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segunda-feira, 5 de novembro de 2018 Críticas, Filmes | 15:25

Versão oficial da história do Queen, “Bohemian Rhapsody” é montanha-russa de emoção para os fãs

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Cena de "Bohemian Rhapsody" que recria o histórico show do Queen no Live Aid em 1985

Cena de “Bohemian Rhapsody” que recria o histórico show do Queen no Live Aid em 1985

Há uma cena em “Bohemian Rhapsody”, a aguardada cinebiografia de Freddie Mercury e da banda Queen, em que o vocalista da banda tenta argumentar com o produtor da EMI Ray Foster (vivido com histrionismo por Mike Myers) porque a música que dá nome ao filme deveria ser o primeiro single de “A Night at the Opera”, segundo disco da banda.

Mercury (Rami Malek) diz que a banda não quer e não vai seguir fórmulas e que busca transcender por meio de sua arte. É uma ambição e tanto e também um lastro que o Queen deixou, mas que “Bohemian Rhapsody” não consegue dimensionar. Isso não implica na constatação de que o filme é ruim, apenas em reconhecer que não faz jus ao legado da banda e não atinge toda a sua potencialidade enquanto cinema.

Marcado por polêmicas e turbulências, “Bohemian Rhapsody” foi desde muito cedo taxado como o filme oficial da banda. Com Roger Taylor e Brian May como produtores, o filme perdeu seu protagonista, que seria Sacha Baron Cohen por divergências criativas. Cohen queria fazer um retrato de Freddie que afrontava o que a banda queria mostrar. Depois veio a demissão de Bryan Singer, que continua creditado como diretor. Dexter Fletcher, creditado como produtor executivo e que em 2019 lança a cinebiografia de outro astro do Rock, Elton John, rodou algumas cenas e encerrou os trabalhos.

Se os tumultuados bastidores honram o espírito Rock´n Roll de uma das maiores bandas de todos os tempos, revestiram de incerteza o que se veria no cinema. O longa não tem problemas de ritmo como muitos imaginariam e não tergiversa a respeito da homossexualidade de Mercury, mas assume desavergonhadamente ser a versão do Queen para sua história e a de seu front man.

O roteiro óbvio ratifica a vocação chapa-branca do filme que encontra espaço para mostrar como Freddie Mercury não era o único gênio do Queen, o que demonstra que o longa também foi palco de certa egolatria dos demais integrantes da banda. Menos de John Deacon, no filme interpretado com cadência e sutileza por Joseph Mazzello, que não participou da produção.

Reencarnação ou imitação?

O Queen do cinema Fotos: divulgação

O Queen do cinema
Fotos: divulgação

Rami Malek não era uma escolha óbvia para viver o complexo Freddie Mercury, mas o ator que ganhou fama como o protagonista da série “Mr. Robot” se provou a altura do desafio. A capilaridade dramática desse registro do Queen, que se comunica melhor com os fãs, está toda concentrada em seu trabalho. Malek tem alguma dificuldade em dimensionar o jovem Freddie, mas talvez por conta do roteiro que se fragmenta demais no começo da jornada da banda. Quando o registro envereda pelos anos 70 e 80, Malek domina completamente a cena com energia e carisma que não ficam a dever ao personagem que interpreta.

Todavia, se nos momentos mais dramáticos, ele parece reencarnar Mercury, nos momentos mais performáticos, parece se contentar com a imitação. Não chega a ser algo ruim ou incômodo, mas é uma rusga em um filme que parece divergir de si mesmo.

 

Final apoteótico

O longa, afinal, toma uma série de liberdades poéticas e narrativas para aclimatar melhor suas necessidades dramáticas e apresenta pelo menos um easter egg genial ao brincar com “Quanto Mais Idiota Melhor”, em que Mike Myers e sua turma cantam Bohemian Rhapsody dentro de um carro.

A mais controvertida das liberdades narrativas do filme foi situar semanas antes do histórico show no Live Aid a revelação de Mercury para os demais

Mike Myers responde por um inteligente comentário no filme sobre a obra que é a música Bohemian Rhapsody

Mike Myers responde por um inteligente comentário no filme sobre a obra que é a música Bohemian Rhapsody

integrantes da banda de que era portador do vírus da AIDS. O ajuste serve bem ao registro dramático, mas é uma imprecisão grave para um filme que se pretende recriar a trajetória do cantor. Ele revelara ser HIV positivo em 1987, dois anos depois do referido show.

Junte-se a isso menções escorregadias ao temperamento turbulento de Freddie e a seu vício em drogas e você tem um ambiente propício a críticas não tão construtivas assim. De todo modo, tudo isso se apequena diante dos 20 minutos finais, em que o show do Live Aid, é reencenado nos mínimos detalhes. É aí, e somente aí, que “Bohemian Rhapsody” abraça o espetáculo maior que a vida que é o Queen e ganha a audiência com energia e paixão.

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quarta-feira, 31 de outubro de 2018 Críticas, Filmes | 19:43

“Tamara” recria trajetória de 1ª transmulher eleita deputada na América Latina

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A Tamara Adrian da vida real: inspiração para um delicado filme venezuelano

A Tamara Adrian da vida real: inspiração para um delicado filme venezuelano

Não é de hoje que a transexualidade e os direitos de cidadãos transgêneros estão em pauta, mas é assombroso o quanto enquanto sociedade ainda precisamos evoluir. É de adensar essa perspectiva que o filme “Tamara”, que estreia nesta quinta-feira (1º) em São Paulo, se incumbe.

O filme de Elia K. Schneider reconstitui a trajetória de Tamara Adrian, a primeira transmulher eleita como deputada para a Assembleia Nacional da Venezuela – foi a primeira pessoa transexual eleita para um cargo legislativo na América Latina. Isso foi em 2016. Nas eleições 2018, São Paulo elegeu Erica Malunguinho da Silva, a primeira trans da história da Assembleia Legislativa.

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O ineditismo dos feitos de Tamara e Erica, claro, clamam por atenção cinematográfica, mas Schneider não perde de vista os elementos humanos, os intrincados conflitos emocionais e psicológicos, bem como o açoite do preconceito, que precederam essas conquistas tão pessoais como comunitárias.

Quando encontramos Tamara ela ainda é Teo e tem dificuldades de vocalizar a angustia que vive com o próprio corpo. Essa investigação psicológica, mas também corpórea, é um dos trunfos da primeira metade do filme e a cineasta confia ao ótimo Luis Fernández o lastro emocional dessa viagem tão turbulenta quanto apaixonante.

As muitas rupturas e inseguranças, bem como o encontro com o amor são fonte de coragem e retrocesso em uma jornada trôpega e sem respostas prontas. Schneider, é bem verdade, se escora em clichês que poderiam ser suavizados, mas o corte final de seu filme tem muita alma e coração. Tamara Adrian é senhora de uma história tão inspiradora quanto necessária para que o processo de conscientização que a sociedade atravessa não seja interrompido por espasmos de conservadorismo.

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Em um universo cinematográfico que habitam filmes como “Uma Mulher Fantástica” (2017), vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro em 2018, e “Laurence Anyways” (2012), é o aspecto “baseado em uma história real”, que torna “Tamara” tão especial e vívido.

O ator Luis Fernández durante a transição de Teo em Tamara Fotos: Publico/Divulgação

O ator Luis Fernández durante a transição de Teo em Tamara
Fotos: Publico/Divulgação

“Tamara” está em cartaz no Espaço Itaú Augusta de Cinema com sessões às 13h50, 16h10 e 21h30.

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segunda-feira, 13 de agosto de 2018 Críticas, Filmes | 10:36

Musical fofo, “Ana e Vitória” se viabiliza como retrato de uma geração

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Cena de "Ana e Vitória" Fotos: divulgação

Cena de “Ana e Vitória”
Fotos: divulgação

Uma das duplas mais bem sucedidas da música brasileira na atualidade, Anavitória ainda tem pouca rodagem para ganhar um filme sobre sua história, mas “Ana e Vitória” não é exatamente uma cinebiografia. O quarto filme do cada vez melhor Matheus Souza é um musical que se comunica com a juventude contemporânea no mesmo compasso em que a retrata. Ana Caetano e Vitória Falcão calham de serem as protagonistas dessa história.

O filme, dividido em três janelas temporais muito específicas, mostra a aproximação de Ana e Vitória, o desejo latente de fazer arte – algo comum na juventude – e a consolidação da carreira como dupla de sucesso da música brasileira. No ínterim, amores e desamores inspiram música, amadurecimento e o fortalecimento de uma amizade que parecia ser nada mais nada menos do que um acidente de percurso.

O filme é, antes de qualquer coisa, uma bem sacada jogada de marketing para fortalecer o status quo da dupla. Um novo CD, com as músicas compostas para o filme, foi lançado junto com a obra audiovisual. A preocupação da realização – e a ideia original do filme é do mesmo Felipe Simas que organiza e gerencia a carreira da dupla – era reafirmar o apelo da dupla junto a um público adolescente que vê nelas um espelho de suas ambições, anseios e inseguranças. É um gol de placa.

“Ana e Vitória” é um filme teen como outro qualquer, mas é adornado por uma aura muito particular. Traço indesviável da personalidade de suas protagonistas, que no começo do filme estão desconfortáveis na condição de intérpretes de si mesmas, mas que com o desenrolar da trama vão vestindo a carapuça de atrizes com mais propriedade.

A se registrar a naturalidade com que a sexualidade das duas personagens é explorada. Trata-se de um avanço em matéria de dramaturgia no Brasil, avanço este que nossa televisão ainda se mostra resistente, e um reflexo da compreensão por parte da realização de seu público. “Ana e Vitória” é um filme fofo, mas é um filme fofo cheio de segundas intenções.

 

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domingo, 12 de agosto de 2018 Críticas, Filmes | 12:22

“O Animal Cordial” redimensiona regras do slasher com crítica social penetrante

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Murilo Benício está brilhante em "O Animal Cordial" Foto: divulgação

Murilo Benício está brilhante em “O Animal Cordial”
Foto: divulgação

Convencionou-se olhar para o slasher movie, subgênero do terror, como uma conservadora construção a respeito da moral e dos costumes, com minorias figurando entre as primeiras vítimas e virgens triunfando no final. Variações ao longo dos anos alteraram um pouco esse referencial, mas não o destituíram. Desnecessário dizer que o Brasil tem pouca tradição na escola slasher de fazer cinema. Mas esqueceram de avisar a Gabriela Amaral Almeida.

A estreia de Almeida na direção de longas-metragens não poderia ser mais incisiva, revisionista e libertadora dentro dos cânones do slasher. “O Animal Cordial” conjuga signos e subverte-os para dar nova dimensão ao gênero e aos prepostos da realização.

Inácio tem um restaurante de classe média em São Paulo. Negócio este suscetível aos caprichos das crises econômicas que se enfileiram no País. Circunstâncias que causam atritos entre Inácio e seus funcionários, como a banal a respeito do horário de ir embora quando um casal chega ao estabelecimento a quinze minutos da cozinha fechar.

Inácio dá pistas de que se sente pressionado e está ansioso com a visita de um crítico gastronômico, amigo de sua mulher, que fará uma visita ao restaurante nos próximos dias. A insegurança dele salta aos olhos do espectador quando o vemos ensaiando para a ocasião e tentando acomodar referências para receitas que ele não domina.

Antes daquela noite que já se anuncia longa acabar, um assalto. Dois homens entram no restaurante e anunciam o assalto. Além do casal, do cozinheiro Dejair (Irandhir Santos), da garçonete Sara (Luciana Paes), há o policial aposentado (Ernani Moraes) no restaurante.

A tensão que se constrói a partir daí é crescente e ininterrupta.

Atenção aos signos

Luciana Paes em cena de "O Animal Cordial"

Luciana Paes em cena de “O Animal Cordial”

Almeida filma os corpos e os estratos da violência como cortes de carne. A primitividade dos instintos ganha força no registro da cineasta – repare na densidade carnal da cena de sexo regada a sangue.  A cineasta encontra uma veia estética que agrega valor e fundamentação filosófica em sua obra.

O filme parece muito consciente das regras do gênero e justamente por isso não se avexa de subvertê-las em favor de certo comentário político em detrimento da força dramática. O final, com uma elipse que nega ao público certa catarse sádica, devolve ao único personagem que não ostenta um defeito sequer ao longo da trama vida e liberdade. Almeida flagra um País em psicose e se vale dos arquétipos presentes naquele restaurante para redimensionar um gênero por meio de uma crítica social pungente e penetrante.

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quinta-feira, 9 de agosto de 2018 Críticas, Filmes | 12:13

Thriller conjugal, “Acrimônia” opõe vitimismo feminino a masculinidade tóxica

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Acrimônia

Sabe aquele filme que é ruim, mas é bom? Essa uma maneira de perceber “Acrimônia”. O novo filme de Tyler Perry (“O Clube das Mães Solteiras” e “O Diário de uma Louca”). Tendencioso e sem qualquer sutileza em seus arranjos narrativos, esse thriller conjugal é incrivelmente sedutor na maneira como propõe seus conflitos.

Quando o filme começa vemos uma raivosa e desiludida Melinda (Taraji P. Henson) sendo repreendida pelo juiz. Fica claro que ela está ressentida com seu ex-marido e sua nova mulher, mas as razões ainda estão difusas. Ela é obrigada pelo tribunal a fazer terapia para controle da raiva e é nesse ambiente que somos apresentados a história dela com Robert (vivido na fase jovem por Antonio Madison e por Lyriq Bent na fase adulta).

A versão que nos é apresentada é a de Melinda e, mais para frente, o filme abandona a versão dela para adotar um tom mais imparcial na narrativa. É uma solução questionável do ponto de vista estrutural, mas que funciona no contexto de “Acrimônia”.

O filme de Perry tem uma noção incômoda de feminismo. Ele trata de masculinidade tóxica, mas aborda também o vitimismo feminino em um contexto tão amplo que é difícil pormenorizar. Há, ainda, um comentário sobre relações afetivas mal elaboradas e é justamente aí que o filme apresenta um senso de humor mais perverso e chocante.

“Acrimônia” não pode, ou deve, ser visto como um tratado sobre nenhum desses temas, mas ele navega com desenvoltura por eles e extrai desse bem-vindo choque um drama bem costurado e intrigante.

Melinda se ressente da maneira parasitária que sua relação com Robert se construiu. Enquanto ela sustentava a casa, ele se dedicava quase que exclusivamente a um projeto de energia renovável que poderia ou não vingar. Adicione a isso pitadas de infidelidade, orgulho e instabilidade familiar e você tem um filme que flerta com a identificação do público a cada fotograma.

Não obstante, “Acrimônia” resgata um subgênero muito popular no cinema americano do final dos anos 80 e início dos anos 90 que tinha em figuras como Adrian Lyne, Phillip Noyce e Paul Verhoeven seus grandes expoentes.

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quarta-feira, 8 de agosto de 2018 Críticas, Filmes | 16:25

Joaquin Phoenix é um homem destituído de si em “Você Nunca Esteve Realmente Aqui”

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Foto: divulgação

Foto: divulgação

Pense em um episódio de uma das séries produzidas por Dick Wolf com tons de “Taxi Driver”, o clássico de Martin Scorsese, e você terá uma ideia do que é “Você Nunca Esteve Realmente Aqui”, novo filme de Lynne Ramsey (“Precisamos falar sobre o Kevin”). Baseado no livro homônimo de Jonathan Ames, o filme acompanha a jornada de Joe, vivido com destreza e energia por Joaquin Phoenix, um ex-militar que sofreu abusos na infância, tem fantasias com suicido, cuida da mãe idosa e faz serviços para quem está disposto a pagar por vingança.

Leia também: O que esperar do filme do Coringa com Joaquin Phoenix?

Lynne Ramsey não está exatamente interessada na atividade de Joe, ou no fato dele estar tentando resgatar a filha de um político que foi sequestrada por traficantes sexuais. “Você Nunca Esteve Realmente Aqui” é um filme sobre a dor de Joe ser quem ele é. Da insustentável aflição que o faz se esgueirar entre a generosidade e a brutalidade.

Há momentos em que o longa lembra “Drive” (2011), obra-prima do esteta Nicolas Winding-Refn, mas são momentos difusos. A música, uma das melhores composições para cinema de Johnny Greenwood, é uma força perene no filme e que ajuda a dimensiona-lo como uma experiência demorada, incômoda e abstrata.

O ritmo lento do desenvolvimento da trama se justifica pela necessidade de Ramsey em sublinhar a angústia de seu protagonista, para todos os efeitos um espectro, não um homem, mas a estranheza que enseja talvez afaste o espectador mais do que o necessário.

A maneira como a cineasta registra a violência é outro destaque e mais uma diferença fundamental em relação a “Drive”. Aqui não só há desglamourização da violência, como sua desidratação absoluta. Nesse sentido, o pesar e sofrimento expressos, mas também interiorizados, na performance de Phoenix adunam aquilo que o filme tem de mais pungente e soberano. Não à toa, ator e roteiro saíram premiados do Festival de Cannes em 2017.

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terça-feira, 19 de junho de 2018 Críticas, Filmes | 18:43

Surpreendente, “As Boas Maneiras” é reflexo do amadurecimento do cinema de gênero brasileiro

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Cena do filme "As Boas Maneiras"

Cena do filme “As Boas Maneiras”

O cinema de gênero no Brasil ainda está muito vinculado à máxima de tentativa e erro. Não existe uma cultura de produção ou apreciação formada, mas Marco Dutra e Juliana Rojas estão contribuindo para a insurgência de uma bem-vinda nova realidade. “As Boas Maneiras”, destaque em festivais mundo afora, é um reflexo dessa força criativa que pensa o cinema brasileiro de um jeito global, mais técnico, uníssono e bem resolvido.

Eis aqui um filme de criatura, mas sem medo de assumir suas peculiaridades. “As Boas Maneiras” é um thriller que flui para um drama, se descobre um musical sem deixar de ser também uma comédia que se vale dos signos do terror. Não é uma equação fácil e os realizadores ainda acham espaço para discutir sexualidade, preconceito e afirmação em um filme cheio de pequenos grandes momentos.

Esteticamente ousado – há mudança de protagonista, de tom e registro, o filme de Rojas e Dutra é tão brasileiro quanto universal e registrar isso não é alienar suas muitas outras virtudes, mas para o contexto de um embrionário (bom) cinema de gênero no País é um destaque providencial. A estranheza e esquisitice desse filme de lobisomem folclórico e poético ficam com o espectador. Não é todo filme de gênero que consegue propulsar tantas e difusas emoções.

Marjorie Estiano e Isabél Zuaa em cena de "AS Boas Maneiras"

Marjorie Estiano e Isabél Zuaa em cena de “AS Boas Maneiras”

Marjorie Estiano, uma atriz tão inteira e intuitiva, jamais esteve melhor. Aqui ela é Ana, uma moça do interior vivendo na cidade grande que está grávida e decide contratar uma babá. É com Clara (a excepcional Isabél Zuaa) que o filme começa. Ela está retraída e insegura da entrevista. Mas há uma sinergia entre ela e Ana, dois seres acuados de alguma maneira pela vida e pelas circunstâncias. A cumplicidade que se constrói dali em diante encanta tanto quanto o mistério sobre os efeitos da lua cheia sobre Ana, seu desejo incessante por carne vermelha e a ausência desse noivo que ela tanto fala.

O filme tem um segundo ato radicalmente diferente do que se poderia imaginar – e que explora mais a fundo a questão da licantropia.

Juliana Rojas, que já havia feito um musical com toques de horror com “Sinfonia da Necrópole” (2014) e Dutra, um drama com pitadas de sobrenatural com “O Silêncio do Céu” (2016), aqui conjugam essas experiências em uma explosão gráfica e de atmosfera como raramente o cinema brasileiro ofertou.

A catarse que brota de “As Boas Maneiras” não é filtrada e há muitas maneiras de se olhar para o filme – as óticas da maternidade e da sexualidade são apenas as mais efusivas -, mas é inegável que criatividade, coragem e originalidade são seus predicados mais valorosos. Mesmo que se resista ao saldo final, a impassibilidade não é uma possibilidade dada ao espectador.

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quinta-feira, 14 de junho de 2018 Críticas, Filmes | 16:46

“Dovlatov” captura efervescência cultural na União Soviética

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Filme russo estreia nos cinemas brasileiros no dia da abertura da Copa do Mundo 2018 na Rússia

Dovlatov

A sombra projetada por Tchekhov, Dostoiévski, Tolstói, Pushkin, Nabokov e tantos outros escritores russos não é pequena e Sergei Dovlatov sentiu isso na pele por muitos anos enquanto seus manuscritos eram rejeitados pela mídia oficial soviética por não serem compatíveis com o espírito que a União Soviética queria fomentar.

É esse período histórico que o filme “Dovlatov” se ocupa. O longa de Alexey German Jr. mostra como a intelectualidade russa se afasta dos ideais encampados pela União Soviética no alvorecer da década de 70. “A década de 70 entrou como uma geada”, reconhece o protagonista em sua narração em off em um dado momento. Em outro vaticina: “Ficção e realidade são inseparáveis na União Soviética”.

Com rimo lento, muitos planos-sequência e enquadramentos quadrados, o filme tateia um sentimento de despertencimento e incômodo. A cultura da União Soviética está morrendo. Este é o diagnóstico de Dovlatov e outros escritores cerceados por um regime que busca “capacidade moderada de escrita e não muito talento”.

Milan Maric vive esse escritor consciente de sua condição de fracassado com charme e carisma. Seu personagem representa a integridade artística e é por sua relação idealística, mas também prática com a União Soviética que “Dovlatov” filtra seu discurso. Um filme que reverencia o legado russo com a perspectiva de que a revolução comunista subtraiu mais do que acrescentou a esse legado.

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domingo, 27 de maio de 2018 Críticas, Filmes | 15:33

“Todo o Dinheiro do Mundo” é um sutil filme sobre misoginia

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Christopher Plummer em cena de Todo o Dinheiro do Mundo

Christopher Plummer em cena de Todo o Dinheiro do Mundo

A história do sequestro do neto do magnata bilionário Jean Paul Getty, “o homem mais rico da história do mundo” é daquelas que mimetizam toda a complexidade, histeria e absurdo da humanidade. É um imã natural para um cineasta com pulso para boas histórias. “Todo o Dinheiro do Mundo”, no entanto, não é um thriller sobre esse sequestro hipermidiático ou uma drama cáustico sobre seus bastidores, mas um drama algo seco e distante sobre misoginia e a mentalidade de quem só vislumbra abutres do topo.

Leia também: Polêmica salarial em “Todo Dinheiro do Mundo” está deslocada da realidade

“Você precisa entender o que é ser um Getty”, diz Gail Harris (Michelle Williams) ao negociador e consultor paramilitar Fletcher Chase (Mark Wahlberg), contratado por seu ex-sogro JP Getty (Christopher Plummer) para liderar os esforços para resgatar John Paul Getty III (Charlie Plummer), sequestrado em Roma em 1973. Os sequestradores exigiram US$ 17 milhões. Getty negou-se a pagar.

Ridley Scott fez um sutil filme sobre misoginia e pouca gente percebeu isso

Ridley Scott fez um sutil filme sobre misoginia e pouca gente percebeu isso

A situação esdrúxula por si só já é um foco de interesse. Mas o roteiro de David Scarpa, baseado no livro de John Pearson, se interessa mais pelo cabo de força entre Gail e Getty. É um duelo nas sombras, nos atritos silenciosos. Justamente por isso o flashback que mostra o divórcio de Gail do filho de JP Getty é tão importante para a correta compreensão do que é e do que pretende o filme de Ridley Scott.

Getty não admite que uma mulher o encurrale ao ponto dele não saber como controlar uma situação e ficar à mercê dos fatos. A psicologia desse confronto ruidoso é abalada pelo sequestro do neto, a quem Getty tem em grande estima, só não o suficiente para excluir do campo de batalha contra Gail. Essa é, pelo menos, a leitura dos fatos da realização e é uma leitura entusiasmante do ponto de vista da arte e da elaboração histórica.

Plummer x Spacey

Christopher Plummer era a primeira opção de Scott para viver Getty. Seu Getty parece pouco lapidado e isso serve ao registro. Indicado ao Oscar pelo papel, o ator dá gravidade e obtusidade a essa figura poderosa e controversa. Mas talvez Spacey, especialmente no momento histórico de sua carreira, fosse uma personificação melhor e mais eficiente de Getty. De todo modo, o filme ficará famoso para todo o sempre pela troca dos atores às vésperas do lançamento.

Filme se resinifica na comparação com "Chamas da Vingança"

Filme se resinifica na comparação com “Chamas da Vingança”

O que é um tanto injusto, já que o filme dispõe de bons predicados. Dos atores – Michelle Williams e o francês Roman Duris merecem menção especial – à comparação com o “filme de sequestro” do irmão de Ridley, Tony Scott. “Chamas da Vingança” (2004), que tem Denzel Washington como um segurança capaz de tudo para resgatar uma criança, faz um par notável com “Todo o Dinheiro do Mundo”.  Os filmes dialogam em muitos níveis, especialmente por serem operas estilísticas de seus diretores.

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quarta-feira, 23 de maio de 2018 Críticas, Filmes | 10:10

Eli Roth não foge do convencional no novo “Desejo de Matar”

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Bruce Willis em cena de "Desejo de Matar"

Bruce Willis em cena de “Desejo de Matar”

Cria de Quentin Tarantino, Eli Roth rapidamente construiu uma fama bastante particular com filmes como “O Albergue” (2005), “Canibais” (2013) e “Bata Antes de Entrar” (2015). Violência e humor raramente rimam tão bem no cinema como em rimam em seus filmes. Nesse sentido, sua escolha para dirigir a refilmagem de “Desejo de Matar” parecia não só acertada, como providencial. Não que o filme seja decepcionante, mas é um Roth contido e jogando o jogo da indústria que surge na fita protagonizada por Bruce Willis.

O filme ainda tem Joe Carnahan, o homem por trás do violento “Narc” (2002), creditado como roteirista. Não obstante, a estreia programada para novembro de 2017 foi adiada para este ano após um atirador matar 58 e deixar dezenas de feridos em Las Vegas em outubro do ano passado. O “Desejo de Matar” que chega aos cinemas, porém, não poderia ser mais convencional. Há até uma tentativa de problematizar o vigilantismo, mas ela não chega a ganhar corpo e profundidade e serve apenas como pano de fundo para a escalada de violência ao qual o personagem de Willis se joga.

Bruce Willis faz o médico Paul Kersey que depois que sua mulher é assassinada por ladrões desastrados e violentos, e sua filha fica em coma no hospital, decide fazer justiça com as próprias mãos, já que a fé no trabalho policial fica abalada com a demora em surgirem resultados. Willis se diverte, como geralmente faz nesses filmes de ação em que a premissa é um mero detalhe. Fãs do ator e do original vão curtir a brincadeira.

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