os três primeiros não necessariamente fazem o perfil de filmes nomeados pelo Oscar.

Se “Mudbound” trabalha com o mesmo material de “Histórias Cruzadas” e “Estrelas Além do tempo”, que venceram o SAG e emplacaram indicações a melhor filme no Oscar, tem contra si o fato de ter estreado direto em streaming. O apoio do SAG pode ser providencial para que a Academia supere esse preconceito. Por outro lado, a Academia que hoje já ostenta mais de oito mil membros está cada vez mais global e menos suscetível à influência dos sindicalizados nos EUA.

Outra frente em que o SAG testará sua influência será com “Doentes de Amor”. O filme festejado pela crítica é uma comédia romântica bem feitinha, com diálogos espertos  e um conjunto de atores em boa forma. O apoio do SAG fará com que o filme lançado em junho nos EUA chegue ao Oscar?  E “Corra!”, sátira racial, filme de gênero que decolou em Sundance e fez grande sucesso comercial? O SAG ajudará a academia a abraçar um dos filmes mais elogiados da temporada, mas que não faz o perfil da premiação?

Essas são questões encampadas pelo SAG, mas são questões que podem ser eclipsadas em um ano em que o dito cinemão

Cena de "Doentes de Amor": O SAG acolhe um favorito da crítica para ratificar sua influência no Oscar

Cena de “Doentes de Amor”: O SAG acolhe um favorito da crítica para ratificar sua influência no Oscar

voltou com força. Spielberg e seu “The Post” podem ser uma espécie de trator na temporada. Um filme sobre o valor do jornalismo, da independência editorial e da liberdade de expressão em tempos de Donald Trump pode soar irresistível demais. E com Tom Hanks e Meryl Streep no elenco vira até covardia. Christopher Nolan e seu “Dunkirk” parecem vir com força. Há ainda a fantasia reclamando redenção com “A Forma da Água”, que já vem com o selo de aprovação de Veneza, onde ganhou o Leão de Ouro.

As muitas influências emparelhadas nessa atribulada semana que representou o ponto de partida oficial da temporada do Oscar agora convergem em protagonismo de ocasião. A votação para o Oscar começa só em 5 de janeiro. Até lá muito pode mudar e novas tendências surgirem na primeira temporada de premiações pós-Harvey Weinstein (ainda tem essa “ausência” de influência em jogo).

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domingo, 26 de novembro de 2017 Análises, Filmes | 13:19

As chances de “Corra!” na temporada de prêmios e a polêmica no Globo de Ouro

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Lançado no começo do ano, em fevereiro nos EUA e em maio no Brasil, o thriller “Corra!” promete chegar com força na temporada de premiações e como um bom termômetro disso já se encontra no epicentro de uma das polêmicas da temporada. Além de como o tema assédio sexual pautará a Oscar season, a classificação do filme de Jordan Peele para concorrer entre as comédias no Globo de Ouro gerou polêmica e grande repercussão negativa.

Cena de "Corra!", protagonista de uma das primeiras polêmicas da temporada de premiações em 2018

Cena de “Corra!”, protagonista de uma das primeiras polêmicas da temporada de premiações em 2018

Para começo de conversa, “Corra!” não é uma comédia, mas é uma sátira social aguda que trabalha de maneira inteligente com o humor. Peele, que é comediante, protestou. “O que o filme trata não é engraçado”. O filme mostra um fim de semana de um casal inter-racial na casa dos pais da namorada (branca) e como o racismo pode ser submerso e subversivo. A primeira vez que a produção chamou a atenção foi no festival de Sundance em janeiro e desde então foi uma saraivada de elogios.

Leia também: Sátira das tensões raciais, “Corra!” une comédia ao terror com excelência 

A Universal Pictures, que comprou os direitos da fita e a distribuiu globalmente, inscreveu o filme para concorrer entre as comédias. Simplesmente porque as chances de nomeação – e vitória – são maiores nesse eixo, já que o Globo de Ouro divide as principais categorias entre dramas e comédias. “Eu acho que foi apenas inscrito”, comentou Peele tentando minimizar o papel do estúdio que apoiou seu filme na “lambança”. De fato, a palavra final é da Associação dos Correspondentes Estrangeiros de Hollywood (HFPA, na sigla em inglês), mas a organização é conhecida por seu alto grau de flexibilidade, ou por abrir as pernas no português mais chulo, em nome das boas relações com os poderosos de Hollywood.

A submissão de “Corra!” às comédias não é nem mesmo a maior bobagem que a HFPA já fez nesse sentido. Alguém lembra de “O Turista”? Pois é… A inclusão de “Corra!” entre as comédias talvez incomode mais porque o filme discute com incrível sagacidade um tema importante e sempre incendiário que é o racismo, mas o raciocínio mercadológico da Universal não está errado. A indicação ao Globo de Ouro, ainda que em uma categoria contestável,  pode vitaminar as chances do filme que precisa estar no radar dos votantes do Oscar – algo que mais do que qualquer outra premiação, apenas a HFPA pode fazer.

Fotos: divulgação

Fotos: divulgação

Chances reais

Apesar de “Corra!” não ser um grande filme, sua inteligência e originalidade o precedem. Isso, aliado ao fator de não ser essencialmente um “filme de Oscar”, ter sido um hit nas bilheterias (mais de US$ 250 milhões arrecadados mundialmente) e o debate importante que encampa devem lhe colocar na rota de uma indicação a melhor filme. Na verdade, apenas o roteiro merecia lembrança. No Spirit Awards, bom termômetro para o Oscar, figurou em mais categorias do que o esperado. Além de filme e roteiro, foi lembrado em montagem, direção e ator.  A aparente patetada no Globo de ouro pode ser a chave para consolidar um dos contenders mais inusitados dos últimos anos no Oscar.

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quinta-feira, 23 de novembro de 2017 Análises, Atores | 11:27

A carreira de Michael Fassbender sobrevive depois de seu péssimo 2017?

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Michael Fassbender em cena da estreia "Boneco de Neve"

Michael Fassbender em cena da estreia “Boneco de Neve”

Em maio de 2014, Michael Fassbender foi alvo de um texto mega elogioso no blog intitulado “Michael Fassbender: o ator do momento, já há algum tempo”. Três anos e um punhado de filmes malsucedidos depois, a constatação de outrora parece não proceder mais. Pior: o ator alemão de ascendência irlandesa parece ter sua carreira em uma crise potente de viabilidade.

Com o lançamento de “Boneco de Neve” nos cinemas brasileiros, um dos filmes mais mal avaliados de 2017, Michael Fassbender atinge um indesejado grau de saturação. Há de se ponderar se sua carreira continuará depois de tantos fracassos comerciais, filmes mal recebidos pela crítica e outros tantos esquecíveis.

Leia também: Sem Ambição, “Liga da Justiça” entrega bons personagens e diversão ligeira

Se no início da década, o ator esbanjava talento, faro e bom gosto em produções como “Shame”, “Um Método Perigoso”, “Frank” e “12 Anos de Escravidão”, que lhe valeu sua primeira indicação ao Oscar, agora agoniza com os fracassos de “Assassin´s Creed”, “Alien Covenant” e má aceitação de produções como “Song to Song” e o referido “Boneco de Neve”.

Michael Fassbender e Marion Cotillard em cena de "MacBeth", um dos primeiros filmes ruins do ator

Michael Fassbender e Marion Cotillard em cena de “MacBeth”, um dos primeiros filmes ruins do ator

Não se pode dizer que Fassbender agiu equivocadamente. Buscou parcerias com cineastas renomados e estimados pela crítica (Terrence Malick, Ridley Scott e Derek Ciafrance), estabeleceu vínculo comercial com um estúdio, a FOX (Alien, X-Men e Assassin´s Creed), produziu filmes com potencial de franquia (Assassin´s Creed e “Boneco de Neve”), investiu em material com pedigree e apostou na visão de Matthew Vaughn para seu Magneto. Visão esta, é bem verdade, que se deteriorou nas sequências.

Ocorre que em um espaço de dois anos – desde a indicação ao Oscar de melhor ator por “Steve Jobs” (2015), que já não era um grande filme – Fassbender só lançou filmes percebidos como ruins ou desnecessários (e foram oito lançamentos).

A combinação de baixa qualidade e ranço com o volume de produções lançadas pode ser fatal. Não à toa, tirando a participação no próximo filme da franquia mutante, Fassbender não está envolvido em nenhuma produção. Há quem diga que o ator vai dar um tempo no cinema. Claro, foi um ritmo intenso. Mas foi um ritmo intenso que não deu bons frutos. Há de se esmerar melhores projetos no futuro e, claro, assumi-los com maior parcimônia.

Cena de "Song to Song" Fotos: divulgação

Cena de “Song to Song”
Fotos: divulgação

Ficou patente para Michael Fassbender que a solução não está no volume de lançamentos. No início da década, por exemplo, ele figurou apenas em uma franquia e fez produções bem alternativas, colaborando com cineastas originais e senhores de sua liberdade. Não foi exatamente o que aconteceu aqui. Mais: agora ele já tem um lastro como astro e a perspectiva de toda e qualquer produção em que se envolver será diferente. A carreira pode sobreviver, mas para não virar um novo Nicolas Cage é preciso um pouco mais de planejamento e compreensão de seus objetivos.

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segunda-feira, 16 de outubro de 2017 Análises, Bastidores | 15:45

Oscar e Hollywood ganham a chance de se reinventar na era pós- Harvey Weinstein

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Produtor de Hollywood caiu em desgraça e denúncias que pipocam contra ele, mas também contra outros figurões do cinema podem precipitar uma mudança de paradigma na indústria

Harvey Weinstein produziu e distribuiu todos os filmes de Quentin Tarantino, seu amigo pessoal e que ainda não deu declarações convictas após a explosão das denúncias

Harvey Weinstein produziu e distribuiu todos os filmes de Quentin Tarantino, seu amigo pessoal e que ainda não deu declarações convictas após a explosão das denúncias

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood após assembleia extraordinária realizada no último fim de semana expulsou Harvey Weinstein. É a segunda vez que um membro da instituição que outorga o Oscar é expulso, o primeiro foi Carmine Caridi, um ator que violou a política de sigilo envolvendo os screeners (maneira pela qual os acadêmicos veem muitos dos filmes que tentam vaga na premiação).

É difícil achar alguém em Hollywood que não tenha trabalhado com ou sob as ordens de Harvey Weinstein. Justamente por isso o caos na meca do cinema é tamanho após a reportagem do New York Times e da New Yorker revelando os maus-feitos do produtor. A saraivada de denúncias, depoimentos e desabafos que se sucedeu – e ainda ocupa o noticiário – era esperada. Bem como a ampliação de seus efeitos. Ben Affleck, Oliver Stone, Lars Von Trier e George Clooney já foram a abainhados pela espiral de denúncias de assédio que tomou Hollywood de assalto.

Woody Allen, outro envolto em polêmicas de pedofilia e abuso, alertou para uma “caça as bruxas” e o mundo do cinema parece enfeitiçado por um assunto que não deve ir embora (e talvez não deva mesmo) tão cedo.

A queda de um mito

Harvey Weinstein e Kate Winslet, uma das atrizes que venceu o Oscar apoiada pela máquina de Harvey

Harvey Weinstein e Kate Winslet, uma das atrizes que venceu o Oscar apoiada pela máquina de Harvey

Para além do que representa Harvey Weinstein enquanto homem e magnata de Hollywood – e para todos os efeitos ele é um símbolo perene do poder e seus tentáculos no cinema e em qualquer outra indústria – Harvey foi (o tempo passado já é presente nas referências a ele) um revolucionário no cinema americano. Primeiro por ter sido o arauto da revitalização do cinema independente norte-americano na década de 90, segundo por ter feito da campanha de promoção com vistas ao Oscar, uma arte de domínio particular.

Harvey Weinstein tornou-se um guru do Oscar. Filmes e celebridades promovidos por ele eram figuras dadas como certas na premiação. Produções contestadas como “Shakespeare Apaixonado” (1998) e “O Artista” (2011), esse com o acréscimo de ser estrangeiro, mudo e em preto e branco, triunfaram no Oscar e todo o crédito é plenamente atribuído a Weinstein.

Sempre se soube de seu temperamento opressor e de seu estigma rancoroso em Hollywood. Na série da HBO “Entourage” (2004 – 2011) o próprio aparece como ele mesmo “rindo” dessa situação. À luz das denúncias, cenas e acontecimentos do passado são reinterpretados. Quanto à Academia, ela já é cobrada a tomar providências a respeito de Roman Polanski, condenado por estupro de vulnerável, Bill Cosby e Mel Gibson. A inclusão do último nessa galeria é um reflexo da ardência do momento. Gibson pode até ser antissemita, mas não paira sobre ele suspeitas tão nocivas.

E como fica o business?

Hollywood não vai mudar da noite para o dia e a condução do “caso Harvey Weinstein” pela opinião pública demanda cautela. Afinal, passa pelo comportamento e postura da mídia a efetividade e longevidade de mudança de qualquer natureza em uma indústria notória por reger suas relações de maneira sexista e corporativista.

O efeito imediato é a debandada da The Weinstein Company. Até mesmo Bob Weinstein desandou a falar mal do irmão. Artistas estão pedindo para  retirar seus projetos do estúdio e produções que tentariam o Oscar, como “Terra Selvagem” e “The Current War” devem ser prejudicadas.

Harvey Weinstein e os premiados por "Shakespeare Apaixonado": uma vitória surpreendente que pavimentou a ascensão de um mito Fotos (AMPAS, reprodução Twitter)

Harvey Weinstein e os premiados por “Shakespeare Apaixonado”: uma vitória surpreendente que pavimentou a ascensão de um mito
Fotos (AMPAS, reprodução Twitter)

Quanto ao Oscar em si, os métodos patenteados por Weinstein há muito não são praticados só por ele. A corrida eleitoral que é a disputa pela estatueta mais cobiçada do cinema, no entanto, deve sentir a ausência de seu mais radical, desleal e competitivo fomentador.

A desgraça de Harvey Weinstein, no entanto, representa no longo prazo a chance de purificação da Academia. De resgate do valor dos filmes por eles mesmos. Um processo, na verdade, já em curso graças aos esforços de Cheryl Boone Isaacs que presidiu a instituição até o início deste ano. Para o bem ou para o mal, para a Academia, mas também para seu anjo caído, Hollywood adora uma segunda chance.

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sábado, 14 de outubro de 2017 Análises, Filmes | 10:00

“Toda Nudez Será Castigada” completa 45 anos sob assombrosa atualidade

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Fotos: divulgação

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Lançado comercialmente em março de 1973 após um rigoroso escrutínio por parte da Divisão de Censura de Diversões Públicas, órgão subordinado à Polícia Federal durante o regime militar, “Toda Nudez Será Castigada” completa 45 anos em 2017 em um momento particularmente ruidoso no Brasil. O filme seria originalmente lançado em 1972, mas o processo para liberação da película atrasou o lançamento. No ínterim, venceu o Urso de Prata no Festival de Berlim.

O filme de Arnaldo Jabor, adaptado da obra de Nelson Rodrigues, era uma porrada na hipocrisia da classe média brasileira dos anos 70 – ou 60, já que a peça foi escrita em 1965 – e é uma porrada na cara da classe média brasileira de hoje. “Toda a Nudez Será Castigada” faz aniversário sob a égide do obscurantismo que pauta o debate social e sobre a arte no País.

toda nudez será castigadaO homem que se apaixona pela prostituta e se recusa a assumir esse sentimento, o homossexual enrustido, o irmão malandro que quer lucrar com a infelicidade alheia, no caso do próprio irmão, são personagens assustadoramente atuais. Um mérito, claro, da peça de Nelson, mas também desse conservadorismo palpitante que nos assalta diariamente e que se volta intempestivamente para a manifestação artística.

O pessimismo inato rodriguiano está diretamente relacionado à maneira como os seres humanos lidam com suas angústias, receios e desejos e o patamar de brilhantismo alcançado com as resoluções de “Toda a Nudez Será Castigada”, em que a prostituta se suicida, depois de ter sido amante do filho gay (enrustido) do homem pelo qual ela se apaixonou , permanece singular.

A atualidade do filme de Jabor assombra e talvez por isso uma revisão, à luz do aniversário de 45 anos, mas também em virtude do debate enviesado e obscurantista em curso, se faça necessária.

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segunda-feira, 25 de setembro de 2017 Análises, Críticas, Filmes | 14:13

Orgia testamental de Aronofsky, “mãe!” é cinema que busca sentido em quem o assiste

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Novo filme de Darren Aronofsky é uma das produções mais polarizantes de 2017 e um petardo difícil de ser digerido pelo público. Entre o ruído e a excelência, “mãe!” é um filme marcante

Jennifer Lawrence em cena de "Mãe!"

Jennifer Lawrence em cena de “Mãe!”

Se o cinema é a conjugação de enquadramentos e extracampo, Darren Aronofsky parece decidido a levar essa máxima ao limite.  “mãe!” é um filme que parece existir apenas por meio das alegorias que viabiliza. Essa construção tão hermética quanto rocambolesca é, em si, uma restrição à grandeza cinemática objetivada pelo cineasta. É como se seu filme, ao abrir-se quase que por inteiro à interpretação daqueles que se deixem tocar por ele, prescindisse de sua inteireza narrativa e se contentasse com o fato de ser uma colcha de retalhos. De seu criador e daqueles em contato com ele.

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Feita essa restrição, “mãe!” é um filme de profunda e constante reverberação. Não é um filme fácil, tampouco para ser digerido como nos acostumamos a digerir o cardápio usual oferecido pelo cinema contemporâneo.  Esteta de mão cheia, Aronofsky propõe uma experiência incômoda, provocadora e capaz de subsistir em referências e devaneios filosóficos de toda ordem.

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mãe posterÉ premente identificar a bíblia como principal fonte para as referências e metáforas salpicadas ao longo das duas horas de filme. Mas as alegorias vão além. É possível perceber um comentário potente a respeito do casamento, do machismo inerente ao viés religioso, de nossa relação com o planeta, à vaidade intelectual, entre outras coisas. O mais acachapante em “mãe!”, no entanto, é a radiografia de um Deus narcisista e autocomplacente.

O filme é, sob muitos aspectos, uma intermitente sessão de terapia. Aronofsky se tem em grande estima e isso fica muito claro nos paralelos que estipula com a figura do criador, mas essa prepotência não é despropositada. O criador não é uma figura tão simpática e benevolente como muitos podem crer. É um filme de muitas camadas e capaz de produzir sentidos conflitantes em diferentes revisões.

 

Entre a parábola e as metáforas

Jennifer Lawrence é a mãe do título. Ela mora com Ele (Javier Bardem) em uma casa afastada no campo. Ele é um escritor e passa por uma profunda crise criativa. Ela é devotada a ele. A relação dos dois parece resfriada e começa a sofrer espasmos quando um estranho (Ed Harris) bate à porta e é acolhido por Ele. Pouco tempo depois é a mulher do estranho (Michelle Pfeiffer) quem chega para desestabilizar de vez mãe, cada vez mais incomodada com a atenção dispensada por Ele aos estranhos.

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Aronofsky não é um diretor conhecido pela sutileza e a metáfora para Adão e Eva está posta. Logo vem Cain e Abel e quando nos damos conta estamos diante do novo testamento. E o que Aronofsky propõe é uma reinterpretação furiosa desse ciclo bíblico.

A ideia de humanizar a natureza, Jennifer Lawrence nada mais é do que a Mãe Natureza, parece tão desalojada quando genial. Assumir o ponto de vista da Natureza em sua relação com Deus e com o homem pode parecer pueril, mas demanda uma energia criativa potente. Algo que o cinema de poucas concessões de Aronofsky é capaz de prover e aí é preciso alinhar a performance corajosa de Jennifer Lawrence. A atriz assume um papel difícil, todo ele sustentado por expressões de agonia, desentendimento e dor, e se entrega a um diretor disposto a usá-la como artífice e arquétipo em um filme de rara megalomania. Metade da força bruta de “mãe” reside na atuação de Lawrence, que alterna fúria e delicadeza com a mesma intensidade que a natureza oferta um arco-íris após a tempestade.

Darren Aronofsky orienta Jennifer Lawrence no set de mãe!

Darren Aronofsky orienta Jennifer Lawrence no set de mãe!

A falta de química com Javier Bardem é um dos brilhantismos da direção de Aronosfky – há outros. Trata-se de um mecanismo narrativo providencial para adensar as alegorias pretendidas e ensejadas pelo longa-metragem.

“mãe!” é delirante em seus superlativos. Talvez Aronofsky desacredite do cinema de entretenimento. Talvez tenha levado ao extremo o clichê de se pôr no lugar do outro. Talvez seja um filme que só o tempo será capaz de açoitar preconceitos e expectativas. Certo é que “mãe!” é de uma rigidez intelectual ímpar no cinema contemporâneo. Não há como desgostar de uma obra que se proponha a tanto.

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