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Arquivo da Categoria Críticas

quinta-feira, 23 de março de 2017 Críticas, Filmes | 17:34

Perturbador e cheio de clima, “Fragmentado” é novo acerto do cineasta de “O Sexto Sentido”

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Novo filme de M. Night Shyamalan agrada em cheio aos fãs do diretor e deve repercutir muito bem com fãs do bom cinema de suspense

James McAvoy em cena de "Fragmentado", já em cartaz nos cinemas brasileiros

James McAvoy em cena de “Fragmentado”, já em cartaz nos cinemas brasileiros

Depois do elogiado “A Visita”, que selou o retorno à boa fama junto à crítica de M. Night Shyamalan, o cineasta apresenta “Fragmentado”, filme que mantém a estrutura de baixo orçamento adotada pelo indiano em “A Visita”, mas representa uma ousadia formal em termos de narrativa. Há um trânsito desimpedido por gêneros como horror, thriller psicológico, entre outros.

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James McAvoy faz Kevin, um sujeito com 23 personalidades confinadas dentro dele. No filme não temos contato com todas elas, uma opção correta de Shyamalan que foca em cinco delas e perpassa as outras por meio de diálogos plenamente justificados ao longo de “Fragmentado”.

Outra preocupação digna de nota do indiano é fundamentar bem o distúrbio de Kevin para o público. Parte da graça do filme é ir descobrindo essas reminiscências.

Cena do filme Fragmentado

Cena do filme Fragmentado

A espetacular Anya Taylor-Joy (“A Bruxa”) vive uma menina retraída que é sequestrada com duas colegas de classe por Denis, uma das personalidades de Kevin. Diferentemente das colegas, ela parece reagir às circunstâncias de maneira mais fria e aí está armado o cenário para Shyamalan potencializar uma das maiores virtudes de seu cinema: o poder de metaforização.

Estamos aqui falando de monstros da vida real e de suas circunstâncias e tudo na construção cênica do filme lembra arquétipos de vilões que costumam aparecer em filmes de heróis, tudo muito mais soturno e fincado na realidade, é claro. A exemplo do verificado em “A Visita”, os traumas sofridos pelos personagens detém profundo valor dramático. Importante nessa concepção nada acidental é a atuação de James McAvoy. O escocês apresenta aqui um verdadeiro tour de force. Da atenção aos detalhes da caracterização – cada personalidade tem suas peculiaridades – à proeminência das emoções que palpitam conforme a relação entre as personalidades de Kevin, mas também delas com sua terapeuta (Betty Buckley) e reféns, evolui, o ator dá um show à parte.

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Tenso, intrigante e frequentemente surpreendente, “Fragmentado” é, em vários sentidos, um atestado da intransigência de Shyamalan como artista. No melhor dos sentidos. Impecável do ponto de vista narrativo, ou mesmo técnico – e o filme emula uma proposital atmosfera claustrofóbica – o cineasta evoca o passado para alinhar seu futuro de uma forma que vai mexer com a nostalgia dos fãs conquistados em “O Sexto Sentido” (1999) e “Corpo Fechado” (2000).

 

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segunda-feira, 6 de março de 2017 Críticas, Filmes | 13:04

“Waiting for B.” investiga motivações e anseios de fãs que fazem qualquer coisa pelo ídolo

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Documentário acompanha fãs que acamparam durante dois meses para ver o show de Beyoncé em São Paulo e aborda questões como preconceito, empoderamento e orgulho gay

Cena do filme Waiting for B.

Cena do filme Waiting for B.

Parte integrante do projeto Sessão Vitrine Petrobras, “Waiting for B.”, em cartaz em 20 cidades brasileiras desde a última quinta-feira (02) é um documentário que acompanha a expectativa acalorada de fãs pelo show de Beyoncé em São Paulo no ano de 2013.

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Dirigido por Paulo Cesar Toledo e Abigail Spindel e figurinha carimbada em diversos festivais mundo afora, “Waiting For B.” acompanha um punhado de fãs que sem dinheiro para comprar os ingressos mais caros, acampa por dois longos meses às margens do estádio do Morumbi, local do show, para garantir um lugar próximo à estrela internacional.

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A força do filme não reside nesse monitoramento passivo da movimentação dos fãs no entorno do Morumbi, mas na busca do entendimento do que torna uma pessoa fã e mais: o que faz com que alguém se submeta a uma rotina de estresse e sufoco para poder garantir um lugar um pouco melhor para ver um show.

Novamente, o filme de Toledo e Spindel não se resolve nessa investigação e traça um paralelo ainda mais interessante ao observar as diferentes castas sociais que interagem neste universo. O preconceito em suas diferentes variantes, racial, sexual e de gênero, surgem espelhados em discussões encampadas naturalmente pelos personagens do filme. Há até mesmo a problematização sobre a loirice de Beyoncé em um dos momentos mais interessantes do filme.

Esse recorte que tange tanto desigualdade social, identidade negra, empoderamento feminino e orgulho gay oxigena o filme e lhe afere uma importância que a breve sinopse talvez não revele.

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O filme mostra pessoas como Junnior Martins, que trabalhava como cabelereiro para sustentar a família e depois encarava uma viagem de três horas para o estádio. Gabriela Electra e suas amigas, que faziam bico como cover da diva pop. Charlles Felipe, um empresário nato, que era o primeiro da fila no acampamento e mantinha a organização das barracas.

São personagens cheios de carisma que transformam “Waiting for B.” em um registro muito mais vívido e satisfatório.

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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017 Críticas, Filmes | 07:50

Vencedor do Oscar, “Moonlight” é rico em subtextos visuais e narrativos

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Vencedor de três Oscars, “Moonlight” é cinema articulado de maneira sensível narrativamente, mas robusta em termos visuais. Para a coluna, Oscar de melhor filme é justo em todos os ângulos possíveis

Trevante Rhodes em cena de "Moonlight"

Trevante Rhodes em cena de “Moonlight”

“Moonlight: Sob a Luz do Luar” não é o melhor filme da temporada de premiações, mas é um filme que merece muito o Oscar de melhor filme. Não por qualquer justiça social depois de duas temporadas de #oscarsowhite e muita dissimulação nas redes sociais. Mas porque é um filme de rara franqueza emocional e inteligência argumentativa.

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A direção de Barry Jenkins, que assina o roteiro a partir da peça de Tarell Alvin McCraney, é das coisas mais lindas do cinema recente. A fotografia de James Laxton, em tons de azul e neon, mescla o calor de Miami à solidão do personagem central Chiron. Jenkis filma o corpo masculino negro como se o penetrasse. O ex-atleta Trevante Rhodes, que estreia como ator dando vida a Chiron na 3ª fase da sua vida capturada pelo filme, é filmado como um muso. Seu corpo fala. Um mérito tanto do ator como de Jenkis. “Moonlight” é esse cinema de subtextos visuais e narrativos.

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“Sob a luz do luar todo menino negro é azul”. “Todo crioulo é uma estrela”. Duas frases pinceladas de momentos distintos do filme. A primeira é daquela que talvez seja a melhor cena da produção. Quando Juan (Mahershala Ali) dá uma lição de vida ao jovem Chiron (Alex Hilbert) que ele só poderia ser capaz de entender por completo muito tempo depois. A segunda é de um verso da música “Every nigger is a star”, de Boris Gardiner, que são as primeiras palavras que ouvimos no filme pouco antes de avistarmos Mahershala Ali surgir em um carro azul.

A condução de Jenkis, misturando imagens que são puro devaneio estilístico, mas que remetem ao estado de solidão de Chiron, com momentos de grande intensidade dramática, adensa “Moonlight” enquanto cinema.

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Uma produção que trata o preconceito racial de uma maneira tão suave e incomum que parece que nem mesmo está falando de preconceito. O grande mérito de “Moonlight” talvez seja essa de ser um filme para se sentir diferente à luz do olhar de cada expectador.

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terça-feira, 21 de fevereiro de 2017 Críticas, Filmes | 13:01

Entre falhas e acertos, “A 13ª Emenda” acena para América mais humanizada

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Documentário, já em cartaz na Netflix, concorre ao Oscar 2017 na categoria e se destaca pelo ponto de vista forte e substancial que a cineasta Ava DuVernay emprega na narrativa

A cineasta Ava DuVernay e o político republicano Newt Gingrich pouco antes de uma das entrevistas do documentário

A cineasta Ava DuVernay e o político republicano Newt Gingrich pouco antes de uma das entrevistas do documentário

“Entender o que é ser um negro nos Estados Unidos é algo que branco algum jamais poderá fazer”, diz o ex-congressista e ex-pré-candidato à presidência dos Estados Unidos pelo partido Republicano Newt Gingrich a certo ponto de “A 13ª Emenda”, fulminante documentário da cineasta Ava DuVernay (“Selma: Uma Luta pela Igualdade”), indicado ao Oscar 2017 de melhor documentário. Este é um momento chave do filme, que parece ungido da missão de convencer o espectador de que a constatação de Gingrich procede.

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O ponto partida de “A 13ª Emenda” é original, relevante e um convite à reflexão. DuVernay se vira para um problema crônico dos Estados Unidos desde a emancipação dos direitos civis na década de 60, quando a população negra após muito sofrimento conseguiu assegurar acesso a alguns direitos básicos: a elevação constante da população carcerária. Desnecessário dizer que neste boom, que ainda hoje está em alta, há preponderância de minorias como negros e latinos.

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O grande mérito do filme não é propor uma reflexão, mas se materializar como um alerta. DuVernay tem uma verdade a defender. A de que a elite branca precisou reagir a 13ª emenda na constituição americana que pôs fim definitivo à escravidão. Era preciso encontrar uma nova maneira de sustentar a economia sulista, toda ela dependente da mão de obra escrava. Esse raciocínio foi evoluindo – e a maneira como o doc trabalha o impacto do filme “O Nascimento de uma Nação” no imaginário cultural da época é um achado – até que o preconceito racial, mais velado à maneira que mais se enraizava, virou uma commodity política que tanto democratas como republicanos exploraram ao longo dos anos.

Cena de A 13ª Emenda (Fotos: divulgação)

Cena de A 13ª Emenda
(Fotos: divulgação)

DuVernay obviamente dá voz a especialistas simpáticos à visão de mundo e do problema que o documentário defende. Mais do que especialistas, grande parte dos entrevistados são ativistas. Não há nenhum problema nisso. No entanto, a fragilidade do filme reside no pouco espaço dado às divergências. Quando um ponto de vista adverso surge, há um tom de ridicularização intermitente. DuVernay peca, ainda, por alterar a sistemática de seu documentário quando Barack Obama assume a Casa Branca. Ela muda os parâmetros até então empregados e prefere atacar a indústria do lobby a submeter Obama ao mesmo escrutínio imposto a Clinton, Bush, Reagan, Nixon e os demais.

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Esse subterfúgio enfraquece o discurso que o filme defende, mas não mina seus méritos. “A 13ª Emenda” é aquele tipo de filme necessário. Que precisa passar nas escolas e que deve estimular todo um debate sobre ele. Entre seus acertos e erros como cinema, salva-se a nobre intenção de contribuir para uma América mais humana.

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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017 Críticas, Filmes | 07:30

Angústias de Christian Grey valorizam “50 Tons mais Escuros” no cinema

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Novo filme da franquia baseada no best-seller de E.L James, já em cartaz nos cinemas, ganha fôlego ao evidenciar conflito interno do príncipe caído que roubou o coração de Anastasia Steele

Christian Grey precisa abrir mão do controle para reaver o controle sobre Anastasia e esse paradoxo é o melhor que "50 Tons Mais Escuros" tem a oferecer

Christian Grey precisa abrir mão do controle para reaver o controle sobre Anastasia e esse paradoxo é o melhor que “50 Tons Mais Escuros” tem a oferecer

O fenômeno está de volta e com ele todo o burburinho que cerca a franquia “50 Tons de Cinza”, que depois de causar frisson na literatura faz o mesmo no cinema. “50 Tons Mais Escuros” é melhor do que o primeiro filme em quase todo e qualquer ângulo que se observe.

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James Foley substitui Sam Taylor-Johnson no comando da produção. Diretor de filmes como “Confidence – O Golpe Perfeito” e “A Estranha Perfeita”, Foley não é estranho ao universo da sensualidade e este filme é mais sexy do que o primeiro. As cenas são mais sugestivas, há mais nudez e os personagens mais inteiros. Ainda assim, “50 Tons mais Escuros” não é o filme que grande parte do público espera. Esse público, é bem verdade, parece ignorar que se trata de um blockbuster lançado no Valentine´s Day, o dia dos namorados dos americanos.

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A ousadia aqui é fazer um romance que tenha o sexo como vértice central da história. Não se trata de uma obra interessada em debater nossos fetiches sexuais. Esse filme pode ser achado na filmografia de Lars Von Trier (“Ninfomaníaca”), ou mesmo do sumido Adrian Lyne (“Instinto Selvagem”), mas jamais esteve no cerne da obra de E.L James e de sua transposição para o cinema.

Nesta sequência, Anastasia Steele (Dakota Johnson) e Christian Grey (Jamie Dornan) tentam ajustar as expectativas em relação um ao outro. Christian tenta suprimir suas necessidades dominadoras enquanto que Ana tenta atender alguns dos caprichos do namorido. Se o roteiro assinado por Niall Leonard, marido de E.L James, tenta dar viço a demandas feministas dando mais voz e representatividade aos anseios da mulher moderna, Foley se capitaliza ao mostrar uma história de amor um tanto desvirtuada. Afinal, Christian só parece se relacionar com aquilo que possui e a direção de Foley valoriza algo que no livro nunca avança o tratamento superficial.

Dakota Johnson em cena de 50 Tons Mais Escuros (Foto: divulgação)

Dakota Johnson em cena de 50 Tons Mais Escuros
(Foto: divulgação)

Não temos aqui um filme com grandes conflitos. Há até cenas francamente embaraçosas, mas “50 Tons Mais Escuros”, a exemplo do primeiro filme, cumpre bem sua proposta e satisfaz as demandas de seu público alvo. No limiar, é justamente isso que torna um filme que se vende como um produto satisfatório.

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terça-feira, 7 de fevereiro de 2017 Críticas, Filmes | 12:00

Mel Gibson fala do culto à violência no pacifista e espetacular “Até o Último Homem”

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Indicado a seis Oscars, incluindo filme, direção e ator, “Até o Último Homem” já está em cartaz nos cinemas e é uma experiência poderosa

Andrew Garfield, indicado ao Oscar de melhor ator pelo filme Até o Último Homem

Andrew Garfield, indicado ao Oscar de melhor ator pelo filme Até o Último Homem

“Até o Último Homem” é apenas o quinto filme de Mel Gibson como diretor. Sua filmografia como cineasta, embora curta, compreende uma diversidade e robustez ímpar. Falado em um dialeto maia, o ambicioso épico “Apocalypto” (2006) era o último filme de Gibson atrás das câmeras. Faltava um exemplar de guerra, gênero que como ator o australiano visitou em produções como “Fomos Heróis” (2002) e “O Patriota” (2000).

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Não só “Até o Último Homem” preenche essa lacuna, como promove a paz entre o outrora maior astro de Hollywood e a comunidade que o exilou depois de sucessivos escândalos. Indicado a seis Oscars, inclusive filme e direção para Gibson, este não é um filme de guerra qualquer. Gibson segue recusando-se a fazer um filme qualquer.

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Protagonizado por um devotado Andrew Garfield, “Até o Último Homem” é uma análise algo raivosa, e eventualmente fervorosa, de um país aferrado à ideia de violência. Baseado na história real de Desmond T. Doss (Garfield), o filme acompanha a saga desse homem adventista que se alista contrariando o desejo de seu pai, que servira na primeira guerra, mas decide não empunhar uma arma sequer durante todo seu tempo no exército – o que inclui dos rigorosos treinos ao campo de batalha.

Cena do filme Até o Último Homem

Cena do filme Até o Último Homem

O absurdo da situação é bem capturado por Gibson que evita a dignificação de seu personagem nos dois primeiros atos. Pelo contrário, o submete até mesmo à descrença do público. No ato final ele abraça seu protagonista com ares messiânicos, mas só depois de ter deixado a audiência suficientemente à vontade para fazer o mesmo.

Doss vai à corte marcial para garantir seu direito constitucional de servir seu país, ir ao campo de batalha contra os japoneses sem uma arma sequer para protegê-lo. “Com o mundo se desesperando para ruir, eu não vejo como algo tão ruim eu querer juntar alguns pedaços”, diz perante o juiz militar.

A religiosidade de Doss importa porque Gibson é um homem religioso e se julga atacado por defender seus valores. Fazer um filme pacifista, como gesto a Hollywood, mas reafirmando valores morais e  religiosos tem um gosto especial. Este é tanto um filme de fé como era “A Paixão de Cristo”. E é o filme em que Gibson sela a paz, mas nos seus termos.

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A despeito desses subtextos envolventes, trata-se de um filme vigoroso para quem está alheio ao passado do astro. Doss é um herói pronto, típico modelo republicano que parece talhado para a era Trump – ainda que se vivo fosse condenaria muitos dos ímpetos do atual ocupante da Casa Branca.

Exuberante tecnicamente, e aqui testemunhamos as melhores cenas de guerra desde “O Resgate do Soldado Ryan”, este é um filme que dimensiona o absurdo da guerra ao flagrar o ímpeto violento do ser humano. Ao focar em um herói que assim o é por renunciar à violência, depois de se descobrir em dois momentos de indesejada intimidade com ela, mostrados propositalmente por Gibson no começo e no meio do filme, “Até o Último Homem” nos desafia a rever muitos de nossos conceitos. A começar pela definição de coragem.

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quarta-feira, 18 de janeiro de 2017 Críticas, Filmes | 07:30

“Assim que Abro Meus Olhos” flagra gênese da primavera árabe

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Filme que foi escolhido o representante da Tunísia para disputar vaga no Oscar 2017 entre as produções estrangeiras, já está em cartaz nos cinemas de São Paulo

Cena do filme Assim que Abro meus Olhos, que já está em cartaz no Brasil

Cena do filme Assim que Abro meus Olhos, que já está em cartaz no Brasil

O cinema tunisiano não é tão acessível para o público brasileiro, justamente por isso quando um filme como “Assim que Abro Meus Olhos” estreia no Brasil, cortesia da distribuidora independente Supo Mungan, é preciso, com o perdão do trocadilho, abrir os olhos. Dirigido por Leyla Bouzid, a produção desperta a curiosidade pelo cinema daquele país com uma força dramática insuspeita.

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Farah, vivida pela incrível Baya Medhaffar, tem 18 anos e se beneficia do fato de ser filha de pais liberais. Esse liberalismo carece de contexto. Estamos na Túnis – capital tunisiana – de 2010, pré-primavera árabe, convém lembrar que a Tunísia precipitou todo o movimento revolucionário que hoje já parece adormecido. Farah gosta de vestir roupas descoladas e tem uma banda que entoa músicas de protesto. Além de estar amorosamente envolvida com o baixista Borhène (Montassar Ayari).  “Assim que Abro Meus Olhos”, portanto, flagra o momento em que a juventude tunisiana dava os primeiros tons da revolução que seria deflagrada logo adiante.

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Cena do filme Assim que Abro Meus Olhos

Cena do filme Assim que Abro Meus Olhos

A beleza do filme de Bouzid reside no fato de que é tanto um retrato desse momento de convulsão social, como um libelo feminista em uma sociedade que ainda tem o machismo fortemente enraizado. Farah é um espírito livre, que fascina os homens, mas é também uma moça ingênua. Essa dualidade é muito bem adensada pelo registro da cineasta que sabe que sua personagem não escaparia ao terror do estado das coisas, não importando sua coragem ou reminiscências familiares.

A relação de Farah com seus pais é outro ponto forte do filme. Não há maniqueísmo aqui. Apesar de progressistas, seus pais não agem com ela da maneira que ela gostaria que agisse. Um problema tão cotidiano na Tunísia, como na Alemanha ou no Brasil. Bouzid consegue convergir conflitos e dilemas essencialmente tunisianos, ou do Oriente Médio em um olhar mais genérico, e universais.

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A inquietude da juventude, condensada pela arte e pela tecnologia, ganha relevo no registro da cineasta que consegue capturar o zeitgeist com desprendimento e sem didatismo. Essa leveza narrativa, no entanto, não afasta a rigidez do universo que “Assim que Abro Meus Olhos” aborda. Essa destreza qualifica o filme como um dos destaques dos cinemas brasileiros neste começo de 2017.

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sábado, 31 de dezembro de 2016 Críticas, Filmes | 07:30

“Sing Street: Música e Sonho” propõe olhar doce sobre dificuldades do amadurecimento

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Filme que concorre ao Globo de Ouro de melhor comédia ou musical já está disponível na Netflix

Fotos: divulgação

Fotos: divulgação

Há cineastas especializados em fazer pequenos grandes filmes. O irlandês John Carney, que se aventurou por Hollywood com “Mesmo se Nada Der Certo”, é um desses cineastas. “Sing Street: Música e Sonho”, que surpreendeu muita gente ao aparecer entre os cinco indicados à categoria de melhor filme em comédia ou musical no Globo de Ouro 2017, é mais uma prova indiscutível de sua capacidade para contar histórias profundamente simples, mas de ressonância humana superlativa.

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“Sing Street” atesta, ainda, o talento singular do irlandês para fundir música e cinema de maneira incrivelmente sedutora e narrativamente eficiente.

Estamos na Dublin dos anos 80, Conor (Ferdia Walsh-Peelo, radiante em sua estreia no cinema) precisa se ajustar a nova realidade econômica da família. A mudança para uma escola católica é apenas um de seus problemas. A iminente separação dos pais e o bullying que sofre na nova escola são outros. Ele se refugia no irmão mais velho, Bredan (Jack Reynor), para conselhos sobre música e garotas.

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SING STREETInstantaneamente apaixonado por uma garota mais velha que ocasionalmente fuma no portão de sua escola, Conor a convida para estrelar o clipe de sua banda. Detalhe: não existe banda nenhuma. Ele então se arranja com um grupo de losers para formar a Sing Street. Aos poucos a banda vai ganhando forma e coração e Conor se envolvendo mais com Raphina (Lucy Boynton), que também tem seus sonhos para cultivar.

Personagens iluminados vêm muito fácil à pena de Carney, mas aqui o diretor-roteirista conta com os préstimos de Lucy Boynton que dá a sua Raphina a qualidade de musa inspiradora imaginada por Carney e que nós enquanto público podemos perceber tão vividamente quanto Conor. Brendan, que ostenta perolas como “mulher nenhuma é capaz de amar de verdade um homem que ouve Phill Collins”, é um achado como um jovem que renunciou seus sonhos e experimenta certa amargura, mas se recompõe sempre que o irmão caçula precisa de orientação.

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Como em todo filme do irlandês, a música ocupa um espaço todo especial. É especialmente agradável ver o processo criativo de Conor e seus amigos e as influências salpicadas de A-Ha a The Cure conforme o estado de espírito do protagonista se metamorfoseia.

As letras das músicas criadas especialmente para o filme, como The Riddle of the Model, Drive it Like You Stole It, Girls e Go Now tornam o sentido, mas também o sentimento de “Sing Street” muito mais amplo e ressonante. Um filme fofo, sim, mas também sintomático de nossa necessidade de sonhar.

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sexta-feira, 23 de dezembro de 2016 Críticas, Filmes | 12:32

Com clímax poderoso, “A Chegada” é elogio das imperfeições da existência

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Há filmes que não são exatamente o que parecem ser. Há casos em que isso é ruim e há casos em que isso é muito bom. “A Chegada” (Arrival, EUA 2016) se ajusta a esta última classificação. O novo filme de Denis Villeneuve (“Os suspeitos”, “Sicario: Terra de Ninguém”) é formalmente uma ficção científica, mas se resolve como um filme sobre o poder do diálogo e a importância da comunicação para a resolução de todo e qualquer conflito.

Cena do filme "A Chegada", uma das melhores produções de 2016

Cena do filme “A Chegada”, uma das melhores produções de 2016

Em ordem de construir dramaticamente esse argumento, Villeneuve e o roteirista Eric Heisserer imaginam uma situação relativamente corriqueira no cenário da ficção científica. Alienígenas chegam ao planeta Terra. Naves gigantes posam em oito pontos distantes do mundo, sendo Estados Unidos, China, Rússia e Paquistão quatro deles. Não é mero acaso que o filme se dedique a acompanhar o desenrolar das ações dos governos destes quatro países. Toda a geopolítica mundial parece se concentrar nos interesses dessas quatro nações.

O exército americano, na figura do coronel Weber (Forest Whitaker) convoca a linguista Louise Banks (Amy Adams) para facilitar a comunicação com os alienígenas e tentar entender a razão da chegada deles à Terra. Jeremy Renner vive Ian Donnelly, um físico que integra essa força-tarefa montada pelo governo americano que, obviamente, conta com a CIA e outras agências de inteligência.

Louise e Ian estabelecem progressos na tentativa de se comunicar com os alienígenas, mas o tempo não é amigo, já que os líderes mundiais pressionados pelas rivalidades, se movimentam para reagir ao que consideram uma invasão à soberania da humanidade.

Amy Adams brilha em A Chegada Fotos: divulgação

Amy Adams brilha em A Chegada
Fotos: divulgação

A escalada da tensão é bem abordada por Villeneuve, mas “A Chagada” não se pretende um suspense. O filme se apoia na excelente atuação de Amy Adams para se descobrir um drama. Intuitiva e generosa, mas estranhamente desgostosa da vida, Louise é uma personagem fascinante. Seu grande conflito, que o filme só revela por completo em seu ato final – embora espalhe pistas nos dois primeiros – ressignifica o sentido do filme, mas sem prejuízo ao seu valor como boa ficção científica.

“A Chegada” representa a primeira incursão do cineasta canadense no gênero e tem sua segunda protagonista feminina consecutiva. Desnecessário dizer que Villeneuve já é dos diretores mais interessantes da atualidade, mas o refinamento narrativo de “A Chegada”, aliado a sua exuberância visual, clamam por redundância.

Além de atentar para o valor da comunicação e de como a negligenciamos, tanto no âmbito das nações como no nível pessoal, o filme de Villeneuve elabora um singelo libelo à vida. À beleza oculta da ignorância que ostentamos em nossa relação com o tempo.  Seja em sua conceituação física ou em seu preposto emocional.

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quinta-feira, 15 de dezembro de 2016 Análises, Críticas, Filmes | 16:06

“Rogue One” reequilibra a força de “Star Wars” no cinema com imaginação e ousadia

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Filme que expande o universo “Star Wars” no cinema é um deleite para os fãs e uma realização corajosa que engrandece a safra de blockbusters de 2016

Cena do filme Rogue One, que estreia nesta quinta-feira (15) nos cinemas brasileiros Foto: divulgação

Cena do filme Rogue One, que estreia nesta quinta-feira (15) nos cinemas brasileiros
Foto: divulgação

“Rogue One – Uma História Star Wars” é bom. Muito bom. A questão que se coloca agora é como vamos lidar com isso? Público e crítica estavam desconfiados. Até tinham razão para isso. A Disney, que comprara Pixar e Marvel e lhes concedera liberdade criativa, prometera fazer o mesmo com “Star Wars”, quando adquirira a LucasFilm. Mas aqui o buraco era mais embaixo. A franquia estava encerrada e, não somente seria retomada, como o plano consistia em expandir o universo criado por George Lucas.

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O episódio VII chegou no ano passado arrasando quarteirões. O filme de J.J Abrams, no entanto, navegava em águas calmas. Havia grande ansiedade, e consequentemente considerável cota de condescendência à espera de “O Despertar da Força”. O filme é bom, mas não carrega um traço sequer da ousadia que sobeja em “Rogue One”. Espelhando o clássico “Uma Nova Esperança”, o filme falava ao coração dos fãs saudosos no mesmo compasso que pregava para todos aqueles desejosos de conversão.

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Rogue posterCom o “Rogue One” a coisa é diferente. Pela primeira vez na série estamos mesmo em uma guerra. Gareth Edwards, que fez um filme do Godzilla todo ele a partir do ponto de vista das pessoas afetadas pela besta gigante, grava cenas de guerrilha urbana na lua de Jedha, flagra espiões em ação, conspirações em trâmite e observa as maquinações inerentes aos diferentes lados de um conflito armado. A guerra que toma conta da galáxia pode ser apalpada em um filme que busca a atmosfera de “Uma Nova Esperança”, até pela ligação umbilical que tem com o episódio IV, mas que não se faz refém dela.

Visualmente exuberante, como todo “Star Wars” deve ser, essa primeira antologia se beneficia enormemente do roteiro esperto e enxuto de Tony Gilroy (“O Advogado do Diabo”) e Chris Weitz (“American Pie”) , que cria em cima de uma história conhecida e dá espaço para personagens carismáticos – como o robô K-2SO, o excelente alívio cômico da fita – brilharem. A coragem e a imaginação, no entanto, não resumem a eficácia narrativa dessa primeira antologia do universo Star Wars. O filme de Edwards faz muitas deferências aos fãs e revisita, a sua maneira, temas frequentes como a relação entre pais e filhos. É interessante observar como Jyn (Felicity Jones) vive uma orfandade mesmo tendo dois pais. Mais interessante é perceber como isso impacta na sua visão de “não ter o luxo de ter opiniões políticas”. É “Star Wars” sendo sutil no desenho dos personagens.

Peter Crushing, ninguém menos que Grand Moff Tarkin, responsável pela Estrela da Morte no filme de 1977, morto em 1994, “ressuscita” diante de nossos olhos em um trabalho de CGI que desafia os limites da lógica e imaginação. É “Star Wars” derrubando o nosso queixo.

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Darth Vader, talvez o mais icônico entre todos os vilões da cultura pop, também surge para enriquecer o filme. Ele está aqui apenas para deixar a experiência mais potente, intensa, transcendental… É “Star Wars” olhando para o futuro sem esquecer-se de seu passado.

Darth Vader é uma das boas surpresas de Rogue One Foto: divulgação

Darth Vader é uma das boas surpresas de Rogue One
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O que torna “Rogue One” um blockbuster especial tanto no contexto de “Star Wars”, mas também na temporada de 2016, é sua maturidade narrativa, seu compromisso com a verossimilhança, mesmo que estejamos falando de uma guerra espacial. Apesar do desfecho compreensível e justificadamente trágico, o filme reequilibra a força, da série, e dos blockbusters. É “Star Wars” mostrando como se faz!

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