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Arquivo da Categoria Críticas

domingo, 27 de setembro de 2015 Críticas, Filmes | 17:20

Olhar estrangeiro faz elogio afetuoso da cultura sambista em “O samba”

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Foto/divulgação

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Entusiasta da música brasileira, o franco-suíço Georges Gachot volta a investigar a música brasileira em “O Samba”, em estreia neste fim de semana em cinemas selecionados nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro. Assim como fizera em “Maria Bethânia: música é perfume”, Gachot se permite deslumbrar-se pelo universo que retrata.

Mais do que um exercício de investigação, “O samba” é uma contemplação. Com a curadoria de Martinho da Vila, reconhecidamente um dos maiores sambistas que o país tem a oferecer, Gachot adentra a comunidade de Vila Isabel, bairro da zona norte carioca que abriga a escola do coração de Martinho, para filmar um pouco dessa paixão incandescente.

Dos diferentes sons extraídos do pandeiro ao indefectível samba no pé e sorriso no rosto de crianças carentes, passando pela exaltação do talento de Martinho como letrista, “O Samba” perfila um punhado de emoções que, embora previsíveis, são referendadas pelo que tem de genuínas.

Em alguns momentos, porém, “O samba” não consegue se esquivar de um olhar exótico para esse traço da cultura brasileira. A principal fala de Ney Matogrosso, um dos poucos nomes de expressão a ter voz no filme fora Martinho – a outra é Leci Brandão – reforça uma convicção estrangeira sobre o papel do samba no país e para o brasileiro. Trata-se de um preconceito que Cachot usa um artista local para advogar em seu filme. É um dos momentos em que “O samba” é mais vulnerável enquanto discurso.

No mais, trata-se de um filme sem grandes aspirações outras que não oferecer uma leitura bastante interessada de um dos principais gêneros da música brasileira. “É cantar as coisas sem muito sofrimento”, observa Martinho em um dado momento. “O Samba” tem o mérito de ser um filme que busca essa sinergia tão cara a um bom samba.

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sábado, 19 de setembro de 2015 Críticas, Filmes | 19:38

Quem canta os males espanta no delicado “Ricki and the flash”

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Filmes sobre conflitos familiares pipocam em Hollywood, mas “Ricki and The flash – de volta pra casa” (EUA 2015) tem um molho especial. Além de ser regado à melhor música dos anos 70 e 80, a produção reúne Meryl Streep, o diretor Jonathan Demme e a roteirista Diablo Cody. Como bônus, promove o reencontro da atriz com Kevin Kline, seu parceiro no atemporal e inesquecível “A escolha de Sofia” (1982) e o encontro da atriz com sua filha Mamie Gummer nas telas.

Meryl Streep vive a Ricki do título, que na verdade se chama Linda, uma mulher que abandonou marido e filhos para perseguir o sonho de ser uma rock star. Não deu certo. Quando o filme começa, com uma apresentação da banda Ricki and the flash, porém, a energia daquela sexagenária no palco nos faz crer outra coisa e passa por aí parte do êxito de “Ricki and the flash” enquanto experiência cinematográfica. De uma delicadeza tangível, o filme de Demme transborda energia e sensibilidade. Onde as palavras parecem não dar conta, uma cena de música surge para preencher todo o sentido possível.

Foto: divulgação

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Ricki tem sua rotina – que ela tenta colorir com um ‘peguete’ da banda e um bartender gay que a idolatra como sua Madonna particular – interrompida com a ligação do ex-marido (Kline) a convocando para ajudar na recuperação de sua filha (Gummer), atravessando uma crise depressiva após ser abandonada pelo marido. Naturalmente esse reencontro, não só de Ricki com sua filha – e seus outros filhos, mas com seu passado e com sua vida pregressa irá promover choques e atritos. Ainda que o roteiro de Cody perpasse por esses choques com alguma pressa, não dá para dizer que o filme suprima a tensão dramática para facilitar a redenção familiar. A música, afinal, está ali para purgar todo esse carma.

Demme é um narrador fugaz e conta com uma atriz poderosa em cena. Streep já não entregava uma atuação tão condoída, tão envolvente desde “Álbum de família” (2013). Não era tão cativante desde “Simplesmente complicado” (2009).

O elenco de apoio não decepciona. Rick Springfield, um roqueiro decadente que abraçou atuar como um roqueiro decadente no cinema agrega ainda mais singeleza a “Ricki and the flash” como o inesperado ponto de equilíbrio de Ricki. Com pouco tempo em cena, Kevin Kline fundamenta bem seu personagem, um tipo que parece ter enrijecido ainda mais após Ricki ter partido de sua vida.

Ademais, como não poderia deixar de ser em um texto assinado por Diablo Cody, o filme resvala no feminismo, mas com doçura e generosidade. É uma cena bonita e que antecipa o momento mais apoteótico e emocional da fita ao som de “Drift away”, de Dobie Gray.

Com personagens iluminados e uma atmosfera inebriante, “Ricki and the Flash” se revela um dos filmes mais agradáveis e saborosos do ano. Não é pouca coisa.

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quinta-feira, 17 de setembro de 2015 Críticas, Filmes | 18:52

Filme de ator, “Nocaute” combina emoção e testosterona para cativar

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Foto: divulgação

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Filmes sobre esportes em geral, e boxe em particular, obedecem a certa estrutura narrativa que afasta alguns espectadores enquanto cativa outros. “Nocaute” (EUA, 2015) abraça este lugar-comum com todas suas forças e Jake Gyllenhaal.  É isso mesmo. “Nocaute” é um filme de ator. Antoine Fuqua dirige de maneira a ceder todo espaço do mundo para seu ator brilhar e Gyllenhaal não faz por menos. No filme, ele vive Billy Hope, um órfão que ascendeu do “sistema” para o topo da categoria dos meio-pesados no boxe. O roteiro de Kurt Sutter faz um bom desenho do personagem. Como todo menino pobre e abandonado, Hope tem problemas de raiva e controle (em qualquer esfera de sua vida) e é sua esposa Maureen (Rachel McAdams) quem lhe provê equilíbrio e norte. O mais interessante é que essa fissura pisológica se reflete no jeito de Hope lutar. Ele só consegue bater apanhando e só vence suas lutas depois de ser duramente golpeado pelos adversários. Ainda assim, mantém um cartel invicto.

Tudo muda de figura quando Maureen é vítima de uma tragédia adornada por esse emocional convulsionado de Hope, morre, e o lutador cai em desgraça.

Os três atos do filme são muito bem estabelecidos por Fuqua. Quando conhecemos Hope ele está no auge, pai de uma menina amorosa, marido de uma mulher atenciosa e devotada, milionário e admirado por multidões. Mas a “bolha Hope”, como Maureen se refere a este momento, estoura e e o segundo ato exibe toda a implosão do personagem e aí Gyllenhaal recebe carta branca de Fuqua para comandar o show. Depois de ter a guarda de sua filha retirada, de tentar se matar reiteradamente e atingir o fundo do poço, não resta nada para Hope além de começar a escalada para cima novamente. Surge então Forest Whitaker como o treinador do único cara que Hope sente que o venceu. Hope o procura para treiná-lo. Whitaker faz um tipo sábio que parece mais preocupado em treinar a mente do que o corpo do novo pupilo. Chega o terceiro ato e a esperada redenção. E embora saibamos exatamente o desenrolar que vai se suceder, é impossível resistir à emoção.

Um dos méritos de “Nocaute” é trabalhar os clichês de forma muito natural, sem deixar-se conduzir por eles. Nesse sentido, Gyllenhaal é vital. É o ator, com suas variações entre a contenção e a explosão, em uma atuação tão física como intuitiva, quem garante que os conflitos de seu personagem prevaleçam à obviedade da narrativa.

Por isso “Nocaute” é um filme melhor do que talvez fosse se protagonizado pelo rapper Eminem, como estava inicialmente previsto.

Se Fuqua não filma as lutas de boxe com a inventividade que David O. Russell consagrou em “O vencedor” (2010), agrega à testosterona muito coração.  No fim das contas, é assim que se ganha lutas no cinema.

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quarta-feira, 16 de setembro de 2015 Críticas, Filmes | 19:36

Politicamente incorreto, “Férias frustradas” é rara refilmagem que faz par ao original

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Um dos clássicos da comédia oitentista, “Férias frustradas”, é o novo alvo da onda de remakes e reboots que assola a Hollywood atual. Mas a fita dos diretores debutantes John Francis Daley e Jonathan M. Goldstein (roteiristas de produções como “Quero matar meu chefe” e “O incrível mágico Burt Wonderstone”) não é uma refilmagem convencional. O filme é um misto de sequência e adaptação do filme protagonizado pelo impagável Chevy Chase. Aqui Ed Helms é Rusty Griswold que na esperança de reanimar o convívio familiar decide fazer a viagem ao Wally World, a mesma pretendida por seu pai no filme original.

Como é possível antecipar, tudo sai errado para Rusty e sua família composta pela esposa Debbie (a sempre ótima Christina Applegate) e pelos filhos James (Skyler Gisondo, hilário) e Kevin (Steele Stebins).

Skyler Gisondo, um inesperado roubador de cenas, ao lado de Ed Helms (Foto: divulgação)

Skyler Gisondo, um inesperado roubador de cenas, ao lado de Ed Helms
(Foto: divulgação)

Além da acertada escalação do elenco, o filme têm como bônus participações especiais inspiradas como as de Charlie Day, como um guia turístico bipolar, do próprio Chevy Chase, Regina Hall, Norman Reedus (o Daryl de “The walking dead), Ron Livingston, Leslie Mann e especialmente Chris Hemsworth, o Thor em pessoa, como um republicano altamente sexualizado casado com a irmã de Rusty.

A grande sacada da realização, no entanto, foi deixar o politicamente correto de fora, o que reforça o potencial cômico do filme e lhe acresce certo frescor em uma seara em que a comédia americana parece tão pudica. O que funciona melhor, e até certo ponto surpreende, é a dinâmica de bullying entre os filhos de Rusty. São as cenas de rivalidade entre os dois irmãos, bem originais e incorretas, que proporcionam as melhores gargalhadas que a comédia americana ofertou em 2015 nos cinemas. Sem se levar a sério, mas reverente à fórmula de filme familiar, “Férias frustradas” (EUA, 2015) consegue corresponder ao legado do filme original e adentrar à galeria das boas (e bem-vindas) refilmagens.

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terça-feira, 15 de setembro de 2015 Críticas, Filmes | 19:04

Gaspar Noé tenta capturar complexidade do amor por meio do sexo em “Love”

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Love - 2

Gaspar Noé é um polemista insaciável. Mas talentoso. Para o bem e para o mal, “Love” (França, 2015) é um reflexo de seu autor. O filme que está sendo vendido como “o mais polêmico do ano”, afasta qualquer polêmica se tirarmos a nudez e o sexo explícito da equação.

A proposta de Noé é fazer um filme sobre o amor a partir da perspectiva sexual. Mostrar o sexo, portanto, passa a ser uma necessidade narrativa. Necessidade muito bem justificada pelo cineasta conforme suas ideias ganham corpo no transcorrer da obra.

Murphy (Karl Glusman) está insatisfeito com sua vida. Entre seus grandes arrependimentos está como deixou as coisas com Electra (Aomi Muyock). Murphy vive com Omi (Klara Kristin), a quem conheceu e engravidou enquanto ainda estava com Electra. Na manhã de ano novo, época em que estamos todos propensos a reavaliações de nossas vidas, Murphy recebe um telefonema da mãe de Electra, preocupada com a filha a quem não consegue contatar há dois meses. A ligação mexe com Murphy que mergulha em certa catatonia e põe-se a rememorar a relação com Electra.

“Love” então estabelece uma narrativa não linear, totalmente influenciada pela perspectiva masculina, heteronormativa e fatalista de Murphy. Noé incumbe-se de desalinhar uma história de amor repleta de clichês como em todo filme hollywoodiano, mas esses clichês são abordados com um realismo desencantado em que o sexo surge como expressão dos sentimentos dos personagens. Trata-se de um uso do sexo como ferramenta narrativa inédito no cinema.  A explicitude dos atos sexuais, muito bem filmadas por Noé, não é propositalmente erotizada. Aliás, em momento algum Noé busca o erotismo gráfico, aquele pretendido por closes de genitais e captura de gemidos histéricos em filmes pornográficos. Os corpos aqui são filmados em sua beleza trivial e trivialmente apresentados à audiência.

O que não impede que o sexo seja filmado e ambientado de maneiras diferentes ao longo da produção, reforçando a expressividade narrativa pretendida pela realização. Quando Electra e Murphy levam a vizinha menor de idade Omi para a cama. É quando Noé se permite mais erotizar uma cena de sexo. É, também, a cena mais demorada de sexo do filme. Da música à câmera ciosa dos corpos que se contorcem em tesão incontido, Noé registra aquele momento de comunhão de um casal em plena realização de uma fantasia em comum. É a partir deste momento que a memória de Murphy passa a projetar mais linearmente a desestruturação de sua relação com Electra.

Há cenas exageradamente planejadas em "Love", mas impulsos toleráveis de um realizador habituado a causar certo desconforto (Fotos: divulgação)

Há cenas exageradamente planejadas em “Love”, mas são impulsos toleráveis de um realizador habituado a causar certo desconforto
(Fotos: divulgação)

Apesar da retidão temática, Noé cede a seus impulsos de vaidade. Se autoreferencia no filme em dois personagens e “explica” a razão de ser de “Love” em diálogos soltos. Em um dado momento, Murphy, que estuda cinema, diz que fará um filme regado a “sangue, esperma e lágrimas” porque “esta é a essência da vida”. Em outro momento, o mesmo Murphy, assumindo-se como alter ego do cineasta, diz que deseja fazer um filme sobre a sexualidade sentimental.

Fruto de vaidade ou insegurança, “Love” não carecia dessas elaborações interdiegéticas para se validar. A experiência estética proposta por Noé transmuta completamente o sentido do filme. Não mostrasse o sexo entre os personagens, “Love” não adentraria a derme da audiência com sua inquietação, com seu fatalismo. Talvez fosse possível psicologizar Murphy, mais reprimido sexualmente do que Electra e menos ponderado também, mas não se atingiria a verve do que “Love” pretende ser. Um olhar dolorosamente romantizado sobre como é amar. Atentando à complexidade do sentimento em todas as suas sabotagens, fases, desejos, convenções, ilações e experimentações.

Polêmico por ofertar sexo explícito e, decepcionante para alguns por não apresentar nada de novo, “Love” é um triunfo da estética a serviço de um norte narrativo. Noé fez sua versão de “Romeu e Julieta” com muito mais sapiência do que a nudez constante em seu filme permite aos apressados enxergar. É um filme que vai crescer com o tempo e, como grandes amores, adquirir novo significado.

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sexta-feira, 11 de setembro de 2015 Críticas, Filmes | 17:34

Guy Ritchie repete suas fórmulas no divertido e charmoso “O agente da U.N.C.L.E”

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Guy Ritchie não é um dos cineastas britânicos mais importantes da história, mas certamente é um dos mais reconhecíveis. Algo substancialmente prodigioso no cinema moderno em que uma assinatura raramente se insere no cinema mainstream. Em sua nova incursão hollywoodiana, Ritchie atualiza um clássico sessentista da TV para o cinema, projeto que naturalmente guarda sua cota de similaridades com “Sherlock Holmes”, personagem que o cineasta também atualizou no cinema.

Atualizar não necessariamente corresponde a trazer para os dias atuais. “O agente da U.N.C.L.E” se passa na mesma década de 60 em que União Soviética e EUA estão apartados pela guerra fria. A atualização aqui preconiza um visual caprichado, figurinos robustos, direção de arte imaginativa, trilha sonora esperta e o humor inglês em sua melhor forma para ianque ver. Essa combinação é marca registrada de Ritchie e continua a funcionar perfeitamente na tela grande.

Henry Cavill é Napoleon Solo, um meliante que descobriu sua vocação na espionagem a serviço dos EUA. Ele é incumbido pela CIA de juntar forças a Illya Kuriakin (Armie Hammer), um tenaz operativo da KGB, para recuperar um cientista que colaborou com os nazistas e que está sob poder de uma organização secreta de afinidade fascista. As circunstâncias promovem a inesperada união e favorecem um humor que se alterna entre o sofisticado e o físico.

Foto: divulgação

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Ritchie investe no charme sem descuidar do requinte das cenas de ação, todas bem coreografadas e ritmadas, mas não consegue evitar que seu filme caia em certa previsibilidade. A personagem de Alicia Vikander, por exemplo, é muito mais transparente para o público experimentado em filmes de espionagem do que prevê o roteiro de Ritchie – também assinado Jeff Kleeman. Para efeito de comparação, o mais recente “Missão impossível” tem uma personagem feminina com os mesmos moldes, mas muito melhor desenvolvida. Ainda assim, Vikander e Elizabeth Debicki, que faz a vilã, respondem pelos melhores momentos do filme. Além de sobejarem estilo e elegância na tela.

Se não é especialmente notável, “O agente da U.N.C.L.E” se revela como um dos filmes mais divertidos e charmosos da temporada. De vez em quando é bom topar com um filme desses e Guy Ritchie é aposta certeira nesta área.

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quarta-feira, 9 de setembro de 2015 Críticas, Filmes | 18:45

“Que horas ela volta?” congrega muitos Brasis e filmes em narrativa sutil e cheia de belezas

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O Brasil do pós-Lula entrou na mira do cinema nacional em 2015. Se “Casa Grande” de Fellipe Barbosa abordava o derretimento da classe média e as tensões sociais inerentes a essa decorrência, Anna Muylaert (“É proibido fumar”) muda o foco da análise. A perspectiva sai da sala e se instala na cozinha. Em seu primeiro ato, “Que horas ela volta?” mostra a dinâmica da relação entre Val (Regina Casé) e seus patrões pelo ponto de vista da empregada/babá. No segundo ato, o filme evolui para esse pós-Lula em que fachadas e limites ruem em face do maior acesso à educação. Não obstante, o filme sofre outra transformação no terceiro ato – sem perder de vista todas essas ramificações – e se resolve como um tenro e absoluto estudo sobre a maternidade.

Leia também: “Casa Grande” pensa o Brasil a partir do derretimento da classe média 

“Que horas ela volta?”, porém, possui sutilezas poderosas que o dignificam para além da aprovação crítica. O próprio título do filme busca na relação de mães postiças com filhos que não são seus uma rima com a saudade de filhos afastados de suas mães verdadeiras.

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Val é uma pernambucana que já mora na casa dos patrões em São Paulo há tanto tempo que já faz parte da família. No contexto em que uma empregada doméstica pode fazer parte de uma família de classe média. Não que Carlão (Lourenço Mutarelli) e Barbara (Karine Telles) não gostem de Val e a tratem bem, mas Muylaert é muito hábil em tatear as pequenas fissuras diárias de uma relação construída por subtendidos, inferências, culpa e resignação.

A chegada da filha de Val, Jéssica (a fantástica Camila Márdila), desestabiliza essa relação. Jéssica vai prestar vestibular para arquitetura e parece mais preparada para o desafio do que Fabinho (Michel Joelsas), o filho que não é de Val, mas ela criou. Esse é apenas um dos pontos de choque que a chegada da menina proporciona à rotina de Val e seus patrões. Jessica também mexe com os hormônios da casa. Se Barbara não engole o abuso da menina de se colocar como hóspede da família, Carlão e Fabinho parecem flertar com a menina como diligência de classe. É aí que as tensões sociais reclamam o protagonismo no filme de Muylaert, mas o primoroso roteiro reserva uma guinada tão inesperada quanto poética mais à frente.

Ao se ressignificar como um filme sobre a complexidade da maternidade, “Que horas ela volta?” adquire mais relevo como cinema sem perder a pujança enquanto radiografia social.

O desfecho do filme é das coisas mais belas e cativantes que o cinema ofertou em muito tempo.  Regina Casé, um colosso em cena, contribui definitivamente para a consagração artística que é este filme. Combinando minimalismo dramático com seu referendado timing cômico, seu rigor cênico surpreende não pela atriz que ocupa a memória de muitos, mas pela atriz soberba e cheia de recursos que ela revela em um registro ponderado entre a emoção e o cálculo. Um trabalho tão detalhado quanto o filme que defende.

Muitas vezes, a audiência se sente na urgência de apertar um plástico-bolha – como a personagem de Casé faz em dado momento do filme. Essa sensação é um mérito da direção inteligente de Muylaert e do desempenho acima do bem e do mal de Casé. Uma parceria que dá ao cinema brasileiro o seu momento mais eloquente em 2015.

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quarta-feira, 2 de setembro de 2015 Críticas, Filmes | 18:09

“Ted 2” amplia sátira do original aos costumes americanos com mais escárnio e participações especiais

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Da obsessão masculina por pênis ao clamor uníssono por legalização nos EUA vindos das mais variadas frentes, do casamento homossexual à maconha, “Ted 2” demole fachadas ao satirizar tudo e todos com um humor tão ácido quanto perspicaz. Se o novo filme não está no mesmo patamar do original, preserva o tino pela piada irrestrita e abusada. Seth MacFarlane estica a ideia do original. Aqui, Ted (dublado no original por MacFarlane) está casado e após vivenciar alguns dissabores do matrimônio resolver ter um filho com Tami-Lynn (Jessica Barth). Só que Ted não tem pênis e depois de uma rápida caça por espermatozoides famosos (em uma bem sacada piada com Tom Brady e ao culto desproporcional a ídolos esportivos), ele decide adotar uma criança. Ocorre que, aos olhos do Estado, Ted é uma propriedade e não um ser humano. Ele e seu parceiro inseparável, John (Mark Wahlberg), decidem entrar com uma ação civil para legitimar Ted como um ser humano. O ponto de partida pode parecer trivial e a ideia de um ursinho de pelúcia maconheiro reclamando humanidade, idiota. Mas a alegoria funciona e MacFarlane investe pesado na sátira aos costumes americanos. A passagem em que o caso de Ted é repercutido pelo viés da mídia rivaliza com os grandes momentos do ensaísmo sociológico, mas sem o mesmo rebuscamento ou pretensão.

Com uma participação especial aqui e outra ali, “Ted 2” galvaniza a correção política como a principal besta em sua mira. Entre a escatologia e o romantismo, MacFarlane faz uma radiografia tenaz do establishment cultural vigente.

Travestir humor inteligente de humor idiota é uma aposta arriscada que deu muito certo no primeiro filme e, apesar da reticência da maior parte da crítica com este segundo volume, vinga aqui também. É sabido, porém, que o humor de MacFarlane pode ser refratário a alguns paladares. Neste contexto, o conceito de “Ted” como um todo parece deslocado. É incorreto, portanto, pontuar que o filme não tem nada novo a apresentar. A verdade é que “Ted” é uma rara sequência em que um autor, no caso MacFarlane, tem algo realmente novo a dizer e o faz por meio de mecanismos já experimentados.  O que não quer dizer que o filme não tenha fragilidades. O retorno do obsessivo Donny (Giovanni Ribisi) fissura a narrativa e arrefece o interesse pela trama principal. O arco parece existir apenas para dar corpo ao desfecho do filme.

De qualquer modo, “Ted 2” é uma comédia tão provocativa e abusada como o filme original. Feito este que não pode, muito menos merece, passar batido.

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terça-feira, 1 de setembro de 2015 Críticas, Filmes | 18:46

Woody Allen permite que fantasias desestruturem razão dos personagens no sombrio “Homem irracional”

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Pode ser mera coincidência, mas a escolha de Joaquin Phoenix para viver o depressivo Abe Lucas, um professor de filosofia desgostoso com a vida, ilumina “Homem irracional” de uma subjetividade muito bem vinda (curioso notar, por exemplo, como Phoenix não evoca Allen um momento sequer em sua caracterização). O ator, para quem não lembra, transformou um aparente surto em um documentário sobre mesquinhez e excentricidades da vida em Hollywood e vive a despejar perolas pessimistas sobre o reduto da fama. Pode ser mera coincidência, mas dez anos depois de lançar “Match point – ponto final”, na avaliação do próprio Allen, seu melhor filme, o cineasta estabelece um diálogo intermitente com este no âmago de sua nova obra.

São (possíveis) subtextos que enriquecem a experiência de se assistir este novo exemplar, que presta um tributo a Alfred Hitchcock ao reimaginar a questão ‘dostoiveskiana’ já trabalhada por Allen em “Match point”, “Crimes e pecados” e “O sonho de Cassandra”.

Lucas chega a uma universidade de uma pequena cidade dos EUA com a promessa de “ser um Viagra no departamento de filosofia” da instituição, como brinca a professora vivida por Parker Posey que não demora em se insinuar para o novo docente. Outra que se engraça com o professor é Jill (Emma Stone), uma aluna que já tinha uma quedinha pelo pensador Abe Lucas de quem já lera muitos artigos.

Lucas e Jill: a colisão entre fantasia e moralidade coloca a relação dos personagens em xeque

Lucas e Jill: a colisão entre fantasia e moralidade coloca a relação dos personagens em xeque

Lucas, porém, vive uma fase depressiva. Ele está insatisfeito com os cânones da filosofia e, por consequência, com as amarras da existência. Pensador voraz, estipula que a ansiedade é a vertigem produzida pela liberdade.

O professor, sem forças para resistir, se entrega às investidas da personagem de Posey, mas reluta em ceder aos encantos de Jill, comprometida com o devotado Roy (Jamie Blackley). Aí Woody Allen estabelece as bases para a discussão da moralidade que calça “Homem irracional”. Mais além, há uma pulsante reflexão sobre casualidade, mas o interesse preponderante parecer ser confrontar as fantasias que nos dominam de quando em quando com a insalubre realidade.

É este tempero que faz do novo Woody Allen, mais sombrio do que o habitual e com um senso de humor mais perverso, tão saboroso.

Lucas tem uma epifania quando ouve o relato de uma mulher que julga estar sendo deliberadamente prejudicada por um juiz. Lucas decide então atuar como uma espécie de bom samaritano, matar o juiz e devolver à tal mulher a chance de um julgamento justo. Lucas entende que sua falta de relação com o juiz e aquele universo lhe afastam de qualquer suspeita. Somente a elaboração do que o próprio professor entende ser o crime perfeito devolve a ele o tesão; pela vida, suas minúcias e pelas mulheres que lhe procuram. Resistente às investidas de Jill, Lucas se entrega à paixão furtiva da aluna apaixonada.

A partir desse pacto sinistro de Lucas consigo mesmo, em que rompe com a razão, Allen tece um painel robusto sobre o impacto das fantasias em nosso posicionamento perante o mundo.  Um bom ponto de inflexão é alternância na narrativa entre as divagações de Jill e as de Lucas.

A personagem de Posey fantasia em ir com Lucas para a Espanha: a realidade  pode ser opressiva demais para o romantismo humano (Fotos: divulgação)

A personagem de Posey fantasia em ir com Lucas para a Espanha: a realidade pode ser opressiva demais para o romantismo humano
(Fotos: divulgação)

O desgostoso professor de filosofia ganha brilho e cor ao renunciar a paradigmas sociais e a assumir como “mantra” uma perspectiva alarmante (para a audiência, para a moral). As relações das duas mulheres interessadas em Lucas com ele a partir desta guinada do personagem aferem a “Homem irracional” esse verniz existencialista tão caro ao cineasta.

Desvirtuar-se pode ser a chave da felicidade, admite Woody Allen, mas para tudo há de se ter um limite, parece indicar o ruidoso desfecho que propõe outro olhar sobre a obra pregressa do cineasta de mesma matiz temática.

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quarta-feira, 26 de agosto de 2015 Críticas, Filmes | 17:12

Serial Killer inseguro torna “Na próxima, acerto no coração” fascinante

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Há filmes que se ressignificam mediante um personagem forte ou muitíssimo bem construído. É o caso do filme francês “Na próxima, acerto no coração” (França, 2014). Na superfície, a fita dirigida por Cédric Anger, é um thriller policial sobre um serial killer pouco convicto de sua vocação. Nas camadas insuspeitas que o bom roteiro – de autoria do mesmo Anger – desalinha, porém, o filme revela sua real aspiração: discutir o desagravo psicológico e emocional de um homem transtornado.

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Um homem vislumbra duas mulheres pedalando na madrugada. Elas se apartam e ele segue a segunda. Ele a atropela e só não lhe cobre de balas da janela de seu carro porque percebe a aproximação de viaturas. Corta. Acompanhamos este homem chegando em seu apartamento e indo dormir. Poucas horas depois o vemos acordar e colocar o uniforme policial e somente quando ele entra em uma viatura descobrimos seu rosto. Essa sucessão de eventos diz muito sobre o personagem central de “Na próxima, acerto no coração”, mas mais ainda sobre os objetivos do filme. É importante saber que aquele assassino cruel é um policial e é importante sabê-lo nessa ordem. Mas o ritual de descoberta de Franck (vivido com contenção e robustez por Guillaume Canet) prossegue e aos poucos vamos processando que este homem é repleto de transtornos obsessivos e carrega uma noção religiosa deturpada que pode ou não estar relacionada a uma aparente assexualidade.

Franck só mata mulheres e parece fazê-lo a reboque de emoções mal elaboradas que ele tenta elaborar em uma tentativa de estabelecer contato com os investigadores do caso. Franck não chega a se beneficiar de sua posição de policial para enuviar as investigações, mas tenta. Essa inabilidade só reforça sua insipiência como matador. O assassino de “Na próxima, acerto no coração” é um homem em busca de afirmação. De sexualidade. O filme inspira-se em um caso notório da crônica policial francesa (é sugerível um Google no nome Alain Lamare), mas trata com bastante liberdade e imaginação toda a dubiedade que cerca o caso. Anger, no entanto, acerta ao focar todo o estofo narrativo do filme na desconstrução do protagonista. Seu Franck não é exatamente um misógino, mas o fundo religioso (“não importa o quê, temos que pagar”, ele diz ao irmão mais jovem em dado momento) afasta qualquer certeza sobre o personagem.

Tentar desvendar o enigma Franck é, indubitavelmente, a grande atração da fita francesa. Quem esperar um thriller convencional pode se frustrar, mas se a opção for por um incomum suspense de verve freudiana, a satisfação é garantida.

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