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quarta-feira, 13 de janeiro de 2016 Análises, Notícias | 14:01

Grupo chinês compra estúdio hollywoodiano e movimenta jogo dos tronos do cinema

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Legendary

O Grupo chinês Wanda, controlado pelo multibilionário Wang Jianlin, prepara os últimos ajustes de um negócio que promete mudanças no médio e longo prazo no jeito de se produzir cinema em Hollywood e de se consumir Hollywood na China.

A compra do estúdio Legendary Pictures, especializado em produções de ação e atualmente com parceria celebrada com a Universal Pictures, já está acertada. Por U$ 3,5 bilhões, “a maior aquisição internacional da China no setor cultural até o momento”, como definiu Jianlin, deve movimentar as placas tectônicas do negócio chamado cinema.

Primeiro porque a Legendary, dona de um catálogo que inclui a trilogia do Batman de Christopher Nolan, “Jurassic World”, a trilogia “Se Beber não Case”, entre outros, é um estúdio que costuma produzir hits atrás de hits. Trata-se, portanto, de um senhor player para ser o cartão de visitas chinês em Hollywood. A Legendary investe em projetos estratégicos e essa característica deve ser estrategicamente mantida. É, também, uma forma da China – com uma indústria de cinema incipiente – adquirir mais know-how em soft power, e por consequência desenvolvê-lo, a partir da vivência in loco em Hollywood, grande vitrine do soft power americano.

Por outro lado, estabelece-se um canal para lá de dilatado entre Hollywood e China. Vale lembrar que no país asiático há uma cota de produções estrangeiras que podem estrear nos cinemas do país – algo em torno de 60 produções ao ano – e Hollywood, de olho no bilhão de potenciais espectadores, não poderia estar mais insatisfeito com essa condição. Todas as produções da Legendary serão creditadas como coproduções entre China e EUA, driblando, portanto, essa cota.

A discussão sobre a censura, outra particularidade deste país capitalista nas proposições econômicas, mas de regime socialista em seu escopo político, é uma discussão secundária. Pelo menos neste momento em que Hollywood vê nascer a primeira grande chance de penetrar com força no cinema chinês.

Visto à luz deste novo contexto, fica mais fácil entender porque “Jurassic World”, que há pouco perdeu seus recordes para “Star Wars: O Despertar da Força”, foi lançado simultaneamente nos EUA e na China, e o filme de J.J Abrams só pintou nas salas chinesas no 1º fim de semana de janeiro. O que indica que os chineses, assim como Hollywood, não entraram neste jogo para perder.

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terça-feira, 12 de janeiro de 2016 Análises, Filmes | 17:03

“Os Oito Odiados” é um Tarantino inconformista

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Cena de "Os Oito Odiados":  um filme erguido pelo desejo de resistência

Cena de “Os Oito Odiados”: um filme erguido pelo desejo de resistência

Principal estreia deste fim de semana, “Os Oito Odiados” é, também, o oitavo filme do badalado cineasta Quentin Tarantino. Em novembro, o cineasta esteve em São Paulo para divulgar o filme e comentou sobre suas principais motivações para rodar “Os Oito Odiados”.

Vale lembrar que logo depois do vazamento do roteiro do filme, Tarantino ameaçara abandonar o projeto. Voltou atrás. “Era uma primeira versão”, disse sobre o texto vazado em uma roundtable da qual a coluna participou.

Tarantino disse, ainda, que seu desejo de contribuir para o gênero do western norteou a feitura do filme. “Dizem que com três filmes você já pode ser considerado um diretor de westerns. Me falta um”, observou o autor de “Django Livre” (2012).

“Os Oito Odiados” mostra um Tarantino mais dominante dos códigos do western, mas também um inconformista. Trata-se de um filme de resistência. Não há mocinhos em cena e o passado escravagista da América, o olho no furacão de “Django Livre”, é uma sombra poderosa na construção da mise-en-scène aqui.

“Os Oito Odiados” é, sob muitos aspectos, uma crônica pessimista sobre a humanidade – e reparem no destino do único personagem não odiável em cena. É, também, um exercício de estilo dos mais referendados do roteirista Tarantino. Pouco modesto, o próprio entende ser seu melhor roteiro. De fato, é possível identificar nas bem elaboradas cenas de ‘Os Oito Odiados” as referências aos outros filmes do cineasta. É o triunfo da palavra. Nunca se falou tanto em um filme de Tarantino e os diálogos já são tidos como a especialidade da casa.

O mais teatral dos seus filmes, talvez escancare o desejo de Tarantino de se desapegar do cinema e enveredar-se pelas outras artes, como a literatura e o teatro. “Os Oito Odiados” funciona muito bem como cinema, mas talvez seu impacto como um romance, ou como uma montagem, fosse maior; mais perene. Essa inquietação, que se transfere do autor para o público que o acompanha como um mestre em sua arte, palpita em “Os Oito Odiados” como a carta de Abraham Lincoln o faz para com os personagens do filme.

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segunda-feira, 11 de janeiro de 2016 Análises, Críticas | 14:20

Globo de Ouro renuncia condição de prévia do Oscar e tenta formalizar influência em 2016

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Iñárritu e DiCaprio: noite de consagração inesperada de "O Regresso"

Iñárritu e DiCaprio: noite de consagração inesperada de “O Regresso”

Pode ser apenas uma impressão, mas a sensação é de que a Hollywood Foreign Press Association (HFPA), que outorga os prêmios Globo de Ouro, desencanou de vez da alcunha de ser a mais eloquente prévia do Oscar. Tudo bem que a temporada está impregnada de um bem-vindo mistério em termos de favoritos, mas as escolhas do Globo de Ouro se não são anticlimáticas, pouco contribuem para a consolidação de um ou outro frontrunner na disputa.

Dessas maquinações do destino, “O Regresso”, filme que Alejandro González Iñárritu disse que deveria ser assistido em um templo, viu sua candidatura ao Oscar ganhar um boom. O filme teve desempenho tão surpreendente no Globo de Ouro quanto no box office americano em que em seu primeiro fim de semana com circuito expandido mediu forças com “Star Wars” e faturou impressionantes U$ 38 milhões. Nada mal para um filme praticamente silencioso e um pouquinho hermético. Com três prêmios (filme em drama, ator dramático e direção), “O Regresso” será a maior prova de influência do Globo de Ouro na temporada do Oscar em anos.

Em um ano sem grandes comédias, a HFPA resolveu premiar uma ficção científica que faz bom uso do humor para incrementar sua narrativa. “A Grande Aposta” é muito mais filme, mas a escolha de “Perdido em Marte” não deixa de ser correta –  ainda que seja bem estranha sua inclusão nesta categoria.

Nas categorias de atuação, os aplausos de pé a Leonardo DiCaprio mostraram que sua jornada em busca de um Oscar angaria mais simpatizantes e, nesse sentido, a HFPA – que já lhe deu três prêmios – merece os sinceros agradecimentos de Leo. Brie Larson (“O Quarto de Jack”) é o nome que sai mais forte do Globo de Ouro porque já dividia as atenções com Saiorse Ronan (“Brooklyn”) e seu triunfo é o único que parece dizer algo na temporada.

Que Stallone estará na lista do Oscar que será divulgada na próxima quinta-feira já parece certo, sua vitória, no entanto é outra história. A categoria de ator coadjuvante é a mais embaralhada e historicamente a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood tem resistência em premiar atores sem pedigree dramático. O hype em cima de Stallone, no entanto, tende a aumentar exponencialmente.

Kate Winslet (“Steve Jobs”) deve ficar por aqui mesmo. A categoria de atriz coadjuvante, com os acréscimos de Rooney Mara (“Carol”) e Alicia Vikander (“A Garota Dinamarquesa”) deve ganhar outra forma no Oscar.

O apreço da HFPA por “seus bispos de sempre” também se manifestou nas vitórias de Aaron Sorkin em roteiro – nem remotamente próximo do nível dos textos de “Spotlight” e “A Grande Aposta” – e Jennifer Lawrence em “Joy”.

Após o Globo de Ouro 2016, a única certeza que se tem é de que a corrida pelo Oscar está mais aberta do que nunca.

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domingo, 13 de dezembro de 2015 Análises, Filmes | 19:45

Como fica a corrida pelo Oscar 2016 depois das listas do SAG e do Globo de Ouro?

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Nesta segunda-feira serão conhecidos os indicados ao 21º Critic´s Choice Awards, que, para todos os efeitos, tem sido o prêmio periférico com melhor aproveitamento em antecipar os vencedores do Oscar nas principais categorias.  De qualquer maneira, a última semana foi decisiva em determinar o jeitão da corrida daqui para frente.

Essa definição, no entanto, se deu de uma maneira menos definitiva do que muitos esperavam. Desde a pré-largada, ou seja, ali no clímax dos festivais outonais de Veneza e Toronto, se sabia que seria uma temporada de premiações com foco nas interpretações e que não haveria um filme de favoritismo consolidado.

Na falta deste, “Spotlight – Segredos Revelados” assumiu o protagonismo. O SAG e o Globo de Ouro confirmam que “Spotlight” é, de fato, um dos principais players da temporada, mas acusam que esse protagonismo pode já estar se esgotando. O fato do elenco do filme não ter tido indicação no Globo de Ouro e de ter tido um espaço menor do que o esperado no SAG são preocupantes para a produção de Tom McCarthy.

Cena de "Spotlight": filme perde força em momento de definição de quem está no páreo  (Foto: divulgação)

Cena de “Spotlight”: filme perde força em momento de definição de quem está no páreo
(Foto: divulgação)

Por outro lado, “Mad Max: Estrada da Fúria”, que parecia uma aposta improvável se assevera como um contender sério. Outro blockbuster de peso, “Perdido em Marte”, ainda que não tenha sido contemplado pelo SAG, calhou bem com a HFPA; o que deve ajudar na campanha do filme rumo às indicações ao Oscar.

Interessante observar que desde que estabeleceu a possibilidade de ter até dez filmes entre os indicados a melhor produção do ano, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood sempre penou para acolher algum blockbuster. Não parecer ser o caso em 2015. Há, ainda, “Star Wars: O Despertar da Força” que, salvo o fato de ser especialmente ruim, pode se juntar ao balaio.

Entre os filmes que mais cresceram nesta semana estão “Trumbo: Lista Negra” e “A Grande Aposta”. O primeiro é um filme sobre Hollywood e Hollywood tem se mostrado bem condescendente consigo mesma como atestam os recentes triunfos de “O Artista” e “Argo”. Trata-se de um filme de ator, com uma pegada política ressonante no senso cívico da comunidade. Um filme que cresce na hora certa.

Já “A Grande Aposta” foi uma aposta de última hora da Paramount que decidiu antecipar o lançamento do filme para tentar um slot em uma temporada sem grandes favoritos. Deu certo. Dirigido com sagacidade insuspeita por Adam McKay e com um elenco no auge, o filme esgarça a crise financeira que assolou a América em 2008 com inteligência e agudeza. Tem tudo para emplacar no Oscar. Foi bem contemplado no SAG e no Globo de Ouro, onde colide com “Perdido em Marte”, da Fox.

Trata-se, portanto, de um ano em que os estúdios parecem bem munidos para enfrentar os independentes, que se arregimentam fundamentalmente em “Carol” e “O Quarto de Jack”.

Iñárritu foi ao Oscar com todos os seus filmes e a máxima devem continuar com "O Regresso"

Iñárritu foi ao Oscar com todos os seus filmes e a máxima devem continuar com “O Regresso”

“O Regresso” não parece reunir a mesma força de “Birdman”, o filme que deu o Oscar a Alejandro González Iñárritu no ano passado. Mas a falta de candidatos consolidados e o prestígio do mexicano devem garantir o acesso da produção aos principais Oscars. Vencer já é oura história.

O novo de David O. Russell, “Joy: O Nome do Sucesso” deve ficar pelo Globo de Ouro. O filme parece não ter provocado o mesmo maravilhamento das últimas produções do cineasta.

Atuações

A categoria de ator ganha forma. Difícil crer que Eddie Redmayne (“A Garota Dinamarquesa”), Bryan Cranston (“Trumbo: Lista Negra”) e Leonardo DiCaprio (“O Regresso”) não estejam no Oscar. Michael Fassbender (“Steve Jobs”) também parece quase assegurado. Johnny Depp (“Aliança do Crime”), Steve Carell (“A Grande Aposta”), Matt Damon (“Perdido em Marte”) e Michael Caine (“Juventude”) também estão na briga.

A categoria de atriz está mais aberta. As indicações ao Globo de Ouro mais confundem do que ajudam a ler a situação. Isso porque Rooney Mara, por “Carol”, e Alicia Vikander, por “A Garota Dinamarquesa”, estão inscritas como coadjuvantes no Oscar, apesar de concorrerem como atrizes principais nos Globos.

Cate Blanchett (“Carol), Saoirse Ronan (“Brooklyn”) e Brie Larson (“O Quarto de Jack”) são certezas. Jennifer Lawrence (“Joy”) pode parecer uma possibilidade distante, mas em face dessa desinformação pode ganhar votos preguiçosos e entrar na lista final. Lily Tomlin (“Grandma”) e Blythe Danner, também conhecida como a mãe de Gwyneth Paltrow, por “I´ll see you in my dreams”,  estão angariando muitos elogios nas rodinhas certas.

Sarah Silverman, por “I Smile Back”, a grande surpresa da lista do SAG, pode ganhar força nessa reta final.

Para os coadjuvantes masculinos, a grande incógnita é se o elenco de “Spotlight” vai receber amor por parte da academia. Isso poderia embaralhar a ascensão de nomes como Sylvester Stallone (“Creed”) e Michael Shannon (“99 homes”), pouco comentados antes dessa semana decisiva.

Mark Rylance (“Ponte dos Espiões”) e Idris Elba (“Beasts of No Nation”) parecem bem colocados na disputa.

Entre as mulheres, Kate Winslet, por “Steve Jobs”, Helen Mirren, por “Trumbo”, Vikander e Mara são certezas. A última vaga pode ser preenchida tanto por Jane Fonda (“Juventude”) ou Jennifer Jason Leigh (“Os Oito Odiados”).

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quinta-feira, 10 de dezembro de 2015 Análises, Críticas | 20:24

Crítica dos indicados ao Globo de Ouro 2016

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CarolComo de hábito, a HFPA, que outorga os prêmios Globo de Ouro, passou longe da unanimidade, mas sua seleção de melhores de 2015 no cinema e na televisão também passou longe de ser merecedora de restrições e desagravos.

“Carol”, que no Brasil será distribuído pela Mares Filmes, confirmou sua condição de independente do ano – ensejada pela boa recepção no festival de Cannes e se consolidou no topo da disputa com cinco indicações. É, também, um reflexo de um ano em que a produção de estúdio mais forte é um blockbuster autoral, o exuberante e calculadamente caótico “Mad Max – A Estrada da Fúria”.

Na sequência figuram “Steve Jobs”, “O Regresso” e “A Grande Aposta” com quatro nomeações cada.

As maiores surpresas residem na área de televisão. Mas elas são mais barulhentas do que efetivamente surpreendentes. “Narcos” é mais novidade do que “House of Cards”, ciosa de uma esperada decadência. Por isso, a presença da série – e de Wagner Moura – faz sentido em face do histórico da associação de correspondentes estrangeiros de Hollywood com novos programas. “Mr. Robot’, por seu turno, impôs-se na disputa como o programa mais comentado e elogiado da temporada. Não à toa, lidera a corrida no segmento televisivo.

iG ON: Confira a lista completa dos indicados ao Globo de Ouro 2016

Voltando ao cinema, chama a atenção a presença de “Spotlight – Segredos Revelados”, percebido como um filme de atores, em categorias como filme drama, diretor e roteiro, mas sem um membro sequer do elenco indicado. Em termos de Globo de Ouro isso não quer dizer necessariamente menor chance de vitória, mas é um indício de que apesar de largar na frente na corrida pelo Oscar, o filme não abriu distância.

A presença de “Mad Max” entre os melhores dramas não chega a ser uma surpresa, mas sua opção em detrimento de produções mais ajustadas ao gosto das premiações como “Steve Jobs”, “A Garota Dinamarquesa” e mesmo “Ponte dos Espiões” denota que o primeiro passo para se vencer o preconceito com blockbusters é ter um bom blockbuster para começo de conversa. O filme de George Miller é o primeiro desde “Batman – O cavaleiro das Trevas” (2008) a preencher os requisitos.

Apesar do aparente protagonismo de “Carol”, a disputa parece se concentrar entre os filmes que protagonizaram os dois últimos parágrafos.

Entre as comédias, “A Grande Aposta” – até pelo número de indicações avantajado para as comédias em disputa – parece gozar de muito favoritismo. “Perdido em Marte”, um dos filmes mais celebrados do ano – por mais estranho que seja sua figuração entre as comédias – pode ser seu maior rival.

A contenda entre os diretores parece desequilibrada a favor de George Miller (“Mad Max”). O que ele fez é realmente incrível e merecedor de prêmios. Mais do que o Oscar, o Globo de Ouro costuma responder pontualmente a isso. Mas Iñárritu já se encaixava no perfil ano passado, por “Birdman”, e a HFPA sentiu que a dedicação de Richard Linklater ao projeto “Boyhood” carecia de um reconhecimento mais altivo. Pelo não menos impactante “O Regresso”, pode ser a vez de Iñárritu.

“Cinquenta Tons de Cinza”, “Velozes e Furiosos 7”, “Shaun, o Carneiro”, “Steve Jobs”, “A Garota Dinamarquesa” e “O Quarto de Jack”: Os filmes da Universal na disputa

“Cinquenta Tons de Cinza”, “Velozes e Furiosos 7”, “Shaun, o Carneiro”, “Steve Jobs”, “A Garota Dinamarquesa”
e “O Quarto de Jack”: Os filmes da Universal na disputa

Se houve algum ranço de decepção nessa lista do Globo de Ouro, ela jaz entre os filmes estrangeiros. A seleção não é especialmente ruim, mas fica alguns degraus abaixo do desejado em face dos filmes que estavam na briga. Na configuração que está, fica difícil apostar em qualquer outro candidato que não “O Filho de Saul”, da Hungria.

O novo filme de Quentin Tarantino, “Os Oito Odiados” se viu contemplado nas categorias de roteiro, trilha sonora e atriz coadjuvante. O mesmo deve se replicar no Oscar.  A briga pelo prêmio de roteiro, no entanto, parece ser entre “A Grande Aposta” e “Spotlight”.

Atuações

O maior destaque recai definitivamente sobre a ausência de Johnny Depp. Não que seu trabalho em “Aliança do Crime” seja maior que a vida, mas trata-se de sua melhor atuação desde “Sweeney Todd”, pelo qual ganhou o Globo de Ouro em 2008. Vale lembrar que ele foi indicado pelo contestado “O Turista”. Mas não se pode reclamar dos atores dramáticos selecionados pela HFPA. Michael Fassbender (“Steve Jobs”), Bryan Cranston (“Trumbo: Lista Negra”), Leonardo DiCaprio (“O Regresso”),  Will Smith (“Um Homem entre Gigantes”) e Eddie Redmayne (“A Garota Dinamarquesa”) reúnem unanimidade em torno de seus trabalhos. Algo que não pode ser desprezado em um ano tido como menor para os intérpretes masculinos.

Já do lado cômico, a sensação é de baderna. A HFPA foi resgatar trabalhos de Mark Ruffalo e Al Pacino do início do ano, nada especialmente fantástico, para contornar um sentimento de vazio na disputa. Christian Bale e Steve Carell, ambos de “A Grande Aposta”, devem ver a vitória de Matt Damon, que carrega “Perdido em Marte” sozinho e é, francamente, o único prêmio que o filme merece (já que o roteiro não foi indicado).

Western de vanguarda: Há muito mais do que alcançam os olhos em "Estrada da fúria" (Foto: divulgação)

Western de vanguarda: Há muito mais do que alcançam os olhos em “Estrada da fúria”
(Foto: divulgação)

Brie Larson (“O Quarto de Jack”) e Alicia Vikander (“A Garota Dinamarquesa”) brigam pelo troféu de atriz dramática. Cate Blanchett e Rooney Mara devem ficar nas indicações por “Carol”.

No lado cômico, talvez seja o momento de Amy Schumer (“Descompensada”), cada vez mais em alta nos EUA. Mas Jennifer Lawrence (“Joy”) é sempre um perigo. Mas ela já tem dois prêmios. Há quem pense que já é muito para o que apresentou.

Para encerrar, a briga entre “Anomalisa” e “Divertida Mente” promete ser boa pelo prêmio de melhor animação. São dois dos melhores filmes do ano. Podiam muito bem figurar nas duas categorias principais.

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segunda-feira, 23 de novembro de 2015 Análises | 18:52

Com espólios de guerra, “Jogos Vorazes” reina entre franquias teen

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Principal estreia do último fim de semana no Brasil e no mundo, “A Esperança – O Final” encerra uma das franquias jovens mais bem sucedidas do cinema.  Baseado na obra de Suzanne Collins, a série gerou quatro filmes no cinema e diferentemente de outras franquias teen como “Crepúsculo” e “Harry Potter” foi ficando mais sombria e politizada a cada filme.

Há muitos paralelos possíveis em “Jogos Vorazes”. Desde o óbvio discurso feminista, com a heroína Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence) como principal expoente contra o totalitarismo de um regime essencialmente composto por homens, até a mais sofisticada articulação política de bastidores, que ganha mais relevo nos dois últimos filmes baseados no último volume da obra de Collins.

Mesmo o feminismo precisa ser bem dosado, parece advertir o desfecho de "Jogos Vorazes": todo totalitarismo merece desconfiança (Foto: divulgação)

Mesmo o feminismo precisa ser bem dosado, parece advertir o desfecho de “Jogos Vorazes”: todo totalitarismo merece desconfiança
(Foto: divulgação)

O que mais impressiona na evolução de “Jogos Vorazes” é a maneira como a franquia trabalha a ideia de pão e circo e vai afunilando conceitos essencialmente políticos em uma trama de apelo jovem. O triangulo amoroso entre os personagens de Katniss, Peeta (Josh Hutcherson) e Gale (Liam Hemsworth) desaparece em importância no contexto – ainda que mantenha algum espaço no desenvolvimento da trama.

Com a chegada de personagens como Alma Coin (Julianne Moore) e Plutarch Heavensbee (Philip Seymour Hoffman) a série expandiu seu horizonte político dando mais profundidade ao tema e revestindo os filmes de um aspecto sombrio incomum para franquias tão populares. O grande mérito, no entanto, está no fato de que essa evolução narrativa não afugentou o público alvo. É bem verdade que o material original de Collins é a grande matriz desse bem-aventurado processo, mas a direção de Francis Lawrence – que assumiu a franquia em “Em Chamas” – e o time de roteiristas (Simon Beafoy, Michael Arndt, Peter Craig e Danny Strong) souberam envernizar “Jogos Vorazes” de maneira que a franquia se distinguisse de todos os grandes blockbusters contemporâneos.

Se a construção do mito do Tordo rivaliza com a crescente fragilidade de Katniss ao se perceber um peão na contenda entre a capital e a rebelião, “Jogos Vorazes” expõe toda a movimentação política inerente a grandes movimentos populares e – diferentemente da noção clássica hollywoodiana – revela que uma guerra não se decide no campo de batalha, mas sim na movimentação de bastidor. Não à toa, desde “Em Chamas”, a série se abstém de um clímax de ação e investe em cena anticlimáticas posteriores aos grandes eventos do capítulo.

Trata-se de um recurso narrativo poderoso e que ajuda a cristalizar essa vocação reflexiva da série. Valoriza-se o ensejo da ação e a repercussão dela em detrimento da mera exposição de efeitos especiais. Uma ousadia e tanto para uma série destinada a um público que, em suma, consome cenas de ação por atacado.

Espólios da guerra: duro e trágico, último "Jogos Vorazes" rompe com qualquer ilusão  comum a franquias hollywoodianas (Foto: divulgação)

Espólios da guerra: duro e trágico, último “Jogos Vorazes” rompe com qualquer ilusão comum a franquias hollywoodianas
(Foto: divulgação)

O último capítulo da franquia chega com entonação grave. “Jogos Vorazes: A Esperança – O Final” não foge de suas responsabilidades dramáticas e propõe o final tão apoteótico quanto necessário para a série.

As tragédias pessoais e a perda da inocência – no viés de que não podemos salvar o mundo da maneira que desejamos – reclamam o protagonismo do novo filme e transformam o último filme em um fecho doído, na conjugação esperta que faz de emoção e razão. Um triunfo e tanto para uma franquia que começou no rastro da muito menos laudatória “Crepúsculo”.

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quarta-feira, 30 de setembro de 2015 Análises, Atores | 16:59

A verdade por trás da recém-descoberta homofobia de Matt Damon

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Damon

Em plena promoção de “Perdido em Marte”, que estreia nesta quinta-feira nos cinemas de todo o mundo, Matt Damon arranjou uma sarna para se coçar. O ator disse em entrevista ao site The Observer que atores “não deveriam falar de sua sexualidade”, por que “quanto menos as pessoas sabem de sua vida, melhor”. Damon comentou, ainda, que “sair do armário” pode ser um tiro no pé.

Damon abordou, também, um dos casos mais clássicos sobre o tema em Hollywood. “Rupert Everett se assumiu gay e esse cara – mais bonito que qualquer um, um ator com formação clássica – é difícil defender a ideia de que ele não foi sabotado por ter se assumido”.

A reação à posição de Damon foi barulhenta. Gente do cinema, gente do comportamento, gente de esquerda e gente de direita tinham algo a dizer sobre o comentário do ator. E não foi bonito. Matt Damon, que gosta de posar como democrata convicto, se viu sob o desconfortável rótulo de homofóbico.

Leia também: O cinema descortina o mundo pós-gay?

Mas procede a queixa ou procede Damon? Hollywood pode ser um lugar bastante inóspito e, ao que parece, foi com isso em mente que Damon externou seu pensamento. É lógico que a construção do raciocínio partiu do pressuposto de que há uma invasão monstruosa da privacidade dos astros e estrelas. Damon falava de si quando disse que quanto menos se souber da vida privada de um astro, melhor. Mas falava, também, por todos aqueles que se ressentem dessa contingência do estrelato.

Quando evoluiu o raciocínio para o fato de que atores homossexuais não deveriam sair do armário, Damon afrontou o status quo. Mas o fez com a melhor das boas intenções. Ele estava considerando as ainda injustas amarras do sistema. Ao exemplificar seu ponto de vista com Rupert Everettque já foi a público se dizer vítima de boicote e exortar a jovens atores gays a ficarem no armário – o ator não quis expor um pensamento reacionário como muitos sublinharam. Expôs, no entanto, um pensamento de resignação. O que só é lamentável para ele.  No final das contas, diante da má publicidade em face de seu comentário, pediu desculpas. Após, claro, culpar a imprensa por distorcer suas palavras. No jogo de Hollywood alguns clichês são sacados até mesmo quando se atenta contra o senso comum. “Fico feliz por, pelo menos, meu comentário ter provocado um debate sobre diversidade em Hollywood”, anotou em um comunicado oficial nesta quarta-feira (30).  Um dia como outro qualquer em Hollywood, afinal.

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quinta-feira, 10 de setembro de 2015 Análises, Filmes | 21:22

“Que horas ela volta?” é escolha estratégica do Brasil para chegar ao Oscar

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Não se espantem se virem Regina Casé seguindo os passos de Fernanda Montenegro e sendo indicada ao Oscar de melhor atriz no dia 14 de janeiro de 2016. A apresentadora e atriz, afinal, é a alma de “Que horas ela volta?”, filme brasileiro destacado pelo Ministério da Cultura para representar o Brasil no Oscar. O anúncio, feito nesta quinta-feira (10), indubitavelmente reforça as chances de Casé, uma vez que o filme já recebe atenção da mídia especializada americana e deve receber um boom promocional nos próximos meses.

Crítica: “Que horas ela volta?” congrega muitos Brasis e filmes em narrativa sutil e cheia de belezas 

A obra de Anna Muylaert é, sob muitos aspectos, o filme mais bem preparado do Brasil a concorrer a uma vaga entre as produções finalistas na categoria de filme estrangeiro em muitos anos. Cheio de sutilezas, não é mais um registro cultural do que um olhar tenro à maternidade. O roteiro é um triunfo da lapidação. Em entrevista à rádio BandNews FM nesta quinta, Muylaert destacou a burilamento pelo qual o texto passou. “Esse projeto tem 27 anos. A primeira versão dele trazia apenas a visão da empregada. Até seis meses antes, a Jéssica não vinha estudar na faculdade, mas trabalhar como cabeleireira e depois se tornava babá. Acabei mudando com os laboratórios que eu fiz”, revelou.

Regina Casé no Oscar? Filme e atriz têm chances sérias de chegarem lá  (Foto: divulgação)

Regina Casé no Oscar? Filme e atriz têm chances sérias de chegarem lá
(Foto: divulgação)

Diferentemente de candidatos brasileiros de outros anos, “Que horas ela volta?”, reúne potencial comercial – é coproduzido pela Globo Filmes e estrelado pela popular Regina Casé, com pujança artística. Uma combinação que somente esteve presente em “Cidade de Deus” (2002). O candidato do ano passado, “Hoje eu quero voltar sozinho”, era muito bom e a exemplo do escolhido deste ano, experimentado em festivais internacionais. Com mais filmes brasileiros em festivais mundo afora, aclamação crítica nesses eventos pode ser um critério bem-vindo para substituir aquele intermitente e duvidoso jogo de adivinhação do que a academia gosta ou de que tendência seguir.

Competição

Muitos países já definiram seus representantes e tem candidatos que, assim como “Que horas ela volta?”, gozam de prestígio junto à crítica internacional. São os casos de “Son of Saul”, da Hungria, prêmio do júri em Cannes, “The assassin” (Taiwan), “Um pombo pousou no galho refletindo sobre a existência” (Suécia), “Xênia” (Grécia), “Goodnight Mommy” (Áustria), entre outros. Não há, porém, a presença de nenhum autor consagrado entre os concorrentes confirmados de momento. O que reforça as chances da produção brasileira repetir o feito de “Central do Brasil” (1998), “O que é isso companheiro?” (1997), “O quatrilho” (1994) e “O pagador de promessas” (1963) e ingressar no rol de filmes brasileiros indicados ao Oscar de melhor produção estrangeira.

Não é a primeira vez que Regina Casé estrela uma produção nacional que tenta chegar ao Oscar. “Eu, tu, eles”, de Andrucha Waddington, foi o selecionado do país em 2001. Dessa vez, porém, a atuação extraordinária de Casé, premiada no festival de Sundance, pode impulsionar o filme além da categoria de produções estrangeiras em uma época de internacionalização do colegiado que compõem a academia. Neste ano, vale lembrar, que embora a produção belga “Dois dias, uma noite” não tenha ficado entre os finalistas da categoria, a atriz Marion Cotillard foi lembrada entre as atrizes.

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quinta-feira, 3 de setembro de 2015 Análises, Atores, Bastidores | 17:19

O novo James Bond e a resistência a Idris Elba para o papel

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Idris Elba, o favorito já muito contestado para substituir Daniel Craig (Foto: reprodução/independent)

Idris Elba, o favorito já muito contestado para substituir Daniel Craig (Foto: reprodução/independent)

À medida que se aproxima o lançamento de “007 contra Spectre”, novo filme do espião James Bond – o último com Daniel Craig como protagonista, mais se intensifica o bafafá em torno de quem irá substitui-lo na pele do agente secreto a serviço de sua majestade. Outro dia, Pierce Brosnan disse que já é tempo de termos um “James Bond gay ou negro”. Os pitacos quando não voluntariamente oferecidos são cobrados, como ocorreu em uma entrevista do Daily Mail com o autor do novo romance de 007 (“Trigger mortis”), o britânico Anthony Horowitz.

Questionado se Idris Elba (“Círculo de Fogo, “Mandela – a luta pela liberdade”) seria um bom James Bond, o escritor observou que falta “suavidade” ao ator. “Ele é um tanto áspero demais para o papel. Acho que ele é provavelmente muito da rua para interpretar Bond”. Depois da repercussão negativa nas redes sociais, o escritor retratou-se: “Sinto muito se ofendi as pessoas. Não foi minha intenção. Não sou um diretor de elenco. Então o que eu sei? Indelicadamente escolhi a expressão ‘da rua’ porque tinha em mente a interpretação dele do detetive John Luther (personagem vivido pelo ator em série inglesa), mas devo admitir que foi uma escolha pobre de palavras”.

Esta não foi a primeira vez que Elba se vê no centro de uma polêmica envolvendo James Bond.  Os boatos começaram em 2012 e, no ano passado, no calor do escândalo dos vazamentos de documentos da Sony Pictures, foi revelado que Elba era mesmo considerado como uma opção para assumir o personagem por ninguém menos do que a então presidente do estúdio, Amy Pascal.

No início do ano, Elba se pronunciou a respeito do rumor e disse que de tão efusivo, o boato se autodestruiu. “Se existia alguma chance de eu viver James Bond, ela se foi”. O ator, que completa 43 anos no próximo domingo, responsabilizou o atual James Bond pela onda de boatos. “Eu culpo Daniel”, observou o ator sobre uma entrevista de Craig na ocasião do lançamento de “Operação Skyfall” em que listou Elba como um potencial substituto.

É importante ter em mente que um James Bond negro é completamente distinto da concepção original de Ian

Foto: reprodução/GQ

Foto: reprodução/GQ

Fleming, mas um James Bond loiro, baixo e de beleza aberta à discussão também o era. Razão pela qual o leitor pode até não lembrar, mas o nome de Daniel Craig foi bastante contestado quando anunciado (Clive Owen era o favorito da produtora Barbara Broccoli, mas recusara).  Há tradições que precisam ser mantidas e outras que podem ser dispensadas e Idris Elba parece ser o ator mais indicado para romper velhas tradições e estabelecer novas. Bonitão, sofisticado, charmoso, viril e com aquele ar blasé que só os britânicos possuem (com as devidas desculpas aos fãs de George Lazenby), Elba é um dos poucos atores capazes de substituir Craig à altura. A essência do personagem deve preponderar à raça. Parece ser mais importante ele ser vivido por um britânico – já que atua no serviço de inteligência britânico – do que ser branco, preto ou pardo.

A discussão em torno da raça e até mesmo da orientação sexual de Bond – quem não se lembra da tensão sexual entre Bardem e Craig em “Operação skyfall” – é reflexo do avanço dos direitos civis e liberdades individuais. Bond, vale lembrar, foi concebido em uma época de forte segregação racial e total obstrução à homossexualidade.

Passa por aí a declaração de Daniel Craig, muito repercutida no início da semana, de que seu Bond é menos “sexista e misógino” do que os anteriores. Personagem longevo que é, Bond vai sofrendo ajustes com o passar do tempo.

Elba seria um ajuste bem-vindo. Além de materializar um avanço histórico necessário, sua escolha seria pedagógica e eficiente. Porque acenaria ao mundo pós-racial com um poderoso símbolo da cultura pop sem qualquer tipo de concessão em matéria de qualidade. Elba, afinal, é um baita ator. Não se trataria de uma cota a ser preenchida. Apenas de se superar uma resistência boba. James Bond já foi mais engraçado, mais mulherengo, mais violento e até mais inseguro. Já chegou a hora de ser mais preto.

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segunda-feira, 31 de agosto de 2015 Análises, Diretores | 17:48

Artesão do horror, Wes Craven pavimentou o gênero como o conhecemos hoje

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O cineasta entremeado pelas máscaras do assassino de "Pânico"

O cineasta entremeado pelas máscaras do assassino de “Pânico”

“Era uma combinação de um esperto comentário social, sustos e diversão. Tudo embalado em um ritmo novelesco com um mistério no ar”, afirmou o cineasta Wes Craven ao lançar “Pânico 4”, em abril de 2011, quando indagado sobre o por que de “Pânico” (1996) ter sido o hit que foi. Mais tarde, ele diria que a franquia  era o “Star Wars do terror”.

“Pânico 4” foi o último filme de Wes Craven, que morreu no último domingo (30) aos 76 anos, em decorrência de um câncer no cérebro.  O cineasta foi responsável por alguns dos principais alicerces do terror americano. Sem “Aniversário macabro” (1972), não existiria “Sexta-feira 13”, “O massacre da Serra elétrica” ou “Halloween”, para citar o conjunto mais emblemático dos slasher movies, gênero que pavimentou praticamente sozinho.  No início da década de 80 daria vida a um dos maiores ícones do horror moderno, o Freddy Krueger, de “A hora do pesadelo” (1984). “Quadrilha de sádicos” e “Convite para o inferno” também estão entre seus principais cartões postais.

Craven foi muito copiado tanto na década de 80, como nos anos 90 quando refundou o gênero na esteira do sucesso de “Pânico”, para todos os efeitos, sua grande obra-prima. Uma sátira poderosa do gênero e uma inteligente homenagem ao cinema como um todo, o filme se comunicou com toda uma geração de uma maneira que nenhuma outra produção na década foi capaz.

Filmes de qualidades distintas como “Eu sei o que vocês fizeram no verão passado”, “Lenda urbana”, entre outros tentaram capitalizar a onda iniciada pelo filme, roteirizado por Kevin Williamson. A própria equipe criativa sucumbira aos encantos do que haviam criado e entornaram o caldo em “Pânico 3” (2000).

Mestre e visionário, Craven não era infalível.  “A sétima alma”, seu último filme fora da franquia “Pânico”, é uma equivocada mistura de filme de serial killer com filme de fantasma. Ainda que tenha uma ou outra boa ideia diluída em um rio de mesmice.  “Amaldiçoados” (2005), que o uniu a Williamson fora do esquadro das histórias de Sidney Prescott (Neve Campbell) e “A maldição dos mortos-vivos” foram tentativas de se exercitar no gênero abraçando seres sobrenaturais como zumbis e lobisomens. Mas era na psicopatia que Craven prosperava e um de seus melhores e mais subestimados filmes não é exatamente um terror, mas um suspense de primeira linha com Cillian Murphy e Rachel McAdams. “Voo noturno” é daqueles filmes extremamente satisfatórios e envolventes. Murphy ficaria para sempre com a aura de psicopata em sua volta, um mérito de Craven que soube explorar o ator como poucos souberam.

O diretor com Neve Campbell e Skeet Ulrich no set de "Pânico" Fotos: montagem/divulgação

O diretor com Neve Campbell e Skeet Ulrich no set de “Pânico”
Fotos: montagem/divulgação

Craven também impressionou fora de sua zona de conforto. Escreveu e dirigiu “Música do coração”, que rendeu indicação ao Oscar a Meryl Streep. O filme mostrava uma professora de música que batalhava para ensinar violino para as crianças quando isto não era uma prioridade para ninguém. Nem para a escola, para os pais ou para as próprias crianças. A afetuosidade do registro rendeu novos admiradores ao cinema de Craven, que àquela altura tentava se desvencilhar do estigma de diretor de um gênero só.

Ele fez do então astro Eddie Murphy, um vampiro no Brooklyn no filme homônimo que não fez lá grande sucesso quando foi exibido nos cinemas, mas virou cult quando chegou ao home vídeo. Foi esse filme, aliás, lançado em 1995, que tarimbou o cineasta para realizar “Pânico”, que se notabilizaria pela eficácia com que agrega humor aos ingredientes do terror.

Produtor contumaz, estava envolvido com a adaptação de “Pânico” para a TV. Uma série baseada no filme está sendo exibida pela MTV americana.

Cinéfilo, costumava palpitar sobre cinema em sua conta no twitter. Há dois anos, elogiou efusivamente o filme “Invocação do mal”, de James Wan. E fez um diagnóstico. “Wan tem tudo para ser um dos grandes mestres do cinema de horror”. Após dirigir “Velozes e furiosos 7”, o malaio comandará “Aquaman” e parece propenso a dar um tempo para o cinema de ação. Mas na noite de domingo prestou sua homenagem ao mestre no Twitter. “Não acredito na notícia. Meu coração se comove com a partida de Wes Craven. Verdadeiramente uma de minhas maiores inspirações”.

O homem se vai, mas deixa uma obra de grande impacto e influência no cinema e naqueles que dele se alimentam. Deixa, além das saudades, a convicção de que transformou o gênero. Um epílogo que nem todos os cineastas podem ostentar.

“Se eu tiver que fazer o resto dos meus filmes no gênero (horror), não há problemas.  Se eu serei um pássaro engaiolado, cantarei a melhor canção que eu puder”.

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