Publicidade

Arquivo da Categoria Críticas

terça-feira, 19 de junho de 2018 Críticas, Filmes | 18:43

Surpreendente, “As Boas Maneiras” é reflexo do amadurecimento do cinema de gênero brasileiro

Compartilhe: Twitter
Cena do filme "As Boas Maneiras"

Cena do filme “As Boas Maneiras”

O cinema de gênero no Brasil ainda está muito vinculado à máxima de tentativa e erro. Não existe uma cultura de produção ou apreciação formada, mas Marco Dutra e Juliana Rojas estão contribuindo para a insurgência de uma bem-vinda nova realidade. “As Boas Maneiras”, destaque em festivais mundo afora, é um reflexo dessa força criativa que pensa o cinema brasileiro de um jeito global, mais técnico, uníssono e bem resolvido.

Eis aqui um filme de criatura, mas sem medo de assumir suas peculiaridades. “As Boas Maneiras” é um thriller que flui para um drama, se descobre um musical sem deixar de ser também uma comédia que se vale dos signos do terror. Não é uma equação fácil e os realizadores ainda acham espaço para discutir sexualidade, preconceito e afirmação em um filme cheio de pequenos grandes momentos.

Esteticamente ousado – há mudança de protagonista, de tom e registro, o filme de Rojas e Dutra é tão brasileiro quanto universal e registrar isso não é alienar suas muitas outras virtudes, mas para o contexto de um embrionário (bom) cinema de gênero no País é um destaque providencial. A estranheza e esquisitice desse filme de lobisomem folclórico e poético ficam com o espectador. Não é todo filme de gênero que consegue propulsar tantas e difusas emoções.

Marjorie Estiano e Isabél Zuaa em cena de "AS Boas Maneiras"

Marjorie Estiano e Isabél Zuaa em cena de “AS Boas Maneiras”

Marjorie Estiano, uma atriz tão inteira e intuitiva, jamais esteve melhor. Aqui ela é Ana, uma moça do interior vivendo na cidade grande que está grávida e decide contratar uma babá. É com Clara (a excepcional Isabél Zuaa) que o filme começa. Ela está retraída e insegura da entrevista. Mas há uma sinergia entre ela e Ana, dois seres acuados de alguma maneira pela vida e pelas circunstâncias. A cumplicidade que se constrói dali em diante encanta tanto quanto o mistério sobre os efeitos da lua cheia sobre Ana, seu desejo incessante por carne vermelha e a ausência desse noivo que ela tanto fala.

O filme tem um segundo ato radicalmente diferente do que se poderia imaginar – e que explora mais a fundo a questão da licantropia.

Juliana Rojas, que já havia feito um musical com toques de horror com “Sinfonia da Necrópole” (2014) e Dutra, um drama com pitadas de sobrenatural com “O Silêncio do Céu” (2016), aqui conjugam essas experiências em uma explosão gráfica e de atmosfera como raramente o cinema brasileiro ofertou.

A catarse que brota de “As Boas Maneiras” não é filtrada e há muitas maneiras de se olhar para o filme – as óticas da maternidade e da sexualidade são apenas as mais efusivas -, mas é inegável que criatividade, coragem e originalidade são seus predicados mais valorosos. Mesmo que se resista ao saldo final, a impassibilidade não é uma possibilidade dada ao espectador.

Autor: Tags: , ,

quinta-feira, 14 de junho de 2018 Críticas, Filmes | 16:46

“Dovlatov” captura efervescência cultural na União Soviética

Compartilhe: Twitter

Filme russo estreia nos cinemas brasileiros no dia da abertura da Copa do Mundo 2018 na Rússia

Dovlatov

A sombra projetada por Tchekhov, Dostoiévski, Tolstói, Pushkin, Nabokov e tantos outros escritores russos não é pequena e Sergei Dovlatov sentiu isso na pele por muitos anos enquanto seus manuscritos eram rejeitados pela mídia oficial soviética por não serem compatíveis com o espírito que a União Soviética queria fomentar.

É esse período histórico que o filme “Dovlatov” se ocupa. O longa de Alexey German Jr. mostra como a intelectualidade russa se afasta dos ideais encampados pela União Soviética no alvorecer da década de 70. “A década de 70 entrou como uma geada”, reconhece o protagonista em sua narração em off em um dado momento. Em outro vaticina: “Ficção e realidade são inseparáveis na União Soviética”.

Com rimo lento, muitos planos-sequência e enquadramentos quadrados, o filme tateia um sentimento de despertencimento e incômodo. A cultura da União Soviética está morrendo. Este é o diagnóstico de Dovlatov e outros escritores cerceados por um regime que busca “capacidade moderada de escrita e não muito talento”.

Milan Maric vive esse escritor consciente de sua condição de fracassado com charme e carisma. Seu personagem representa a integridade artística e é por sua relação idealística, mas também prática com a União Soviética que “Dovlatov” filtra seu discurso. Um filme que reverencia o legado russo com a perspectiva de que a revolução comunista subtraiu mais do que acrescentou a esse legado.

Autor: Tags: , ,

domingo, 27 de maio de 2018 Críticas, Filmes | 15:33

“Todo o Dinheiro do Mundo” é um sutil filme sobre misoginia

Compartilhe: Twitter
Christopher Plummer em cena de Todo o Dinheiro do Mundo

Christopher Plummer em cena de Todo o Dinheiro do Mundo

A história do sequestro do neto do magnata bilionário Jean Paul Getty, “o homem mais rico da história do mundo” é daquelas que mimetizam toda a complexidade, histeria e absurdo da humanidade. É um imã natural para um cineasta com pulso para boas histórias. “Todo o Dinheiro do Mundo”, no entanto, não é um thriller sobre esse sequestro hipermidiático ou uma drama cáustico sobre seus bastidores, mas um drama algo seco e distante sobre misoginia e a mentalidade de quem só vislumbra abutres do topo.

Leia também: Polêmica salarial em “Todo Dinheiro do Mundo” está deslocada da realidade

“Você precisa entender o que é ser um Getty”, diz Gail Harris (Michelle Williams) ao negociador e consultor paramilitar Fletcher Chase (Mark Wahlberg), contratado por seu ex-sogro JP Getty (Christopher Plummer) para liderar os esforços para resgatar John Paul Getty III (Charlie Plummer), sequestrado em Roma em 1973. Os sequestradores exigiram US$ 17 milhões. Getty negou-se a pagar.

Ridley Scott fez um sutil filme sobre misoginia e pouca gente percebeu isso

Ridley Scott fez um sutil filme sobre misoginia e pouca gente percebeu isso

A situação esdrúxula por si só já é um foco de interesse. Mas o roteiro de David Scarpa, baseado no livro de John Pearson, se interessa mais pelo cabo de força entre Gail e Getty. É um duelo nas sombras, nos atritos silenciosos. Justamente por isso o flashback que mostra o divórcio de Gail do filho de JP Getty é tão importante para a correta compreensão do que é e do que pretende o filme de Ridley Scott.

Getty não admite que uma mulher o encurrale ao ponto dele não saber como controlar uma situação e ficar à mercê dos fatos. A psicologia desse confronto ruidoso é abalada pelo sequestro do neto, a quem Getty tem em grande estima, só não o suficiente para excluir do campo de batalha contra Gail. Essa é, pelo menos, a leitura dos fatos da realização e é uma leitura entusiasmante do ponto de vista da arte e da elaboração histórica.

Plummer x Spacey

Christopher Plummer era a primeira opção de Scott para viver Getty. Seu Getty parece pouco lapidado e isso serve ao registro. Indicado ao Oscar pelo papel, o ator dá gravidade e obtusidade a essa figura poderosa e controversa. Mas talvez Spacey, especialmente no momento histórico de sua carreira, fosse uma personificação melhor e mais eficiente de Getty. De todo modo, o filme ficará famoso para todo o sempre pela troca dos atores às vésperas do lançamento.

Filme se resinifica na comparação com "Chamas da Vingança"

Filme se resinifica na comparação com “Chamas da Vingança”

O que é um tanto injusto, já que o filme dispõe de bons predicados. Dos atores – Michelle Williams e o francês Roman Duris merecem menção especial – à comparação com o “filme de sequestro” do irmão de Ridley, Tony Scott. “Chamas da Vingança” (2004), que tem Denzel Washington como um segurança capaz de tudo para resgatar uma criança, faz um par notável com “Todo o Dinheiro do Mundo”.  Os filmes dialogam em muitos níveis, especialmente por serem operas estilísticas de seus diretores.

Autor: Tags: , , , ,

quarta-feira, 23 de maio de 2018 Críticas, Filmes | 10:10

Eli Roth não foge do convencional no novo “Desejo de Matar”

Compartilhe: Twitter
Bruce Willis em cena de "Desejo de Matar"

Bruce Willis em cena de “Desejo de Matar”

Cria de Quentin Tarantino, Eli Roth rapidamente construiu uma fama bastante particular com filmes como “O Albergue” (2005), “Canibais” (2013) e “Bata Antes de Entrar” (2015). Violência e humor raramente rimam tão bem no cinema como em rimam em seus filmes. Nesse sentido, sua escolha para dirigir a refilmagem de “Desejo de Matar” parecia não só acertada, como providencial. Não que o filme seja decepcionante, mas é um Roth contido e jogando o jogo da indústria que surge na fita protagonizada por Bruce Willis.

O filme ainda tem Joe Carnahan, o homem por trás do violento “Narc” (2002), creditado como roteirista. Não obstante, a estreia programada para novembro de 2017 foi adiada para este ano após um atirador matar 58 e deixar dezenas de feridos em Las Vegas em outubro do ano passado. O “Desejo de Matar” que chega aos cinemas, porém, não poderia ser mais convencional. Há até uma tentativa de problematizar o vigilantismo, mas ela não chega a ganhar corpo e profundidade e serve apenas como pano de fundo para a escalada de violência ao qual o personagem de Willis se joga.

Bruce Willis faz o médico Paul Kersey que depois que sua mulher é assassinada por ladrões desastrados e violentos, e sua filha fica em coma no hospital, decide fazer justiça com as próprias mãos, já que a fé no trabalho policial fica abalada com a demora em surgirem resultados. Willis se diverte, como geralmente faz nesses filmes de ação em que a premissa é um mero detalhe. Fãs do ator e do original vão curtir a brincadeira.

Autor: Tags: , , ,

terça-feira, 22 de maio de 2018 Críticas, Filmes | 19:26

“Os Fantasmas de Ismael” versa sobre a continuidade cruel do abandono

Compartilhe: Twitter

Arnaud Desplechin e Mathieu Amalric vivem uma história de amor no cinema. O diretor tem em Amalric mais do que um parceiro, um catalisador para seus anseios e digressões sobre a vida e a arte. “Os Fantasmas de Ismael” dá sequência à colaboração que apresentou obras como “Reis e Rainhas” (2004), “Um Conto de Natal” (2008), “Terapia Intensiva” (2013) e “Três Lembranças da Minha Juventude” (2015).

Mathieu Amalric em cena de "Os Fantasmas de Ismael"

Mathieu Amalric em cena de “Os Fantasmas de Ismael”

Amalric aqui vive o diretor de cinema Ismael Vuillard que está fazendo um filme inspirado pela vida de seu irmão. Ele vive uma relação com Sylvia (Charlotte Gainsbourg) que parece serena e bem desenvolvida, mas ainda se ressente do sumiço da mulher Carlotta (Marion Cotillard), que desapareceu há 20 anos e foi dada como morta em algum momento.  Acossado na condição de viúvo, Ismael tem uma relação parental com o pai de Carlotta, que também sofre a ausência da filha.

Os ânimos, no entanto, se exaltam quando ela reaparece disposta a reconquistar Ismael, que se flagra em crise existencial profunda. A chegada de Carlotta detona, ainda, crises em seu filme e na relação com Sylvia.

“Os Fantasmas de Ismael” trata de abandonos. Da crueldade e da continuidade deles. O retorno de Carlotta pode ser interpretado literalmente, como a desestruturação emocional que enseja na vida de Ismael, ou simbolicamente, como o desarranjo psicológico insanável que a morte sem corpo deixou.

Marion Cotillard dança em uma das mais lindas cenas do filme

Marion Cotillard dança em uma das mais lindas cenas do filme

O filme de Desplechin, embora conte com momentos de pura eletricidade, é filmado com contrariedade e equívocos aqui e acolá. O “filme dentro do filme” surge dispersivo demais e não se justifica dentro do contexto narrativo espichado pelo cineasta.

Leia também: “Antes que eu me Esqueça” lança olhar tenro sobre como lidamos com a velhice

O trio de protagonistas, no entanto, é de um esmero notável e jamais abandona a essência da dramaturgia pretendida por Desplechin. Ainda que não alcance os dividendos possíveis, “Os Fantasmas de Ismael” tem uma cena formidável em sua singeleza. Quando Marion Cotillard dança ao som de Bob Dylan, o espectador rapidamente entende a razão de tamanha desorientação do protagonista.

Autor: Tags: , , ,

sábado, 5 de maio de 2018 Críticas, Filmes | 15:55

Por que “Um Lugar Silencioso” é o melhor filme de terror da atualidade?

Compartilhe: Twitter

Filme de John Krasinski é um dos maiores hits de 2018. Hype em cima do filme mais original produzido por um estúdio no ano é muitíssimo justificado

Cena de "Um Lugar Silencioso"

Cena de “Um Lugar Silencioso”

O terror mais bem conceituado precisa ser alegórico, desenvolver uma atmosfera de constante tensão e agonia e não fazer concessões a título de barganha com o público ou com o mainstream. Nesse sentido, é um bálsamo assistir a um filme como “Um Lugar Silencioso”, que desde sua exibição no festival SXSW vem adquirindo irrefreável hype.

Com cerca de US$ 250 milhões arrecadados nas bilheterias globalmente e com uma sequência já confirmada, “Um Lugar Silencioso” é um triunfo do cinema que se pretende tanto entretenimento como manifestação artística. Eis uma combinação cada vez mais rara em Hollywood.

Leia também: “Verdade ou Desafio” é a novidade da Pixar dos filmes de terror

O filme que teve um orçamento de US$ 17 milhões é um bem-vindo sucesso para a Paramount que não conseguia respirar no Box Office fora dos limites das franquias “Transformers” e “Missão Impossível”. Dirigido por John Krasinski, figura mais identificada à comédia, o filme valoriza a imagem – como nos primórdios do cinema – como elemento de organização narrativa, mas também exalta o desenho de som como ferramenta imagética. Trata-se de um desenvolvimento dos mais inteligentes do cinema enquanto técnica e artifício.

Este é o terceiro filme de Krasinski. Sem dúvida o mais ambicioso de sua filmografia. Não à toa, ele contracena com sua esposa, a atriz Emily Blunt. Eles também formam um casal no longa.

John Krasinski dirige sua mulher em Um Lugar Silencioso

John Krasinski dirige sua mulher em Um Lugar Silencioso

Trata-se de um futuro distópico e a realização não se preocupa em pavimentar todo um contexto para o cenário flagelado e angustiante que encontramos quando o filme começa. Há pistas aqui e ali que possibilitam que o espectador tenha uma dimensão da tragédia que se assentou sobre o planeta Terra.

Após uma invasão alienígena, a raça humana pereceu. Sensíveis a qualquer tipo de som, os poderosos aliens atacam a qualquer ruído mais forte. O silêncio é imperativo para a sobrevivência. É nesta árdua e conflitiva realidade que encontramos Lee (Krasinski) e Evelyn Abbott (Emily Blunt) e seus filhos.

Leia também: Atraso e progresso se chocam no esteticamente arrojado “A Cidade do Futuro”

Fotos: divulgação

Fotos: divulgação

“Um Lugar Silencioso” se resolve tanto como um filme de tensão absoluta e ininterrupta – afinal, qualquer vacilo pode ser fatal – como uma alegoria poderosíssima sobre a paternidade. Os anseios, inseguranças e frustrações inerentes à realidade de se ser pai e mãe, algo que se é com frequência em situações adversas.

Krasinski revela pulso firme para o desenvolvimento narrativo e habilidade na direção dos atores. O rigor estético de seu filme rima com a convicção dramática de sua resolução, impassível e resiliente.

Se Millicent Simmonds, atriz surda que já havia causado sensação em “Sem Fôlego”, sequestra cada cena em que aparece, “Um Lugar Silencioso” se reinventa como o grande filme que é a cada novo drama com o qual se deparam os personagens. De quebra, o longa brinda o público com a mais aflitiva, tensa e cinematográfica cena de parto da década.

Autor: Tags: , , , , ,

quarta-feira, 25 de abril de 2018 Críticas, Filmes | 15:22

Primeiras impressões de “Vingadores: Guerra Infinita”: É épico!

Compartilhe: Twitter
Cena de Vingadores: Guerra Infinita

Cena de Vingadores: Guerra Infinita

Épico! Transcendental! Transformador! Esses são alguns dos adjetivos que vem à mente após se assistir “Vingadores: Guerra Infinita”. O 19º filme do Universo Cinematográfico da Marvel se propõe a redefinir tudo. Thanos (Josh Borlin) é uma presença devastadora e, ao fim do filme, o espectador terá plena e irrevogável consciência disso.

Leia também: Confira todos os personagens que aparecem em “Vingadores: Guerra Infinita”

“Guerra Infinita” é um filme que aposta na ação ininterrupta sim, mas também no estofo emocional de seus personagens que são submetidos frequentemente a escolhas de vida ou morte.

O longa começa pouco depois dos eventos vistos em “Thor: Ragnarok”. Thanos está à cata das joias do infinito que ainda não possui e se depara com a nave que transporta os sobreviventes de Asgard. Desnecessário dizer que a tragédia se assenta e antes mesmo dos créditos iniciais surgirem na tela, o terceiro “Vingadores” demonstra que o público está nessa por uma experiência única e que fora construída ao longo de dez anos.

Leia também: Thanos é mais forte do que Hulk em batalha, dizem diretores de “Guerra Infinita”

Humor

O humor típico dos filmes da Marvel está preservado, mas encontra-se bem mais equilibrado do que nas incursões anteriores. O senso de tragédia é iminente e perturbador. Ele pode ser vislumbrado na serenidade condoída de Tony Stark (Robert Downey Jr.) ou na sisudez plácida de Steve Rogers (Chris Evans), aqui sem o traje do Capitão América.

Thor em cena do novo Vingadores Fotos: divulgação

Thor em cena do novo Vingadores
Fotos: divulgação

Os Vingadores estão despedaçados e despreparados para a ascensão de Thanos e isso, “Guerra Infinita” deixa claro, será custoso para os heróis. O grande mérito do filme é ser o clímax de uma história construída há dez anos e superar, em catarse e espetáculo, tudo o que já veio antes. Não é um arranjo fácil de desenvolver, mas o engenho de Kevin Feige escudado por Joe e Anthony Russo que dirigiram “O Soldado Invernal”, “Guerra Civil”, “Guerra Infinita” e o quarto “Vingadores”- que estreia em 2019, prova que a Marvel está na vanguarda de um movimento que talvez não se replique no cinema.

Leia também: “Os Vingadores: Guerra Infinita” põe fãs em alerta contra riscos de spoilers

“Guerra Infinita” é um filme para o fã se contorcer na cadeira, torcer, sofrer e ansiar ainda mais pelos próximos capítulos. A Disney tem o controle da droga mais bem sucedida da atualidade.

Autor: Tags: , , ,

sexta-feira, 2 de março de 2018 Críticas, Filmes | 17:32

Documentário sobre maior ladrão de obras raras do Brasil se afeiçoa a seu protagonista

Compartilhe: Twitter

Documentários que se fiam no rigor jornalístico costumam ser mais inteiros porque se cercam de valores e instrumentos perenes que preconizam transparência e informação e este é o caso de “Cartas para um Ladrão de Livros”, dos cineastas e jornalistas Carlos Juliano Barros e Caio Cavechini. Não se trata de refutar um ponto de vista, mas de abordá-lo com lisura, capacidade argumentativa e boa fundamentação.

Cena de "Cartas para um Ladrão de Livros"

Cena de “Cartas para um Ladrão de Livros”

No caso de “Cartas para um Ladrão de Livros”, os realizadores tiveram algumas angústias para administrar. Laéssio Rodrigues de Oliveira, taxado como o maior ladrão de obras raras do País, foi preso algumas vezes durante o processo de filmagem, o que fez com que os cineastas tivessem o estalo de fazer desse tumultuado bastidor um objeto do documentário. Acertadamente, eles colocam no radar dos conflitos da obra a questão da glamourização do protagonista, que pauta boa parte da narrativa e adensam uma pluralidade de perspectivas que tem Laéssio como um embuste.

Leia também: “Cartas para um Ladrão de Livros” devassa trajetória de ladrão de obras raras

A promoção desse feliz casamento entre senso jornalístico e estrutura narrativa nem sempre resulta primorosa. A realização se embevece demais de seu protagonista, que talvez seja problematizado de menos. Não que o filme busque o contraditório apenas para ser pró-forma, mas há desequilíbrio na acentuação da questão. A preocupação em humanizar Laéssio soa exagerada talvez porque, na feitura do documentário, seja mais da realização do que do próprio Laéssio – que na sua inteligência simples e arejada – que a realização eventualmente aponta como ingenuidade – expressa contentamento nas suas conquistas. Por isso a câmera se satisfaz quando flagra momentos íntimos em que Laéssio é menos personagem e mais de verdade.  Exemplos são quando ele rememora um amante e chora e quando admite encher malas de garrafinhas de urina e deixar para que sejam roubadas em rodoviárias.

Há outros grandes momentos no filme como quando observamos a relação de Laéssio com a própria vaidade e a relação de terceiros com a vaidade do protagonista.

“Cartas para um Ladrão de Livros” não se veste de acusador ou defensor de Laéssio e parece cumprir todas as medidas preventivas que o bom cinema e o bom jornalismo orientam, mas talvez se afeiçoe mais do que o desejável por seu protagonista. Uma condição compreensível em virtude de um processo tão longo e umbilical, mas que fragiliza o saldo final.

Autor: Tags: , , ,

terça-feira, 16 de janeiro de 2018 Críticas, Filmes | 16:18

Gary Oldman é trunfo do burocrático “O Destino de uma Nação”

Compartilhe: Twitter

Já em cartaz nos cinemas brasileiros, produção deve valer ao ator Gary Oldman a segunda indicação ao Oscar de sua carreira

Gary Oldman está exemplar como Winston Churchill em O Destino de uma Nação

Gary Oldman está exemplar como Winston Churchill em O Destino de uma Nação

“O Destino de uma Nação” tem dois trunfos inegáveis. A pompa de ser um daqueles dramas britânicos que arrebanham tantos fãs – e prêmios – e Gary Oldman. O britânico de 59 anos surge irreconhecível na pele de Winston Churchill. O filme de Joe Wright (“Desejo e Reparação” e “Anna Karenina”) se ocupa das circunstâncias que poderiam ter decidido a 2ª Guerra Mundial em favor dos nazistas, mas que ajudaram a eternizar Churchill como um exemplo de estadista.

Leia também: Margot Robbie pode se tornar a primeira mulher indicada ao Oscar como atriz e produtora do mesmo filme

O filme se desdobra sobre toda a articulação política da qual Churchill tanto era agente, como catalisador para tentar evitar o avanço alemão no xadrez bélico que a Europa se tornou sob a égide de Hitler. Mas se pode contar com um Gary Oldman inspirado, “O Destino de uma Nação” tem pouco a ostentar além disso. Apesar de ser um filme de câmera em que Wright tente a todo momento flagrar a espiral claustrofóbica de seu protagonista, pressionado pela derrota iminente e por correligionários partidários da rendição, os enquadramentos são burocráticos e as opções narrativas, desabonadoras.

Leia também: Clima belicoso em Hollywood pode tirar James Franco e Gary Oldman do Oscar

Para tornar tudo mais exasperante, o decisivo episódio de Dunquerque, cujos bastidores atestaram o engenho e perseverança de Churchill no propósito de esgotar toda e qualquer alternativa antes de sentar à mesa com os alemães, fora tratado pelo cinema em 2017 com muito mais criatividade e energia em “Dunkirk”, de Christopher Nolan.

A fala é o principal elemento de ação do filme

A fala é o principal elemento de ação do filme

Ainda que mire em “Lincoln”, com sua estratégia narrativa de focar na fala como elemento de ação, Wright se aproxima mais de “O Discurso do Rei” – e tem em seu rei George, vivido pelo sempre ótimo Ben Mendelsohn, um coadjuvante e tanto.

A fotografia que se vale de paletas escuras e a direção de arte detalhada acabam por ressaltar a impressão de um filme inglês convencional. Um desalento para uma produção tão ambiciosa. Wright finge desconstruir um mito e o público finge que acredita. Exemplo máximo dessa condição é uma cena, mais piegas do que projetada para ser, ambientada no metrô londrino em que Churchill ouve a opinião de cidadãos a respeito de como deveria proceder contra os alemães. O célebre 1º ministro é mesmo uma figura magnética e o mérito de Oldman, não necessariamente do filme, é dimensionar isso com uma rara combinação de delicadeza e firmeza. O ator vence a pesada maquiagem da caracterização e apresenta um personagem condoído, estafado e que cresce à medida que a conturbada sucessão de fatos exige. Um estadista que o futuro parece nos sonegar e que Wright e público compactuam em se enamorar na tela do cinema.

Autor: Tags: , , , ,

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017 Análises, Críticas, Filmes | 11:13

George Clooney vai ao passado para explicar América da Era Trump em “Suburbicon”

Compartilhe: Twitter

Novo filme de George Clooney como diretor tem roteiro afiado dos irmãos Coen e é uma sátira nervosa de costumes sociais que perduram e justificam ascensão conservadora

Matt Damon em cena de "Suburbicon: Bem-Vindos ao Paraíso"

Matt Damon em cena de “Suburbicon: Bem-Vindos ao Paraíso”

Alguns dos melhores momentos de George Clooney como ator foi sob a batuta dos irmãos Coen. O humor cheio sarcasmo e finas ironias dos irmãos era a principal bússola de “E aí, Meu Irmão Cadê Você?” (2000), “O Amor Custa Caro” (2003) e “Queime Depois de Ler” (2008) e é a força motriz de “Suburbicon: Bem-Vindos ao Paraíso”. Os Coen tinham esse roteiro engavetado desde os anos 70 e cederam a Clooney que estava ávido por dirigir um material dessas referências do cinema americano. A parceria deu muito certo.

Leia também: Retrospectiva 2017: os momentos mais marcantes da cultura pop no ano

“Suburbicon” é essencialmente um filme dos Coen, o que é muito bom. Mas traz também a preocupação político social inerente ao cinema mais robusto de Clooney como cineasta (“Tudo pelo Poder”, “Boa Noite e Boa Sorte”). O timing joga a favor do filme. Com a era Trump em pleno vapor, voltar aos EUA dos anos 50 para observar os motores da intolerância em paralelo à manufatura da hipocrisia à americana é um desses felizes achados cinematográficos.

Leia também: “Manchester à Beira-Mar” encabeça lista de melhores filmes do ano

O filme se passa em um bairro planejado, um daqueles subúrbios acima de qualquer suspeita. A vizinhança se inquieta com a chegada de uma família negra. O alvoroço denota o racismo institucionalizado e serve como paisagem para os conflitos que movem a trama. Estamos aqui em um terreno tipicamente Coeniano:  personagens menos inteligentes do que acham que são, da ganância desenfreada e da imponderabilidade do acaso.

Cena do filme Suburbicon

Cena do filme Suburbicon

Gardner (Matt Damon) vive um casamento cheio de ruídos e ressentimentos com Rose (Julianne Moore), presa a uma cadeira de rodas após um acidente de carro dirigido pelo marido. Ele vive um caso com a irmã de Rose, Margaret, também vivida por Moore, e é possível que esteja por trás da arquitetura de um plano para matar a mulher.

O filme começa cheio de sutilezas e sugestões e vai ganhando gravidade e agudeza aos poucos até se configurar em uma ópera de erros e desgraças. A direção de Clooney segue no mesmo compasso. Começa embevecida dos olhos tristes de Nicky (Noah Jupe), o filho dos Gardners, e vai ficando histérica – ao ponto que a própria música se torna onipresente e delirante.

“Suburbicon: Bem-Vindos ao Paraíso” é uma sátira potente, no todo, mas fundamentalmente nos detalhes. A relação do menino branco com o vizinho negro, a perversidade de Gardner que vai escalando conforme ele vai se sentindo sufocado e mesmo as cenas que exibem o racismo descampado de uma sociedade febril e destemperada são pequenos comentários cheios de lucidez e espanto de um realizador senhor de suas convicções e dos efeitos que quer alcançar.

Autor: Tags: , , , , ,

  1. Primeira
  2. 1
  3. 2
  4. 3
  5. 4
  6. 5
  7. 10
  8. 20
  9. Última