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Arquivo da Categoria Críticas

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015 Críticas, Filmes | 13:56

“Califórnia” trata de sonhos e descobertas da adolescência

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Foto: divulgação

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Quem nunca arranhou os versos da famosa canção de Lulu Santos? “Garota, eu vou pra Califórnia/Viver a vida sobre as ondas/Vou ser artista de cinema/O meu destino é ser star”. “Califórnia” (Brasil 2015), primeiro longa-metragem ficcional de Marina Person, leva para o cinema a brisa redentora ofertada pela música de Lulu. Uma obra não tem nada a ver com a outra, ainda que Marina tenha a perspicácia de incluir a música de Lulu em um momento chave de seu filme.

“Califórnia” é sobre adolescência e, antes disso, sobre ser adolescente nos anos 80. É um filme cativante nas referências culturais que carrega e musicado na maneira como se comunica com o espectador – especialmente se ele tiver sido adolescente nos anos 80.

Estela (Clara Gallo) quer ir para a Califórnia, onde mora o tio que tem um contato mais direto com uma cena cultural que fascina Estela. O surgimento da MTV, David Bowie, o cinema americano, etc. Daí se justifica a Califórnia do título, na materialização desse sonho dourado que o estado mais rico dos EUA representa para muita gente.

Estela também está apaixonada. Mas todas as dúvidas que circundam uma adolescente apaixonada a atormentam. Essa transitoriedade da adolescência – repleta de questionamentos e momentos de afirmação – constitui um interesse primal de Marina Person. Por meio de alguns recursos visuais, que a princípio podem parecer mera intervenção estilística, Person estipula essas camadas que a personagem vai ganhando – ou se livrando.

Cinéfila da mais fina estirpe, Marina Person pode parecer não querer correr riscos nessa sua estreia na ficção, mas apresenta um cinema jovial, sem ser condescendente, e cheio de personalidade, sem ser discursivo. É, nesse contexto, uma estreia tão sólida quanto entusiasmante.

Há, ainda, a música. Person sabiamente se utiliza da música para refinar o estofo dramático de seu filme e buscar uma conexão sensorial com o público. É pela música que Estela se conecta aos personagens que mais lhe influenciam. O tio Carlos (Caio Blat) e JM (Caio Horowicz), um menino que chega na escola envolto em boatos e preconceitos e vai seduzindo Estela de uma maneira totalmente insuspeita.  É no desenho da relação de Estela e JM que Person melhor coloca seu talento como cineasta.

Um embalo de inocência, desejo, afinidades e carência une os dois e é tangenciado com sensibilidade e ternura pela cineasta. É um recorte que torna “Califórnia” mais universal, menos previsível. Não se trata de uma história de amor com começo, meio e fim. Trata-se de uma busca de outra ordem e que, de alguma forma, tem tudo a ver com o acertado título do filme.

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terça-feira, 1 de dezembro de 2015 Críticas, Filmes | 13:26

Shyamalan fala de traumas que curam no surpreendente “A Visita”

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(Foto: A Visita")

(Foto: A Visita”)

M. Night Shyamalan não fazia um bom filme desde “A Vila” (2004). Para alguém comparado a Hitchcock em seu segundo filme (“O Sexto Sentido”) e tomado por Hollywood como um prodígio, tratava-se de uma situação angustiante. “A Visita”, que Shyamalan rodou de maneira independente, portanto, mais do que paz, lhe devolve a confiança. Em si mesmo e a de Hollywood.

Formalmente simplista e esteticamente arejado, “A Visita” reúne o melhor do cinema de Shyamalan. Estão ali a construção elaborada do medo e a desconstrução gradativa da expectativa. O trabalho com crianças, o drama familiar e um mistério a nortear à narrativa.

O grande mérito de Shyamalan em “A Visita”, no entanto, não está na articulação do mistério, efetivamente surpreendente e nauseantemente verossímil, ou na bem ajambrada construção visual do filme – todo estruturado nas imagens captadas pelas câmaras das duas crianças que visitam os avós -, mas na potência do drama familiar que fomenta.

Todo o suspense serve ao drama familiar, cujo sentido pleno só se contextualiza para a audiência no fim da projeção. Opção narrativa esta que transfigura “A Visita” em um filme muito mais significativo e impactante do que uma mera fita de terror objetiva ser.

Becca (Olivia DeJonge) e Tyler (Ed Oxenbould) vão visitar os avós, que não conhecem, para permitir que a mãe tenha um tempo para ela mesma e para curtir o namorado. A mãe e os meninos foram abandonados pelo pai, o mesmo sujeito que fez a mãe deles abandonar os pais dela. Becca decide fazer um documentário sobre essa visita e espera que a iniciativa possa servir como catalisadora para curar as feridas que todos os envolvidos nesse drama familiar ostentam.

A opção pelo found footage oxigena o cinema de Shyamalan, que surge mais econômico. O humor é outro ponto alto da fita e o jovem Ed Oxenbould, cujo personagem tem aspirações no universo rap, responde pelos melhores, e também surpreendentes, momentos da fita.

É Tyler quem percebe que há algo de errado com seus avós, o que Becca credita apenas a velhice. Shyamalan brinca com as percepções possíveis diante do quadro que apresenta; sempre filtrado pelas lentes de Becca. Trata-se de um exercício de linguagem interessantíssimo, em que a mise-em-scène vai ganhando camadas a partir das imagens brutas de Becca.

O que não quer dizer que Shyamalan renuncie a sua característica pretensão. Mas há mais poesia nela em “A Visita”. De certa forma, ele pede perdão pelos equívocos do passado e intui que o público o perdoara com este bom filme. Pretensioso, mas não deixa de ser verdadeiro também. É bom ver Shyamalan de volta!

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sábado, 21 de novembro de 2015 Críticas, Filmes | 09:54

“Como Sobreviver a um Ataque Zumbi” mistura comédia teen e carnificina

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Que os zumbis reinam há algum tempo no coração da cultura pop não é novidade nenhuma, mas fazer uma sátira de filmes zumbis parecia uma ideia fora do lugar depois do sucesso de “Zumbilândia” (2009), que de certa forma pavimentou toda a realidade que testemunhamos em meio ao culto à série “The Walking Dead”.

“Como Sobreviver a um ataque zumbi”, no entanto, não se subscreve como uma simples sátira. O filme de Christopher Landon abarca a sátira, mas brinca com outros preceitos do filme jovem como ritos de amadurecimento e o valor da amizade. Nesse sentido, ainda que “Zumbilândia” seja um paralelo óbvio, o filme também parelha com fitas como “Superbad – É hoje” (2007) e “Anjos da Lei” (2012), promovendo um interessante e bem-vindo mix de influências.

No filme, os amigos Ben (Tye Sheridan), Carter (Logan Miller) e Augie (Joey Morgan), que são escoteiros desde crianças, se veem às voltas com uma invasão zumbi na pequena cidade em que vivem e precisam por em prática alguns de seus conhecimentos de escoteiros para sobreviver. Adicione à bagunça  stripers zumbis, piadas escatológicas, alguma insinuação sexual e bastante nojeira e você vai ter um dos filmes mais divertidos da temporada.

Tye Sheridan, que surgiu para o mundo como o filho de Brad Pitt e Jessica Chastain em “A árvore da vida” segura bem o protagonismo da fita e, depois de mandar bem nos filmes “Lugares Escuros” (2015) e “Amor Bandido” (2012), exibe uma versatilidade que já lhe garante mais pujança do que o rótulo de promessa. Trata-se de um ator em plena faculdade de seu talento.

 

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quarta-feira, 11 de novembro de 2015 Críticas, Filmes | 13:14

“007 Contra Spectre” é retrocesso narrativo e conceitual na franquia

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Tudo parecia caminhar para outro sucesso acachapante. “007 Contra Spectre” (2015), 24º filme de James Bond, teria a mesma equipe criativa por trás do maior sucesso de público e crítica da série, “Operação Skyfall” (2012). Mas o filme que pretende se resolver como um fecho do arco protagonizado por Daniel Craig é mais presunçoso do que assertivo e menos eficiente do que aparenta.

A opção por sequenciar a trama desde os eventos iniciados em “Cassino Royale” (2006) até então vinha oferecendo um “momentum” ímpar para a franquia. Tratava-se, afinal, de um 007 em início de carreira com uma recém-adquirida licença para matar e às voltas com insegurança, arrogância e, por que não, o amor. Nesse contexto, “Operação Skyfall” ofertou uma mudança de paradigma ao descortinar o passado de Bond e redirecionar o futuro do personagem com mudanças jamais experimentadas no universo do espião britânico.

É bem verdade que Sam Mendes não facilitou para quem quer que assumisse a cadeira de diretor em “Spectre”, mas parece que o tempo curto que o cineasta dispôs para produzir um filme tão grande e ambicioso pesou.

Craig segue dominando o personagem, mas o roteiro não ajuda (Foto: divulgação)

Craig segue dominando o personagem, mas o roteiro não ajuda
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“007 Contra Spectre” é mal resolvido dramaticamente e inautêntico em matéria de ação. O orçamento generoso de US$ 300 milhões ajuda a disfarçar a falta de gás do filme, mas a longa duração – a maior entre os 24 filmes da franquia – compromete o que poderia funcionar como atenuante.

Nem mesmo o ótimo plano-sequência que abre o filme abrilhanta a cena pré-créditos, um indício do aglomerado de desentendidos narrativos que viria a seguir. Craig consegue, no fio da navalha, manter intacta a motivação que move Bond desde “Cassino Royale”, mas mesmo que os filmes anteriores sejam resgatados na explanação do que é, de fato, a organização criminosa Spectre, o elo pessoal entre Bond e a figura no centro da Spectre é, mais do que fraca, risível. Além de imediatamente evocar paródias famosas do agente como “Austin Powers” e “Cassino Royale” (1967), de Ken Hughes.

Christoph Waltz, que deveria inspirar medo e apreensão, não consegue nada além da mais vã indiferença com caretas e frases feitas que fazem sua participação em “O Besouro Verde” parecer um momento de grande inspiração.

Outro descompasso são as cenas de ação. Tímidas e anticlimáticas, elas não compartilham do brilhantismo criativo dos filmes recentes e apesar de espalhafatosas – grandes explosões e carros destruídos – pouco fazem para cativar a audiência.

Entre tantos erros, o mais grave talvez seja dar margem à velha queixa de misoginia a acompanhar Bond. A participação de Mônica Bellucci não é vexatória por ser breve, mas sim por estar ali apenas para servir como um casinho de Bond, algo com o qual os filmes recentes haviam rompido. Bond seguia tendo casinhos, mas eles tinham algum contexto e, principalmente, não ganharam a face de uma das mais belas e festejadas atrizes europeias.

Não obstante, a relação com Madeleine Swann (Léa Seydoux), que deveria redimir o espião, é mal elaborada dramaticamente e não ecoa na audiência.

Monica Bellucci e a misoginia: Velhos hábitos expostos em velhas fórmulas (Foto: divulgação)

Monica Bellucci e a misoginia: Velhos hábitos expostos em velhas fórmulas
(Foto: divulgação)

O mote de uma mulher envolvida com assassinos e que se vê atraída por Bond por motivos que repugna já fora trabalhado na série com mais inspiração em volumes estrelados por Brosnan e Connery.

É de se lamentar que “007 Contra Spectre” seja um filme tão mediano depois de produções tão bem azeitadas – em especial “Cassino Royale” e “Operação Skyfall”. O fato de brindar os fãs antigos com diversas referências a um Bond mais clássico – como o capanga brutamontes vivido por Dave Batista – não é uma desculpa. Seria ainda mais lamentável se “Spectre” marcasse a despedida de Craig do personagem. Para o ator, que ainda não decidiu se segue à frente da série, é uma questão de recuperar seu legado. “Spectre”, o filme, não a organização, até segunda ordem, deixa Bond em maus lençóis.

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quinta-feira, 5 de novembro de 2015 Críticas, Filmes | 15:34

Doce e cativante, “Ruth & Alex” fala de amor, Nova York e imóveis

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“Ruth & Alex” (2014) é daquela estirpe que convencionamos chamar de “feel good movies”. Dirigido por Richard Loncraine (“Wimbledon – o jogo do amor”), o filme flagra um casal da melhor idade às voltas com a necessidade de se desfazer de seu apartamento no Brooklyn e imersos na nostalgia inerente a todo grande processo de mudança.

Alex (Morgan Freeman) é um pintor que apesar de relativo sucesso local, jamais despontou na carreira. Ruth (Diane Keaton) é a estudante progressista que se apaixonou pelo artista cheio de personalidade. Com flashbacks, o filme tangencia o passado da relação de Ruth e Alex em seus pontos-chave e aposta no carisma de Freeman e Keaton para seduzir a audiência.

Ruth e Alex tentam com a ajuda da sobrinha da primeira, vivida por Cynthia Nixon, vender seu apartamento, cujo prédio não tem elevador; o que pode acarretar futuros danos à saúde do casal. Empolgada, Ruth estimula Alex a procurar um novo apartamento enquanto tentam vender o seu.

O texto de Charlie Peters baseado na obra “Five Flights up” de Jill Ciment é leve e hábil em fazer da especulação imobiliária uma divertida gincana – pelo menos para o público.

Amor, preconceito, independência, cumplicidade, Nova York são temas muito bem abordados por “Ruth & Alex”, um filme que vai crescendo de tamanho à medida que se aproxima de seu desfecho.

Sem ser solene e apostando na simplicidade, Loncraine entrega um filme cheio de brilho, com muita personalidade e todo ele empoderado pela graciosidade de Freeman e Keaton como protagonistas.

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sábado, 31 de outubro de 2015 Críticas, Filmes | 08:19

Amoralidade do combate às drogas move “Sicario: Terra de Ninguém”

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foto: Montagem/reprodução

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Muitos filmes sobre a guerra ao tráfico de drogas já foram feitos e é comum apontar “Traffic – ninguém sai ileso” (2000) como o mais representativo desta frente cinematográfica. Quinze anos depois da premiada fita de Steven Soderbergh, “Sicario: Terra de ninguém” (2015) se apresenta para assumir o posto ocupado por “Traffic”. Não se trata de ser um filme melhor, mas de radiografar os efeitos perniciosos do combate às drogas com o mesmo agravo de “Traffic”, mas com o acinte da contemporaneidade. O mundo capturado por Denis Villeneuve é ainda mais sórdido, tenebroso e amoral do que o mostrado por Soderbergh.

Os filmes têm ainda outro elemento em comum. Benicio Del Toro, oscarizado por viver um policial honesto em meio ao mar de corrupção na fronteira entre México e EUA em “Traffic”, surge agora como um misterioso colombiano recrutado por uma força-tarefa entre agências americanas montada pela Secretaria da Defesa para desbaratar um cartel mexicano que expande seus domínios nos EUA. Essa força-tarefa, comandada com o devido grau de cinismo e insolência por Matt Graver (Josh Brolin) tem na agente do FBI Kate Macer (Emily Blunt) seu corpo estranho.

Macer, que liderava a divisão antissequestro da polícia federal americana no Arizona, cai meio de paraquedas no grupo e à medida que questiona sua função na equipe, questiona também os rumos ambíguos que o combate ao tráfico pelos EUA tomou.

O fato de o filme ser protagonizado por uma personagem feminina eleva não só a tensão dramática, como recodifica a percepção da brutalidade daquele universo estranho a Kate, mas também a audiência. “Sicario” não reclama para si a responsabilidade de ofertar respostas para um problema que parece maior cada vez que se presta atenção nele, mas se incumbe de apontar a crescente de amoralidade em uma guerra sem mocinhos. “Os limites foram alterados”, explica a uma queixosa Kate seu superior direto em um dado momento do filme. Uma luta em que agendas pessoais, corporativas e geopolíticas se misturam corrompendo qualquer objetivo probo que possa existir.

A violência e os desvios morais inerentes a ela compõem a matéria-prima da filmografia de Villeneuve – como pode ser visto em “Incêndios” (2010) e “Os suspeitos” (2013) – e o roteiro de Taylor Sheridan (ator da série “Sons of Anarchy” estreante como roteirista) oferece o relevo necessário para o canadense evoluir no escopo de sua própria obra.

Não há qualquer espaço para redenção em “Sicario” e Villeneuve, embora capriche na tensão (uma cena de tiroteio em Juarez, no México, é toda ela construída apenas com veículos parados e closes nos atores), se recusa a filmar obedecendo convenções de gênero. Seu filme em nada se parece com as produções que abordam o combate ao tráfico de drogas. As informações não são mastigadas para a plateia e ação importa menos do que o raciocínio a fomentá-la. Denso, brilhantemente fotografado e provocativo nos detalhes, “Sicario” não é o melhor de Villeneuve, mas atesta que o canadense é mesmo um dos melhores cineastas da atualidade. E com sobras.

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quinta-feira, 29 de outubro de 2015 Críticas, Filmes | 17:48

“Goosebumps: monstros e arrepios” é o “Jumanji” desta geração

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Sob muitos aspectos, “Goosebumps: monstros e arrepios” (2015) pertence a um estrato de filmes em extinção. Aquele filme que se insere no círculo de entretenimento familiar, mas o faz combinando elementos de humor e horror. Os anos 80 viram produções desse porte brilharem na forma de “Os Gremlins” e “Os caça-fantasmas”.

Estrelado por Jack Black, “Goosebumps” coloca o ator na pele de R.L Stine, o autor de uma interminável série de livros de terror infantil batizada de Goosebumps. No filme, Stine é um tipo neurótico que vive se mudando de cidade com a finalidade de preservar uma privacidade exacerbada, algo difícil quando se tem uma adolescente para criar. É justamente a partir do interesse de Zach (Dylan Minnette) por Hannah (Odeya Rush), que as coisas vão começar a desandar para Stine e os habitantes da pequena fictícia cidade de Madison, em que se passa a ação.

As criaturas maléficas criadas por Stine nas páginas ganham vida em uma noite aterrorizante e ele precisa liderar um grupo composto por três adolescentes para evitar um apocalipse macabro. Sob muitos aspectos, “Goosebumps” é o “Jumanji” desta geração.

Se recupera esse espírito de aventura de Sessão da Tarde, a fita dirigida por Rob Letterman (que já havia trabalhado com Black em “As viagens de Gulliver”) peca por um excesso de puerilidade que parece deslocar o filme de sua contemporaneidade.  Algo que não acontecia com “Jumanji”. Mas talvez o problema não seja do filme em si e, sim, da realidade em que ele se insere.

Especulações à parte, “Goosebumps” cativa pela engenhosidade com que insere referências diversas na trama, a rivalidade se Stine com Stephen King é um bom exemplo, mas se compromete com um arranjo amoroso forçado para todos os personagens, especialmente para o protagonista.

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terça-feira, 27 de outubro de 2015 Críticas, Filmes | 08:54

Vencedor da Palma de Ouro, “Dheepan – o refúgio” faz abordagem corajosa do problema imigratório

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É inegável que Jacques Audiard é um dos cineastas mais impactantes e interessantes do cinema francês contemporâneo. Não surpreende, portanto, que o tema de seu mais recente filme, “Dheepan – o refúgio” (FRA, 2015), seja a imigração –  assunto que polariza toda a Europa atualmente.

Vencedor da Palma de Ouro no último festival de Cannes, “Dheepan” é aquilo que se convencionou chamar de filme de diretor. Audiard controla todos os aspectos do filme com mãos de ferro e usa de uma câmera saliente para acompanhar a rotina de Dheepan (Jesuthasan Antonythasan), que fugiu da guerra no Sri Lanka junto com Yalini (Kalieaswari Srinivasan) e a pequena Illayaal (Claudine Vinasithamby), sob identidades falsas, para tentar a vida na França. Sem conhecer o idioma e precisando agir como uma família de verdade, Dheepan e sua mulher e filha postiças precisam se adequar a uma vizinhança que vai se revelando cada vez mais perigosa. Além de tolerar as demandas que cada um tem para si.

Dheepan e a desesperadora constatação de que não se pode fugir de uma guerra interna

Dheepan e a desesperadora constatação de que não se pode fugir de uma guerra interna

Não fosse pelas intervenções estilísticas do diretor, que ressalta a todo momento o estado de desconforto que move os personagens – uma solução narrativa inteligente é permitir que a audiência compartilhe da desorientação dos personagens na chegada à França -, “Dheepan –  o refúgio”  poderia muito bem ser um drama televisivo. O roteiro, extremamente previsível, repisa clichês trabalhados de maneira mais satisfatória em séries como “The Bridge”.

É mesmo a direção de Audiard que tira “Dheepan” da obviedade. A relação de Yalini com Brahim (Vincent Rotties), o chefe da gangue local e sobrinho do idoso a quem Yalini é contratada para cuidar, abarca toda a dinâmica relacional entre a Europa e a massa imigrante em suas também previsíveis variações. Mas o recorte proposto por Audiard adensa o registro.

Mesmo assim, o fato de “Dheepan – o refúgio” ser precedido por uma Palma de Ouro desarranja as perspectivas. Não se trata de um grande filme, mas de um grande tema abordado com personalidade por um diretor confiante. A palma de direção talvez fizesse mais sentido. É indefectível constatar que o prêmio máximo em Cannes veio mais por seu valor histórico, atribuído a um filme que olha para uma das grandes celeumas da humanidade na contemporaneidade, do que por seu valor artístico.

“Dheepan – o refúgio” torna-se o filme mais bem sucedido de Audiard, ainda que um de seus mais fracos. No final das contas, tal como ocorre com o personagem central, as forças das circunstâncias embaralham essa realidade.

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domingo, 25 de outubro de 2015 Críticas, Filmes | 14:52

Guerra fria em “Ponte dos Espiões” dá a Spielberg seu melhor filme em anos

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Foto: divulgação

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Sob muitos aspectos, “Ponte dos Espiões” (2015) é um filme tão único quanto especial na carreira de Steven Spielberg. O filme, que consagra a quarta colaboração de cineasta com o ator Tom Hanks (as outras foram “O Terminal”, “Prenda-me se For Capaz” e “O Resgate do Soldado Ryan”) e é o terceiro “sério” de Spielberg na sequência (“Cavalo de Guerra” em 2011 e “Lincoln” em 2012) – um fato raro em uma carreira que alterna produções de prestígio com blockbusters – , agrega o DNA do Spielberg dos blockbusters à solenidade do Spielberg das produções adultas.

Ambientado na guerra fria, o drama visivelmente influenciado por uma atmosfera de Frank Capra – responsável por filmes clássicos como “A mulher faz o homem”, “A felicidade não se compra” e “Aconteceu naquela noite” -, mostra um advogado do setor de seguros que se vê impelido a defender um homem acusado de ser espião da União Soviética. James Donovan sabe que por melhor que faça seu trabalho, o destino de Rudolph Abel (Mark Rylance) está traçado e que suas chances de obter um julgamento justo são para lá de remotas.

O primeiro ato de “Ponte dos Espiões”, portanto, se assevera como um elogio do direito como raramente se viu no cinema recente. Flertando novamente com outro tempo do cinema americano, Spielberg ensaia o seu “O Sol é para Todos”, mesmo sem adentrar o ritmo de drama de tribunal.

Mais adiante, e convém lembrar que o roteiro assinado pelos irmãos Coen e Matt Charman é inspirado em fatos reais, o drama se transforma completamente. A espionagem, que era uma sombra vultosa, mas uma sombra, passa a dominar a ação e “Ponte dos Espiões” assume sua vocação de drama político com a mesma inteligência até então apresentada, mas com muito mais sagacidade. É quando o texto dos Coen se permite ser mais complexo e bem-humorado. Um humor típico dos Coen que Tom Hanks, com timing perfeito, incorpora em meio ao clima de crescente tensão.

Depois que um piloto americano é capturado pelos soviéticos, a CIA escala Donovan para negociar uma troca pelo agora condenado espião soviético. Conforme a ação se transporta para a Berlim oriental, “Ponte dos Espiões” se transforma novamente e assume o ritmo de um thriller enervante, sem que haja qualquer cena de ação e sem deixar que as costuras políticas – a reboque da oratória afiada de Donovan – percam o protagonismo.

Spielberg enquadra Hanks: "Ponte dos Espiões" é o melhor fruto da parceria (Foto: divulgação)

Spielberg enquadra Hanks: “Ponte dos Espiões” é o melhor fruto da parceria
(Foto: divulgação)

Na verdade, “Lincoln” já era um filme em que Spielberg colocava a fala, e a política por trás dela, no centro da ação.  Só que “Ponte dos Espiões” é muito mais ambicioso no que apenas sugere em decorrência do que é mostrado.

Hanks, como o herói inquestionável e muito bem iluminado pela fotografia de Janusz Kaminski, personifica o James Stewart de Frank Capra, em outro paralelo eloquente alinhado por Spielberg. A do homem comum que ao recusar a rendição faz a diferença.

Sutil nas elucubrações e econômico na narrativa, Spielberg realiza um filme potente nas minúcias e atraente na temática. Se usa o passado para falar do presente, em que direitos individuais e constitucionais são descartados sem cerimônias pelo Estado, ele o faz com otimismo indisfarçável. Se atenta para o absurdo das guerras travadas nas sombras, e elas são em maior número hoje do que foram no momento em que o filme se passa, o faz com a inteligência de quem sabe que a menor das vitórias ainda é uma grande e dolorosa derrota para muitos.

É um equilíbrio raro na filmografia do cineasta e um Spielberg contingenciado como não se via desde “Minority Report – a nova lei” (2002) e “Munique” (2005). Mas sem deixar de ser Spielberg. Ao buscar abrigo em Capra e reverenciar um cinema americano menos cínico, sem fechar os olhos para o cinismo do mundo, Spielberg entrega o seu melhor filme em muito tempo.

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quinta-feira, 22 de outubro de 2015 Críticas, Filmes | 14:13

“Um amor a cada esquina” é comédia sofisticada e homenagem afetuosa ao cinema

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Peter Bogdanovich antes de ser um cineasta é um cinéfilo. “Um amor a cada esquina” (EUA 2014), que marca seu retorno à direção de uma ficção para cinema após 14 anos – seu último filme foi “O miado do gato” – é uma carta de amor ao cinema cheia de afeto.

Billy Wilder, Howard Hawks e Woody Allen são referências explícitas na trama e na construção dos diálogos desta que é uma comédia tão sofisticada quanto inteligente.

Owen Wilson vive Arnold Albertson, um diretor de teatro que chega a Nova York para sua nova peça. Ele decide passar uma noite com uma garota de programa que sonha em ser atriz. Izzy (Imogen Poots) o fascina e ele lhe propõe dar U$$ 30 mil para ela largar a vida de prostituta e perseguir seu sonho. Artimanha do destino, ou a manifestação do mero acaso, faz com que que Izzy seja escalada para a peça que Arnold vai dirigir e que será estrelada pela sua mulher (Kathryn Hahn).

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A confusão, que já parece suficientemente grande, torna-se ainda maior com os outros cativantes personagens da trama. Rhys Ifans faz um galã inglês apaixonado pela mulher de Arnold; Will Forte é o produtor e autor da peça que se apaixona instantaneamente por Izzy. Jennifer Aniston faz a carente e amalucada terapeuta de Izzy que é namorada do personagem de Forte. Há, ainda, Austin Pendleton como um juiz obcecado por Izzy.

O fascínio que a personagem parece exercer sobre os homens da trama, no entanto, é um macguffin, podemos dizer. Já que é a jornada de Izzy de prostituta a atriz de sucesso que interessa à realização. Mas interessa apenas por meio da memória afetuosa que Izzy revela.

O maior trunfo do filme de Bogdanovich, porém, são os diálogos caprichados que esculpem uma trama inventiva e cativante. “Um amor a cada esquina” não é um filme para a eternidade, mas é daqueles que se infiltra na sua memória com docilidade. Atenção para a participação especial de Quentin Tarantino que ajuda a elevar o filme de patamar e cristaliza a homenagem poderosa que Bogdanovich presta ao cinema.

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