Publicidade

Arquivo da Categoria Críticas

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015 Críticas, Filmes | 10:29

“Macbeth: Ambição e Guerra” é adaptação protocolar de Shakespeare

Compartilhe: Twitter
Foto: divulgação

Foto: divulgação

Adaptar Shakespeare, por mais trivial que pareça, em face das inúmeras adaptações que pipocam por aí, não é para todo mundo. O australiano Justin Kurzel, com apenas um longa-metragem no currículo, se julgou apto para o desafio. Não que “Macbeth: Ambição e Guerra” seja um filme ruim. Não é. É apenas protocolar no tratamento que dá a uma das mais complexas, apaixonantes e pulsantes peças do bardo inglês.

Levar Shakespeare ao cinema apenas pela transitoriedade do gesto, pelo hype em si, é uma bobagem. Sua versão de “Macbeth” tem bons predicados. O visual exuberante talvez seja o maior deles. Michael Fassbender como o general tentado por sua ganância que cai em desgraça é outra. Há, ainda, Marion Cotillard desfilando todo o seu talento como Lady MacBeth, mas a atriz é subaproveitada pelo roteiro que adensa o primeiro ato da peça e corre com o terceiro – justamente o mais impactante de todos.

A trajetória de Macbeth está toda lá, mas quem quer que já conheça a peça pode se encontrar flertando com o desinteresse. Kurzel não tinha um desafio qualquer. Afinal, “Macbeth” já havia sido abordado no cinema por figuras como Roman Polanski e Orson Welles. Ao optar por uma visceralidade consternada, reforçando a gravidade do texto, Kurzel finge estar levando Shakespeare a outro patamar. Mas é só fingimento. Afinal, a qualidade, o peso, o pessimismo, o fatalismo vem todo do original. Há algumas soluções visuais que ameaçam resgatar o filme dessa previsibilidade tão maçante quanto presunçosa, mas elas se circunscrevem como um interesse periférico. Jamais reclamam o domínio sob o filme.

Talvez o desafio fosse grande demais para um segundo filme. Talvez a sombra dos trabalhos de Polanski e Welles tenham levado Kurzel a adotar uma literalidade desnecessária. Shakespeare funciona melhor no cinema quando problematizado. Transcrição por transcrição, há expedientes melhores do que o cinema para tanto.

Autor: Tags: , , , ,

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015 Críticas, Filmes | 14:02

Romance de estranhamento, “Garota Sombria Caminha pela Noite” é filme de vampiro que faltava

Compartilhe: Twitter

Um conto moral ou uma abordagem iraniana do vampirismo no cinema? “Garota Sombria Caminha pela Noite”, coprodução entre EUA e Irã, falado em persa e rodado em um preto e branco hipnotizante, agrega um pouco das duas definições, mas vai muito além delas.

Estamos em Bad City, uma cidade de cafetões, traficantes, prostitutas e crianças que flertam com a delinquência. Além dos drogados e desesperançosos. É neste cenário inóspito que uma vampira solitária escolhe suas vítimas na noite escura que convida os tipos mais depravados.

Dirigido por Ana Lily Amirpour, inglesa de ascendência iraniana, o filme passou por festivais como Londres, São Francisco e Sundance e integrou algumas listas de melhores produções de 2014 de críticos e publicações de prestígio. O entusiasmo não é injustificado.

Cena do filme "Garota Sombria Caminha pela Noite"

Cena do filme “Garota Sombria Caminha pela Noite”

“Garota Sombria Caminha pela Noite” vale-se da estranheza e de um profundo sentimento de deslocamento –realçado pela estética apuradíssima que compreende desde a fotografia altamente estilizada até a trilha sonora mesmerizante – para falar de solidão e de como o amor pode surgir mesmo nas circunstâncias menos propícias.

Trata-se de um filme cujo sentido precisa ser construído em conjunto com sua audiência, mas Amirpour fornece todas as ferramentas possíveis para isso. Há, por exemplo, uma cena lindíssima em que nossos heróis se conectam ao som de uma canção chamada “Death”, da banda White Lies. A cena, de uma organicidade que foge a toda à franquia “Crepúsculo” para ficar em um exemplo pop, arregimenta todo o sentimento de deslocamento, inadequação e carência que une aqueles dois jovens.

O vampirismo no filme de Amirpour é menos uma condição parasitária e mais um movimento de resistência a ele. É, portanto, uma leitura poética de um mito tão largamente explorado e deturpado pelo cinema.  Pode-se dizer, sim, que se trata de uma abordagem iraniana do vampirismo, porque dificilmente se verá um recorte tão lúdico e inebriante do vampirismo no cinema contemporâneo. No entanto, não se trata de um filme efetivamente iraniano. Esse mistério se concatena com a aura do filme. Senhor de uma atmosfera tão encantadora quanto distante, “Garota Sombria Caminha pela Noite” é um dos filmes mais criativos, pulsantes e sensíveis a aportar em nossos cinemas em 2015.

Autor: Tags: , ,

terça-feira, 15 de dezembro de 2015 Críticas, Filmes | 13:15

“A Floresta que se Move” revigora peça mais complexa de Shakespeare

Compartilhe: Twitter

Fazer uma adaptação brasileira de MacBeth, uma das peças shakespearianas mais adaptadas pelo cinema – grandes mestres como Orson Welles e Roman Polanski o fizeram – é, sob muitos aspectos, uma proposta para lá de ousada. Ambientá-la na atualidade é flertar perigosamente com o descarrilamento da ideia, mas o diretor Vinícius Coimbra (“A Hora e a Vez de Augusto Matraga”), com o préstimo da roteirista Manuela Dias, contorna essas problemáticas com um drama voraz e cheio de personalidades.

Cena de "A Floresta que se Move" (Foto: divulgação)

Cena de “A Floresta que se Move”
(Foto: divulgação)

“A Floresta que se move” (Brasil, 2015) é um filme que não esconde sua ascendência teatral e com essa opção reforça as tintas shakespearianas em uma elaboração dramática com cores contemporâneas. Gabriel Braga Nunes é Elias Amaro, que recebe de uma bordadeira tão logo desembarca da Alemanha, que hoje seria promovido à vice-presidente do banco e que logo seria presidente. A profecia, também ouvida pelo amigo César (Ângelo Antônio) detona a ambição de Elias, sentimento cultivado com afinco por sua esposa Clara (Ana Paula Arósio) e ele se vê desejoso de avançar contra a vida de seu chefe, quem é todo atenção para com ele, vivido por Nelson Xavier.

Confiando nos atores – e seu par de protagonistas não decepciona – Coimbra recorre ao realismo fantástico para expor a fissura emocional que acomete a casa e os personagens.

A narrativa evolui relacionando bem os paradigmas estabelecidos por Shakespeare e a realidade contemporânea, em que uma instituição financeira é o maior símbolo do poder capitalista.

Não se trata de um filme que tenta atualizar Shakespeare, um erro em que muitas obras cinematográficas incorrem, mas de uma tentativa de dialogar com a obra do bardo inglês por meio de um recorte inusitado e inventivo. É este o mérito fundamental do filme que apresenta muitos outros como a adequação ao texto clássico, a boa direção de arte e cenários e, especialmente, as atuações.

Autor: Tags: ,

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015 Críticas, Filmes | 18:01

Documentário “Osvaldão” ilumina figura mítica da guerrilha do Araguaia

Compartilhe: Twitter
Foto: divulgação

Foto: divulgação

Falar de personagens amplamente conhecidos pela história pode não ser exatamente fácil, mas certamente é mais realizável. “Osvaldão”, documentário que visa iluminar vida e trajetória de Osvaldo Orlando da Costa, o comandante negro da guerrilha do Araguaia e mais um das muitas vítimas da ditadura brasileira, é, portanto, um filme que precisa ser saudado por sua coragem e desprendimento.

O filme, rodado de maneira independente recorreu ao financiamento coletivo na internet para que o lançamento fosse viabilizado em sete cidades brasileiras neste final de semana. Incluindo São Paulo e Rio de Janeiro.

Não há nada no filme assinado pelos diretores Ana Petta (“Repare Bem”), André Michiles (“Através”), Fabio Bardella (“Através”) e Vandré Fernandes (“Camponeses do Araguaia”), que integram o coletivo cinematográfico Gameleira, além do interesse de entender essa figura tão incomum. Osvaldão é, de fato, um personagem mais rico do que um preconceito sugere. Ao deflagrar o passado de Osvaldo, os diretores apresentam um contundente vaticínio contra as mazelas da ditadura, muitas delas ainda enterradas pela má vontade do Estado em assumir o inglório passado.

Não se trata de um filme com um discurso em evolução, no entanto. Há um ponto de vista muito claro ali, mas os realizadores são sábios em não deixar que essa perspectiva se imponha sobre o personagem investigado. Essa generosidade resguarda o filme de críticas oriundas de um posicionamento diverso daquele verificado nas entrelinhas da produção.

Pugilista talentoso, devoto familiar e benquisto pelos amigos, o Osvaldo que surge em “Osvaldão” é muito simpático. Talvez esteja aí o grande problema do filme. O personagem não é problematizado em momento algum. Não deixa de se residir aí, também, um preconceito por parte da realização. Difícil crer que com a variedade de documentos e depoimentos que o filme dispôs, nada tenha se encontrado para instaurar um conflito sequer na pessoa de Osvaldo.

De toda forma, o filme equilibra a reconstituição do cenário político que levou à guerrilha no Araguaia, com a memória de um homem afetuoso, querido e muitíssimo bem lapidado para a atividade política, com uma experiência internacional nada desprezível.

Goste-se ou não de “Osvaldão”, e há mais razões para gostar do que desgostar, é o tipo de cinema que dá gosto de ver no Brasil. Do tipo que milita tanto pela compreensão de um contexto, como por um cinema oxigenado e fora das convenções de mercado.

Autor: Tags: , , ,

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015 Análises, Críticas | 20:24

Crítica dos indicados ao Globo de Ouro 2016

Compartilhe: Twitter

CarolComo de hábito, a HFPA, que outorga os prêmios Globo de Ouro, passou longe da unanimidade, mas sua seleção de melhores de 2015 no cinema e na televisão também passou longe de ser merecedora de restrições e desagravos.

“Carol”, que no Brasil será distribuído pela Mares Filmes, confirmou sua condição de independente do ano – ensejada pela boa recepção no festival de Cannes e se consolidou no topo da disputa com cinco indicações. É, também, um reflexo de um ano em que a produção de estúdio mais forte é um blockbuster autoral, o exuberante e calculadamente caótico “Mad Max – A Estrada da Fúria”.

Na sequência figuram “Steve Jobs”, “O Regresso” e “A Grande Aposta” com quatro nomeações cada.

As maiores surpresas residem na área de televisão. Mas elas são mais barulhentas do que efetivamente surpreendentes. “Narcos” é mais novidade do que “House of Cards”, ciosa de uma esperada decadência. Por isso, a presença da série – e de Wagner Moura – faz sentido em face do histórico da associação de correspondentes estrangeiros de Hollywood com novos programas. “Mr. Robot’, por seu turno, impôs-se na disputa como o programa mais comentado e elogiado da temporada. Não à toa, lidera a corrida no segmento televisivo.

iG ON: Confira a lista completa dos indicados ao Globo de Ouro 2016

Voltando ao cinema, chama a atenção a presença de “Spotlight – Segredos Revelados”, percebido como um filme de atores, em categorias como filme drama, diretor e roteiro, mas sem um membro sequer do elenco indicado. Em termos de Globo de Ouro isso não quer dizer necessariamente menor chance de vitória, mas é um indício de que apesar de largar na frente na corrida pelo Oscar, o filme não abriu distância.

A presença de “Mad Max” entre os melhores dramas não chega a ser uma surpresa, mas sua opção em detrimento de produções mais ajustadas ao gosto das premiações como “Steve Jobs”, “A Garota Dinamarquesa” e mesmo “Ponte dos Espiões” denota que o primeiro passo para se vencer o preconceito com blockbusters é ter um bom blockbuster para começo de conversa. O filme de George Miller é o primeiro desde “Batman – O cavaleiro das Trevas” (2008) a preencher os requisitos.

Apesar do aparente protagonismo de “Carol”, a disputa parece se concentrar entre os filmes que protagonizaram os dois últimos parágrafos.

Entre as comédias, “A Grande Aposta” – até pelo número de indicações avantajado para as comédias em disputa – parece gozar de muito favoritismo. “Perdido em Marte”, um dos filmes mais celebrados do ano – por mais estranho que seja sua figuração entre as comédias – pode ser seu maior rival.

A contenda entre os diretores parece desequilibrada a favor de George Miller (“Mad Max”). O que ele fez é realmente incrível e merecedor de prêmios. Mais do que o Oscar, o Globo de Ouro costuma responder pontualmente a isso. Mas Iñárritu já se encaixava no perfil ano passado, por “Birdman”, e a HFPA sentiu que a dedicação de Richard Linklater ao projeto “Boyhood” carecia de um reconhecimento mais altivo. Pelo não menos impactante “O Regresso”, pode ser a vez de Iñárritu.

“Cinquenta Tons de Cinza”, “Velozes e Furiosos 7”, “Shaun, o Carneiro”, “Steve Jobs”, “A Garota Dinamarquesa” e “O Quarto de Jack”: Os filmes da Universal na disputa

“Cinquenta Tons de Cinza”, “Velozes e Furiosos 7”, “Shaun, o Carneiro”, “Steve Jobs”, “A Garota Dinamarquesa”
e “O Quarto de Jack”: Os filmes da Universal na disputa

Se houve algum ranço de decepção nessa lista do Globo de Ouro, ela jaz entre os filmes estrangeiros. A seleção não é especialmente ruim, mas fica alguns degraus abaixo do desejado em face dos filmes que estavam na briga. Na configuração que está, fica difícil apostar em qualquer outro candidato que não “O Filho de Saul”, da Hungria.

O novo filme de Quentin Tarantino, “Os Oito Odiados” se viu contemplado nas categorias de roteiro, trilha sonora e atriz coadjuvante. O mesmo deve se replicar no Oscar.  A briga pelo prêmio de roteiro, no entanto, parece ser entre “A Grande Aposta” e “Spotlight”.

Atuações

O maior destaque recai definitivamente sobre a ausência de Johnny Depp. Não que seu trabalho em “Aliança do Crime” seja maior que a vida, mas trata-se de sua melhor atuação desde “Sweeney Todd”, pelo qual ganhou o Globo de Ouro em 2008. Vale lembrar que ele foi indicado pelo contestado “O Turista”. Mas não se pode reclamar dos atores dramáticos selecionados pela HFPA. Michael Fassbender (“Steve Jobs”), Bryan Cranston (“Trumbo: Lista Negra”), Leonardo DiCaprio (“O Regresso”),  Will Smith (“Um Homem entre Gigantes”) e Eddie Redmayne (“A Garota Dinamarquesa”) reúnem unanimidade em torno de seus trabalhos. Algo que não pode ser desprezado em um ano tido como menor para os intérpretes masculinos.

Já do lado cômico, a sensação é de baderna. A HFPA foi resgatar trabalhos de Mark Ruffalo e Al Pacino do início do ano, nada especialmente fantástico, para contornar um sentimento de vazio na disputa. Christian Bale e Steve Carell, ambos de “A Grande Aposta”, devem ver a vitória de Matt Damon, que carrega “Perdido em Marte” sozinho e é, francamente, o único prêmio que o filme merece (já que o roteiro não foi indicado).

Western de vanguarda: Há muito mais do que alcançam os olhos em "Estrada da fúria" (Foto: divulgação)

Western de vanguarda: Há muito mais do que alcançam os olhos em “Estrada da fúria”
(Foto: divulgação)

Brie Larson (“O Quarto de Jack”) e Alicia Vikander (“A Garota Dinamarquesa”) brigam pelo troféu de atriz dramática. Cate Blanchett e Rooney Mara devem ficar nas indicações por “Carol”.

No lado cômico, talvez seja o momento de Amy Schumer (“Descompensada”), cada vez mais em alta nos EUA. Mas Jennifer Lawrence (“Joy”) é sempre um perigo. Mas ela já tem dois prêmios. Há quem pense que já é muito para o que apresentou.

Para encerrar, a briga entre “Anomalisa” e “Divertida Mente” promete ser boa pelo prêmio de melhor animação. São dois dos melhores filmes do ano. Podiam muito bem figurar nas duas categorias principais.

Autor: Tags: , ,

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015 Críticas, Filmes | 14:30

Agradável, “Pegando Fogo” não sai do lugar-comum

Compartilhe: Twitter
Foto: divulgação

Foto: divulgação

John Wells gosta de situações dramáticas. Criador da série “E.R”, ele debutou como diretor no cinema com “A Grande Virada”, um drama estrelado por Ben Affleck e Tommy Lee Jones sobre a crise econômica que colocou a vida dos americanos de cabeça para baixo em 2008. “Álbum de família”, baseado na peça do dramaturgo Tracy Letts, sobre a lavagem de roupa suja de uma família na iminência da morte da matriarca, deu sequência à filmografia de Wells.

Agora, com “Pegando Fogo”, ele tira o pé do acelerador dramático, mas não se desvincula do gênero ou das profundas crises – sejam elas de ordem microcósmica, macrocósmica ou essencialmente pessoal.

Bradley Cooper, cada vez mais especialista em burilar tipos obsessivos, vive Adam Jones, um prestigiado chef de cozinha que sucumbiu às drogas e pôs tudo a perder. Carreira, amigos, prestígio, dignidade e a fila é tão grande quanto esse tipo de circunstância pressupõe.

Mas Jones ensaia um retorno. Em Londres, ele parte à cata dos menores resquícios de amizade que ainda lhe restam para tirar do papel sua ideia de conquistar a terceira estrela Michelin, maior honraria que pode ser concedida para um restaurante.

Com o apoio financeiro de Tony (Daniel Brühl), amigo devoto desde os tempos prósperos de Paris, Jones consegue reunir recursos para buscar seu objetivo.

Escrito por Steven Knight (de belezuras como “Senhores do Crime” e atrocidades como “O Sétimo Filho”), “Pegando Fogo” trilha o cômodo caminho da previsibilidade. O que não quer dizer que seja ruim. Não é. Apenas não avança o lugar-comum. A despeito do empenho de Bradley Cooper, como de hábito, muito bem em cena, do charme quase ostensivo de um filme ambientado no universo gastronômico e da categoria dos coadjuvantes (a sueca Alicia Vikander, o francês Omar Sy, para citar alguns), o filme não decola.

A rivalidade com um ex-amigo, papel do ainda subestimado Matthew Rhys (da série “The Americans”), e a dívida do passado com traficantes franceses pouco servem à dramaturgia do longa. A ideia de que o passado está sempre à espreita é dramaticamente melhor aproveitada em outro núcleo do filme.

Uma ou outra gordura aqui e ali, no entanto, não desmerecem “Pegando Fogo” enquanto entretenimento. É um filme agradável e como tal deve ser apreciado.

Autor: Tags: , , ,

domingo, 6 de dezembro de 2015 Críticas, Filmes | 18:06

“À Beira-Mar” é triunfo da artista Angelina Jolie

Compartilhe: Twitter
Brad Pitt e Angelina Jolie estão fantásticos em cena (Foto: divulgação)

Brad Pitt e Angelina Jolie estão fantásticos em cena
(Foto: divulgação)

É de se admirar a evolução de Angelina Jolie como cineasta. “À Beira-Mar”, uma das boas estreias deste fim de semana nos cinemas brasileiros, é o seu terceiro filme como cineasta – e seu melhor até aqui.

Depois da ousadia de principiante de filmar em bósnio e servo-croata em “Na Terra do Amor e Ódio” (2011), um filme problemático, mas cheio de nuanças interessantes, Jolie impressionou com o previsível, mas muito bem filmado “Invencível” (2014), um filme grande para uma diretora tão pouco experimentada.

“À Beira-Mar” é de outra estirpe. Jolie se propõe um desafio ainda maior. Além de dirigir, escrever, estrelar e produzir o filme, ela coloca Brad Pitt para viver seu marido em um casamento em crise.  É uma abordagem corajosa porque Jolie e Pitt vivem sob o microscópio de uma mídia afoita por fofocas, sejam elas factíveis ou não. Fornecer material para a fantasia alheia, portanto, é um risco que Angelina Jolie enquanto artista achou válido correr.

E Brad Pitt não apresentava algo tão vivaz, contundente e poderoso desde “O homem que Mudou o Jogo” (2011). Jolie, por sua vez, aparece muito bem na tela. Ela reveste sua Vanessa – uma mulher que desapareceu em suas angústias – de uma complexidade tão fascinante quanto horrorosa. É no trabalho por trás da tela, no entanto, que Jolie se sai ainda melhor.

O roteiro de “À Beira-Mar” é um primor. Além de elaborar circunstâncias emblemáticas da crise afetiva que Roland (Pitt) e Vanessa vivem, Jolie cria diálogos substanciosos, cortantes e, no contexto da trama, brilhantes.

Como diretora, valoriza os silêncios com a confiança de um Kurosawa, de um Malick e filma seus atores com uma câmera invasiva. O ritmo do filme é outro acerto de Jolie. Se há um porém, é a “revelação” da raiz da decadência emocional de Vanessa, que responde por boa parte da crise estabelecida entre ela e Roland.

O filme não precisava dessa construção. Afinal de contas, a crise que testemunhamos e fomos intuindo ao longo do drama não precisava de um fato detonador. Este elemento talvez esteja ligado a questões particulares de Jolie, de sua mãe, mas diminuem o impacto de “À Beira-Mar” enquanto cinema; ainda que amplie o escopo de comparações entre o que se vê na tela e a vida real.

Esse despojamento de Jolie, combinado à notável evolução em todas as áreas do cinema em que se propõe atuar, eleva Angelina Jolie a outro patamar como artista.

“À Beira-Mar” é um filme que pode e deve ser descoberto em revisões e redescoberto anos mais tarde. É uma pequena joia cult formulada com a abnegação de quem já amou e sabe que o verbo se conjuga com sofrimento, renúncia e esforço.

É, por fim, um triunfo do cinema que se pretende desarmado, franco e inflexivo.

Autor: Tags: , , , ,

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015 Críticas, Filmes | 18:42

Larry Clark expõe odores da sociedade com nudez e contemplação em “O Cheiro da Gente”

Compartilhe: Twitter
Foto: divulgação

Foto: divulgação

O novo filme de Larry Clark (“Ken Park”) chega aos cinemas 20 anos depois do lançamento de “Kids”, que o colocou no mapa. “O Cheiro da Gente”, que entrou no ranking de melhores filmes do ano da prestigiada Cahiers du Cinéma, é um legítimo exemplar deste outsider lisérgico e provocador.

Falado em francês, o filme comunga do interesse essencial da filmografia de Clark que é flagrar a contracultura em todos os seus excessos. Aqui, testemunhamos as diferentes maneiras de um grupo de jovens em lidar com o consumismo.

JP (Hugo Behar Thinières) e Math (Lucas Lonesco) recorrem à prostituição para poder financiar bebidas, drogas, roupas novas e táxis. Pacman (Théo Cholbi) assalta transeuntes. Enquanto outro filma tudo o que vê, inclusive as relações sexuais dos amigos. Todos do grupo aceitam a delinquência como um efeito natural do tédio de suas vidas. Mas há um preço a se pagar por hobbys tão incomuns.

Como de hábito, a evolução da narrativa em si importa menos a Clark do que as cores do contexto e, no caso específico de “O Cheiro da Gente”, ele parece interessado em sublinhar a degradação. Desde que “virou veado por dinheiro”, Math passou a enfrentar problemas de impotência. JP não sabe ao certo o que sente por Math, mas sabe que se sente negligenciado em casa. Marie (Diane Rouxel) gosta de JP, mas teme que ele goste, na verdade, de Math. “Todos os meninos hoje são veados”, diz um garoto da trupe enquanto Marie urina embaixo de um viaduto para as lentes de seu celular.

Há, ainda, a enigmática presença de Michael Pitt. Além do ator que parece ajustado a algum tipo de mise- em-scène fetichista, Larry Clark também aparece no filme, como um mendigo – cinicamente chamado de rock star – maltratado pela trupe.

Drogas, sexo, suor e álcool compõem a matéria-prima do filme que parece intencionado à revelar o odor de uma sociedade presa a compulsões. Seja o desejo dos velhos em possuir os jovens – e os corpos gastos e enrugados que aparecem em cena contrapostos aos joviais e magros dão dimensão desse comentário em particular – ou a reação truculenta desses jovens a um mundo hipócrita.

“O Cheiro da Gente” não é um filme de respostas. Muito menos de perguntas. Há apenas a contemplação desapaixonada de um circo de circunstâncias.

O CHEIRO DA GENTE_trailer from Zeta Filmes on Vimeo.

Autor: Tags: , ,

Críticas, Filmes | 13:56

“Califórnia” trata de sonhos e descobertas da adolescência

Compartilhe: Twitter
Foto: divulgação

Foto: divulgação

Quem nunca arranhou os versos da famosa canção de Lulu Santos? “Garota, eu vou pra Califórnia/Viver a vida sobre as ondas/Vou ser artista de cinema/O meu destino é ser star”. “Califórnia” (Brasil 2015), primeiro longa-metragem ficcional de Marina Person, leva para o cinema a brisa redentora ofertada pela música de Lulu. Uma obra não tem nada a ver com a outra, ainda que Marina tenha a perspicácia de incluir a música de Lulu em um momento chave de seu filme.

“Califórnia” é sobre adolescência e, antes disso, sobre ser adolescente nos anos 80. É um filme cativante nas referências culturais que carrega e musicado na maneira como se comunica com o espectador – especialmente se ele tiver sido adolescente nos anos 80.

Estela (Clara Gallo) quer ir para a Califórnia, onde mora o tio que tem um contato mais direto com uma cena cultural que fascina Estela. O surgimento da MTV, David Bowie, o cinema americano, etc. Daí se justifica a Califórnia do título, na materialização desse sonho dourado que o estado mais rico dos EUA representa para muita gente.

Estela também está apaixonada. Mas todas as dúvidas que circundam uma adolescente apaixonada a atormentam. Essa transitoriedade da adolescência – repleta de questionamentos e momentos de afirmação – constitui um interesse primal de Marina Person. Por meio de alguns recursos visuais, que a princípio podem parecer mera intervenção estilística, Person estipula essas camadas que a personagem vai ganhando – ou se livrando.

Cinéfila da mais fina estirpe, Marina Person pode parecer não querer correr riscos nessa sua estreia na ficção, mas apresenta um cinema jovial, sem ser condescendente, e cheio de personalidade, sem ser discursivo. É, nesse contexto, uma estreia tão sólida quanto entusiasmante.

Há, ainda, a música. Person sabiamente se utiliza da música para refinar o estofo dramático de seu filme e buscar uma conexão sensorial com o público. É pela música que Estela se conecta aos personagens que mais lhe influenciam. O tio Carlos (Caio Blat) e JM (Caio Horowicz), um menino que chega na escola envolto em boatos e preconceitos e vai seduzindo Estela de uma maneira totalmente insuspeita.  É no desenho da relação de Estela e JM que Person melhor coloca seu talento como cineasta.

Um embalo de inocência, desejo, afinidades e carência une os dois e é tangenciado com sensibilidade e ternura pela cineasta. É um recorte que torna “Califórnia” mais universal, menos previsível. Não se trata de uma história de amor com começo, meio e fim. Trata-se de uma busca de outra ordem e que, de alguma forma, tem tudo a ver com o acertado título do filme.

Autor: Tags: , , ,

terça-feira, 1 de dezembro de 2015 Críticas, Filmes | 13:26

Shyamalan fala de traumas que curam no surpreendente “A Visita”

Compartilhe: Twitter
(Foto: A Visita")

(Foto: A Visita”)

M. Night Shyamalan não fazia um bom filme desde “A Vila” (2004). Para alguém comparado a Hitchcock em seu segundo filme (“O Sexto Sentido”) e tomado por Hollywood como um prodígio, tratava-se de uma situação angustiante. “A Visita”, que Shyamalan rodou de maneira independente, portanto, mais do que paz, lhe devolve a confiança. Em si mesmo e a de Hollywood.

Formalmente simplista e esteticamente arejado, “A Visita” reúne o melhor do cinema de Shyamalan. Estão ali a construção elaborada do medo e a desconstrução gradativa da expectativa. O trabalho com crianças, o drama familiar e um mistério a nortear à narrativa.

O grande mérito de Shyamalan em “A Visita”, no entanto, não está na articulação do mistério, efetivamente surpreendente e nauseantemente verossímil, ou na bem ajambrada construção visual do filme – todo estruturado nas imagens captadas pelas câmaras das duas crianças que visitam os avós -, mas na potência do drama familiar que fomenta.

Todo o suspense serve ao drama familiar, cujo sentido pleno só se contextualiza para a audiência no fim da projeção. Opção narrativa esta que transfigura “A Visita” em um filme muito mais significativo e impactante do que uma mera fita de terror objetiva ser.

Becca (Olivia DeJonge) e Tyler (Ed Oxenbould) vão visitar os avós, que não conhecem, para permitir que a mãe tenha um tempo para ela mesma e para curtir o namorado. A mãe e os meninos foram abandonados pelo pai, o mesmo sujeito que fez a mãe deles abandonar os pais dela. Becca decide fazer um documentário sobre essa visita e espera que a iniciativa possa servir como catalisadora para curar as feridas que todos os envolvidos nesse drama familiar ostentam.

A opção pelo found footage oxigena o cinema de Shyamalan, que surge mais econômico. O humor é outro ponto alto da fita e o jovem Ed Oxenbould, cujo personagem tem aspirações no universo rap, responde pelos melhores, e também surpreendentes, momentos da fita.

É Tyler quem percebe que há algo de errado com seus avós, o que Becca credita apenas a velhice. Shyamalan brinca com as percepções possíveis diante do quadro que apresenta; sempre filtrado pelas lentes de Becca. Trata-se de um exercício de linguagem interessantíssimo, em que a mise-em-scène vai ganhando camadas a partir das imagens brutas de Becca.

O que não quer dizer que Shyamalan renuncie a sua característica pretensão. Mas há mais poesia nela em “A Visita”. De certa forma, ele pede perdão pelos equívocos do passado e intui que o público o perdoara com este bom filme. Pretensioso, mas não deixa de ser verdadeiro também. É bom ver Shyamalan de volta!

Autor: Tags: , ,

  1. Primeira
  2. 8
  3. 9
  4. 10
  5. 11
  6. 12
  7. 20
  8. Última