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terça-feira, 20 de janeiro de 2015 Análises, Filmes | 15:42

O que o conflito entre apoiadores de “Sniper americano” e “Selma” diz sobre a Hollywood de hoje?

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Hollywood, de maneira geral, não reagiu bem ao que tem sido percebido como uma guinada conservadora nas hostes da Academia de Artes e Ciências de Hollywood, que outorga o Oscar. “O Oscar com menos diversidade em quase 20 anos” bradam as manchetes ao redor do mundo e o coro pela exclusão de “Selma” das principais categorias do Oscar ganha mais relevo à medida que “Sniper americano”, um inesperado e acachapante sucesso de bilheteria – arrecadou mais de U$ 90 milhões em seu 1º fim de semana com circuito expandido nos EUA, se vê no centro de um embate entre uma Hollywood liberal e uma Hollywood conservadora. Personalidades como Seth Rogen e Michael Moore condenaram o filme. Moore, que disse que atiradores de elite não podem ser considerados heróis, fez ressalvas à atuação de Bradley Cooper e a certos aspectos técnicos do filme. Sasha Stone, uma das principais analistas da indústria do cinema e expert em premiações, provocou seus seguidores no twitter: “Já imaginaram se ‘Sniper americano’ fosse feito por uma mulher?”, em alusão direta à esnobada a Kathryn Bigelow há dois anos pela direção de “A hora mais escura”. Clint Eastwood, no entanto, também não recebeu nomeação na categoria pelo filme. A provocação, no entanto, abrange o que muitos percebem como desprezo de uma Hollywood ainda muito machista ao trabalho de mulheres. O ressentimento aí não capitaliza apenas em “Selma”, mas também pelo quase total sumiço de “Garota exemplar”, maior bilheteria entre os filmes apontados como possíveis candidatos ao Oscar de melhor filme e o único protagonizado por uma mulher e escrito por uma mulher.

Bradley Cooper e Clint Eastwood no set de "Sniper americano": em um dia, o filme se tornou a maior bilheteria entres os concorrentes a melhor filme (Foto: divulgação)

Bradley Cooper e Clint Eastwood no set de “Sniper americano”: em um dia, o filme se tornou a maior bilheteria entres os concorrentes a melhor filme
(Foto: divulgação)

Um outdoor do filme nos EUA surge pichado com a palavra "assassino" (Foto/ reprodução twitter)

Um outdoor do filme nos EUA surge pichado com a palavra “assassino”
(Foto/ reprodução twitter)

A comoção é tanta e tão aprofundada que a presidente da academia se viu na necessidade de intervir e reafirmar a agenda progressista de sua gestão à frente da academia. “Nos últimos dois anos, avançamos muito em relação ao passado, nos tornando uma organização mais diversa e inclusiva por meio da admissão de novos membros”, salientou Cheryl Boone.

A presidente acenou aos desgostosos acrescentando que “amaria” ver mais diversidade entre os indicados.

Em entrevista ao Daily Beast, o ator Bradley Cooper, ele mesmo alvo de muitas críticas descontentes com sua terceira nomeação seguida ao Oscar, defendeu o filme. “Trata-se de um estudo de personagem. O interesse para mim e para Clint era ver os efeitos da guerra naquele homem. Mas eu não posso controlar como as pessoas verão este filme como ferramenta”, acrescentou o ator que disse que a obra fez o vice-presidente americano, Joe Biden, chorar. “Essa é a história de Chris (o atirador retratado no filme).  Seria ótimo se as pessoas não a interpretassem como um filme da guerra do Iraque, mas sim como um exame de como conflitos como este atingem um soldado e sua família”, opinou.

Muitos articulistas de jornais como New York Times e The Guardian externaram a preocupação do “exagerado” apreço a “Sniper americano” ser uma concessão à propaganda militar. Exageros à parte, a revista New Yorker enxergou no filme “a desconstrução do mito do guerreiro americano” ao compasso que vê em “Selma” a “reafirmação pouco imaginativa de um mito já muito celebrado”, no caso Martin Luther King.

Leia também: Academia de Hollywood vive guerra entre alas conservadora e modernizante 

Spike Lee, diretor de obras reverberantes como ‘Faça a coisa certa” (1989) e “ Malcom X” (1992), filmes tonificados pelos conflitos raciais, disparou logo depois da pouca atenção dispensada a “Selma” pela academia: “Eles que se fodam”!  “Se tinha alguém que pensava que este ano seria como o ano passado esse alguém é retardado”, disse o cineasta. “Tá cheio de gente por aqui com  ‘12 anos de escravidão’, Lupita, Pharrell… é um ciclo de dez anos”, argumentou. Para Lee, “o Oscar mais branco desde 1998 não é uma surpresa, mas é irritante”.

Essa polarização inadvertida que opõe dois filmes que guardam poucas semelhanças, além do fato de serem sobre especificidades americanas, mimetiza uma Hollywood que ainda se move sob tensões das mais diferentes procedências. Se uma das funções primais do cinema é o ensejo da reflexão e ao Oscar cabe dinamizar essa vocação, pode-se dizer que as indicações ao prêmio em 2015, contestáveis ou não, preenchem o mérito.

Cena de "Selma": filme sobre conflitos raciais catalisa conflitos adormecidos em Hollywood

Cena de “Selma”: filme sobre conflitos raciais catalisa conflitos adormecidos em Hollywood

É a primeira vez nos últimos dez anos que se vê um debate tão passional acerca de dois filmes que, no limiar, pouca gente viu e apenas especula a partir de suas estampas, dos símbolos que trazem na sinopse e no material promocional.

Essa intensidade, no entanto, pode intervir diretamente nos rumos da corrida pelo Oscar e, nesse sentido, “Sniper americano” tem muito mais a perder.

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sexta-feira, 16 de janeiro de 2015 Análises, Bastidores | 20:18

Academia de Hollywood vive guerra fria entre alas conservadora e modernizante

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Peço licença para nadar contra a corrente. Em um tempo em que a liberdade de expressão é tema de debates inflamados, o efeito manada – expressão cunhada para descrever quando indivíduos agem todos da mesma forma sem haver uma direção planejada – é perigoso e tergiversante.

“Birdman” e “O grande hotel Budapeste” lideram indicações ao Oscar 2015

Logo após o anúncio dos indicados ao Oscar 2015 tomou a internet, as redes sociais em particular, um movimento acusando a Academia de reiterar sua falta de apreço pela diversidade. De deliberadamente excluir mulheres, e haviam candidatas bem cotadas, do grupo de indicados aos prêmios de roteiro e direção. De não incluir atores negros entre os indicados e, consequentemente, de submeter “Selma”, filme sobre a emblemática figura de Martin Luther King Jr., a um papel menor na festa com suas duas e, para os propósitos dos queixosos, insignificantes nomeações. A imprensa, de maneira geral, abarcou as queixas e as reverberou sob o mesmo prisma.

Cena do filme "Selma" (Foto: divulgação)

Cena do filme “Selma”
(Foto: divulgação)

Essas ponderações se fundamentam em uma pesquisa de 2012 do jornal Los Angeles Times sobre o perfil demográfico do corpo de votantes da academia. Esse corpo é majoritariamente branco, masculino e acima dos 50 anos. Uma senha para o conservadorismo. Mas esse mesmo estudo revela que a academia jamais foi mais internacional e nunca acolheu tantas mulheres em seu colegiado. Ela é, inclusive, presidida por uma mulher negra (Cherly Boone), que tem contribuído para a diminuição dessa lacuna histórica.

Outro aspecto precisa ser analisado. Desde 2001, ano em que Halle Berry tornou-se a primeira atriz negra a vencer o Oscar de melhor atriz principal e Denzel Washington apenas o segundo ator a fazê-lo na categoria principal de atuação masculina (isso na 73ª edição do prêmio, estamos caminhando para a 87ª), muitos atores negros concorreram e venceram o Oscar. Exemplos de vitoriosos não faltam. Jamie Foxx, por “Ray” em 2004, Forest Whitaker por “O último rei da Escócia” em 2007”, Jennifer Hudson por “Dreamgirls” em 2007, Mo´Nique por “Preciosa” em 2010 e Lupita Nyong´o por “12 anos de escravidão” no ano passado se não são demonstrações eloquentes de que a diversidade é um conquista valorosa e crescente nas hostes da academia não é possível apontar o que poderiam ser.

A academia, porém, não está imune aos sobressaltos de qualquer movimento de transformação. Está em curso uma onda de modernização, naturalmente rechaçada por alas mais conservadoras. Esse conflito já podia ser percebido em anos anteriores e é novamente visível em 2015. Se por um lado, há a presença inesperadamente forte de um filme com estampa republicana, com potencial patriótico e sobre a presença militar americana no Iraque (“Sniper americano”), há duas comédias totalmente fora da caixa na liderança da corrida pelo Oscar. Uma dirigida por um latino (“Birdman”, de Alejandro González Iñarritu) e outra por um artista cultuado por hipsters e historicamente ignorado pela academia.

O cineasta Wes Anderson, autor peculiar e frequentemente esnobado agraciado em larga escala em 2015: novos tempos?

O cineasta Wes Anderson, autor peculiar e frequentemente esnobado agraciado em larga escala em 2015: novos tempos?
(Foto: divulgação)

Há de se considerar outros dois fatores preponderantes para a pouca atenção dispensada a “Selma” no Oscar, a despeito das elogiosas críticas que o filme recebe e o momento vivido pelos EUA (tema já abordado pela coluna aqui). Primeiro, a Paramount falhou na divulgação do filme e screnners, como é chamado a cópia digital enviada para votantes, simplesmente atrasaram ou não chegaram. O que contribuiu para a ausência do filme em quase todas as premiações de sindicatos, colegiados com muitos membros integrantes da academia. Repare que Globo de Ouro e Critic´s Choice Awards contemplaram bem “Selma”, mas isso porque o acesso ao filme por críticos de cinema, que são os que compõem essas duas premiações, é feito por meio de cabines, mecanismo em que as distribuidoras convidam jornalistas e críticos para assistirem seus lançamentos antes de disponibilizá-los comercialmente nos cinemas.

Outro ponto a ser considerado é a campanha nociva da qual o filme foi vítima, e ele não foi o primeiro e nem será o último, por conta de eventuais inverosimilhanças no relato. “A rede social”, “Argo”, “Cisne negro”, “O lobo de Wall Street” e “12 anos de escravidão” também foram vítimas recentes de campanhas difamatórias. É uma prática nova e vigorosa estabelecida por alguns gurus do marketing que ganham muito dinheiro para bolar estratégias de desconstrução. O Oscar é uma campanha política anual. Não se enganem.

Por outro lado, há de se considerar que, mesmo assim, e beneficiado por um sistema de votação que ainda carece de ajustes, “Selma” adentra a história como uma produção indicada ao Oscar de melhor filme. Fato que poderia gerar crítica inversa, como fomentou a vitória de “12 anos de escravidão” no ano passado.  Estaria a academia cedendo ao politicamente correto, ou como tuitou um blogueiro americano: “a indicação de ‘Selma’ a melhor filme é a academia dizendo: mas eu tenho um amigo negro”?

Cena de "12 anos de escravidão", vencedor do Oscar em 2014:  o baixo apreço a "Selma" seria uma reação conservadora ao triunfo do filme de Steve McQueen? (Foto: divulgação)

Cena de “12 anos de escravidão”, vencedor do Oscar em 2014: o baixo apreço a “Selma” seria uma reação conservadora ao triunfo do filme de Steve McQueen?
(Foto: divulgação)

reprodução/twitter

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Mais: São seis filmes independentes concorrendo a melhor filme. É difícil dizer que “Invencível”, de Angelina Jolie, uma produção de estúdio, foi esnobado por sexismo. As críticas eram ruins e “Garota exemplar”, assinado pela roteirista Gillian Flynn, um filme com avaliação e bilheteria melhores acabou recebendo menos indicações. “Invencível” concorre a três prêmios e “Garota exemplar” a apenas um. E como enquadrar a pouca atenção dispensada ao excepcional “O abutre”?  São os espólios dessa guerra fria que ocorre no seio da academia entre seu flanco mais conservador, ainda em maioria, e sua cada vez maior ala jovem e modernizante.

A percepção de injustiça é um efeito colateral de toda e qualquer manifestação democrática. É realmente de se lamentar a ausência de mulheres indicadas nas categorias de direção e roteiro. É lamentável que David Oyelowo, único ator negro que tinha chances na corrida, não tenha conseguido uma vaguinha. Mas ignorar avanços, lentos, mas ainda assim avanços, parecem apenas teimosia e gosto pela contrariedade.

A diversidade deve ser perseguida. Assim como a qualidade. As distorções na lista deste ano, que atingem tanto a diversidade como a qualidade, no limite que subjetividade e objetividade se tocam, reforçam a necessidade de ajustes. A presença sólida de “Foxcatcher” nas categorias nobres e sua ausência na disputa do Oscar de melhor filme, a ausência de Clint Eastwood entre os diretores com seu filme tão amplamente contemplado e mesmo “Selma” sem indicações que consubstanciem sua distinção como concorrente a melhor filme acusam a necessidade de burilar o sistema de votação como um todo. São questões que devem ser tratadas em alinhamento, pois embora escape à manada, uma influencia frontalmente na outra.

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quinta-feira, 15 de janeiro de 2015 Análises | 11:45

Em lista amalucada, academia acolhe esnobados históricos e surpreende

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Desde que antecipou o anúncio de seus indicados para meados de janeiro, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood estreitou o calendário de premiações e tornou mais difícil a arte de prever que filmes e artistas serão convidados para festa. Mas essa não foi a única mudança na espinha dorsal da temporada de prêmios. A academia estabeleceu que para um filme entrar na disputa de melhor filme, categoria com a flexibilidade de comportar entre cinco e dez candidatos, é preciso reunir a preferência de 5% do corpo acadêmico. Como são mais de seis mil membros votando, é bastante gente que deve colocar o filme na primeira posição de sua cédula. Os candidatos das outras categorias são escolhidos pelos branchs respectivos (setores de atores escolhem os atores; diretores votam nos diretores e etc). Na hora de escolher os vencedores, todo mundo vota em todas as categorias.

“Birdman” e “O Grande Hotel Budapeste” lideram indicações ao Oscar 2015

Diferentemente dos últimos três anos, quando nove filmes concorreram a melhor filme, em 2015 oito foram agraciados com a alcunha de indicados a melhor produção do ano. Algumas distorções podem ser percebidas. “Selma”, biografia do ícone dos direitos civis Martin Luther King, amealhou uma indicação para melhor filme sem figurar em outras categorias tidas como principais (direção, roteiro, atuação ou edição) e só conquistou  outra nomeação, para canção original. Já “Foxcatcher: uma histórica que chocou o mundo” obteve indicações sólidas como para melhor diretor, ator, roteiro original, ator coadjuvante, mas não conseguiu vaga entre os indicados a melhor filme.

Distorções como essas não são exatamente novidade. Em 2012, “Tão longe e tão perto”  concorreu a melhor filme só tendo sido contemplado com outra indicação, para melhor ator coadjuvante.

Novidade mesmo foi o acolhimento de esnobados históricos. Cineastas como Richard Linklater e Wes Anderson fazem ótimos filmes desde que começaram no negócio de cinema, mas jamais receberam a atenção que obtiveram em 2015 por parte da academia. “O grande hotel Budapeste”  lidera a corrida pelo Oscar, ao lado de “Birdman” com nove indicações, e “Boyhood” obteve seis menções em categorias de prestígio.

Ademais, Linklater, Anderson  e mais o mexicano Iñarritu (“Birdman”) medem forças tanto na categoria de direção, como em roteiro. Uma prova de que a academia também está recompensando esse grupo de cineastas mais autorais que reclamam para si mais controle sobre o filme.

Bradley Cooper faz história no cinema e na história do Oscar (Foto: divulgação)

Bradley Cooper faz história no cinema e na história do Oscar
(Foto: divulgação)

Outros destaques da lista são a presença, relativamente inesperada da francesa Marion Cottilard pela produção belga “Dois dias, uma noite) entre as atrizes e a nomeação de Bradley Cooper (Sniper americano) a melhor ator.

Cottilard é muito querida pela academia e já havia sido esnobada ano passado pelo francês “Ferrugem e osso”. Neste ano, o filme pelo qual foi indicada ficou de fora até mesmo dos semifinalistas para produção estrangeira, mas o fascínio que  a atriz exerce na academia falou mais alto. De quebra, é a segunda vez em oito anos que ela concorre por um filme não falado em língua inglesa. Uma façanha de fato. Ela ganhou por “Piaf – um hino ao amor” em 2008.

Cooper consegue uma façanha ainda mais memorável. Ator até hoje contestado e com um background de comédias rasas, ele consegue sua terceira indicação consecutiva pelo atirador de elite em crise de “Sniper americano”. Ele concorreu nos anos anteriores por “O lado bom da vida” e “Trapaça”. Antes dele, apenas Spencer Tracy e Russell Crowe haviam conquistado tal feito.

Conforme o Cineclube já havia antecipado aqui, o coprodução entre Brasil e Alemanha, “O sal da prata”, sobre a vida do fotógrafo Sebastião Salgado, está entre os finalistas a melhor documentário. Mas não deve ganhar. O favoritismo é todo de “Citizenfour”, sobre a jornada do ex-analista da NSA Edward Snowden.

O argentino “Relatos selvagens” rompeu a resistência histórica da academia com filmes episódicos e mede forças com os favoritos “Ida” (Polônia) e “Leviatã” (Rússia). Historicamente, esta é a categorias a ofertar mais zebras.

“Garota exemplar” e “O abutre”, filmes que resvalam na sordidez humana, acabaram diminuídos no Oscar. O primeiro teve uma indicação solitária para a atriz Rosamund Pike, enquanto o segundo só foi lembrado por seu roteiro original.

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terça-feira, 13 de janeiro de 2015 Análises, Bastidores | 18:59

De olho no Oscar 2015: Os ingleses estão chegando…

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Há quem acredite que em um ano com filmes esteticamente inovadores como “Boyhood” e “Birdman”, o Oscar consagrará um filme tradicional e acadêmico. Nesse esquadro, se destacam duas produções britânicas e biográficas. “O jogo da imitação”, de Morten Tyldum, sobre o matemático Alan Turing que ajudou a quebrar códigos nazistas na 2ª guerra, e “A teoria de tudo”, de James Marsh, que narra a trajetória do físico Stephen Hawking.

Não é a primeira vez que filmes britânicos bem adornados com atuações no limite da sofisticação, direção quadrada, mas eficiente e deslumbre técnico aguam o chope de produções americanas inovadoras.

Cena de "O jogo da imitação": cinebiografia pomposa de um personagem historicamente injustiçado

Cena de “O jogo da imitação”: cinebiografia pomposa de um personagem historicamente injustiçado

Recentemente, o mais fiel retrato das contradições da geração Y, “A rede social”, perdeu o Oscar para o bem feito, mas sem sal, “O discurso do rei”. Em 2011 concorria, ainda, o excepcional e esteticamente vigoroso “Cisne negro”, uma corajosa mescla de drama e terror ambientado no universo do balé.

Em 1997, o a coprodução entre EUA e Inglaterra “O paciente inglês”, drama clássico, prevaleceu sobre o corrosivo e cínico “Fargo”, dos irmãos Coen.

Há muitos ingleses que votam no Oscar, mas é mais decisiva a grande admiração pelo modo britânico de se fazer cinema. As duas produções britânicas do ano contam, ainda, com o prestígio de serem dramas biográficos, outro filão prestigiado junto à Academia.

Atores e atrizes ingleses apresentam repertório de triunfos ainda mais vistoso. Colin Firth, Helen Mirren, Daniel Day Lewis, Kate Winslet e Tilda Swinton são apenas alguns dos que levaram o Oscar nos últimos oito anos. Neste ano, figuras como Benedict Cumberbatch, Eddie Redmayne, Timothy Spall e Keira Knightley são alguns dos ingleses na corrida.

Não é um ano brilhante para as produções americanas, mas nem por isso, essa invasão inglesa torna-se menos frustrante.

 

"A teoria de tudo" foi um dos destaques no Globo de Ouro e deve ter forte presença no Oscar

“A teoria de tudo” foi um dos destaques no Globo de Ouro e deve ter forte presença no Oscar

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segunda-feira, 12 de janeiro de 2015 Análises | 01:50

Globo de Ouro reverencia trabalho corajoso de Richard Linklater em cerimônia perigosamente monótona

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O cineasta Richard Linklater  (Foto: AP)

O cineasta Richard Linklater
(Foto: AP)

Ninguém esperava grandes surpresas, discursos maravilhosos ou barracos memoráveis. Mas a expectativa era por uma cerimônia mais empolgante. A associação de correspondentes estrangeiros de Hollywood (HFPA) premiou “Boyhood: da infância à juventude” e “O grande hotel Budapeste” como melhores produções do ano em uma cerimônia que foi o reflexo do ano pouco criativo que o cinema americano viveu. Não à toa, as duas produções vencedoras foram lançadas no primeiro semestre do ano – e exibidas no festival de cinema de Berlim (realizado em fevereiro). Quando algo assim acontece, é um sinal claro de fastio na produção de cinema que se pretende oscarizável.

Tina fey e Amy Poehler, que já tinham sido pouco inspiradas em 2014, (em 2013 elas foram muito bem), ofertaram piadas pobres e batidas durante quase toda a cerimônia. Desde a obrigatória, mas excessivamente alongada, piada sobre a Coreia do Norte, até a repetida brincadeira sobre Joaquin Phoenix não gostar de premiações. Acertaram, porém, em piadas ligeiras como as que envolveram George Clooney e sua esposa e o comediante acusado de estupro Bill Cosby.

Os grandes discursos da noite foram de Michael Keaton, premiado como melhor ator em comédia/musical por “Birdman”, e de Kevin Spacey e Jeffrey Tambor, vitoriosos por “House of Cards” e “Transparent”, nas categorias de TV. Além, é claro, de George Clooney, homenageado da noite com o prêmio Cecil B. DeMille. Clooney lembrou os atentados em Paris de forma correta e significativa, soube rir de si mesmo ao brincar com o fracasso de “Os caçadores de obras-primas” e fez uma bela homenagem a sua esposa, Amal.

 Confira o discurso de Michael Keaton

Os prêmios

“Boyhood” foi o grande vencedor da noite com três troféus: atriz coadjuvante para Patricia Arquette, direção para Richard Linklater e filme dramático. O filme que acompanha a vida de um menino e sua família pelo período de 12 anos viu seu maior rival na temporada perder o prêmio de melhor filme em comédia e musical para “O Grande hotel Budapeste”, de Wes Anderson – que na falta de uma zebra autêntica fica com a menção honrosa.  Mas “Birdman” não saiu de mãos vazias. Além da vitória de Michael Keaton, o filme de Alejandro González Iñarritu  recebeu o prêmio de melhor roteiro, fato que ressalta a forte polarização entre a obra e o filme de Linklater, que também concorria na categoria.

Leia também: Tempo é parâmetro absoluto para epifanias de “Boyhood”

"O Grande hotel Budapeste": a vitória do filme de Wes Anderson foi inesperada, mas não exatamente surpreendente (Foto: divulgação)

“O Grande hotel Budapeste”: a vitória do filme de Wes Anderson foi inesperada, mas não exatamente surpreendente
(Foto: divulgação)

O inglês “A teoria de tudo”, com o inesperado prêmio de melhor trilha sonora e a vitória de Eddie Redmayne entre os atores dramáticos também se destacou.

As categorias de animação e  filme estrangeiro não consagraram os favoritos, mas as vitórias de “Como treinar seu dragão 2” e do russo “Leviatã” não podem ser tomadas como surpreendentes.

As categorias de coadjuvantes, que já parecem definidas para o Oscar, viram o triunfo de Patricia Arquette e J.K Simmons, grande ator frequentemente despercebido que tem seu momento de glória em “Whiplash: em busca da perfeição”.

Atrizes

Amy Adams comprovou seu status de queridinha da HFPA ao vencer pelo segundo ano consecutivo na categoria de melhor atriz em comédia e musical. Depois de ganhar por “Trapaça” ano passado, ela repetiu a dose por “Grandes olhos”, de Tim Burton.

Entre as atrizes dramáticas, foi a vez de Julianne Moore prevalecer. Muitas vezes indicada, a atriz jamais tinha ganhado um Globo de Ouro. Assim como jamais ganhou um Oscar. Em 2015, será o ano de saldar essas dívidas para com essa grande atriz.

No geral, apesar da festa surpreendentemente chata, o Globo de ouro entregou o que prometia. Artistas à vontade, apesar do ar condicionado com problemas, e uma celebração honesta dos filmes e estrelas do ano.

Amy Adams e Julianne Moore nos bastidores do Globo de Ouro: o triunfo das ruivas (Foto: reprodução/instagram)

Amy Adams e Julianne Moore nos bastidores do Globo de Ouro: o triunfo das ruivas
(Foto: reprodução/instagram)

 

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sábado, 10 de janeiro de 2015 Análises | 16:08

Algumas conjecturas sobre o Globo de ouro deste domingo

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A temporada de prêmios no cinema entra em fase decisiva nesta semana com a entrega dos prêmios Globo de Ouro, no domingo,  Critic´s Choice Awards, na quinta-feira, e com o anúncio dos indicados ao Oscar, na mesma quinta. Favoritos serão consolidados, tendências confirmadas e muitos filmes e artistas se verão excluídos definitivamente da corrida pelo Oscar.

O Globo de Ouro deve confirmar neste domingo com os primeiros prêmios mais midiáticos a polarização que “Boyhood” e “Birdman” vêm experimentando. Mas “Selma”, filme que surgiu com forte presença entre a associação de correspondentes estrangeiros, que distribui o prêmio, não pode ser desprezado.

Entre os diretores, Richard Linklater (“Boyhood”) e Alejandro Gonzáles Iñarritu (Birdman) podem ser eclipsados pela força ascendente de Ava DuVernay, primeira negra indicada na categoria. Além do hype ser bom (e lograria um feito ao Globo de Ouro ainda inédito no Oscar), o trabalho de Ava é louvado pela crítica. Ademais, seria uma premiação estratégica se a tendência for pela pulverização dos prêmios entre os principais concorrentes, tônica comum no Globo de ouro nos últimos anos.

Em sentido horário: o líder em indicações "Birdman", o   azarão sólido "Selma", o celebrado "Boyhood" e o inglês tradicional "O jogo da imitação" (Foto: montagem sobre reprodução)

Em sentido horário: o líder em indicações “Birdman”, o azarão sólido “Selma”, o celebrado “Boyhood” e o
inglês tradicional “O jogo da imitação”
(Foto: montagem sobre reprodução)

Nas categorias de atuação já é possível apontar algumas certezas. É improvável que Julianne Moore não seja premiada neste domingo. Há a possibilidade bastante palpável de que ela repita o feito de Kate Winslet em 2009 e seja duplamente laureada, já que concorre por “Mapa para as estrelas”, entre as comédias, e “Para sempre Alice”, entre os dramas. De qualquer modo, a vitória mais provável é entre as atrizes dramáticas pelo trabalho em “Para sempre Alice”.

Jennifer Aniston (“Cake”), entre as atrizes dramáticas, e Emily Blunt, entre as cômicas, podem ser as pedras no meio do caminho de Moore em ambas as frentes.

Já entre os atores, Michael Keaton (“Birdman”) reina absoluto na categoria de comédia/musical. Difícil crer que outro senão ele seja o vencedor neste domingo. Mas Ralph Fiennes, por “O grande hotel Budapeste” pode ser aquela zebra que faz bem a toda a premiação.

Entre os atores dramáticos, o buraco é mais embaixo. Qualquer um dos cinco finalistas poderia levar o troféu. Mas os atores ingleses (Benedict Cumberbatch e Eddie Redmayne), lembrados pelas biografias “O jogo da imitação” e “A teoria de tudo”, parecem estar um passo à frente nesta contenda.

A disputa entre os coadjuvantes parece mais encaminhada. Se tudo correr conforme se imagina, Patricia Arquette (“Boyhood”) e J.K Simmons (“Whiplash: em busca da perfeição”) devem prevalecer.

Wes Anderson pode ser agraciado pelo roteiro de “O grande hotel Budapeste”, já que aqui reside a chance mais substancial de seu filme, em alta na temporada, ser premiado.

O polonês “Ida” deve ser apontado a melhor produção em língua estrangeira, mas não seria nenhuma surpresa se a vitória ficasse com o sueco “Força maior” ou o russo “Leviatã”.

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segunda-feira, 29 de dezembro de 2014 Análises, Filmes, Listas | 11:43

Retrospectiva 2014 – Os vinte melhores filmes do ano

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Para encerrar 2014 aqui no Cineclube, nada mais justo do que relembrar e honrar as melhores produções do ano. Não foi um grande ano para o cinema. O que não quer dizer que não tenhamos tido ótimos filmes lançados no país. Eram elegíveis para essa lista todas as produções lançadas comercialmente no Brasil entre 1º de janeiro e 25 de dezembro. Além, é claro, de filmes lançados diretamente em DVD´s ou na televisão, outrora vista como mídia menos interessante.

Há, natural e compreensivelmente, uma presença preponderante de produções norte-americanas na lista. Mas há espaço para Brasil, Polônia, Argentina, Grécia, Romênia e outras cinematografias que deram o que falar em 2014. Muita coisa boa ficou de fora. A subjetividade de toda lista surge aqui combinada com a objetividade que todo crítico de cinema deve perseguir. O que não extingue o caráter pessoal  da análise, dada a natureza da atividade crítica em si.

Inside Llewyn Davis - versão

Direção: Joel e Ethan Coen

Lançamento original: 2013

País: EUA

Os Coen revisitam território familiar ao retratar a jornada (majoritariamente enfadonha) de Llewyn Davis, um aspirante a cantor na cena nova-iorquina que via emergir o folk (gênero musical que consagrou Bob Dylan)com toda a sua força. Davis é um dos muitos expelidos do sonho americano que frequentam a filmografia dos Coen, mas o filme é um tour de force por se esmerar em um fiapo de história e ofertar grandes insights sobre a existência.

Clube de Compras Dallas 11

Direção: Jean-Marc Vallée

Lançamento original: 2013

País: EUA

Esqueça, se for possível, as fantásticas e oscarizadas atuações de Matthew McConaughey e Jared Leto. Esse misto de filme-denúncia com história de sobrevivência tem um coração do tamanho de um elefante. Com um roteiro acima da média e atores em estado de graça, Vallée fez um doloroso e importante filme sobre o surgimento atroz da Aids na América e a maneira desumana com que a indústria farmacêutica abordou a questão.

O passado - versão final 11

Direção: Asghar Farhadi

Lançamento original: 2013

Países: França/Irã

Não era fácil superar “A separação”, poderoso filme vencedor de vários prêmios que colocou Asghar Farhadi no mapa da cinefilia. Se não o faz, Farhadi falha com louvor. “O passado” expande o olhar investigativo do diretor sobre as reminiscências de nossas relações amorosas. Existe ética no amor? O sobressalto do amor é capaz de sobrepujar diferenças culturais? O debate ensejado por essa riquíssima obra não se esgota ao fim da sessão.

O homem duplicado  - versão final 1

Direção:  Denis Villeneuve

Lançamento original: 2013

País: Canadá

Essa adaptação certeira de José Saramago versa sobre a singularidade do indivíduo à sombra da sociedade. A formulação e reconhecimento da identidade, portanto, forma a matéria prima do filme de Villeneuve. Um professor à beira da depressão descobre um sósia e resolve segui-lo para saber mais sobre a curiosa situação. O despojamento estético da obra, a gravidade da inflexão proposta e o rigor da mise-em-scène tornam “O homem duplicado” um dos filmes mais inteligentes e desafiadores do ano.

Ida - versão final 1

Direção: Pawel Pawlikowski

Lançamento original: 2014

País: Polônia

Filmado em um preto e branco hipnotizante, essa história singela de uma freira que descobre ser filha de judeus perseguidos e mortos durante o regime nazista, estabelece um painel histórico sobre a Polônia que agonizou durante boa parte do século XX. “Ida” é daqueles filmes obrigatórios não só para quem gosta de cinema, mas para que percebe na sétima arte uma válvula contínua de reflexão e história.

 Instinto materno - versão final

Direção: Calin Peter Netzer

Lançamento original: 2013

País: Romênia

Equacionar um conflito geracional e familiar a um conflito de classes em uma Europa em decadência exige um diretor de pulsos fortes. Netzer alinhava essa trama na qual uma mãe se ressente do afastamento nada sutil de seu filho, mas que não hesita em mover mundos e fundos quando ele enfrenta a possibilidade de ir para a cadeia por homicídio culposo. A fita romena é um poderoso estudo as contradições humanas e um retrato desolador do poder desestabilizador do dinheiro.

Ninfomaníaca - versão final 11

Direção:  Lars Von Trier

Lançamento original: 2013/2014

Países: Dinamarca/Alemanha/França/Inglaterra

São dois volumes, mas trata-se, na verdade, de apenas um filme e assim “Ninfomaníaca” surge em nossa lista. O filme de sexo explícito de Lars Von Trier é, em sua essência, um estudo libertino e imaginativo sobre nossas angústias existências, refletidas como bem lembraria Freud, no sexo. O cineasta dinamarquês perpassa diferentes fetiches e obsessões, começa trabalhando com arquétipos e por fim dá voz a sua heroína, Joe, parra arrematar o mais deserotizado filme a abordar o sexo que o cinema já viu. Von Trier, a despeito de muitos desapontamentos, não queria distrair a audiência tão interessada em suas digressões.

 Sob a pele - versão final

Direção: Jonathan Glazer

Lançamento original: 2013

País: Inglaterra

O filme é hermético? Sim. É uma experiência estética intrigante? Também. É bom? Demais! “Sob a pele” é o que se convém classificar como filme difícil. Mas a obra de Jonathan Glazer é das mais brilhantes de 2014 no que propõe sobre o homem – como espécie –  e o meio. Scarlett Johansson faz uma alienígena que atrai homens com sua aparência para matá-los, mas aos poucos vai se afeiçoando pelo que nos caracteriza humanos. Filme de muitas camadas, permite interpretações a contento. É para ser descoberto, apreciado e redescoberto.

 Praia do futuro (versão)

Direção: Karim Aïnouz

Lançamento original: 2014

Países: Brasil/Alemanha

Um filme sobre impulsividade. Sobre assumir os próprios desejos. Sobre renúncia. Sobre tesão. Sobre ser homem. E sobre amar outro homem. “Praia do futuro”, novíssima obra-prima em só menor de Karim Aïnouz, opõe a cosmopolita Berlim à ensolarada Fortaleza como versões conflitantes do protagonista Nonato, defendido com a habitual entrega por Wagner Moura. Um filme que dá orgulho de dizer que é brasileiro.

 Nebraska -  versão final

Direção: Alexander Payne

Lançamento original: 2013

País: EUA

Um road movie banal no recorte que faz do extraordinário. Ou seria o contrário? Alexander Payne borra a noção de extraordinário e banal ao contar a história de um homem que já dá os primeiros sinais de senilidade em uma viagem para resgatar um prêmio que não existe. No meio do caminho, as pazes com o passado e com seu filho. Um filme belíssimo que resiste ao tempo e cresce de tamanho à medida que nos afastamos dele. Uma das grandes joias do ano nos cinemas brasileiros.

 Era uma vez em NY - versão final 11

Direção: James Gray

Lançamento original: 2014

País: EUA

Vamos começar falando pelo plano que fecha o filme. É a coisa mais fascinante e narrativamente eloquente feita por um diretor em muitos anos. O fecho de “Era uma vez em Nova York” potencializa essa história de tragédia e amor em uma Nova York mais parasita do que receptiva aos estrangeiros que buscam o sonho americano. Polonesa chega aos EUA e se vê obrigada a se prostituir para conseguir liberar sua irmã tuberculosa que ficou detida ao desembarcar nos EUA. Os arremedos do destino podem ser cruelmente poéticos é o que sugere esse poderoso filme de James Gray.

 Relatos selvagens - versão final 11

Direção: Damián Szifron

Lançamento original: 2014

País: Argentina

Nenhum filme combinou as tarefas de entreter e ensejar reflexão com tamanha astúcia e eficácia como este exemplar argentino, a maior bilheteria da história do cinema hermano.

Em seis inspirados episódios, Szifron tece comentários fortes e espirituosos sobre nossa sociedade – tudo a partir do pouco civilizado desejo de vingança. Humor, violência, tensão e drama se fundem a um todo que faz todo o sentido.

 Mesmo se nada der certo - versão final 11

Direção: John Carney

Lançamento original: 2014

País: EUA

Pense no filme mais saboroso do ano. Se você não pensou em “Mesmo se nada der certo” quer dizer que você não viu o filme mais saboroso do ano. John Carney reedita, com mais inspiração e uma bela dose de Keira Knightley, Mark Ruffalo e Adam Levine, a fórmula que já havia aplicado em “Apenas uma vez”, faz uma crítica bem sacada dos rumos da indústria musical e conta uma história agridoce sobre corações partidos, amor à música e Nova Iorque. Não tem como não amar!

 Miss violence - versão final2

Direção: Alexandro Avranas

Lançamento original: 2013

País: Grécia

Aborto, incesto e outros tipos de abuso familiar compõem o painel desse poderoso e chocante drama grego. Multipremiada, a fita de Avranas faz um retrato triste e pálido de uma Grécia caída em desgraça. As ruínas da civilização se refletem em uma família que tenta manter a aparência altiva, mas a câmera insiste em insinuar que há algo de muito errado submerso naquela rotina familiar que abraçou com estranha tranquilidade o suicídio de uma menina em seu aniversário de 11 anos. Nada nos prepara para as verdades que emergirão desse olhar intrusivo que dispensamos a essa família.

 Trapaça - versão final

Direção:  David O. Russell

Lançamento original: 2013

País: EUA

Não há personagens como nos filmes de David O. Russell. Em “Trapaça”, ambientando nos anos 70, eles buscam a reinvenção como combustível para uma vida plena. Cafona, exagerado, colorido, musicado e cheio de diálogos espertos,“Trapaça” é irresistível. É um filme verdadeiro com seus personagens e correto com a plateia. O entretenimento desta, ou qualquer mensagem, não se sobrepõem à jornada dos personagens. É bom cruzar com um filme destes de vez em quando. E que personagens!

Boyhood - versão final 11

Direção: Richard Linklater

Lançamento original: 2014

País: EUA

2014 talvez seja lembrado como o ano de “Boyhood” e, se vingar, será um bom rótulo cinéfilo para o ano. A produção de Richard Linklater é corajosa, esteticamente inovadora, narrativamente cativante, mas acima de tudo, é cinema bruto. De raiz. Acompanhamos a vida de um menino por doze anos. Simples assim. Mas são doze anos mesmo… Realidade e ficção se embaralham nesse misto de vanguarda e nostalgia que Linklater forjou. Ensimesmados, agradecemos!

 K

Direção: Dan Gilroy

Lançamento original: 2014

País: EUA

Qual a relação entre a deturpação do sonho americano e o sensacionalismo midiático? Talvez não haja nenhuma, mas talvez haja. “O abutre” certamente flerta com a possibilidade ao mostrar a súbita ascensão de um homem sem grandes ambições como cinegrafista de tragédias nas noites de Los Angeles. Um aterrorizante Jake Gyllenhaal dá o tom de um dos filmes mais subversivos e pungentes da temporada.

Ela - versão final

Direção: Spike Jonze

Lançamento original: 2013

País: EUA

Pode o grande romance do ano ser entre um homem e um sistema operacional? Pode sim! Mas “Ela” é muito mais do que isso. É um olhar tenro para nossa necessidade de conexão. Um vaticínio sobre esses tempos de solidão e uma deliciosa crônica sobre amar, não necessariamente sobre o amor – ainda que a relação seja intrínseca. “Ela” é cult, pop, inteligente, anacrônico, hi-tech , ficção científica e romance. Esse hibridismo bem adornado por Spike Jonze amarga e adoça como tudo que é realmente bom na vida.

 Garota exemplar - versão final

Direção: David Fincher

Lançamento original: 2014

País: EUA

Uma tenaz análise do casamento e de seus e efeitos sobre o individuo e sobre o casal ao longo dos anos no mesmo compasso que é uma crítica virulenta à sociedade do espetáculo. Tudo em ritmo de thriller. David Fincher, com sua elegância habitual, entrega outro filme maiúsculo com turns e subplots sempre impactantes e cativantes. Ben Affleck nunca esteve melhor e Rosamund Pike, mais assustadora. “Garota exemplar” é um filme salutar em todos os seus arranjos e dividendos.

 O lobo de Wall Sreet - versão final

Direção:  Martin Scorsese

Lançamento original: 2013

País: EUA

Uma obra-prima moderna. É um neoclássico. Adjetivos à parte, essa crônica da ganância insolvente alinhada por Martin Scorsese a partir de um caso real saído da Wall Street dos anos 90 é puro cinema de imersão. Da fotografia convidativa à alucinada atuação de Leonardo DiCaprio, “O lobo de Wall Street” transborda na tela com sua incorreção política, seus inúmeros “fuck” e o olhar potente de um cineasta no auge de sua forma.

Fotos: montagem sobre imagens de divulgação

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domingo, 28 de dezembro de 2014 Análises, Filmes | 16:12

Retrospectiva 2014 – Quais foram os principais temas do cinema no ano?

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Falou-se de amor, claro, em 2014. Mas o cinema recepcionou e abraçou outros temas tão complexos e multifacetados como o amor e outros que se fundem ou se distanciam dele.  Philippe Garrel, a quem coube o espólio da Nouvelle Vague, analisa o amor sob o prisma do ciúme, cuja escala e intensidade dividem opiniões no mesmo compasso em que o dito cujo se manifesta em “O ciúme”. Produções como o chileno “Gloria” abordam o amor sob uma perspectiva incomum. A do amor próprio. Cinquentona, a personagem título do filme, que estreou no Brasil em fevereiro, busca se amar mais, se respeitar mais e se ouvir mais do que se entregar aos homens com quem flerta de quando em quando.

Os brasileiros “Boa sorte” e “Latitudes”, este último um projeto estético tão interessante que merece menção posterior, abordam amores transversais. No primeiro, o encontro do jovem incompreendido que sente que não vive, com a moça cheia de arrependimentos próxima da morte, mas que sente tesão por viver. No segundo, o tempo e o espaço valsam com os sentimentos enquanto os protagonistas vivem uma história de amor não assumida em viagens por diversas cidades do mundo.

Finalmente, “Será que?”, estrelado pelo Harry Potter que cada vez mais vira Daniel Radcliffe, o dilema que assola muitos homens e mulheres. Será que eu e ela ficamos só na amizade mesmo?

O preto e branco frio de "O ciúme": o amor vai ao divã no cinema em 2014

O preto e branco frio de “O ciúme”: o amor vai ao divã no cinema em 2014

Dilema este que parece superado em ‘Os amigos”, outra perola nacional de 2014, que faz um elogio da amizade. Os personagens de Marco Rica e Dira Paes parecem ter superado este dilema. Parecem. Em “Mesmo se nada der certo”, os protagonistas (Keira Knightley e Mark Ruffalo) também parecem interessados um no outro, mas na verdade têm o incrível interesse pela música (e o coração partido) em comum. Dessa afinidade surge um filme que enfatiza a necessidade de se apreciar a vida.

O amor ainda rimou com tecnologia em 2014, com o lançamento de “Ela”, fábula romântica moderna de Spike Jonze. Nossa necessidade de conexão é tão profunda que nos apaixonarmos por um sistema operacional não é uma realidade distante. Assim como não é o debate acerca de drones aventado por José Padilha no remake que fez de “Robocop”. A fusão de homem e máquina e o alvorecer da inteligência artificial também são o cerne de “Transcendence – a revolução”. O filme é ruim, mas a discussão é boa.

Houston, nós temos um problema

Por falar em filme ruim, este foi o ano de “Interestelar”. A produção de Christopher Nolan pode ser ruim, mas não deixa de ser interessante. Além do mais, levou para o cinema a física e colocou teoria da relatividade, buraco de minhoca e outras “doideiras” em discussões de quem nem sequer gosta de ouvir que dois corpos não ocupam o mesmo lugar. A grande sacada de “Interestelar”, talvez, seja a solução desenhada por Nolan subliminarmente. A felicidade deve ser perseguida, mas é uma impossibilidade vivê-la. Woody Allen, de uma maneira completamente diferente, aperta o mesmo nervo em “Magia ao luar”. Allen questiona se vale a pena renunciar ao ceticismo de toda uma vida e abraçar a fé no oculto como forma de conquistar certa paz espiritual. Terry Gilliam também rabisca a física para produzir o mesmo comentário em “O teorema zero”, em que Christoph Waltz enlouquece à espera de um telefonema que lhe revelaria a razão da existência. Já em “Nebraska”, um homem comum, que levou uma vida pacata com mais erros do que acertos, resolve fazer uma longa viagem para resgatar um prêmio que não existe. Essa opção pela ilusão é um comentário certeiro do cineasta Alexander Payne sobre a impossibilidade de se ser feliz e dos mecanismos que desenvolvemos para nos ludibriar. “Trapaça” complementa o ensejado por “Nebraska” ao mostrar personagens que tentam se reinventar enquanto querem mais. Mais vida. Mais amor. Mais sucesso. Mais dinheiro. Mais tudo.

A solidão da hiperconectividade é destaque em "Ela"

A solidão da hiperconectividade é destaque em “Ela”

Já “Refém da paixão”, mostra uma mulher depressiva que começa a se interessar pelo homem que a faz refém em sua casa. Melodrama romântico, o filme de Jason Reitman mostra como o amor ainda é a senha para que muitas pessoas se considerem felizes.

O mesmo Jason Reitman, em “Homens, mulheres e filhos” observou como a internet recodificou algumas angústias humanas. No filme, que de certa forma se comunica com “Ela”, a tecnologia é uma fuga, uma janela para a alma. Mas internamente ainda corroemos.

Relações corroídas entre pais, filhos e irmãos, aliás, também deram o que falar nos dramas mostrados em diferentes intensidades no canadense “Mommy”, no americano “O juiz” e no belo japonês “Pais e filhos”.

 

A intimidade devassada

“Garota exemplar”, seguramente um dos highlights do ano, é um filme com muitas camadas. É o mais brilhante e perturbador retrato sobre o casamento que o cinema viu em muito tempo. É, também, uma crítica espirituosa das traquinagens da mídia e da sociedade do espetáculo. Nesse departamento, outros ótimos filmes lançados em 2014 compõem um panorama ainda mais avassalador. São eles “O abutre”, “Tudo por um furo” e “O mercado de notícias”.

Mas quem aprecia “Garota exemplar” pelo ótimo insight que proporciona sobre o matrimônio merece assistir “O passado”, incursão pelo cinema francês do iraniano Asghar Farhadi.

Ben Affleck em "Garota exemplar": um casamento devassado

Ben Affleck em “Garota exemplar”: um casamento devassado

Os dois filmes investigam os efeitos da passagem do tempo sobre a intimidade conjugal e a passagem do tempo é o parâmetro absoluto de duas obras esteticamente inovadoras que ensolararam 2014. “Boyhood – da infância à juventude” e “Amantes eternos”. O primeiro, filmado ao longo de 12 anos, embaralha realidade e ficção em uma narrativa que transborda sentimento e familiaridade. Já o segundo, mostra o desencanto de dois milenares vampiros com os rumos da humanidade.

Desencanto parece ser a palavra de ordem que une três das produções mais fortes e marcantes do ano. Lá de janeiro, “O lobo de Wall Street”, com sua incorreção política e descaramento em nos falar verdades incômodas, encontra referência em “O abutre” e “Era uma vez em Nova York” no sentido dos três alinharem uma deturpação do sonho americano.

Um tema que se fez notar com desenvoltura rara em 2014 nos cinemas foi a masculinidade. À parte os brucutus de “Os mercenários 3”, o que é ser homem foi a matéria prima de filmes tão diversos como “A recompensa”, com o melhor monólogo sobre um pênis já feito no cinema, e “Tudo por justiça”, em que os códigos masculinos são revistos com interesse antropológico. Já no argentino “O que os homens falam”, a ideia é sublinhar essa tendência masculina de se mostrar mais vulnerável. Esse intento também se verifica em “Praia do futuro”, que erroneamente é percebido apenas como “um filme gay”. Não há uma personagem feminina no filme e o objetivo primário é debater a maneira como o homem, homossexual ou heterossexual, lida com o afeto.

O mundo essencialmente masculino de "O lobo de Wall Street", novo petardo de Martin Scorsese sobre o desvirtuamento do sonho americano

O mundo essencialmente masculino de “O lobo de Wall Street”, novo petardo de Martin Scorsese sobre o desvirtuamento do sonho americano

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sábado, 20 de dezembro de 2014 Análises, Bastidores, Curiosidades | 05:27

Coreia do Norte e Hollywood: um caso de desamor

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O King Jong-Un, vivvido pelo ator Randall Park, de "A entrevista": filme que enseja o clímax de uma relação de desdém que já se intensificava

O King Jong-Un, vivido pelo ator Randall Park, de “A entrevista”: filme que enseja o clímax de uma relação de desdém que já se intensificava

Reza a lenda que King Jong-Un, o líder supremo e excêntrico da Coreia do Norte tão em voga atualmente, herdou de seu pai, King Jong-il, o gosto pelo cinema. Além da amizade com o ex-astro do basquete Dennis Rodman, ele seria fã de Keanu Reeves e um tremendo Bondmaníaco. Seu pai ainda ocupava o poder quando o 007 de Pierce Brosnan enfrentou um lunático norte-coreano que desejava dominar o mundo em “007 – Um novo dia para morrer” (2002), aquele em que Madonna canta a música tema e dá aulas de esgrima.

O filho pode não ter o senso de humor do pai ou mesmo a tolerância à sátira, mas já era o supremo mandatário do País quando Hollywood acertou outro petardo contra o status quo norte-coreano. O diretor Antoine Fuqua (“Dia de treinamento” e “O protetor”) lançou em abril de 2013, em plena tensão na península coreana que movimentou a geopolítica da região e pôs o mundo em alerta com as ameaças de King Jong-Un em lançar mísseis contra Japão, Coreia do Sul e EUA, o filme “Invasão a Casa Branca”, que ficou inexplicavelmente sem a crase. Na trama, Gerard Butler faz um agente do serviço secreto que move mundos e fundos para resgatar o presidente dos EUA (Aaron Eckhart) feito refém de terroristas norte-coreanos que invadiram em questão de minutos, de maneira cinematográfica, o maior símbolo do poder ocidental.

Como curiosidade, um dos terroristas do filme é vivido pelo mesmo Rick Yune que faz um dos vilões de “Um novo dia para morrer”. Talvez King Jong-Um não tenha se incomodado tanto com “Invasão a Casa Branca”, porque embora os coreanos sejam derrotados, em nenhum outro filme hollywoodiano terroristas tinham ido tão longe na destruição do símbolo máximo do poder ianque. “Independence Day” (1996), por razões óbvias, não conta.

Especulações à parte, a Coreia do Norte vinha superando a Rússia – desde a eclosão da Guerra Fria a tradicional nação vilã nos filmes hollywoodianos – no antagonismo geopolítico do cinemão.

Leia mais: “É loucura deixar a Coreia do Norte ditar o conteúdo”, diz Clooney

O primeiro indício dessa tendência estava em “Salt”, (2010), fita de ação estrelada por Angelina Jolie, em que ela faz uma agente da CIA acusada de ser uma espiã russa. O detalhe? O filme começa com Jolie sendo torturada em uma prisão norte-coreana.

Rick Yune, o maior terrorista norte-coreano de Hollywood, encara Aaron Eckhart em "Invasão a Casa Branca"

Rick Yune, o maior terrorista norte-coreano de Hollywood, encara Aaron Eckhart em “Invasão a Casa Branca”

Halle Berry se une ao James Bond de Pierce Brosnan para impedir seguir o rastro de Rick Yune no filme de 2002

Halle Berry se une ao James Bond de Pierce Brosnan para seguir o rastro de Rick Yune no filme de 2002

A mira na Coreia à espera da recíproca

Um filme obscuro de 1984 com Charlie Sheen e Patrick Swayze sobre um grupo de estudantes que é a última resistência à invasão soviética em solo americano ganhou uma refilmagem em 2011. A ideia era trocar os russos pelos chineses. Com o filme pronto, o estúdio MGM percebeu que a Coreia do Norte, pelo exotismo e pelo mistério, daria um antagonista melhor e deu mais U$ 1 milhão para o diretor Dan Bradley redublar os vilões, mudar uns símbolos aqui e ali e fazer com que chineses virassem norte-coreanos. O filme estreou em 2013, um ano após “Os vingadores” e se beneficiou de Chris Hemsworth, que quando rodou o filme era um ilustre desconhecido, ser um astro famoso por viver o herói Thor.

Outro blockbuster hollywoodiano elegeu a Coreia do Norte como alvo. Em “G.I Joe: Retaliação”, um farsante que se passa pelo presidente dos EUA diz que bombardeará a Coreia do Norte “15 vezes seguidas só para ter certeza”. Trata-se de uma piada, de gosto duvidoso, mas uma piada. Piada esta que o filme “A entrevista” eleva à décima potência. O filme, cujo roteiro foi escrito a partir de uma ideia de Seth Rogen e Evan Goldberg (eles escreveram perolas da cultura pop como “Superbad – é hoje” e “Segurando as pontas”), mostra dois jornalistas despirocados que recebem da CIA a missão de assassinar King Jong-Un.

A Coreia do Norte já havia condenado o filme, mas negado com veemência qualquer participação nos cyber ataques contra o estúdio Sony. O FBI confirmou nesta sexta-feira (19) que o governo da Coreia do Norte teve papel central nas ofensivas contra a Sony.

Leia mais: Obama diz que Sony “cometeu um erro” ao cancelar estreia de “A entrevista”

Veja também: FBI diz que Coreia do Norte está por trás de ataque de hackers contra a Sony

Ainda é incerto o desfecho deste imbróglio que rapidamente se transformou em um vexatório episódio de cerceamento à liberdade de expressão e caminha para se assumir como o incidente diplomático que desde os primeiros ataques hackers estava destinado a ser. A Sony, naturalmente, estuda estratégias de capitalizar com toda a repercussão que “A entrevista” vem recebendo. O lançamento em plataforma digital, como foi aventado aqui neste Cineclube minutos depois da confirmação de que “A entrevista” não seria lançado nos cinemas americanos, ganha força como alternativa para o estúdio e para a restituição de algumas bases da liberdade de expressão. Após a fala de Obama, do posicionamento do FBI e de toda a agitação diplomática que deve se suceder, mesmo um lançamento em cinema não pode ser descartado.

Seth Rogen, que também dirige o filme, orienta James Franco e sua versão de King Jong-Um

Seth Rogen, que também dirige o filme, orienta James Franco e sua versão de King Jong-Un

O pai de King Jong-Um era o grande vilão da sátira "Team America": ele não achou ruim... (Fotos: divulgação)

O pai de King Jong-Un era o grande vilão da sátira “Team America”: ele não achou ruim…
(Fotos: divulgação)

A reação de Hollywood como um todo tem sido de espanto, incredulidade e receio pelo que a decisão da Sony pode representar nas esferas artística, comercial e democrática. O Sonygate, como já vem sendo carinhosamente chamado todo esse imbróglio, certamente já é mais interessante do que qualquer filme hollywoodiano da temporada.

De qualquer forma, vale o registro de que em 2004 os criadores de “South Park”, Trey Parker e Matt Stone, lançaram “Team America: detonando o mundo”, filme em que uma equipe tática formada por policiais americanos tenta salvar o mundo de uma violenta conspiração terrorista liderada por King Jong-il. George Clooney, Matt Damon e Ethan Hawke foram algumas das estrelas entre o time de dubladores das marionetes.

Eram outros tempos. Talvez King Jong-Un seja mais ambicioso que seu pai. Rejeitou qualquer traço de humor, superou os russos do lado de cá das telas e resolveu medir forças de verdade com Hollywood. Por enquanto, para infortúnio de quem se atém a valores democráticos e gosta de cinema, ele está ganhando.

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quarta-feira, 17 de dezembro de 2014 Análises | 05:00

Retrospectiva 2014 – Cinema nacional cresce e aparece

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Se não foi um ano de grandes arroubos de bilheterias e de produções celebradas em festivais de cinema e círculo de críticos, o ano de 2014 mostrou que o cinema brasileiro – a despeito das constantes e desfavoráveis comparações com o cinema argentino – amadureceu mais nos âmbitos estético, narrativo e temático.

Leia também: Brasil tem circuito exibidor de cinema desequilibrado, mas regular é a solução?

Como imaginado, as maiores arrecadações do ano são comédias, mas o Brasil ofertou a seu público um grande número de produções autorais e filmes de gênero. Foram 96 lançamentos – contabilizadas as estreias de “A noite da virada”, “O segredos dos diamantes” e “Os cara de pau em o misterioso roubo do anel”, em 2014. Menos do que o recorde de 120 alcançado em 2013, mas um número de fôlego invejável. Os dados são da Ancine e do portal Filme B.

Mais invejável do que o número de produções lançadas é a qualidade da variedade apresentada. Filmes como “Quando eu era vivo”, “Latitudes”, “jogo de xadrez”, “Entre nós”, “Confia em mim”, “O lobo atrás da porta”, “Hoje eu quero voltar sozinho”, “Praia do futuro”, “Causa e efeito”, “O homem das multidões”, “Uma dose violenta de qualquer coisa” e “O mercado de notícias” consolidaram uma produção cinematográfica diversa, provocante e cuja evolução estética e narrativa pode ser percebida com facilidade.

Fernanda Machado e Mateus Solano em cena de "Confia em mim": suspense  aliado à gastronomia em filme incomum na cena nacional

Fernanda Machado e Mateus Solano em cena de “Confia em mim”: suspense aliado à gastronomia em filme incomum na cena nacional

Bruno Gagliasso em cena de "Isolados": o Brasil apostou no cinema de gênero em 2014

Bruno Gagliasso em cena de “Isolados”: o Brasil apostou no cinema de gênero em 2014

O cinema de gênero foi inegavelmente o destaque do ano. No Brasil, filmes como “Quando eu era vivo”, “Confia em mim”, “Isolados” e “O lobo atrás da porta” ainda são raridade, mas a qualidade desses filmes sugere que o cenário deve mudar em breve.

Coproduções como “Rio, eu te-amo”, “A oeste do fim do mundo” e “Trash – a esperança vem do lixo” indicam um país que está se abrindo para parcerias que podem e devem levar o cinema brasileiro para horizontes ainda inexplorados. Além de incrementar a maneira como se produz cinema por aqui.

Os documentários nacionais brilharam em 2014 e merecem um destaque à parte. Filmes como “Cuba libre”, “Sem pena”, “Ilegal”, “Esse viver ninguém me tira”, “Brincante”, entre tantos outros oxigenam um gênero que começa a ser mais apreciado pelo brasileiro.

Há, porém, que se reiterar o alerta sobre alguns vícios. Ainda que bem-sucedida comercialmente, uma produção como “Alemão”, que já tem sequência garantida, repisa convenções de um tipo de cinema que o Brasil precisa desaprender a fazer. As comédias histriônicas continuam ocupando a preferência do público e já começam a desgastar a relação de diretores com produtores, distribuidores e, por que não, com o próprio público como atesta essa ótima matéria da repórter Luísa Pécora.

Se contarmos a partir do ano de 1994, considerado o marco inicial da retomada do cinema brasileiro, nosso cinema chega aos 20 anos com os vícios, conflitos e virtudes da idade. Ao futuro, a promessa de estabilidade e reconhecimento.

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