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Arquivo da Categoria Análises

domingo, 31 de julho de 2016 Análises, Filmes | 07:00

Pressionado, “Esquadrão Suicida” detém o futuro da DC nos cinemas

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Esquadrão (4)Não é segredo nenhum que “Esquadrão Suicida” é um dos filmes mais aguardados do ano. Na semana do lançamento do filme nos cinemas de todo o mundo, parece válido dispensar um olhar sobre o que representa, afinal, a produção milionária da Warner Bros.

A ideia de se produzir um filme sobre o Esquadrão ronda os corredores do estúdio desde 2008, quando o Coringa de Heath Ledger impressionou o mundo em “Batman – O Cavaleiro das Trevas”. Contudo, foi o cineasta David Ayer quem formalizou uma proposta para o estúdio e recebeu o sinal verde.

Ayer, que escreveu o excelente roteiro de “Dia de Treinamento” (2001), construiu uma carreira como cineasta com thrillers essencialmente urbanos como “Reis da Rua” (2008) e “Tempos de Violência” (2005). “Corações de Ferro” (2014), seu último filme antes de mergulhar de cabeça em “Esquadrão Suicida”, já sinalizava mais ambição. Mas é o filme baseado nos vilões da DC Comics que deve levar Ayer a outro patamar em Hollywood.

Leia mais: Foi difícil retratar sociopatia de minha personagem, diz Viola Davis sobre “Esquadrão Suicida”

A Warner, que não revela o orçamento do filme, também aposta alto na produção. Sob “Esquadrão Suicida” pairam as expectativas do estúdio de ter um verão lucrativo, já que “A Lenda de Tarzan” e “Invocação do Mal 2” vão bem, mas não vão maravilhosamente bem para competir com titãs como “Guerra Civil” e “Procurando Dory” e garantir alguma competitividade no ano. Há quem calcule que o filme – somado o extensivo gasto com o marketing – consumiu cerca de US$ 200 milhões do estúdio. É compreensível o investimento. A Warner não conseguiu obter os efeitos, financeiros e de prestígio, pretendidos com “Batman Vs Superman: A Origem da Justiça” e sabe que o universo DC no cinema depende do sucesso de “Esquadrão Suicida”. Mais: da percepção de sucesso! “Batman Vs Superman” faturou mais de US$ 870 milhões globalmente, mas foi percebido como um fracasso. Em parte devido às críticas pouco amistosas; em parte porque teve um orçamento parrudo e não beijou a marca do US$ 1 bilhão, que virou rotina para a concorrente Marvel.

O cineasta David Ayer orienta Will Smith no set

O cineasta David Ayer orienta Will Smith no set

“Esquadrão Suicida” é, portanto, o que pode dar liga ao universo DC no cinema ou forçar a Warner a uma nova reavaliação de curso. A apresentação do estúdio na Comic-Con, no último fim de semana, fez crer que o filme faz por merecer o otimismo que desperta.

Convém lembrar, porém, que a despeito de David Ayer dizer em entrevistas que “fez o filme que queria e com plena liberdade”, a produção passou por refilmagens. Segundo boatos circulados na imprensa de entretenimento dos EUA, para inserir mais humor. A sombra da Marvel, como se pode observar, ainda é muito grande e o recente trailer de “Liga da Justiça” atesta isso mais do que qualquer outra coisa.

Mas “Esquadrão Suicida” não é um game changer, como dizem os americanos, apenas para David Ayer, a Warner e para os heróis (ou vilões) da DC Comics. Will Smith, que quando gozava do status de maior astro de Hollywood no início da década passada dizia que jamais faria outro filme baseado em HQ (ele já havia estrelado MIB e suas sequências), vê em “Esquadrão Suicida” a principal válvula de sua reengenharia de carreira.

Mais do que reencontrar o sucesso, Smith precisa recuperar sua credibilidade como astro de cinema. Por isso, dividir a responsabilidade com Jared Leto e Margot Robbie é uma estratégia acertada. O bônus, no entanto, paga tanto quanto o risco e Smith corre menos risco por não ser a grande atração do filme.

O Coringa de Leto desperta grandes expectativas (Foto: divulgação)

O Coringa de Leto desperta grandes expectativas
(Foto: divulgação)

Outro ângulo a se considerar é o fator marketing. Nenhum lançamento hollywoodiano nos últimos cinco, seis anos, contou com uma campanha tão intensa e multifacetada. “Deadpool”, um dos hits de 2016, fez um bom marketing nas redes sociais, mas nada que se compare ao desse filme. David Ayer usou muito bem o Twitter para isso. “Esquadrão Suicida” foi o carro-chefe da Warner em suas duas últimas participações na Comic-Con e os trailers sãos os melhores que o cinema pode ofertar.

A espera pelo filme foi longa. Quase três anos desde que foi anunciado. O marketing alimentou uma expectativa absurda e bem sabemos que a expectativa pode ser a mãe da decepção. “Esquadrão Suicida” chega pressionado como nenhum outro filme em 2016. É um fator que pode ser decisivo para o bem ou para o mal.

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quarta-feira, 27 de julho de 2016 Análises, Bastidores, Filmes | 20:33

“O Bom Gigante Amigo” fecha um ciclo e dá início a outro na carreira de Steven Spielberg

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eeeSteven Spielberg lançou “E.T – O Extraterrestre”, um de seus filmes mais famosos, no mesmo ano da primeira publicação de “O Bom Gigante Amigo”, de Roald Dahl. É coincidência, mas não deixa de provocar certo encantamento. Não é coincidência, porém, que o cineasta volte a trabalhar com a roteirista Melissa Mathison, com quem colaborou em “E.T”, justamente na adaptação da obra de Dahl para o cinema.

“O Bom Gigante Amigo” é, sob muitos aspectos, algo novo para Spielberg. É seu primeiro filme britânico, dos atores à ambientação, passando pelas locações e pelo tom. É, também, em 50 anos de carreira, seu primeiro filme para a Disney. Não obstante, é a primeira vez que Spielberg e seu diretor de fotografia habitual, Janusz Kaminski, aderem ao digital.

Leia mais: Coração de “O Bom Gigante Amigo”, Ruby Barnhill é nova descoberta de Spielberg

“O Bom Gigante Amigo” é a segunda adaptação da obra de Dahl a ganhar os cinemas pela Disney. A primeira foi “James e o Pêssego Gigante” em 1996. É um projeto que fala ao coração do homem por trás de sucessos como “Jurassic Park”, “Tubarão”, “O Resgate do Soldado Ryan” e “Guerra dos Mundos”.  Não à toa, Spielberg perseguiu o projeto por anos a fio com a sua Dreamworks, mas direitos autorais e licenças viabilizaram essa até então inédita colaboração entre o diretor de “Hook : A Volta do Capitão Gancho” e o estúdio de Mickey Mouse.

O filme debutou em Cannes e não causou nenhuma sensação. Tratando-se de Spielberg, a recepção na Riviera francesa foi até fria. A bilheteria seguiu o norte apontado pelo festival francês.  Nos EUA, onde estreou em 21 de junho, o filme fez pouco mais de US$ 50 milhões, o que o coloca como um dos poucos, e mais escandalosos, fracassos da carreira do cineasta. Para quem foi criança nos anos 80, essa estatística pouco importa. “O Bom Gigante Amigo” é um Steven Spielberg sem medo de ser feliz e, justamente por isso, oitentista até a alma.

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terça-feira, 26 de julho de 2016 Análises | 06:00

Plural e nostálgica, “Stranger Things” é o melhor que a cultura pop tem a oferecer em 2016

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Cena de "Stranger Things": os anos 80 estão de volta

Cena de “Stranger Things”: os anos 80 estão de volta

Vai ser difícil surgir algo mais atraente, sofisticado, divertido, inteligente e, vá lá, nostálgico em 2016 do que “Stranger Things”, série original do Netflix que provoca grande comoção nas redes sociais mundo afora.

A série criada pelos irmãos Duffer, donos de um currículo minguado com apenas um ou outro crédito no cinema independente e alguns roteiros da série “Wayward Pines”, resgata a psicologia e atmosfera do cinema dos anos 80. Não somente isso como se materializa em uma ode àquela década por meio de referências visuais, sonoras, elementares e narrativas.

Ambientada em Montauk, Long Island, a trama se inicia com o desaparecimento misterioso de Will Byers (Noah Schnapp). Sua mãe Joyce, papel que recupera Winona Ryder do ostracismo, e seus amigos Mike (Finn Wolfhard), Lucas (Caleb McLaughlin) e Dustin(Gaten Matarazzo) dão início a buscas paralelas à perpetrada pela polícia, e pelo delegado Jim Hopper (David Harbour). Todos mergulham em um extraordinário mistério, envolvendo um experimento secreto do governo, forças sobrenaturais e uma garotinha muito estranha. Essa garotinha, chamada Eleven é um dos grandes sabores da série. Interpretada com espantosa habilidade por Millie Bob Brown, Eleven rapidamente nos cativa e torna toda a experiência de se assistir “Stranger Things” ainda mais saborosa.

As referências pipocam a mil. Dos filmes de John Hughes aos de John Carpenter, passando por filmes seminais como “E.T – O Extraterrestre” (1982) e “Contatos Imediatos de Terceiro Grau” (1977), resvalando em produções como “Alien – O Oitavo Passageiro” (1979), “O Labirinto do Fauno” (2006), “Poltergeist” (1982) e “Conta Comigo” (1986). Este último, épico infanto-juvenil dirigido por Rob Reiner, se revela uma das linhas-mestras de “Stranger Things”; ao lado, talvez, de “Os Gonnies” (1985). Isso, claro, está tangenciado nas relações do grupo de amigos mirim, todos nerds e vítimas de bullying que se amarram no sobrenatural.

 

Stranger things - 3Nenhuma outra obra em 2016, no cinema ou na TV, fez tão bom uso da música como “Stranger Things”. Em entrevista ao site Salon, os responsáveis pela trilha da série, Kyle Dixon e Michael Stein, disseram que o cinema dos anos 80 foi uma influência suprema no processo. A trilha que nos faz gelar a espinha parece algo saído de um filme de Nicolas Winding-Refn (“Drive”). “Os Duffer queriam que a música fizesse grande parte do show”, diz Dixon. “As demos do início da nossa carreira se ajustavam ao tom pretendido por eles”, acrescenta Stein. “Isso ajudou a pavimentar o nosso caminho”.

A resolução da trama, embora razoavelmente previsível, é apenas um detalhe em “Stranger Things”, essa série com sabor de matinê e vocação para tanto mais. É uma crônica voraz sobre maternidade, um delicioso romance no estilo “garoto conhece garota”, um thriller cheio de clima, uma trama de mistério, uma ode aos anos 80, uma série sobre camaradagem, entre tantas outras definições possíveis.

A qualidade da série se sustenta, em última análise, na elaboração equilibrada deste adorável pastiche. Qualquer que seja o ângulo que se enquadre “Stranger Thrings”, a série funciona e entrega. Essa pluralidade é justamente o que faz da produção do Netflix algo tão singular.

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quinta-feira, 7 de julho de 2016 Análises, Filmes, Notícias | 19:57

“Julieta” é filme de sutilezas entremeado por grandes cargas dramáticas

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Foto: divulgação

Foto: divulgação

Novidade do circuito comercial brasileiro neste fim de semana, “Julieta”, novo longa de Pedro Almodóvar, é seguramente um dos melhores filmes do ano. Para quem gosta do cineasta espanhol, seu retorno ao melodrama deve ser comemorado. “Julieta”, que originalmente se chamaria “Silêncio”, emprestando o nome de um dos contos de Alice Munro no qual o filme se baseia, pertence a mesma categoria almodovariana de produções como “Tudo Sobre Minha Mãe”, “Volver” e “Abraços Partidos”, alguns dos filmes mais ressonantes da última fase melodramática do espanhol.

O nome mudou porque o novo Scorsese – a ser lançado no final do ano – também se chama “Silêncio” e Almodóvar foi cortês o suficiente para ceder a primazia sobre o título ao colega americano.

Mais uma vez nos deparamos com uma personagem feminina forte, mas oprimida pelo masculino. O feminismo em Almodóvar surge mais sutil, convicto e reverberante do que tínhamos memória. O espanhol retoma alguns cânones de seu cinema e a relação entre mãe e filha é a força motriz do longa. Julieta (vivida por Emma Suárez e Adriana Ugarte em diferentes fases da vida) foi abandonada por sua filha. Sem uma justificativa sequer. A personagem, que conviveu com a culpa por boa parte de sua vida e seu viu refém de processos de luto mal elaborados, parece ter aprendido a conviver com essas fraturas da alma quando a encontramos. Mas não sabemos que fraturas são essas. E é justamente no desvelo desse drama plenamente almodovariano que “Julieta” vai ganhando intensidade e beleza. É um filme de sutilezas entremeadas por cargas dramáticas muito potentes. É um espetáculo cinematográfico que poucos cineastas no mundo são capazes de oferecer. Um deles é Almodóvar. Vale a visita ao cinema.

Leia a crítica do filme: Almodóvar retorna à grande forma ao unir luto e culpa no melodrama “Julieta”

Assista a uma cena inédita do filme em que a protagonista revela sua gravidez.

 

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sábado, 18 de junho de 2016 Análises, Bastidores, Filmes | 20:17

Fracasso de continuações acende sinal de alerta em Hollywood

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É público e notório que Hollywood está cada vez mais dependente das sequências e franquias. Muito já se falou da falta de criatividade que assombra a Meca do cinema e do receio exacerbado de executivos e estúdios em apostar no incerto e correr riscos com filmes originais. O que esse primeiro semestre de 2016 revela, no entanto, é ainda mais preocupante. Na ânsia para surfar em sucessos não necessariamente retumbantes, Hollywood tem ofertado continuações que ninguém quer ver. É uma crise insuspeita e inesperada essa que se estabelece no coração do cinema americano.

Megan Fox em cena de "As Tartarugas Ninja: Fora das Sombras", em estreia no Brasil: bilheterias decepcionantes (Foto: divulgação)

Megan Fox em cena de “As Tartarugas Ninja: Fora das Sombras”, em estreia no Brasil: bilheterias decepcionantes
(Foto: divulgação)

“Vizinhos 2”, “Alice Através do Espelho”, “O Caçador e a Rainha do Gelo”, “As Tartarugas Ninja: Fora das Sombras” e “Policial em Apuros 2” são sequências diretas de filmes lançados entre 2012 e 2014 que, se não fracassaram retumbantemente nas bilheterias, ficaram bem aquém das expectativas dos estúdios. Em uma temporada que sequências e franquias são os principais atrativos do cinema americano, como em qualquer outro ano, esse dado preocupa bastante.

A lista de sequências de desempenho pífio ainda conta com “Zoolander 2”.

Mesmo um filme como “A Saga Divergente: Convergente”, com um público já fidelizado, decepcionou nas bilheterias. A frustração foi tão grande que a Lionsgate, estúdio por trás da franquia, reduziu o orçamento da última parte da adaptação cinematográfica da obra de Veronica Roth.

O ano ainda terá um quinto “A Era do Gelo”, um segundo e temporão “Independence Day”, uma refilmagem de “Os Caça-Fantasmas” só com mulheres, um quinto Bourne, uma improvável sequência de “Procurando Nemo” e um novo “Star Trek”. O vigente verão americano apresenta uma queda de 65% de bilheteria em relação ao ano passado. Os números, claro, ainda não estão fechados e até o fim de agosto muita coisa pode e vai mudar. Mas existe uma tendência clara e, muito provavelmente, irrefreável nas entrelinhas.

Cena de "Zoolander 2": Muitas estrelas em cena e pouco dinheiro em caixa (Foto: divulgação)

Cena de “Zoolander 2”: Muitas estrelas em cena e pouco dinheiro em caixa
(Foto: divulgação)

O público não vai mais aceitar goela abaixo sequências enlatadas e produzidas a toque de caixa. Um exemplo disso é a bilheteria decepcionante de “X-men: Apocalipse”. O filme recebeu resenhas ruins e em cartaz há praticamente um mês, ainda não cruzou os U$ 500 milhões de faturamento no mundo e não deve nem mesmo alcançar os U$ 200 milhões nos EUA.

Há muitas razões contribuindo para este cenário. A preponderante, obviamente, é a qualidade baixa dos filmes em questão. Em um segundo momento, Hollywood não tem deixado o público sentir falta, nostalgia de certos filmes. O que ajuda a entender o fenômeno de bilheteria de produções como “Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros” e “Star Wars: O Despertar da Força” no ano passado é o longo hiato entre os filmes dessas franquias.

Uma boa sequência será abraçada pelo público, como mostra o sucesso de “Invocação do Mal 2”. A continuação de um filme recente, o primeiro é de 2013, que se mostrou o ponto fora da curva e já se pagou no primeiro fim de semana nos EUA.

Leia também: O mal (ainda invisível) que a Marvel fez ao cinema

De qualquer modo, Hollywood se flagra em uma sinuca. Enquanto estúdios tentam emplacar multiversos em suas franquias mais valiosas, mirando-se no exemplo da Marvel, veem o desgaste de sequências mal planejadas e liberadas a canetadas. Como equilibrar a equação? A receita é conhecida, mas filmes novos (que não são continuações ou refilmagens) como “Dois Caras Legais” e “Warcraft – O Primeiro Encontro de Dois Mundos” também fracassaram nas bilheterias. A aversão ao risco em Hollywood pode ter gerado uma bolha que, quando explodir, vai causar estragos.

"Invocação do Mal 2": a exceção de uma nova regra? (Foto: divulgação)

“Invocação do Mal 2”: a exceção de uma nova regra?
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segunda-feira, 23 de maio de 2016 Análises | 18:05

Júri toma partido de filmes repudiados pela crítica e polemiza com prêmios em Cannes

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Foto: divulgação/Cannes

Foto:AFP

Divulgados neste domingo, os premiados da 69ª edição do Festival de Cinema de Cannes provocaram um inesperado anticlímax. Além de vaiado pela imprensa na coletiva que tinha como objetivo justificar suas escolhas, o júri presidido pelo cineasta australiano George Miller foi classificado como mais esquizofrênico e bizarro dos últimos anos na croisette.

Isso porque as escolhas do júri, todas francamente surpreendentes, divergiram frontalmente dos favoritos da crítica. Não é a primeira vez que isso acontece. Na realidade, acontece quase sempre.  Mas poucas vezes se viu uma percepção do que deve ser premiado tão distinta. Esse ruído, que passa pela pouca cortesia de muitos jornalistas que vaiaram a achacaram muitos filmes e artistas em competição, ganhou proporções inéditas em 2016.

Pegue o caso de Xavier Dolan. O jovem cineasta canadense, uma das crias de Cannes, é desses casos de ame ou odeie. Seu novo filme, “Juste La fin Du Monde” foi execrado pela crítica com tanta virulência que provocou um bate-boca, em pleno festival, entre Dolan e seus detratores. O cineasta questionou a função e a competência da crítica para julgar a arte. No fim das contas, o júri lhe outorgou o Grande Prêmio do Júri, espécie de segundo lugar. Ele já havia ganhado o Prêmio do Júri em 2014 como “Mommy”. Detalhe: esta foi sua segunda participação na competição oficial em Cannes.

A ausência de filmes festejados pela crítica em meio aos premiados sugere uma ruptura deliberada entre júri e crítica. Foram muitos os filmes laureados pela crítica (“Elle”, “Paterson”, Toni Erdmann”, “Aquarius”, “Loving”, “Ma Loute” e “The Handmaiden”). Nenhum deles figurou no rol dos premiados. Mesmo filmes que polarizaram opiniões, como “Julieta” de Almodóvar e “The Neon Demon”, de Nicolas Winding Refn saíram de mãos abanando. Já filmes considerados ruins pela crítica, foram premiados como “American Honey”, “Personal Shopper”, “Ma Rosa” e o já citado filme de Dolan. Mesmo o vencedor da Palma de Ouro, o britânico Ken Loach, “I, Daniel Blake” não era apontado como um sério concorrente.

A percepção geral é de que era um filme mediano do britânico. Talhado da mesma energia e viés político, mas de arranjo muito convencional para um prêmio esteta como a Palma de Ouro. Foi o segundo triunfo de Loach em Cannes e deixou transparecer toda a sua surpresa.

Outra decepção foi ver que em um ano com forte apelo feminino na riviera francesa, com três filmes dirigidos por mulheres e alguns dos favoritos da crítica centrados em figuras femininas, houve tão pouco apreço à diversidade de gênero.

Escolhas polêmicas fazem parte do contexto de um festival de cinema e de júris tão ecléticos e heterogêneos como o são tradicionalmente nesses eventos. Mas a intensidade da seleção de 2016 talvez pedisse mais ousadia e menos corporativismo.

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segunda-feira, 9 de maio de 2016 Análises, Bastidores, Notícias | 07:00

Cannes começa nesta semana sua 69ª edição com forte presença latina

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Almodóvar, ao fundo, no set do aguardado drama "Julieta" Foto: divulgação

Almodóvar, ao fundo, no set do aguardado drama “Julieta”
Foto: divulgação

Depois de alguns anos em segundo plano, a latinidade promete ecoar forte na 69ª edição do Festival de Cannes, que acontece entre 11 e 22 de maio, na França. Brasil, Chile, Argentina e Espanha terão presença maciça no principal festival de cinema do mundo nas mostras competitiva e paralelas.
Sem dúvida, o retorno mais esperado é o do espanhol Pedro Almodóvar, com “Julieta”. A última vez do cineasta espanhol em Cannes foi em 2011 com o genial terror “A Pele que Habito”. É o quinto longa-metragem que o cineasta espanhol apresenta em competição no festival francês, onde estreou em 1999 com “Tudo Sobre Minha Mãe”, quando ganhou o prêmio ao melhor diretor.

O Brasil volta a disputar a Palma de Ouro com “Aquarius”, estrelado por Sonia Braga e dirigido por Kleber Mendonça Filho, de “O Som ao Redor”. Trata-se de uma ficção científica com pegada de filme social. A curiosidade pelo filme é imensa.

O ator Javier Bardem é outra atração do ano. Dirigido por Sean Penn e fazendo par com Charlize Theron em “The last face”, um drama sobre trabalhos humanitários na África.

Leia também: Presença do Brasil em Cannes, com “Aquarius”, reflete edição forte e equilibrada

Fora de competição, estará o espanhol Albert Sierra, com o audacioso “A morte de Luis XIV”, um dos monarcas mais icônicos da França.

Foto: Divulgação

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E em uma sessão especial será exibido “Hands of Stones”, sobre a vida do lendário boxeador panamenho Roberto “Mão de Pedra” Durán. A exibição do filme faz parte de uma homenagem do festival a Robert De Niro. Mas o protagonista, Edgar Ramírez, e o diretor, Jonathan Jakubowicz, são venezuelanos.

Na Quinzena dos realizadores, dois consagrados cineastas chilenos ganham destaque: Pablo Larraín e Alejandro Jodorowsk.

Larraín levará sua esperada visão de “Neruda”, onde narra um período pouco conhecido da vida do poeta chileno, quando foi perseguido pelo governo de Augusto Pinochet. Luis Gnecco, que já trabalhou com o diretor em “No”, interpreta Neruda, e o mexicano Gael García Bernal, Oscar Peluchoneau– o detetive que realizou a investigação.

Jodorowsky promete surpreender de novo com “Poesia sem fim”, filme que completa “A dança da realidade”, já exibido em Cannes, e protagonizado por Leandro Taub.

Na mesma mostra estreará o curta brasileiro “Abigail”, de Isabel Penoni e Valentina Homem.

A Argentina contará com os jovens Francisco Márquez e Andrea Cabeza na seção Um Certo Olhar, com “A longa noite de Francisco Sanctis”, uma obra dramática ambientada na Argentina do ditador Videla.

Cena do filme "Neruda" Foto: divulgação

Cena do filme “Neruda”
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sábado, 7 de maio de 2016 Análises, Atores, Bastidores | 17:33

Após aposentar Homem-Aranha, Andrew Garfield se reinventa como ator em Hollywood

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Foto: reprodução/Eonline

Foto: reprodução/Eonline

Há uma máxima em Hollywood de que há bons atores e há atores com bons agentes. Mas nem tudo é tão preto no branco assim e um caso exemplar disso é o americano Andrew Garfield. Prestes a completar 33 anos, Garfield já tem ares de veterano em Hollywood após aposentar-se do papel de Peter Parker/ Homem-Aranha. O ator deu vida ao personagem no reboot da franquia pela Sony nos filmes “O Espetacular Homem-Aranha” (2012) e “O Espetacular Homem-Aranha 2 – A Ameaça de Electro” (2014).

Ator com insuspeitos recursos dramáticos, Garfield debutou roubando a cena de Robert Redford, Meryl Streep e Tom Cruise em “Leões e Cordeiros” (2007), um drama que objetivava problematizar os obscuros anos Bush que mergulharam os EUA em intermináveis guerras no Oriente Médio. “Não me Abandone Jamais” e “A Rede Social”, ambos de 2010, foram filmes que mostraram todo o potencial de Garfield como intérprete. Para além do carisma, ali estava um ator capaz de navegar entre a vulnerabilidade do personagem e a potência dramática do registro. Alguém que podia submergir em uma situação para surgir renovado na cena seguinte. Uma presença de cena, enfim, robusta e fornida que assaltava a atenção da plateia.

Não foi à toa que ele foi a primeira opção da Sony para assumir o papel até então defendido por Tobey Maguire. Mas a saga do Aranha no cinema, apesar de Garfield ter sido o único acerto indiscutível dessa reimaginação, não foi positiva para o ator. Durante o período em que foi o Aranha, o americano se afastou daquele caminho que estava construindo no cinema. Quando a Sony resolveu reiniciar novamente a história do Aranha no cinema, agora com Tom Holland, Garfield se viu libertado de um paradoxo.  Este que o aferia status de astro, mas o afastava de projetos de pedigree.

Leia também: Temos um Homem-Aranha, e agora?

Scorsese e Garfield: curadoria de Scorsese transformou carreira de DiCaprio

Scorsese e Garfield: curadoria de Scorsese transformou carreira de DiCaprio

“Silence”, novo e aguardadíssimo filme de Martin Scorsese, e “Hacksaw Ridge”, nova incursão de Mel Gibson na direção, que chegam no final deste ano nos EUA, já estavam em seu radar quando ele ainda era o Aranha, mas nesta semana o ator acertou detalhes para estrelar dois novos e promissores projetos.

São eles “Breathe”, que marcará a estreia de Andy Serkis na direção, e “Under the Silver Lake”, novo longa de David Robert Mitchell, responsável por um dos grandes filmes de 2015, “Corrente do Mal”.

A colaboração com cineastas prodigiosos, consagrados ou revelações, é imperiosa para que um ator desenvolva mais e mais seus recursos e fundamentos. Mais importante ainda, é eleger projetos que permitam exercitar sua musculatura dramática. Garfield é bom ator, mas Hollywood é capciosa e exige constante convalidação de predicados. O americano, por meio de suas escolhas, parece mais consciente disso do que nunca.

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quinta-feira, 28 de abril de 2016 Análises, Críticas, Filmes | 17:17

Ao despir seus personagens de simpatia, “A Frente Fria que a Chuva Traz” rejeita o óbvio no cinema

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Desde o lançamento de “Cidade de Deus”, as favelas ficaram pop no cinema brasileiro. A ideia de discutir a fetichização das favelas passou a ser uma espécie de fetiche do cinema nacional. Filmes como “Cidade dos Homens” (2007) e “Era uma Vez” (2008) são emblemáticos dessas circunstâncias. “A Frente Fria que a Chuva Traz”, baseado em peça homônima de Mário Bertolotto, é mais urgente na abordagem que faz desse deslocamento urbano e social e econômico na construção de sua mise-en-scène.

O filme, que marca o retorno de Neville d´Almeida à direção depois de um hiato de quase 18 anos, dá verniz a esse conceito de fetiche ao expor a natureza hedonista de jovens abastados que se apropriam do espaço da favela por pura diversão. Sutilmente, com o préstimo do afiado texto de Bertoloto, Neville agrega a solidão e receios de outra ordem à equação.

Em cena, há mais do que o desejo do rico de abusar do pobre e do pobre de absorver o rico. Há mais do que a banalização do sexo nos arremedos do jogo social. Não á toa, logo em um dos primeiros diálogos, um personagem admite ter se cagado enquanto desacordado após um porre daqueles. Neville entrega de cara a sua audiência um fato que logo ganhará forma nas pirocas e cús pronunciados a rodo: estamos diante de um cinema transgressivo. Transgredir, para Neville d´Almeida, é recusar a perplexidade. É rejeitar o marasmo que vassala os personagens em cena e que começa a incomodar Amsterdã, magnificamente interpretada por Bruna Linzmeyer. Pobre e viciada, ela se infiltra entre os ricos que curtem a favela como um clube particular e por eles é tratada com a curiosidade e atenção dispensada a um pet.

É o olhar desencantado, mas também cínico, de Amsterdã para todo aquele universo de porcelana que movimenta os melhores momentos de “A Frente Fria que a Chuva Traz”.

A hipersexualização, no filme, é mais um sintoma desse atrito entre classes antagônicas e conflitantes, do que um veículo de expressão da fase da vida desses jovens. Nesse contexto em particular, a opção por não mostrar cenas de sexo em um filme quase todo ele sexualizado, resulta na transgressão maior de Neville: acuar o público em seu próprio desejo desalojado.

O impacto do filme reside majoritariamente aí. No apontamento de quão deslocadas estão as expectativas. As nossas e a de todos os personagens em cena. O prenúncio da frente fria, afinal, desestabiliza tudo e todos.

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quarta-feira, 27 de abril de 2016 Análises, Críticas, Filmes | 15:28

Superlativo e humano, “Capitão América: Guerra Civil” é o filme que a Marvel estava devendo

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Vamos tirar o elefante da sala. “Capitão América: Guerra Civil” é o filme que os fãs de HQs merecem e que os fãs do universo cinematográfico da Marvel esperavam. O que não quer dizer que seja o melhor filme da Marvel ou mesmo a melhor produção estrelada por super-heróis. Tanto continuação de “Capitão América: Soldado Invernal”, como sequência natural de “Vingadores: A Era de Ultron”, “Guerra Civil” só funciona plenamente para quem estiver inteirado do universo cinematográfico da Marvel, afastando a ideia de experiência plenamente satisfatória que um filme deve despertar individualmente. Isso não é um problema, apenas uma contextualização para início de conversa.

“Guerra Civil” é superlativo. Se permite ser o auge deste universo em constantes evolução e expansão que é o da Marvel e seu maior trunfo é justamente o equilíbrio com que tudo acontece e é apresentado ao espectador. O acirramento político que opõe Steve Rogers (Chris Evans) e Tony Stark (Robert Downey Jr.) não se sobrepõe às angústias que mobilizam esses personagens. Os conflitos emocionais ganham surpreendente relevo em personagens com menos destaque em cena, como T´Challa (Chadwick Boseman), o Pantera Negra, que debuta aqui antes mesmo de ganhar seu filme solo, prometido para 2018.

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Joe e Anthony Russo não são competentes apenas na arquitetura visual de “Guerra Civil”, e o filme é deslumbrante das coreografias de lutas às cenas de ação mais “super”, mas na sensibilidade com que fazem deste filme cheio de arestas e personagens algo coeso e vívido. “Guerra Civil” nunca deixa de ser um filme do Capitão América, mas é, também, um produto Marvel com DNA daqueles crossovers que fan boys tanto se amarram. Todos os personagens têm momentos para chamar de seu e com atores calibrados como Robert Downey Jr.,Elizabeth Olsen, Paul Bettany, Don Cheadle e Scarlett Johansson, o filme ganha nesses momentos de respiro, insuspeita humanidade.

Os Russo conseguiram nivelar, ainda, o humor típico das produções Marvel – que aqui ganha força e propulsão com a boa participação do Homem-Aranha (Tom Holland já parece veterano na pele de Peter Parker) – com o indefectível aspecto sombrio que move essa sequência.

O tom político e a discussão sobre vigilantismo talvez não alcancem o ponto dramático necessário, ou mesmo o possível, mas a primeira hora de “Guerra Civil” é das coisas mais empolgantes surgidas nas adaptações de HQ desde “O Cavaleiro das Trevas” (2008). Ali se enraíza uma discussão complexa e profunda que excede os limites do cinema de gênero. Mas o tratamento é apenas como ponto de partida para algo maior, no caso, a fase 3 da Marvel no cinema. Novamente, não há nenhum problema nisso. Trata-se de uma opção narrativa em um cenário macro, como é o universo da Marvel. Opções estas que, aliadas às restrições que a Marvel tem no cinema em relação aos personagens de seu catálogo, também respondem pelas diferenças entre a guerra civil do cinema e a da saga nas HQs.

Aqui o ponto que opõe Rogers e Stark é se os vingadores devem ou não responder a ONU. Há, sim, garantias individuais em jogo, mas não no escopo da série das HQs, em que o governo cobrava que todos os super-heróis revelassem suas identidades. De qualquer forma, o estupor político é suficientemente inflamatório para gerar grandes repercussões entre amigos que compartilham de ideais bastante similares.

No fim das contas, “Capitão América: Guerra Civil” é o filme que a Marvel estava devendo desde que ascendeu ao centro da cultura pop mundial. Pode não significar nada, mas em um momento que a Warner sai a campo com os personagens da DC, significa muita coisa.

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